“Posto Ipiranga” nada, Paulo Guedes é o dono da refinaria

“Bolsonaro, cujo nome do meio é Messias, promete a salvação; na verdade, ele é uma ameaça para o Brasil e para a América Latina”.
Trecho do editorial da revista inglesa “Economist”

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Bolsonaro e seu “Posto Ipiranga” Paulo Guedes, uma estranha união. O capitão é o direitista certo na hora certa. O economista, o neoliberal disposto a fazer tudo o que pede o mercado – incluindo privatizações até há pouco tempo impensáveis.

Você acredita mesmo que, com os compromissos que já assumiu – com seus financiadores, com o mercado, com Deus e o Diabo na terra de Temer -, Jair Bolsonaro, o capitão-presidenciável, enquadrou o general sem farda Paulo Guedes, que em tom amistoso chama de seu “posto Ipiranga” – maneira suave de dizer que a economia e a gestão do governo serão terceirizadas para um dos fundadores do Instituto Millenium? Esqueça a ingenuidade. Se você pensa que o banqueiro Henrique Meirelles é a encarnação do mal capitalista, precisa conhecer melhor o “guru econômico” do capitão. Porta de entrada de Bolsonaro no mercado, Guedes não é só o avalista, ele é o responsável por transformar o mercado na cheerleader de um capitão que, até se tornar a melhor alternativa para derrotar o PT, não passava de um parlamentar machista e medíocre com ideias reacionárias e pouquíssima influência no Congresso – o que seu número de projetos aprovados só atesta.

Talvez a lembrança de Bolsonaro no extinto CQC, na Band, no não tão distante ano de 2011, ajude a recordar a figura patética hoje chamada de mito. No quadro batizado de “O povo quer saber” (Assista aqui), Bolsonaro respondia a diversas perguntas no programa então comandado por Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marco Luque, e destilava seu preconceito com negros, gays e mulheres. Tas explicava a Luque, que não o conhecia, que tratava-se de um “deputado muito polêmico” que “é contra tudo e quer resolver as coisas do país a bala”.

A direita cresceu e apareceu – e Bolsonaro tornou-se o troglodita certo no lugar certo. Em um país onde a segurança passou a ocupar tema central, o militar incorporou como ninguém o discurso do “olho por olho, dente por dente”, que incluiu o saudosismo à ditadura, o apoio da linha-dura militar e a promessa de armar a população contra os bandidos. A indispensável porta de entrada para o mercado foi aberta por Guedes – como Armínio Fraga fazia com Aécio Neves.

No estaleiro desde que levou uma facada, muita gente tem falado por ele. Se os filhos Bolsonaro controla aos berros, mais difícil é segurar a língua do vice general, Hamilton Mourão – que defendeu uma Constituição elaborada por não eleitos e a ideia de que filhos criados por mães e avós, sem a presença do pai, correm mais risco de entrar para o tráfico. Fora acentuar o caráter preconceituoso do militar, o discurso não causou estragos entre os convertidos. E, vamos combinar, dificilmente espantará indecisos em um país onde, em tempos de intolerância, há muito ruiu a lenda do brasileiro cordial. O prende e arrebenta anda muito popular.

O verniz econômico veio com o ultra neoliberal Guedes, fundador e sócio majoritário do grupo financeiro BR Investimentos e um dos quatro fundadores do Banco Pactual, além de sócio majoritário do Ibmec. Há algum tempo, Guedes tem falado, em círculos restritos, sobre seus planos para a economia. Nada que já não se sabia. Anunciado com antecedência como futuro ministro da Fazenda caso o capitão seja eleito, Guedes, talvez por imperícia, tenha cometido o pecado mortal de, antes das eleições, falar abertamente em aumento de imposto. Foi na terça, 18, durante um evento restrito promovido pela GPS Investimentos – vazado, em parte, por Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo (Leia aqui). À vontade, o economista admitiu criar um imposto semelhante à já extinta Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) – a que os tucanos ajudaram a enterrar.

Mais do que isso, apresentou a proposta de criação de uma faixa unificada de IR de 20% – o que significaria aumentar o imposto de quem ganha menos, acabando com as alíquotas intermediárias. E baixar de quem ganha mais. Isso beneficia a fatia do eleitorado onde Bolsonaro está em primeiro lugar nas pesquisas, como bem lembrou Leonardo Sakamoto (Leia aqui). Mas se Guedes diz o que o mercado quer ouvir, a cautela aconselha a não tripudiar da ignorância do eleitor. Bolsonaro, na versão da mídia, quase abriu os pontos de tanto esbravejar no Albert Einstein. É uma questão de manter as aparências. Não dar munição aos adversários.

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Para isso, Bolsonaro tuitou, tuitou, tuitou – e os filhos Carlos e Flávio retuitaram, retuitaram. “Ignorem essas notícias mal intencionadas dizendo que pretendermos recriar a CPMF. Não procede”, tuitou Bolsonaro, na noite do dia 19. Mais cedo, Bolsonaro já havia tuitado que “Chega de impostos é o nosso lema!”. Nesta quinta, 20, voltou à carga. Novamente nas redes sociais, assegurou que, se eleito, “os princípios liberais serão a bússola” de seu governo. “Nós temos os fundamentos e as pessoas certas para, finalmente, trazer ao nosso país os valores que estampam a nossa bandeira”, afirmou, em postagem no Instagram. Ou seja, não disse nada, nem negou nada.

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Na campanha presidencial de 2006, ameaçar vender Petrobras e Banco do Brasil ainda era uma heresia, mesmo para os tucanos. Acusado por Lula de privativista, Alckmin usou uma jaqueta bege com os símbolos das estatais Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás e Correios. Era seu jeito de defender as estatais.

Candidato a “superministro” de Bolsonaro – uma espécie de Zélia Cardoso de Mello de terno e gravata de grife -, Guedes afirma, para quem quiser ouvir, que fará, se chegar ao poder, uma ampla privatização, inclusive da Petrobras, maior estatal brasileira, e Banco do Brasil. “Privatizações, concessões e desmobilizações. Tinha que vender tudo”, afirma o economista, com Ph.D. na Universidade de Chicago, considerada o templo mundial do liberalismo. Soam hoje, por isso, ridiculamente românticos os tempos em que o PSDB tremia ao ser rotulado de privativista. Em 2006, em uma palestra na Associação Nacional dos Funcionários do BB (Anabb), em Brasília, Alckmin usou uma jaqueta bege com os símbolos das estatais Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás e Correios. Era seu jeito de defender as estatais. No que diz respeito às estatais, Guedes está, metaforicamente, nu.

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A The Economist descobre o Bolsonaro que muitos brasileiros não querem ver: “O senhor Bolsonaro seria um presidente desastroso. Sua retórica mostra que ele não tem respeito suficiente para que muitos brasileiros, incluindo gays e negros, governem de forma justa. Há poucas evidências de que ele entende os problemas econômicos do Brasil bem o suficiente para resolvê-los. Suas genuflexões à ditadura fazem dele uma ameaça à democracia em um país onde a fé nela foi abalada pela exposição do suborno e a miséria da crise econômica”.

Uma das melhores definições de Paulo Guedes talvez tenha sido dada por outro economista querido do mercado, Pérsio Arida, coordenador do programa econômico de Geraldo Alckmin (PSDB). E não são palavras delicadas. Arida disse, numa entrevista ao Estadão (Leia aqui), que Guedes não passa de um mitômano. “Ele nunca produziu um artigo de relevo. Nunca dedicou um minuto à vida pública, não faz ideia das dificuldades. Tornou-se um pregador liberal. Falar é fácil, fazer é muito mais difícil”, diz.

Bolsonaro teve, paradoxalmente, uma má notícia da turma do mercado lá fora, que parece se importar mais com coisas como democracia e direitos do que aqui dentro. A revista The Economist, bíblia liberal em todo o mundo, dedicou a capa desta semana a Jair Bolsonaro, “A mais recente ameaça da América Latina”. No editorial que repete a manchete, acrescenta o enunciado “Ele seria um presidente desastroso”. Nada que o “Posto Ipiranga” não possa piorar.

 

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