No deserto eleitoral brasileiro, a ordem hoje é desidratar Bolsonaro

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Cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Gláuber Rocha, o vaqueiro nordestino que, em meio a uma discussão com um coronel, acaba matando-o e tem que fugir com sua esposa. Não precisamos chegar a tanto, é só exumar Exu.

Deus e o diabo na Terra do Sol, ou Haddad – ou Ciro – versus Bolsonaro, o “Coiso”, no Brasil que começa a ser reconstruído ou destruído neste 7 de outubro de 2018. Eu desço na portaria do prédio, estão o porteiro boa praça e o conhecido entregador do iFood, o almoço das crianças na bolsa térmica.
– Vocês vão votar em quem?
Não gosto de peguntar isso. Tenho medo do que vou ouvir. E me sinto invasivo. Não quero catequizar ninguém. Mas não me contenho. Nenhum deles tira mais do que 3 mil reais por mês, com bicos e tudo. Sei, por conversas anteriores, que moram longe, três, quatro horas para chegar ao trabalho todo dia – eu levo uma hora e meia, de ônibus e metrô -, vivem com dificuldade, pagam as contas por milagre. Sorridentes, os dois respondem juntos:
– Bolsonaro.
– Mas gente, pelo amor de Deus. Vão votar em um cara que defende tortura, quer a volta da ditadura, detesta mulheres, negros, gays, quer armar quem não sabe usar estilingue, enriqueceu na política junto com os filhos, que montar um Estado Fundamentalista – tive vontade falar de “Conto da Aia”, achei demais. Chegava outro porteiro. E nunca administrou nem condomínio! Isso se o General Vice não der um golpe – já viu Capitão mandar em General?
Sei que falei rápido demais. Eles se olham. A conclusão era lógica: eu era louco ou petista. O “cirista” não atingiu, ainda, o grau ofensivo do “petismo” pra quem está do outro lado. O “coiso” deles é o petismo. E eles mal conhecem o Haddad.
– Não voto no PT – diz um deles.
– O Haddad não fez nada como prefeito de São Paulo, arrisca o outro.
Onde vendem as cartilhas que distribuem pra essas pessoas? É pior que lobotomia – “Laranja Mecânica” e “Um Estranho no Ninho” perdem. Curso de behaviorismo nas escolas! Os 8 segundos no horário gratuito do TSE não podem ter feito tudo isso, nem os minutos extras doados por Edir Macedo na Record, o que o editor da Piauí, Fernando de Barros e Silva, no podcast Foro de Teresina chamou de “momento edição do debate Collor x Lula da TV Record”. Ele se referia à edição, no Jornal Nacional, que às vésperas da eleição de 1989, fez parecer que Collor havia tido uma vitória no debate bem maior do que a real. Na noite de quinta, 04, a Igreja Record do Reino de Deus concedeu ao capitão em suposta licença médica um imenso espaço, roubando parte da audiência do debate em que os outros estavam, e não concedendo nada nem de perto equivalente aos adversários.
– Pessoal, onde vocês leram que o Haddad foi mal prefeito? Ele foi ótimo (eu não tinha números, mas tinha na manga, se precisasse, as ciclovias, corredores e faixas exclusivas para ônibus, menos mortos e feridos em acidentes de trânsito, Rede Hora Certa, saneamento financeiro….). Quem foi bom prefeito, o Doria, o Kassab, o Serra, o Pitta, esse menino Bruno Covas? Gente, neto de Mário Covas, o que houve com essa geração, na hora em que mais precisamos.  Como escreveu Helena Chagas, no Divergentes, há um simbolismo entre esse reencontro com as urnas, em que dois projetos antagônicos de Brasil se chocam, e os trinta anos da Constituição cidadã de Ulysses Guimarães.

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Cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Gláuber Rocha.  Que país sairá do primeiro turno? E do segundo?

Senti que não sabiam quem eram essas pessoas, afinal, moram no Rio, sua geopolítica. O entregador fez menção de ir embora, o porteiro começou a mexer em correspondências. Estava perdendo a atenção deles.
– Peraí, pessoal, vamos lá.
Encostei no balcão.
– Votem em quem vocês quiserem (tem sido meu recurso definitivo, meu final blow (Dragonball, pessoal). O PT errou, errou? Quem não errou? (Tive vontade de falar que prenderam o Lula sem provas e que Dilma foi catapultada num golpe parlamentar, mas senti que não havia tempo para isso). Mas vejam que é o presidente? Temer. Com o apoio do PSDB. OK, não querem o Haddad, votem no Ciro.
Percebi uma hesitação. O entregador admitiu que não ia poder votar em Bolsonaro porque o título dele é do Nordeste, e ele nunca transferiu. Há esperanças – e ela está nos detalhes. O porteiro piscou. Achei isso bom na hora.
Subi, banho para ir votar, com os filhos a tiracolo. Leio que os trackings mostram um crescimento do Ciro. E que as pesquisas mantém o segundo turno entre Bolsonaro e Haddad. O tamanho da diferença entre os dois, na virada para o segundo turno, vai contar muito. É preciso desidratar o “Coiso”. E que Haddad ou Ciro, sabe-la Deus, quem passar para o duelo final, apoie rapidamente e claramente o outro. E, claro, que a maioria dos eleitores acompanhe. Só os dois juntos no segundo tuno vão impedir que a terra se abra e saia de lá um filme catástrofe. A TV anuncia a nona temporada de Walking Dead. Não sei se isso é um sinal. A essa altura sou capaz de pedir votos para nulidades como Alckmin, Meirelles e Amoêdo. Álvaro Dias não dá. Ele me lembra o Coringa, e sempre torci pro Batman.
Sites e portais fazem suas coberturas triviais, no piloto automático – como votaram os candidatos – “Ciro vota e diz estar confiante na chance de ir para o 2º turno”, ”
Cercado de aliados, Haddad vota em São Paulo”, “Bolsonaro vota e diz acreditar que vencerá no 1º turno”, “Quem for eleito é a vontade do povo’, diz Temer após votar em SP” – Quem é Temer mesmo? Filas pra votar, eleitores levados para delegacias por suspeita de crimes eleitorais, “agora é com você, eleitor”, mancheta o Uol.
Hashtag Medo.

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Ao compartilhar vídeo nas redes, e coloca-lo no intervalo do debate na Globo, a Burger King, com sua campanha “Whopper em Branco”, quis dizer que não apoia nenhum candidato nas eleições 2018. Não é mais do que obrigação, mas a campanha é risível – pão, cebola e maionese é o voto em branco – e confusa, já que prega sim que não se vote em branco, o que é um direito de qualquer um.

Ah, a campanha oportunista – mas publicitariamente bem intencionada, mas equivocada – do Burguer King, no intervalo do debate da Globo, incentivando “voto consciente”, desculpem as duplas de criação, é confusa. Parecem incentivar o voto em branco – um hambúrguer feito apenas de pão, cebola e maionese, a metáfora gastronômica do século – e não tal “voto consciente”. No vídeo, produzido pela agência David, pessoas explicam por que pretendem votar em branco nas eleições — a empresa jura que são depoimentos reais, gravados em São Paulo na semana passada – ah, Sampa. Preste bem atenção, a campanha é contra o voto em branco.

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