Como enterrar a biografia apoiando o fascista Bolsonaro

Cada um apoia quem quiser, diria o historiador, cientista político, acadêmico, ou mesmo o “famoso” formador de opinião que vive dentro de uma bolha virtual, uma versão patética do “Bubble Boy” (menino bolha), o heroico garoto – isso é da minha época, pessoal não se culpem se não conheciam a história – David Vetter, nascido em 1971 – só cinco anos depois de mim – e que literalmente viveu todos os seus dias protegido por uma bolha de plástico. David, que tinha uma dessas doenças que a loteria genética sorteia uns poucos – uma Imunodeficiência Grave Combinada (SCID), um grupo muito raro de doenças potencialmente fatais em que a criança, já ao nascer, tem muito pouco ou nenhum sistema imunológico – resistiu bravamente durante 12 anos sem nunca, absolutamente nunca, ter sido tocado, mesmo pelos próprios pais. A história, que é muito, muito triste, me remete a uma metáfora inevitável.  A bolha em que as pessoas parecem viver – e não me refiro a mídia sociais apenas -, especialmente aqueles desconectados do Brasil real.  E, me poupando de falar em gente como Marco Antonio Villa e Olavo de Carvalho, que dispensam apresentações, cito um cientista político menos conhecido, Jorge Zaverucha, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco, para quem “é exagero dizer que candidato do PSL ameaça a democracia”. O pernambucano, em seu mundinho acadêmico, mostra como alguns brasileiros, que têm história pelo país – no esporte, nas artes, etc – insistem, por razões a serem estudadas, a ver no golpista Bolsonaro um cidadão normal. Ah, o afiado Zaverucha é suspeito de assediar uma mestranda da universidade, em 2011, e foi condenado pela Justiça Federal de Pernambuco (Leia).

Prefiro, particularmente, acreditar em gente como Francis Fukuyama, Steven Levitsky, Wanderley Guilherme dos Santos e a historiadora Heloisa Starling – e na maioria de acadêmicos, no Brasil e no exterior, que têm dito de forma quase unânime que Bolsonaro ameaça a democracia brasileira. Mas queria focar, nesse artigo, na patética peregrinação de “famosos” registrados nos últimos dias em redes sociais, pelos filhos do “coiso”, apoiando o capitão fascista, não importa que ele só aceite sua própria eleição e convoque os amigos “comandantes militares” a não aceitar outra opção democrática, ou seja, Fernando Haddad ou Ciro Gomes.

15364592985b948222c5ffe_1536459298_3x2_xl
O cientista político Jorge Zaverucha, professor da Universidade Federal de Pernambuco, no escritório de sua casa, em Recife. “Bolsonaro já falou muitos absurdos, é claro. Fechar o Congresso, fuzilar Fernando Henrique Cardoso. É mesmo preocupante elogiar Ustra, mas me parece que com o passar do tempo ele vem mudando de opinião. Antes era um estatista na economia, agora é liberal.” Tem pai de cientista político que é cego.

O mais interessante das visitas de “famosos” – relativize esse conceito – ao leito de Bolsonaro é que obedecem a três etapas, em alguns casos visivelmente forçadas: o agendamento (muitas vezes pedido pela assessoria do candidato), o registro obrigatório em foto ou vídeo e, claro, o post nas redes sociais, para mostrar que Elvis, ou melhor, o “mito” não morreu. Estou excluindo visitas, digamos, jornalísticas,  como de JL Datena, filiado ao DEM, que já desistiu de uma candidatura ao Senado, hoje comandando o sensacionalista Brasil Urgente, que usou a Band, de tantos combates democráticos, para ganhar audiência e ouvir Bolsonaro pregar, ao vivo e a cores, um golpe, e, agora, Boris Casoy, da RedeTV!, direto do hospital. O capitão escolhe bem os seguradores de microfone. Casoy é o democrata que, em 2009, na linha William Waack, sem saber que o áudio estava sendo transmitido, comentou, na véspera do réveillon, com colegas de estúdio: “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo da escala do trabalho”.

Captura de tela inteira 29092018 151136.bmp
Depois de pregar golpismo para Datena, da Band, Bolsonaro deu entrevista a Boris Casoy, da RedeTV!, direto do hospital. O capitão pinça bem os seguradores de microfone. Casoy é o democrata que, em 2009, na linha William Waack, sem saber que o áudio estava vazando, comentou, na véspera do réveillon, com colegas de estúdio: “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras” (Relembre).

Nesta última semana estiveram presentes Luciano Hang, o empresário catarinense dono da Havan, a loja acusada por Cabo Daciolo de ser maçom por erguer estátuas da Liberdade pelo país; o ex-piloto de Emerson Fittipaldi, que carrega uma dívida milionária e corre o risco de falência (Leia na Época); os cantores Bruno, da dupla Bruno & Marrone, junto com Amado Batista – que foi preso e torturado na ditadura defendida por Bolsonaro) – (Leia aqui), o patético Carlos Vereza, que virou – ou sempre foi – um direitista de marca maior. Depois de ganhar muito dinheiro na Globo, em novelas como “O Rei do Gado”, “Direito de Amar” e “Selva de Pedra, Vereza dedica-se rancorosamente a detonar o ex-patrão (o vídeo gravado pela família Bolsonaro é tão curto quanto constrangedor (Veja e chore). Vereza viveu Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos, que conta a história da prisão do grande escritor na Ilha Grande, na era Vargas. Pelo jeito não aprendeu nada com isso.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s