Bolsonaro e o “negacionismo histórico”: os planos do capitão e de seus cúmplices fardados de apagar a ditadura de 1964

O revisionismo histórico, ou reinterpretação da História, ou negacionismo, baseado na linha tênue da ambiguidade dos fatos históricos, e na capacidade de quem está no comando de – tentar ao menos – recontar a história é um fenômeno típico de ditaduras ou governos em tempos de guerra, não importa de qual ideologia. Os “revisionistas” partem da assertiva de George Orwell, em sua grande obra 1984, de que “quem controla o passado também controla o futuro, aquele que controla o presente, controla o passado”. Stalin, Hitler, Truman – leia sobre a Doutrina Truman e a Guerra Fria, aqui não teremos tempo -, todos contaram suas histórias – e procuraram apagar – literalmente – os rastros contraditórios. A “desnazificação” da Alemanha pós-Segunda Guerra não foi fácil para a sociedade alemã, mas foi ali que gerou-se o ovo da serpente para as gerações seguintes relativizarem os crimes de Hitler, recriando num segundo momento o neonazismo e o antissemitismo virulento. A negação do Holocausto tem sua versão made in Brazil: os planos do capitão e candidato da direita e da caserna, Jair “Só vale se eu ganhar” Bolsonaro, com a imbecilidade de quem conhece o mundo pelo Wikipédia e pela “Doutrina Militar”, de passar uma borracha na ditadura de 1964 – com “Supremo, com tudo”.

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Os “revisionistas” partem da assertiva de George Orwell, na obra “1984”, de que “quem controla o passado também controla o futuro, e aquele que controla o presente, controla o passado”. Bolsonaro, se eleito, quer recontar 1964 e apagar a ditadura de seus ídolos generais.
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O gabinete do deputado e presidenciável decorado com fotos de generais-presidentes que comandaram o país durante a ditadura militar, sua tara: Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. “Não houve golpe militar em 1964”, repete.

Supremo? Sim. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, falando durante o evento “30 Anos da Constituição Federal de 1988”, organizado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), pegou um atalho para dizer, a seis das eleições mais virulentas de nossa história contemporânea, que devem colocar, lado a lado, no segundo turno uma chapa PT-PCdoB e outra militar, que não se refere “nem a golpe nem a revolução de 64. Me refiro a movimento de 1964” (Leia aqui). A tortuosa declaração  – supostamente lastreada na obra do historiador carioca Daniel Aarão Reis – foi dada, após uma construção histórica escorregadia, em que alegou que, para ele, os militares serviram como uma ferramenta de intervenção que, em vez de funcionar como moderadores, optando por ficar no poder. “Com isso, os militares se desgastaram com ambos os lados, direita e esquerda, que criticaram o governo militar”, teorizou. A pergunta que ninguém fez para Toffoli: se os militares desejassem, então, em 64 como agora, agir como “moderadores”, tudo bem?

Aliás, quem assiste entrevistas do professor Aarão Reis (Veja esta no Canal Futura) não vai concordar com Toffoli. Preso e torturado na ditadura de 64, ex-militante do PT – como Toffoli, que foi advogado do PT -, e escritor de biografias como de Luís Carlos Prestes,  o historiador fala claramente em “golpe”, “ditadura” e das “barbaridades” cometidas em 64. Toffoli, melhor escolher outra fonte para suas cascatas.

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O “revisionista” Toffoli, presidente do STF, fez discurso dizendo que em 64 não houve “nem golpe, nem revolução de 64. Disse que se inspirou no historiador Daniel Aarão Reis que,  ao contrário do que diz o ministro, fala em “golpe de 64”.
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O historiador carioca Daniel Aarão Reis, em entrevista ao Canal Futura: “Falar em ditabranda (como fez a Folha de S.Paulo em editorial de 17 de fevereiro de 2009, depois renegado pelo próprio diretor de redação Otávio Frias Filho) é tripudiar sobre todos aqueles que foram assassinados, torturados, ou sofreram qualquer tipo de humilhação, sem falar do preço que uma Nação paga após uma ditadura. Toda efervescência política e cultura foi tolhida depois do golpe, sobretudo depois do AI-5″. Como é que é, Toffoli?

Bolsonaro tem um grupo técnico que se reúne regularmente para auxiliar a equipe do candidato à Presidência na formulação de propostas que podem vir a ser implementadas caso ele vença as eleições. Um deles, como já citamos aqui, é o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, para quem “os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. O revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 e a ditadura ganhou força nos anos 1990 com visões relativizadoras, inspiradas numa tese tosca de que a ditadura não existiu por que não éramos democratas. O trabalho que inaugura este revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 é o livro da cientista política Argelina Cheibub Figueiredo, “Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política: 1961-1964”. Inaugurava-se assim uma longa e paupérrima tradição nos balanços bibliográficos sobre 1964, calçados na ideia de que a combinação de crise econômica com colapso das estruturas políticas exige a “moderação” militar. Isso é familiar a alguém?

E quem sabe você, meu caro leitor, minha cara leitora, talvez mais jovem, tenha tempo para ouvir um pouco Leandro Karnal (Psiu, aqui).

 

2 comentários em “Bolsonaro e o “negacionismo histórico”: os planos do capitão e de seus cúmplices fardados de apagar a ditadura de 1964

  1. Muito grave a declaração de Tofolli. Está acovardado? Quem o ameaça? Os já está tentando dar outro nome para o que vai ser conhecido como Golpe das Togas de 2016?
    Descobri seu Blog há pouco. Muito sucesso. Divulgarei.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Agradecido, Alex. Sou um jornalista com outras responsabilidades que já esteve em outro blog , mas preferiu abrir sua própria trincheira para poder escrever livremente e sem censura. Agradeço por acompanhar e divulgar este pequeno espaço democrático.

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