#Elenão #Elenunca

A poucos dias das eleições, o país assistiu neste sábado, 29, a grandes manifestações nas principais cidades brasileiras – de brasileiras e brasileiros anônimos (o que a mídia prefere chamar de “militantes” quando lhe convém) -, com forte concentração no Rio, na Cinelândia, e em São Paulo, no Largo do Batata, entre outras praças e avenidas pelo Brasil -, de protesto contra a candidatura fascista de Jair “Só vale se eu ganhar” Bolsonaro. O movimento, chamado de #EleNão – mas pode chamar de #EleNunca que vale -, foi convocado pelas redes sociais e liderado por mulheres inconformadas com a misoginia, o machismo, o ódio e o preconceito disseminados pela dupla fardada Bolsonaro-Mourão. Não espere uma cobertura isenta da “grande” mídia, da cobertura dos prédios, segura e com vista panorâmica – prefira as redes sociais e os flagrantes espontâneos -, e se prepare para ler que os bolsoninions “também fizeram passeatas” por umas tantas cidades, onde era possível ouvir até as lesmas rastejando. Até o último balanço, as manifestações haviam tomado as ruas de pelo menos 114 cidades – mas pode crer que foi mais do que isso.

“Ao reunir dezenas de milhares, #EleNão provoca maior manifestação liderada só por mulheres no Brasil mas é quase ignorado na tevê”, escreveu o jornalista José Roberto de Toledo. Vale a leitura.

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No Rio, cidadãos contra o fascista Bolsonaro lotam a Cinelândia, no Centro, e gatos pingados vestem camisa da CBF e gritam por mais rotas Rio-Miami no Posto 5 #Elenão #Elenunca. Reprodução/Redes Sociais
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Largo do Batata, em Sampa. A cidade que rejeita Alckmin e Doria é uma das esperanças do PT de pulverizar os eleitores entre os sensatos e os que apostam no caos. #Elenão #Elenunca. Reprodução/Redes Sociais
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Visão do protesto na orla de Salvador. A cantora Daniela Mercury puxou um mini-trio elétrico em apoio ao #EleNão. Uma das artistas mais engajadas do movimento, ela ainda discursou contra o candidato do PSL à Presidência.#Elenão #Elenunca. Reprodução/Redes Sociais

Manifestantes protestaram também em diversas cidades ao redor do mundo – Alemanha, França, Suíça, Itália, Portugal e Estados Unidos e em mais 63 cidades em 20 países, como na Cidade do Cabo (África do Sul), Berlim (Alemanha), Buenos Aires (Argentina) e Londres (Reino Unido) -, seguindo campanha #EleNão no Facebook que já reúne 3,8 milhões de mulheres e muitos homens (Veja).

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#EleNão global: cerca de 300 pessoas compareceram à manifestação contra Bolsonaro no Emmeline Pankhurst Statue, um dos cartões postais de Londres – o que se repetiu em dezenas de cidades pelo mundo, como  como Nova York, Londres, Lisboa, Barcelona e Cidade do México. Reprodução/Redes Sociais

A alta de Bolsonaro, ou melhor, o primeiro contato do fascista com o mundo rea, também ocupou espaço na mídia. Após receber alta do Hospital Albert Einstein, o candidato à Presidência embarcou no início da tarde em um avião comercial – como não dou essa sorte… – com destino ao Rio de Janeiro. Durante o voo, manifestantes gritavam “presidente” e “mito”, enquanto outros gritavam “fascista” e “lixo”. Passageiros seguiram gritando “fascista” contra o candidato (Assista aqui e aqui). Lembrem-se, avião, classe média, concentração coxinha… (Vale lembrar alguns dados do Datafolha).

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Bolsonaro causa confusão na volta pra casa. Passageiros tiveram que ser deslocados de lugar, no voo da Gol, e ouviu-se gritos de “mito” e “fascista”. País dividido até em um voo comercial.

Duas pessoas se retiraram do voo: uma por achar que o avião não teria segurança, citando a morte do ex-governador pernambucano Eduardo Campos durante a campanha eleitoral de 2014, e outra por não admitir voar com Bolsonaro. O voo 1036, da Gol, registrou um atraso de cerca de 20 minutos na decolagem por causa da presença de Bolsonaro, que não marcou lugar especial, o que exigiu deslocar um passageiro. Comissários de bordo e policiais federais que, por lei, acompanham presidenciáveis durante a campanha, tiveram dificuldade para convencer passageiros a trocar de lugar para que o candidato e sua equipe ficassem juntos perto da cabine do piloto. Segundo passageiros, o candidato foi o último a entrar no avião da companhia Gol e o primeiro a sair. Carros com agentes da Polícia Federal esperavam o candidato ainda no pista de desembarque do aeroporto.

Uma senhora que brigou com comissários de bordo para não deixar sua poltrona, na segunda fileira, passou a comemorar e gritar que ficaria até “na cozinha” para que Bolsonaro entrasse no avião. Poderia ter sido colocada no compartimento de cargas, entre as malas mais pesadas.

Esse é Bolsonaro, esse é o Brasil.

 

 

Como enterrar a biografia apoiando o fascista Bolsonaro

Cada um apoia quem quiser, diria o historiador, cientista político, acadêmico, ou mesmo o “famoso” formador de opinião que vive dentro de uma bolha virtual, uma versão patética do “Bubble Boy” (menino bolha), o heroico garoto – isso é da minha época, pessoal não se culpem se não conheciam a história – David Vetter, nascido em 1971 – só cinco anos depois de mim – e que literalmente viveu todos os seus dias protegido por uma bolha de plástico. David, que tinha uma dessas doenças que a loteria genética sorteia uns poucos – uma Imunodeficiência Grave Combinada (SCID), um grupo muito raro de doenças potencialmente fatais em que a criança, já ao nascer, tem muito pouco ou nenhum sistema imunológico – resistiu bravamente durante 12 anos sem nunca, absolutamente nunca, ter sido tocado, mesmo pelos próprios pais. A história, que é muito, muito triste, me remete a uma metáfora inevitável.  A bolha em que as pessoas parecem viver – e não me refiro a mídia sociais apenas -, especialmente aqueles desconectados do Brasil real.  E, me poupando de falar em gente como Marco Antonio Villa e Olavo de Carvalho, que dispensam apresentações, cito um cientista político menos conhecido, Jorge Zaverucha, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco, para quem “é exagero dizer que candidato do PSL ameaça a democracia”. O pernambucano, em seu mundinho acadêmico, mostra como alguns brasileiros, que têm história pelo país – no esporte, nas artes, etc – insistem, por razões a serem estudadas, a ver no golpista Bolsonaro um cidadão normal. Ah, o afiado Zaverucha é suspeito de assediar uma mestranda da universidade, em 2011, e foi condenado pela Justiça Federal de Pernambuco (Leia).

Prefiro, particularmente, acreditar em gente como Francis Fukuyama, Steven Levitsky, Wanderley Guilherme dos Santos e a historiadora Heloisa Starling – e na maioria de acadêmicos, no Brasil e no exterior, que têm dito de forma quase unânime que Bolsonaro ameaça a democracia brasileira. Mas queria focar, nesse artigo, na patética peregrinação de “famosos” registrados nos últimos dias em redes sociais, pelos filhos do “coiso”, apoiando o capitão fascista, não importa que ele só aceite sua própria eleição e convoque os amigos “comandantes militares” a não aceitar outra opção democrática, ou seja, Fernando Haddad ou Ciro Gomes.

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O cientista político Jorge Zaverucha, professor da Universidade Federal de Pernambuco, no escritório de sua casa, em Recife. “Bolsonaro já falou muitos absurdos, é claro. Fechar o Congresso, fuzilar Fernando Henrique Cardoso. É mesmo preocupante elogiar Ustra, mas me parece que com o passar do tempo ele vem mudando de opinião. Antes era um estatista na economia, agora é liberal.” Tem pai de cientista político que é cego.

O mais interessante das visitas de “famosos” – relativize esse conceito – ao leito de Bolsonaro é que obedecem a três etapas, em alguns casos visivelmente forçadas: o agendamento (muitas vezes pedido pela assessoria do candidato), o registro obrigatório em foto ou vídeo e, claro, o post nas redes sociais, para mostrar que Elvis, ou melhor, o “mito” não morreu. Estou excluindo visitas, digamos, jornalísticas,  como de JL Datena, filiado ao DEM, que já desistiu de uma candidatura ao Senado, hoje comandando o sensacionalista Brasil Urgente, que usou a Band, de tantos combates democráticos, para ganhar audiência e ouvir Bolsonaro pregar, ao vivo e a cores, um golpe, e, agora, Boris Casoy, da RedeTV!, direto do hospital. O capitão escolhe bem os seguradores de microfone. Casoy é o democrata que, em 2009, na linha William Waack, sem saber que o áudio estava sendo transmitido, comentou, na véspera do réveillon, com colegas de estúdio: “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo da escala do trabalho”.

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Depois de pregar golpismo para Datena, da Band, Bolsonaro deu entrevista a Boris Casoy, da RedeTV!, direto do hospital. O capitão pinça bem os seguradores de microfone. Casoy é o democrata que, em 2009, na linha William Waack, sem saber que o áudio estava vazando, comentou, na véspera do réveillon, com colegas de estúdio: “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras” (Relembre).

Nesta última semana estiveram presentes Luciano Hang, o empresário catarinense dono da Havan, a loja acusada por Cabo Daciolo de ser maçom por erguer estátuas da Liberdade pelo país; o ex-piloto de Emerson Fittipaldi, que carrega uma dívida milionária e corre o risco de falência (Leia na Época); os cantores Bruno, da dupla Bruno & Marrone, junto com Amado Batista – que foi preso e torturado na ditadura defendida por Bolsonaro) – (Leia aqui), o patético Carlos Vereza, que virou – ou sempre foi – um direitista de marca maior. Depois de ganhar muito dinheiro na Globo, em novelas como “O Rei do Gado”, “Direito de Amar” e “Selva de Pedra, Vereza dedica-se rancorosamente a detonar o ex-patrão (o vídeo gravado pela família Bolsonaro é tão curto quanto constrangedor (Veja e chore). Vereza viveu Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos, que conta a história da prisão do grande escritor na Ilha Grande, na era Vargas. Pelo jeito não aprendeu nada com isso.

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Não acredito em bruxas, golpes e Bolsonaro – mas eles existem

“Estou voltando com muito mais gás do que quando aconteceu o episódio”.
Jair Bolsonaro, sem trocadilhos, que segue internado pelo menos até o fim de semana e sonha participar de algum debate em um provável segundo turno.

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“Não posso falar pelos comandantes militares, respeito todos eles. Pelo que vejo nas ruas, não aceito resultado diferente da minha eleição.” Jair Bolsonaro convoca o golpe, e cita os chefes militares, em entrevista em seu quarto no hospital Albert Einstein, em São Paulo, a José Luiz Datena, do programa de televisão Brasil Urgente, da TV Band – a Band de Boechat, de Mitre, que se prestou a isso.

Em outubro de 2014, encerrada a votação que consagraria Dilma Rousseff presidente reeleita do Brasil, Aécio Neves, ainda movido por uma chama ética, falou sobre a sua derrota cercado de correligionários e puxa-sacos. É sempre interessante relembrar as palavras de Aécio logo após o pleito de 2014 (Reveja o insuspeito boletim eleitoral da Globo). “Combati o bom combate”, disse. Em novembro, falava em “oposição incansável e intransigente”. Logo depois, o mineiro e seu partido mudariam a estratégia, pediriam recontagem dos votos e anunciariam uma auditoria – que concluiu que não houve fraude. Era só uma senha. Em dezembro, Aécio diria à Globo que não foi derrotado por um partido político, e sim por uma “organização criminosa”. Olha a Lava Jato aí, gente! – Lula está preso e Aécio soltinho, só para lembrar. O PSDB, como reconheceu Tasso Jereissati recentemente, ainda paga o preço de não aceitar o resultado do pleito de 2014, trabalhar para derrubar Dilma, boicotando-a no Congresso, e depois apoiar o governo Temer. Dia 28 de setembro, quase outubro de 2018. Bolsonaro, projeto de ditador, incentiva o golpismo ao perceber que vai para o segundo turno com o petista Fernando Haddad, em desvantagem – ele decai, o adversário arranca.

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Outubro de 2014. Aécio Neves fala sobre a sua derrota para Dilma Rousseff nas eleições para presidente do Brasil. “Combati o bom combate”, disse. Logo depois, o mineiro e seu partido mudariam a estratégia, pediriam recontagem dos votos e anunciariam uma auditoria – que concluiu que não houve fraude. Foi pouco. O PSDB, como reconheceu Tasso Jereissati, ainda paga o preço de não aceitar o resultado do pleito de 2014, trabalhar para derrubar Dilma, boicotando-a no Congresso, e depois apoiar o governo Temer. Reprodução/TV Globo.

“Não aceito resultado diferente da minha eleição”, afirmou Bolsonaro, “mito” do PSL, em entrevista em seu quarto no hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde está internado desde o começo do mês. O entrevistador, escolhido a dedo, foi José Luiz Datena, do programa de televisão Brasil Urgente, da TV Band – a Band de Boechat, de Mitre, que se prestou a isso (Assista se tiver estômago). Bolsonaro deveria ter tido alta, não teve. Nada melhor que, diante do vice boquirroto e da capa de Veja, corroendo sua reputação e sua candidatura, inventasse um “Bolsonaro na UTI Exclusivo”. Bolsonaro é o Aécio hoje, só que com clarevidência e apoio militar. Não por acaso citou os “comandantes militares” como testemunhas – praticamente avalistas – de sua candidatura. A irresponsabilidade disso é tão grave que transforma o mal perdedor Aécio numa freira carmelita descalça. Não aceitar o resultado das urnas, e convocar os militares em sua defesa, é um escancarado apelo pela não aceitação do resultado legítimo das urnas, consequentemente da reação golpista. Se isso não tiver uma reação à altura, inclusive da Justiça Eleitoral, estaremos todos não apenas desmoralizados, mas perdidos. Preparem-se porque o pior pode estar por vir. E isso não é história de bruxa.

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Eduardo Bolsonaro, filho do mito”, entrevista o juiz Eduardo Luiz Rocha Cubas, do Juizado Especial Federal Cível de Formosa (GO), que pretendia conceder uma liminar em uma ação popular que questiona a segurança e a credibilidade das urnas. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou temporariamente o juiz de suas funções porque pretendia – leia duas vezes – determinar que o Exército recolhesse urnas eletrônicas na véspera das eleições. Youtube/Reprodução

Uma nota de rodapé – só força de expressão – que mostra a gravidade da situação. Nesta sexta, 28, à noite, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou temporariamente das funções um juiz que, segundo a Advocacia-Geral da União (AGU), pretendia determinar que o Exército recolhesse urnas eletrônicas na véspera das eleições. De acordo com a AGU, o juiz Eduardo Luiz Rocha Cubas, do Juizado Especial Federal Cível de Formosa (GO), pretendia conceder uma liminar em uma ação popular que questiona a segurança e a credibilidade das urnas. Há poucos dias, o tal juizeco de Formosa deu uma “entrevista”  sobre candidaturas avulsas ao filho de Jair Bolsonaro, Eduardo. Cubas falava na condição de presidente da Unajuf – União Nacional dos Juízes Federais – que, pasmem, colocou em seu site uma nota de solidariedade a Bolsonaro (Leia) e defendeu, numa campanha chamada “Por um Brasil Melhor”, candidaturas “não políticas e partidárias” e sim “candidaturas cívicas”.

Acredita em bruxas agora?

A denúncia que veio do frio e o iceberg que pode afundar Bolsonaro

Das profundezas do mar gelado das denúncias, um iceberg gigante foi despontando na reta final da campanha e congelou a chapa pura-farda: uma denúncia grave envolvendo o capitão-maridão Jair Bolsonaro desnudou sua vida pessoal – numa insuspeita associação Folha e Veja – para mostrar que o homem que odiava gays e minorias também tinha no armário o esqueleto de uma separação pra lá de litigiosa. Revelada, com requintes de crueldade, pela mídia que, embora não tenha nada de petista, beneficia o único candidato que nesse momento rivaliza com o Unabomber da caserna, Fernando Haddad. Claro que, se deixarmos o pensamento nos levar, podemos pensar também que a destruição de Bolsonaro – se ela ocorrer, o que parece improvável nesse momento -, beneficiaria a defunta terceira via – Geraldo Alckmin, Marina Silva e Ciro Gomes, para citar os menos distantes no páreo. O nome do iceberg onde colidiu o barco bolsonarista é Ana Cristina Valle.

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Bolsonaro fazendo a barba na suíte do Albert Einstein, sem camisa, deixando aparecer a cicatriz e, com a ajuda da lâmina de barbear, ressaltando a semelhança com uma nefasta figura histórica (não é montagem). Pouco depois, teria a notícia de que sua alta teria que esperar um pouco mais. Seus problemas seguem com a revelação de detalhes de sua separação e novas falas desastrosas do vice Mourão. Reprodução/Twitter.

O primeiro impacto veio com a denúncia, publicada no dia 25 pela Folha de S.Paulo, revelando o conteúdo de um telegrama (Veja Twitter do repórter Rubens Valente)em que Ana Cristina, ex-mulher do candidato do PSL à Presidência, diz ao Itamaraty que foi ameaçada de morte por Bolsonaro — à época, eles disputavam a guarda do filho Renan. Hoje apoiadora da campanha do ex-marido, Ana Cristina atribuía sua saída do Brasil com o filho a essa ameaça, segundo o telegrama. Em um dos trechos do telegrama, o embaixador Carlos Henrique Cardim diz que “a senhora Ana Cristina Siqueira Valle disse ter deixado o Brasil há dois anos (em 2009) ‘por ter sido ameaçada de morte’ pelo pai do menor (Bolsonaro). Aduziu ela que tal acusação poderia motivar pedido de asilo político neste país [Noruega]”. Quem ouviu a denúncia de Ana Cristina foi o vice-cônsul na embaixada brasileira em Oslo, segundo o embaixador. Em entrevista ao Correio Braziliense, Ana Cristina negou ter sido ameaçada. Gravou um vídeo, logo viralizado nas redes do ex-marido (Assista aqui), negando tudo, como se não passasse de uma fantasia, apesar dos documentos. O Itamaraty se negou a comentar. Tudo resolvido? Aí veio a capa de Veja, já nas bancas (Para assinantes).

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As revistas semanais, as penúltimas antes do pleito: Veja ferra Bolsonaro, Carta Capital destaca a hashtah #Elenão, Época faz jornalismo light – mas destaca produtora-fantasma de Bolsonaro – e IstoÉ, engajada, diz que “Lula montou um QG de campanha”, o que chama de “Projeto Haddad”

Veja mergulha no divórcio dos dois, com fartura de documentos. Tendo tido acesso ao processo, os repórteres descobriram que ela acusou o ex-marido de ocultar o patrimônio pessoal na divisão de bens. De acordo com os documentos que apresentou, ele também ocultou muito do que tinha da Justiça Eleitoral, em 2006. Para as eleições, o deputado afirmou que tinha um terreno, uma sala comercial, três carros e duas aplicações que somavam R$ 434 mil. Ele não revelou que possuía, ainda, mais três casas, um apartamento, outra sala comercial e cinco lotes. Tudo somado dava R$ 7,8 milhões, incompatíveis com sua renda de parlamentar.

Ana Cristina não ficou nisso. Afirmou que Bolsonaro tinha uma renda mensal de R$ 100 mil à época, R$ 183 mil em valores atualizados. E que roubara o conteúdo de um cofre pertencente ao casal com jóias, dólares e reais que somavam R$ 1,6 milhão. Veja entrou em contato com ela. “Quando você está magoado, fala coisas que não deveria”, ela disse. “Bolsonaro é digno, carinhoso, honesto e provedor.” Ana concorre a uma vaga de deputada federal com o nome Cristina Bolsonaro.

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Ana Cristina Valle, hoje em campanha com sobrenome Bolsonaro, tenta convencer a todos de que apenas “falou demais” e que o capitão foi um ex-maridão exemplar. A leitura da Folha e de Veja desmoraliza essa conversinha.

Após acusações de ex de Bolsonaro, vices mulheres reforçaram a campanha #Elenão. Candidatas do PCdoB, PDT e PSOL participarão de atos neste sábado. anuela d’Ávila (PCdoB), vice de Fernando Haddad (PT), e Sônia Guajajara (PSOL), vice de Guilherme Boulos (PSOL), irão à manifestação em São Paulo, enquanto Kátia Abreu (PDT), vice de Ciro Gomes (PDT), estará em ato em Goiânia (GO). Ana Amélia, do PP, claro, não aderiu. Questionada sobre como se posicionaria em um eventual segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, os mais bem colocados nas pesquisas mais recentes de intenção de voto, a gaúcha foi taxativa: “No PT, não há chances”.

“Os direitos não são dados, mas conquistados”.
Norberto Bobbio, filósofo italiano

Como se Bolsonaro não precisasse de mais problemas, seu vice, o companheiro de chapa e farda general Hamilton Mourão – o que já falou demais ao se referir a índios, negros e mulheres descasadas – continua brincando de falar do que não entende. Falando à Câmara de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana, Mourão, que sabe tanto de economia quanto Bolsonaro – ou seja, rigorosamente nada -, deflagrou nova crise na chapa ao atacar publicamente o décimo-terceiro salário e abono de férias, qualificando os benefícios – marcos no direito trabalhista do Brasil, que têm quase 60 anos -como “jabuticabas brasileiras”. Os candidatos rivais, claro, fizeram a festa, e Bolsonaro, mais uma vez, fingiu que desautorizou o vice, como se seu guru da economia não chamasse Paulo “Vale tudo” Guedes. “O 13° salário do trabalhador está previsto no art. 7° da Constituição em capítulo das cláusulas pétreas. Criticá-lo, além de uma ofensa à quem trabalha, confessa desconhecer a Constituição”, tuitou Bolsonaro, e retuitou Mourão.

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Com um chicote na mão – versão Ana Amélia da caserna -, que ganhou de presente de ruralistas, que usaram o objeto para machucar petistas durante a passagem da Caravana de Lula pelo Rio Grande do Sul. Além de condenar direitos trabalhistas, como o décimo-terceiro salário e abono de férias, o General Mourão disse que o Brasil é um “cavalo maravilhoso que precisa ser montado por um ginete com mãos de seda e pés de aço”. Sem comentários. Reprodução.

O chamado “núcleo duro” da campanha de Jair Bolsonaro – difícil imaginar um núcleo mais duro que Bolsonaro ou Mourão – já fizeram reunião para tentar unificar e tutelar o polêmico vice. Não se tem notícia que alguém tenha conseguido enquadrar o general. Para piorar, Gustavo Bebianno, o centralizador presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, tem se estranhado com Eduardo, deputado filho do presidenciável, que é o mais atuante na campanha. Aguarda-se, na ordem, a próxima pesquisa eleitoral e a próxima crise interna na chapa pura-farda.

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A estranha foto retuitada pelo general Mourão em seu twitter, em 27 de setembro, de sua galeria de asneiras. Um armário cheio de armas e a frase “Reformando”. O militar reproduziu postagem do direitista Guilherme Fiúza: “7 de outubro, Dia Mundial Sem PT”. Defina “Sem PT”, Fiúza. Reprodução/Twitter.

Ah, a alta hospitalar de Bolsonaro foi adiada por causa de uma crise bacteriana. O que não impediu o candidato de postar uma curiosa foto no Instagram, no banheiro de seu quarto no Albert Einstein, sem camisa – para o corte no abdômen ficar visível – e fazendo a barba. “Me preparando para voltar à ativa!”, escreveu o capitão. O que tem isso de curioso? Na foto, Bolsonaro, com sua franja característica, é flagrado no momento em que o aparelho de barbear deslizava em cima de sua boca. Se você adivinhar com quem ele ficou parecido na cena ganha uma viagem com tudo pago para Braunau am Inn.

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Fernando Haddad segue forte na campanha, com um pé no segundo turno e chance de vira, vira! ainda antes de 7 de outubro. Na foto, em grande comício em Florianópolis. Na reta final, todo cuidado é pouco que os fabricantes de fake news, como a atriz coxinha Luana Piovani. Ricardo Stuckert / Divulgação

Em tempo – O ministro Ricardo Lewandowski, do STF, autorizou a colunista Mônica Bergamo, da Folha, a entrevistar o ex-presidente Lula. O ex-presidente está preso em Curitiba desde 7 de abril. Nenhuma entrevista foi autorizada até hoje. O jornal argumentou ao STF que uma decisão da 12ª Vara Federal em Curitiba que negou a permissão para a entrevista impôs censura à atividade jornalística e mitigou a liberdade de expressão, em afronta a decisão anterior do Supremo. Lewandowski concordou que era censura mesmo.

 

Lula é Haddad, Haddad é Lula, reconhece agora até o TSE. Mas vídeo não pode

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Haddad agora é Lula. Quer dizer, já era, mas agora o TSE autorizou

Fernando Haddad está virtualmente no segundo turno – e a pesquisa Ibope de quarta, 26, reforçou isso, com Jair Bolsonaro com 27%, Haddad com 21% e Ciro, nadando lá atrás, com respeitáveis, mas insuficientes, 12%. Lula está concretamente preso e inelegível — enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Haddad assumiu a vaga de Lula na vigésima quinta hora. O PT resistiu o quanto pode para desistir da candidatura do ex-presidente – e foi criticado pela “estratégia arriscada”. Não era estratégia, era ética. Os entendedores entenderão. Os opositores criarão teses. Mas na eleição mais esquisita da moderna República brasileira, Haddad não podia dizer que é candidato de Lula – não sem controvérsia. Por que isso arrasta votos para Haddad, mais votos, o que é crucial desde que foi confirmado na cabeça de chapa — e Manuela D’Ávila na vice —, dando largada da operação em que o PT aposta todas as suas fichas nas eleições presidenciais: transferir ao menos parte do enorme capital político do ex-presidente para seu pupilo. Muitos ainda não o conhecem, só sabem que Lula, impedido, indicou alguém. No Nordeste, ele é “Andrade”. O sertão pernambucano onde Lula já teve 90% dos votos, o petista tem adesão mesmo sendo desconhecido. Como mostrou a Folha, muitos acham até que é filho de Lula. Ou ungido. Pensem bem, Haddad só foi oficializado no dia 11/09 – duas semanas atrás.

Pois a embalagem publicitária do “Haddad é Lula e Lula é Haddad” – nenhum outro partido tem interesse nisso, imagine um “Aécio é Alckmin” ou “Temer é Meirelles – só foi autorizada oficialmente agora pelo Tribunal Superior Eleitoral, num delay magnifico, permitindo, nesta quarta, 26, por 6 votos a 1, que a campanha do candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, utilize como slogan “Haddad é Lula”. Ministros analisaram e rejeitaram uma representação apresentada pelo Partido Novo – de João Amoêdo, pródigos 3% no Ibope – questionando propagandas da coligação do PT. Eles decidiram que a assinatura não gera confusão entre os eleitores sobre quem é o presidenciável da legenda.

O relator, ministro Sérgio Silveira Banhos – nomeado por Michel Temer na vaga aberta pelo atual ministro efetivo do tribunal Admar Gonzaga -, foi o único voto contrário ao uso do logotipo e afirmou que a marca poderia provocar “confusão” no eleitor. “A presença do nome de Lula pode sim levar o eleitor a certa confusão, o que enseja a a pronta remoção do logotipo”, disse. Os ministros Edson Fachin, Jorge Mussi, Og Fernandes, Tarcísio Vieira de Carvalho e Rosa Weber, presidente do tribunal, defenderam que, como a lei não proíbe esse uso do nome de Lula, deveria prevalecer o princípio da liberdade de expressão.

Por outro lado, o TSE rejeitou recurso apresentado pela defesa do ex-presidente para Lula gravar áudios e vídeos para a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.

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Mais um debate – agora UOL, Folha e SBT. Resta saber se ainda acrescentam algo para o eleitor. Bolsonaro “ameaça” participar dos próximos.

Nesta reta final da campanha, embora poucos tenham notado, teve até debate promovido por UOL, Folha e SBT, nesta quarta, 26, que rendeu ataques diretos entre candidatos, com frases e posicionamentos duros. Bolsonaro, ainda internado no Albert Einstein, não pôde ir. O candidato tem previsão de alta para agora, sexta-feira, e, segundo seu médico, ele poderá estar presente no debate da TV Record — que ocorre domingo —, assim como no da TV Globo, que será quinta que vem.

Haddad e Ciro trocaram cabeçadas. “Eu, francamente, se puder governar sem o PT, eu prefiro; porque, nesse momento, o PT representa uma coisa muito grave para o país, menos pelos benefícios, que não foram poucos, que produziu, mas mais porque transformou-se numa estrutura de poder odienta que acabou criando o Bolsonaro, essa aberração”, disse Ciro. “Acabo de ver o Ciro Gomes dizer que não pretende governar com o PT, mas, poucos meses atrás, me convidava para vice-presidente da sua chapa e chamava essa chapa de dream team, o time dos sonhos”, ironizou Haddad.

Bom, Cabo Daciolo foi Cabo Daciolo. Ele desceu o monte Céu Aberto, na Baixada Fluminense, onde estava em um retiro espiritual, para falar o que costuma falar. “Eu estou profetizando para a nação brasileira: eu vou ser o próximo presidente da República, para a honra e a glória do senhor Jesus, em primeiro turno, com 51% dos votos”. Se ele diz quem somos nós e os institutos para duvidar.

Estrelas cadentes: o destino das fardas falantes em um governo petista

Se eleito, como começam a indicar as pesquisas de intenção de voto, embora o cenário ainda seja traiçoeiro, Fernando Haddad, terceiro da linhagem petista a assumir o poder – vai ter mais problemas para lidar do que a economia em frangalhos, o inconformismo dos antipetistas derrotados – dessa vez trocando Aécio Neves por Jair Bolsonaro – e a torcida contra das Organizações Globo. A absoluta inexistência de comando do “governo” Temer – tenho sérias dúvidas se ele não chega com menos poderes e mais desmoralizado do que Sarney em 1989 – e o próprio caráter militar da chapa pura-farda de capitão da reserva Jair Bolsonaro (PSL)-general da reserva Antônio Hamilton Mourão (PRTB), devolveu ao país algo sepultado desde o fim peculiar de nossa ditadura militar, sem qualquer punição às Forças Armadas pelas violações dos direitos humanos perpetradas pelos órgãos de repressão. A chamada “Questão militar” – relevante de um país vindo de uma ditadura que durou de 1964 a 1985, e ainda sob tutela. Daí termos Bolsonaro e outros militares acendendo vela para o Dr. Tibiriçá, o coronel do Exército e torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, e fartura de falas anti-democráticas de militares da reserva e da ativa, inclusive -e mais grave – do general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, Comandante do Exército Brasileiro desde 5 de fevereiro de 2015 e tido como uma voz moderada entre os militares, que em entrevista ao Estadão, disse que “a legitimidade do novo governo pode até ser questionada” (Releia aqui). Reveja alguns momentos do general falastrão (Aqui, aqui e aqui)

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A chapa pura-farda Bolsonaro-Mourão, que, curiosamente, mesmo com os dois na reserva, fere a hierarquia militar: o capitão mandando no general. Discurso militarista, ameaças de golpe, chantagem com a classe média e desmoralização do poder civil
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Sérgio Etchegoyen, o militar empurrado aos holofotes por crises do governo Temer: o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência colocou o Exército de novo no Planalto, em um governo fraco, em crise, carente de um nome que inspire autoridade, de Temer, Padilha, Moreira e Marun. Durante o governo Vargas, o avô do ministro ocupou diversos cargos militares até ser escolhido para substituir o chefe de polícia do Distrito Federal, Filinto Müller, onde teve atuação moralista, além de perseguir as atividades políticas de oposição ao governo.

Haddad terá que lidar com essa questão com urgência, a começar do civil que indicará para a pasta da Defesa – hoje com um militar, general Joaquim Silva e Luna, quebrando uma tradição desde a criação da pasta, em 1999 (substituindo o vaselina Raul Jungmann, deslocado para o recém-criado Ministério Extraordinário da Segurança Pública) -, quem colocará no Gabinete de Segurança Institucional (GSI, antiga Casa Militar), ocupada por Temer pelo linha-dura general Sérgio Etchegoyen, e quem substituirá, além do general Villas Bôas (Exército), os comandantes da Marinha, almirante de esquadra Eduardo Leal Ferreira, e Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Luiz Rossato. Além, claro, do que fazer com a malfadada – e cercada de expectativa pela mídia – intervenção no Rio, sob o comando do general Walter Souza Braga Netto, do Exército, e que terminará no raiar de dezembro. A intervenção, como se sabe, fora ações midiáticas no início, não conseguiu reduzir os homicídios, acumula o maior índice de mortes por policiais desde 2008 e tem retirado menos armas das ruas.

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Até a voz moderada engrossou: o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, comandante do Exército, disse que “a legitimidade do novo governo pode até ser questionada”. Ele foi duríssimo em seu discurso no dia do Exército.
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O interventor da segurança no Rio, Braga Netto, à frente de membros das Forças Armadas em dia de ações na Vila Kennedy, em Bangu. Resultados pífios frente à grande expectativa criada pela mídia e pelo falido – inclusive moralmente – governo do Rio.

Mais. Bolsonaro decidiu entregar a militares a área de infraestrutura do governo caso seja eleito presidente. No último dia 17/09, o guru econômico do presidenciável, Paulo Guedes, teve seu primeiro encontro com o chamado Grupo de Brasília, que reúne militares da reserva interessados em ver suas propostas implementadas em um governo Bolsonaro. O grupo é liderado pelo general da reserva Osvaldo Ferreira, do qual também fazem parte os generais Augusto Heleno e Aléssio Ribeiro Souto, além do professor da UnB, Paulo Coutinho. As reuniões, realizadas a portas fechadas no hotel Brasília Imperial, na capital, foram a primeira tentativa de unir as equipes que orbitam ao redor de Bolsonaro e que, faltando poucos dias para a eleição, ainda trabalham desarticuladas.

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Dia da Independência: 54 reformados do Exército tentam vaga no Congresso nesta eleição.

Uma curiosidade. Na madrugada deste dia 25/09, o site do Ministério da Defesa foi hackeado por um grupo ligado ao movimento Anonymous. Foram vazadas informações confidenciais de integrantes do Exército, como o telefone do general Eduardo Villas Boas. O general da reserva Hamilton Mourão também foi citado nominalmente. O grupo comunicou a invasão, com a posterior divulgação de caminhos para dados roubados. O grupo classificou a própria atitude como “uma mensagem direta ao fascismo e autoritarismo que ameaça a democracia brasileira”, nomeando os dois militares citando anteriormente e o candidato Bolsonaro.

É esse o momento que vivemos, e devemos isso a Temer, Bolsonaro, Mourão e esse pequena tropa de “elite”. Citando o insuspeito Merval Pereira, no Globo. “Bolsonaro defende o golpe de 1964, já elogiou torturadores e admite, pessoalmente, ou através de seus principais aliados como o vice, general Mourão, a intervenção militar. Além do mais, ameaçou fuzilar adversários, entre eles Fernando Henrique Cardoso, e, recentemente, ‘os petralhas’. Não há dúvida de que Bolsonaro não cabe no figurino de democrata”. Merval foi mais longe, mas vou ignorar (Leia você). A senha da baboseira golpista é falar que “as Forças Armadas estão atentas às suas missões institucionais”, como se a Constituição abrisse brecha para golpes – militares, civis-militares, parlamentares ou antigolpes, como se sofisticou dizer hoje. O tema cresceu tanto, e tanto foram os recados, que nos últimos dias veículos insuspeitos fizeram editoriais sobre o tema – a que ponto chegamos.

O Globo publicou o editorial “É preciso não banalizar o risco de golpe” (Aqui), onde afirma que “não é cabível sequer cogitar um golpe. Prejudica a democracia”. Seguiu, curiosamente, em editoria do mesmo grupo, da revista Época, bem mais forte, “Basta de ditaduras! Fora, golpistas!” (Leia), lembrando o “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”, definiu editorial de 2013 do jornal O Globo, de 2013, para quem “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”, reconhecendo, sem meias palavras, ter cometido um erro ao apoiar o golpe de 1964. O Estadão veio com “A insensatez das elites” – você leu direito (Aqui)- onde escreve que “São tão frágeis os alegados elos de Bolsonaro com qualquer ideia de modernização da economia que custa crer que investidores e empresários que prezam seu dinheiro estejam realmente convencidos da conversão do ex-capitão ao credo liberal”.

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Jack Palance da caserna. Chegando em um self service, general Mourão aceita o “desafio” de um clone do ex-campeão peso-médio do UFC, Anderson Silva, de fazer meia dúzia de flexões. “Mourão cai nas graças do povo!’, diz seu Twitter.

Claro que o Exército não se resume a essas pessoas. Generais moderados das Forças Armadas não querem sabe disso. Caberá a Haddad, se eleito, refazer o percurso feito por ex-presidentes e colocar de novo ordem na caserna, limitando a congregações de pijama, como os Clubes Militares, os ataques histéricos e inofensivos à ordem democrática.

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O candidato a deputado estadual Tenente Coronel Zucco (PSL-RS), um dos militares em campanha, usou veículos adquiridos em leilões do Exército e emprestados por empresário, para fazer carreata cívica em Capão da Canoa, no litoral gaúcho. Pela similaridade dos caminhões usados no ato, muitas pessoas denunciaram que haviam sido cedidos pelo Exército.

Em tempo 1 – No Twiter, Eduardo, um dos filhos de Bolsonaro, contou – e postou foto – ter sido visitado na casa de Marrone, da dupla Bruno e Marrone – os sertanejos, por razão a ser estudada, tem um viés capacho -, junto com Amado Batista. O cantor – 40 anos de carreira, cerca de 35 milhões de discos vendidos e dono de dois aviões -, que se envolveu recentemente em uma polêmica na saída de um evento, quando disparou para fãs “Tira a mão de mim”, foi torturado por dois meses, na ditadura, apenas por quem trabalhando numa livraria, vendeu livros considerados subversivos a intelectuais. E numa inacreditável entrevista a Marília Gabriela, diz que mereceu. Eu acho que mereci. Fiz coisas erradas, eles me corrigiram, assim como uma mãe que corrige um filho.

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Amado Batista, o torturado complacente, apoia Bolsocaro. Ele diz que mereceu os choques que levou por vender livros “subversivos”. Bizarro.

Em tempo 2 – O babado do dia está na Folha (Leia). A ex-mulher de Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle, afirmou ao Itamaraty em 2011 que foi ameaçada de morte por ele, o que a levou a deixar o Brasil. O relato consta de um telegrama reservado arquivado no órgão, ao qual a Folha teve acesso. Na época Bolsonaro e Ana Cristina travavam uma disputa judicial no Rio de Janeiro sobre a guarda do filho do casal, então com cerca de 12 anos.

A ex-mulher do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle, durante ato pró-Bolsonaro nas ruas de Resende, interior do estado do Rio de Janeiro. Atualmente Ana Cristina, ex-servidora da Câmara Municipal de Resende (RJ), usa o sobrenome Bolsonaro e é candidata a deputada federal pelo Podemos. Ela disse apoiar a candidatura do ex-marido ao Planalto e considerou “superado” o episódio na Noruega, apesar de ter admitido ter sido pressionada por ele à época.

 

 

Haddad coloca um pé no Planalto, Bolsonaro emborca e terceira via implode

Pesquisa Ibope divulgada na noite desta segunda, 24, a 15 dias do pleito, com a indefinição do eleitorado desabando – brancos e nulos caíram de 29 pontos, em 20/08, para 12 pontos agora -, mostrou que Fernando Haddad, o candidato do PT e de Lula à Presidência, está com um pé no Palácio do Planalto. Todos os indicadores são favoráveis a ele. Para botar o segundo pé, terá que enfrentar o segundo turno com o capitão Jair Bolsonaro, que parece ter batido no teto, reduzindo a curva de crescimento e agora se estabilizando. Haddad, por outro lado, segue crescendo. A diferença entre Bolsonaro e Haddad caiu de 9% para 6%, aproximando-se da margem de erro. Há um mês, o “coiso”, nome carinhoso dado ao concorrente do PSL por quem evita até dizer seu nome, vencia o petista por 20% a 4%. Sim, o candidato do PT pode ultrapassar o candidato da direita já no primeiro turno. Haddad tem mais motivos para comemorar, e Bolsonaro para se agitar na cama – não vá abrir os pontos, capitão!. Bolsonaro caiu em todos os cenários do segundo turno e passa a perder de Haddad (43% x 37%), Ciro (46% x 35%) e até do picolé de chuchu (41% x 36%) -, empatando somente com a insossa Marina (39%). Ou seja, Ciro abriu 11 pontos em relação a Bolsonaro, Alckmin, 5%, e Haddad pela primeira vez passou Bolsonaro, abrindo avantajados 6 pontos.

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O índice de rejeição de Bolsonaro bateu o recorde de 46%, ou seja quase metade dos eleitores não votaria nele nem que ele deixasse a barba crescer e tivesse ceceio na fala. Com a polarização da disputa, e o antipetismo achando sua trincheira fardada, Haddad estabilizou nos 30% de rejeição, número histórico dos que dizem “detestar o PT” ou “não gostar do PT”. Outro um terço vota no PT, historicamente. O outro terço decide a eleição – daí a importância das alianças, que serão antecipadas e não esperarão o segundo turno. Isso porque a terceira via implodiu. Em 20/08, Marina Silva tinha 12%, Ciro Gomes 9% e Geraldo Alckmin, 7%. Ciro, Alckmin e Marina têm agora, respectivamente, 11%, 8% e 5%, como peixes se debatendo na areia.

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Fernando Haddad, perto de liderar as pesquisas de intenção de voto, visitou o ex-presidente Lula na superintendência da Polícia Federal, em Curitiba: conselhos e orientações no momento em que o PT vê chegar mais perto sua volta ao Planalto. Ele disse, em entrevista na saída, observar movimentos “exóticos” no Brasil, como “suposições” sobre urnas eletrônicas e resultados de eleições, já rebatidos por STF e TSE.

Até o fim da semana, quando sai o Datafolha, alguns movimentos políticos devem acontecer: o Centrão – DEM, PP, PR, PRB e SD – deve desembarcar de Alckmin, em parte rumo a Bolsonaro, e eleitores de Ciro e Marina começarão a migrar para Haddad, o chamado “voto útil” ou, no caso, antibolsonarista. Os rastejantes João Amoêdo (3%), Álvaro Dias (2%) e Henrique Meirelles (2%), mortos-vivos na campanha, junto com Guilherme Boulos (1%) podem surpreender se retirando e apoiando um dos candidatos, a um preço módico. No caso dos três primeiros, uma bala – doce! – para quem adivinhar o rumo dos candidatos dos banqueiros e da Lava Jato.

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Jair Bolsonaro, estacionado nas pesquisas e vendo Haddad pelo retrovisor preparar ultrapassagem, escreveu nas redes sociais que está acima dos partidos e postou foto, no hospital, recebendo visita de seu candidato ao Senado em São Paulo, Major Olímpio, que está levando uma sova do petista Eduardo Suplicy, e vídeo ao lado do patético Carlos Vereza. Ah, e deu “exclusiva” a Augusto Nunes garantindo que seu “atentado” foi político.

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A antecipação do Ibope, que só confirma o movimento das últimas pesquisas, já havia levado o paciente do Hospital Albert Einstein a balbuciar, pelas redes sociais, que sua equipe está “comprometida com interesses da nação e não com indicações de lideranças de partidos políticos”. Ou seja, vendo sua candidatura ir para o CTI, faz o tradicional discurso anti-democrático dizendo-se “acima dos partidos”. No fim da noite de domingo, coerente com sua estatura, o presidenciável que, se eleito, pode ter o ator pornô Alexandre Frota como ministro da Cultura, postou nas redes que os incentivos à cultura permanecerão, “mas para artistas talentosos, que estão iniciando suas carreiras e não possuem estrutura”. “O que acabará são os milhões do dinheiro público financiando ‘famosos’ sob falso argumento de incentivo cultural, mas que só compram apoio! Isso terá fim!”, afirmou no Twitter. Não, candidato, o fim é todo seu.

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Em entrevista a rádios, Geraldo Alckmin defendeu o aumento da pena para crimes hediondos. Crime hediondo é o que o Centrão prepara para o tucano até o final da semana. Vendo o candidato empacado, vai vazar pela porta dos fundos.

Mas o desespero de Bolsonaro pode ser medido pela “exclusiva” que deu para o jornalista (sic) Augusto Nunes (Aqui) no quarto em que está internado. Ao falar do ataque do maluco que o esfaqueou no último dia 6 de setembro, em Juiz de Fora, disse acreditar – sem nenhuma prova, mas para que prova, né? – que o ataque foi planejado. “Entendo que foi algo planejado. Foi político, não há a menor dúvida. Me tirando de combate… você pega os três ou quatro próximos na relação, eles são muito parecidos”, disse, fazendo referência às pesquisas de intenção de votos.

Kataguiri segue estratégia tucana e tenta salvar MBL batendo em Bolsonaro

“Não interessa quem seja seu candidato a presidente da República, ele (Bolsonaro) não dá, ele não dá, ele nunca pode ser presidente da República”
Kim Kataguiri, do direitista MBL, em post nas redes sociais, no último dia 20/09, pregando o voto contra Bolsonaro, aderindo ao #Elenão e defendendo a democracia, a imprensa e as minorias. Um espanto.

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Penteado novo, a mesma barba rala, Kataguiri, valete do MBL e candidato a deputado federal pelo DEM, no vídeo em que elegeu o ex-parça Bolsonaro a reencarnação do mal

 

Aliados desde antes do impeachment, MBL, o Movimento Brasil Livre de Kim Kataguiri, e o capitão Jair Bolsonaro, não trocam mais elogios mútuos, nem sentam no mesmo boteco há alguns meses, o que culminou com um vídeo (Assista aqui e se esforce para não rir) do agora candidato a deputado federal pelo DEM, numa cara-de-pau sem limites, aderindo ao #Elenão – o movimento criado pelas “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, hackeado recentemente nas redes sociais. Ideólogo do grupo de extrema-direita que serviu a Eduardo Cunha e Paulo Skaf para criar um movimento fabricado de rua, arregimentando coxinhas e reacionários pró-impeachment de Dilma Rousseff, Kataguiri é tudo, menos um antibolsonarista. Ou um democrata. Em maio de 2015, estava na foto clássica – um dos porta-retratos do golpe parlamentar -, ao lado de Eduardo Cunha, Bolsonaro e manada, embaixo da faixa “Um Brasil livre da corrupção”. Kataguiri é assim: em setembro de 2016, postaria nas redes um “Tchau, querido” quando Cunha foi cassado por 450 votos.

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Álbum de família, maio de 2015, o início da lambança: Eduardo Cunha, Bolsonaro e Kataguiri, movidos pelo patriotismo, se unem contra a corrupção do PT.  Em setembro de 2016, o líder do MBL comemoraria a cassação de Cunha com um ingrato “Tchau, querido”.

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Em 2015 também, Kataguiri postou uma foto usando uma arma de airsoft para levantar, pelo Facebook, uma das bandeiras bolsonaristas: o fim do Estatuto do Desarmamento. Pouco antes disso, o MBL saia em defesa de Bolsonaro, que havia se tornado réu em duas ações penais no Supremo Tribunal Federal por injúria e apologia ao crime de estupro. A página do grupo no Facebook publicou um post dizendo que Bolsonaro era “vítima de fascismo censório em ação no STF”. Em fevereiro de 2017, Kataguiri, cabelos ainda compridos e algo próximo de um buço desenhando os lábios, reunia-se tranquilamente com Eduardo Bolsonaro, filho do capitão, e Marco Feliciano, próceres da fatia mais abjeta do Congresso, para discutir estratégias pós-impeachment.

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Recordar é viver. Início de 2017, Eduardo Bolsonaro, Kataguiri e Marco Feliciano posam após discutir estratégias pós-impeachment. Antes disso, em 2015, o neófito Kataguiri postou uma foto empunhando uma arma de airsoft , que atira projéteis plásticos não letais, para condenar o Estatuto do Desarmamento. Bolsonaro ficou em estado de graça.

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“Um dos nomes que pode ser visto como (alguém) de fora (da velha política), apesar de ter mandato há 20 anos, é o Bolsonaro. Ele foi um cara que ficou de fora de tudo o que estava acontecendo dentro do Congresso, e no governo federal. Ele é um nome que representa o anti-establishment”, analisou Kataguiri, entrevistado por um certo Marcelo Bonfá – por favor, não confunda com o ex-baterista do Legião -, em 12 de dezembro de 2017 (Assista aqui). Mesmo recentemente, em 31 de julho passado (Assista aqui), Kataguiri não resistiu e criticou a bancada de entrevistadores que cercou Bolsonaro no Roda Viva. “Os entrevistadores só ficaram de socialistas do Leblon, do Baixo Augusta. Mentindo pra tentar desqualificar o Bolsonaro. Não entrevistaram o presidente da República”, reclamou o candidato do DEM pelo Youtube.

Não se pretende aqui, evidentemente, cobrar coerência de quem vive do disfarce e da patranha, como não se vai cobrar senso democrático e inteligência política de gente como Alexandre Frota, Rodrigo Constantino e Felipe Melo. Só ajudar a explicar que Kataguiri – que colocou Bolsonaro para discursar em caminhões do MBL e fazia selfies com adoradores do Revoltados OnLine, que por sua vez abraçavam amigos do Vem Pra Rua –, apenas segue, há algum tempo, a estratégia tucana de tentar colocar Geraldo Alckmin na vaga de Bolsonaro no segundo turno.

O MBL, que virou uma colcha de retalhos – lançou 16 candidatos por nove partidos, a maior parte da base de apoio a Alckmin para a Presidência -, depende disso para sobreviver (Leia a Folha). Sem o impeachment de Dilma para catalizar multidões, responsáveis diretos por colocar o megaimpopular Michel Temer no poder, o MBL corre o risco real de acabar se, sem carro de som e palanque, não fizer uma bancada. E isso só acontecerá se Alckmin não sair da atual indigência de votos. No Twitter, o filho do capitão, Flávio, deixou até registrado: “O MBL está dando chilique. Achava que, com a ruína do PT, o PSDB ocuparia o espaço que ficou aberto. Não contava que a direita ia surgir com um nome de tanto peso como o do Jair Bolsonaro.” Quem assiste “análises” feitas apenas um ano atrás por Kataguiri mostra que o dublê de cientista político nem de longe também sonhou com a arrancada de um Fernando Haddad.

Sem alguém para mexer os fios, Kataguiri é um marionete sem palco e sem platéia.

FHC e sua carta com tinta invisível

Imagine uma briga de rua, onde dedo no olho e joelhada nos, digamos, bagos, são os golpes mais leais. Após algum tempo, só três valentões continuam de pé, dois em melhor estado, todos exaustos. De repente, um conhecido passa e, mantendo uma distância segura, começa uma pregação por paz e união, dirigida a quem jazia no chão. O bom samaritano já observava a cena desde o início, mas achou melhor só se aproximar quando estivessem todos muito cansados para correr atrás dele. Guardadas as diferenças entre a porrada a céu aberto e as eleições presidenciais em curso – desculpem, não resisti à comparação -, o generoso senhor é o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso que, como por encanto, reapareceu em cena – na forma de uma carta – para pedir a união do centro político – aqueles que “não se aliam a visões radicais” – no pleito mais surreal das últimas décadas. Divulgar uma carta dessas quando facada, porrada e bomba já comem soltas, e faltando 17 dias para brasileiras e brasileiros irem às urnas, equivale a escrever o melhor poema da história numa ilha deserta, jogar no mar e ver que, em segundos, a garrafa fora engolida por uma baleia.

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FHC e sua carta para boi dormir. Nem Alckmin levou a sério. (Twitter/Reprodução)

Confesso que cheguei a pensar que se tratava de uma fake news, mas, se for, todos embarcamos nela, o que, na prática, torna a notícia real. Sem citar nomes – para que, né -, FHC pediu um acordo de apoio a quem “melhores condições de êxito eleitoral tiver” — caso contrário a “crise tenderá certamente a se agravar”. O ex-presidente não especifica quem seriam os candidatos moderados, mas não é preciso ser genial para eliminar Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) – os “tais radicais”. Ou como, curiosamente, escreveram Época e IstoÉ em suas matérias de capa, a “polarização” entre o antipetismo e o antibolsonarismo. Deduz-se que a conciliação segundo FHC esteja em Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Henrique Meirelles (MDB) e Alvaro Dias (Podemos). Ciro Gomes (PDT)?. Ele não veste a carapuça. “É muito mais fácil um boi voar de costas. O FHC não percebe que ele já passou. A minha sugestão para ele, que ele merece, é que troque aquele pijama de bolinhas que está meio estranho por um pijama de estrelinhas”, debochou Ciro Gomes, em campanha no DF.

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No dia seguinte ao debate promovido pela CNBB, em Aparecida, Ciro Gomes fez uma visita à Catedral Basílica de Nossa Senhora Aparecida. “A minha sugestão para ele (FHC), é que troque aquele pijama de bolinhas que está meio estranho por um pijama de estrelinhas”. (Foto: Reprodução/Twitter)

Mais sutil, Marina Silva disse que “fazer um discurso para que haja uma união e dizer que o figurino cabe no candidato do seu partido talvez não seja a melhor forma de falar em nome do Brasil”. O ex-tucano Alvaro Dias sugeriu, em tom irônico, que o primeiro passo rumo à unificação das forças de centro deveria ser a renúncia à candidatura de Alckmin. Ah, Alckmin elogiou a carta publicada por Fernando Henrique, mas disse que não vai seguir a sugestão do ex-presidente. “Não vou procurar candidatos. A ideia é uma reflexão junto ao eleitorado”, desdenhou o tucano, em campanha em Recife. “A carta de FHC chegou tarde. Ao lado do túmulo da candidatura de Alckmin, enterraram-se as esperanças do ex-eleitorado tucano. No epitáfio, lê-se o seguinte: “Não contem mais comigo”, interpretou o analista Josias de Souza (Leia aqui).

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FHC, no Twitter, depois de divulgar carta no Facebook: tentando explicar o que não deveria exigir explicação

Pouco depois de divulgar o texto no Facebook (Leia aqui), FHC reafirmou no Twitter o apoio a Alckmin. “Enviei carta aos eleitores (oi?) pedindo sensatez e aliança dos candidatos não radicais. Quem veste o figurino é o Alckmin, só que não se convida para um encontro dizendo ‘só com este eu falo'”, tuitou FHC. O candidato do PSDB – embora tenha quase metade do tempo de propaganda eleitoral na TV -, está estagnado nas pesquisas de intenção de voto e não tem conseguido deslanchar para poder brigar por um lugar no segundo turno. Em entrevista na Folha de S.Paulo no dia 02/09, o ex-presidente tucano afirmou que Bolsonaro antecipou a tradicional disputa entre PT e PSDB para o primeiro turno. Alguém mais viu isso?

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Avanço impressionante: Pesquisa DataPoder360, do portal Poder 360  já mostra Haddad tecnicamente empatado com Bolsonaro no primeiro turno. (Foto: Ricardo Stuckert/PT)

Voltando à briga de rua, talvez FHC não estivesse se dirigindo aos moribundos candidatos de centro – mas aos que seguem de pé. Quer dizer, menos Bolsonaro. No mundo real, depois de Ibope e Datafolha, Pesquisa DataPoder360, do portal Poder 360 (Leia aqui), realizada nos dias 19 e 20/09, divulgada na noite desta sexta, 21, indica que Jair Bolsonaro tem 26% das intenções de voto para presidente e permanece na liderança da corrida ao Palácio do Planalto. A novidade é que agora Fernando Haddad registra 22% e já aparece em empate técnico com o capitão. Ciro tem 14%. Os “centristas” de FHC – Alckmin, Marina, Meirelles, Amoêdo e Álvaro Dias somam, juntos, 17%. Votos brancos, nulos e indecisos estão em queda.

Capas das semanais varia entre ameaça de golpe e o extremismo da campanha

As principais revistas semanais brasileiras caminham, acreditam muitos analistas, para o cadafalso. Perderam não apenas tiragem e leitores, mas relevância, importância, consistência, sobriedade e, em alguns casos, compostura. Não souberam se reinventar. Tornaram-se, você sabe quais, apenas linha de transmissão de grupos empresariais e/ou políticos. Mas sou de uma geração que inevitavelmente chega no final de semana curioso – no caso, na sexta, já que todas passaram a rodar mais cedo por economia: qual vai ser a capa de Veja, IstoÉ, Carta Capital e Época, para citar as referências mais óbvias. CrusoÉ, do mesmo grupo do Antagonista, tem surpreendido, mas confesso que ainda tento controlar a minha resistência. Época virou uma espécie de suplemento do Globo. Veja foi uma das poucas sobras da derrocada da Abril.

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Esta semana, a capa mais non sense fica com Veja, que resolve fazer um especial de 50 anos – 1968-2018 -lembrando que “Veja nasceu da ditadura, floresceu na democracia – e chega a cinco décadas de vida pronta para continuar a zelar pelo regime das liberdades”. Imaginar Veja como zeladora não deixa de ser uma imagem interessante. Uma coisa meio bedel da esquerda. A edição, como não podia deixar de ser, é constrangedora – para Veja. Ao garimpar sua história – entre fotos e reportagens – mostra o que a revista já foi e o que virou.

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IstoÉ faz a capa mau humor da semana. Divide sua capa entre metade da cara de Lula (representando o PT, pois imagina-se que a revista saiba que o candidato é Fernando Haddad) e metade da cara de Bolsonaro e pergunta: “Quem é o mais odiado?”. E completa, com seus tradicionais subtítulos palavrosos (tome fôlego): “A polarização entre o antilulopetismo e o antibolsonarismo dá o tom da eleição dos extremos e da irracionalidade. No fim, deve ganhar o menos rejeitado”. Com um lustre de imparcialidade, o que a revista faz é ignorar Haddad, tirando-o da capa, e, subliminarmente, sugerir uma terceira via. Só faltou escrever o nome, que sabemos qual é.

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Época segue em sua sequência de capas com os presidenciáveis, sempre com fotos em close e títulos engraçadinhos. “O Regra-Três – Ciro Gomes entre o antipetismo e o antibolsonarismo”, diz a capa da revista de sexta do jornal O Globo. Haddad era “O candidato obediente – A campanha de Haddad no coração do lulismo”, com uma foto do petista com um chapéu de Lampião. Numa das capas mais bizarras, Marina foi descrita como “A candidata do silêncio – A estratégia de Marina Silva para chegar à Presidência”. A foto mostra Marina de costas.

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Finalmente, Carta Capital flerta com o humor ao colocar um fantasminha de filme B (uma toalha com buracos nos olhos e boca) com um quepe militar (minha ignorância não me permitiu identificar a origem do quepe, mas não me pareceu do Exército brasileiro – peço ajuda aos internautas) com o título “O despertar do velho fantasma – A maioria do Exército abraça Bolsonaro. Ameaças fardadas à democracia pairam no ar”.