Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump

Ernesto Araújo foi uma nomeação engraçada. Não, sério, deixem de ser mau humorados. Primeiro, Ernesto me lembra logo o Che. Ernesto “Che” Guevara de la Serna (que aliás, era médico, Mais Médicos, ai meu Deus, piada pronta). A gente tripudiando do Onyx Lorenzoni, do Marcos Pontes, da Tereza Cristina, do Paulo Guedes, do Sérgio Moro – outra piada pronta, concordamos -, e o Bolsonaro, brilhantemente, me tira do coturno o Araújo, a primeira indicação de Olavo de Carvalho para a Esplanada dos Bolsominions. Pois Ernesto “Che” “Olavo” Araújo é a melhor piada de Bolsonaro até agora. Que favor para a oposição! Num dia, Bolsonaro implode o Mais Médicos. No dia seguinte, escolhe como chanceler um diplomata recém saído da segunda classe -ei, ei, não é preconceito, ele foi promovido a ministro de primeira classe – o nome técnico do topo da carreira, o chamado embaixador- apenas no primeiro semestre deste ano, o que foi visto como uma quebra de hierarquia grave e sem precedentes no Itamaraty. Mais ou menos como um capitão comandar generais – mas deixa isso pra lá. O sujeito não é só um “trumpista”, baba ovo de Donald Trump, como a mídia reconhece, é um sujeito medíocre. Assim como a gente olha o Mourão e pensa, peraí, mas como ele pode ser tão sem noção se formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio – também frequentada por Bolsonaro -, a gente olha pro Ernesto Araújo e se questiona: gente, como o Itamaraty, com a excelência de seus quadros, aprovou a entrada desse cidadão?

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Indicado por Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo, futuro chanceler idolatra Donald Trump e  chamou o PT de Partido Terrorista. É certo como dois e dois são quatro que vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. A nomeação foi criticada dentro do Itamaraty por ter acabado de ascender à carreira de embaixador. Elogios, só de Bolsonaro e do atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, para quem seu sucessor é um diplomata “bem conceituado”.

Em artigo intitulado “Trump e o Ocidente”, escrito em 2017, Araújo afirma que o nazismo é uma ideologia de esquerda. Acompanhem o trecho: “E, na crise espiritual dos anos 20, tomou forma um movimento que pioraria ainda mais a situação para o lado nacionalismo: o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, sequestrou o nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, gerando o fascismo e o nazismo (nazismo = nacional‑socialismo, ou seja, o socialismo nacionalista)”. Gente, o cara acredita que Hitler era de esquerda. O cidadão criou um blog na campanha eleitoral no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. Isso mesmo, ele é anti-globalização. Será que ele combinou isso com o “Posto Ipiranga?”.

Nessa colcha de retalhos que vem se costurando o Ministério Bolsonaro, é certo como dois e dois são quatro que o “menino” de Olavo de Carvalho, se tiver alguma voz de comando, vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. Colunistas de todas as vertentes políticas estão apavorados. “O presidente Jair Bolsonaro pode fazer uma política externa ideológica de direita. Foi eleito para governar e escolher os caminhos do país. Só não pode acusar os governos petistas de terem partidarizado a política externa, porque é exatamente isso que ele está fazendo em grau muito mais elevado. O embaixador Ernesto Araújo como ministro das Relações Exteriores, por tudo o que disse até agora em seu blog de ativista, indica que o governo escolheu um alinhamento entusiástico a Donald Trump e isso tem um custo econômico”, escreveu Miriam Leitão, no Globo. “Ao escolher Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty, Jair Bolsonaro inclina-se para o lado de Trump. O futuro chanceler é fã do presidente americano e, como ele, crítico da globalização, “que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”, como escreveu em seu blog. É uma teoria estapafúrdia, mas coerente com a caça aos vermelhos desatada pelo bolsonarismo”, fez coro Clóvis Rossi, na Folha. “O novo presidente terá um chanceler à sua imagem e semelhança. O futuro ministro Ernesto Araújo não é apenas um bolsonarista de carteirinha. Ele também emula o chefe no discurso contra o “globalismo”, a “ideologia de gênero” e o “marxismo cultural””, reforçou Bernardo Mello Franco, no Globo. O que escreveu o Merval, tá curioso? “É uma surpresa desagradável, que indica, pela primeira vez na montagem do Ministério, uma decisão de fazer na política externa exatamente o que criticava nos governos petistas, com sinal trocado.”

Satisfeito?

Quem será a nova Soninha Carneiro?

Em 1992, acordávamos e dormíamos consumindo boatos, em um país que, depois de uma eleição com pegada obscurantista, vivia um clima explícito de medo. Na época, não se chamavam fake news e eram disseminados no boca a boca, sem Whatsapp ou redes sociais. Governo Fernando Collor de Mello. Você vai notar algumas semelhanças com os tempos modernos. Jovem, alimentava a fama de machão – “saco roxo”, alguém lembra? -, falava grosso, foi eleito por um pequeno partido, sem base no Congresso, o PSL, digo, PRN, assumiu com a bandeira do combate à corrupção, antes de se enrolar nela – Veja foi a primeira a lançar sua candidatura à Presidência em 1989 com a capa “O caçador de marajás”. O objetivo era evitar a vitória do operário Lula -, tinha discurso conservador nos costumes, prometeu, e fez, uma guinada na economia para “salvar o país” – Zélia Cardoso de Mello, Plano Brasil Novo, ou Plano Collor, ou apenas confisco da poupança e de todas as aplicações financeiras -, buscava ostentar saúde e expor disposição física em corridas nos finais de semana. Eram os plantões na Casa da Dinda, talvez os momentos menos edificantes de minha vida profissional. Preferia o marasmo do Alvorada. Preferia as emas. Com Collor, que morava na Dinda, no Lago Norte, era esperar os portões abrirem, já com alguma claque de “colloridos” do lado de fora – os “bolsominions” da época -, pessoas muito religiosas e com viés fascista – e, vupt, lá saia ele correndo cercado de seguranças, geralmente com alguma mensagem na camisa – que tínhamos que descobrir qual – e íamos nós atrás, repórteres, fotojornalistas e cinegrafistas (estes últimos com seus pesados equipamentos). Terno, gravata, suor, torcer por uma entrevista, manchete garantida no dia seguinte. Collor tirou aliança, recolocou aliança. Quem entra, quem sai. Suquinho pra imprensa – só durou até virarmos os inimigos.

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Collor na campanha, atirando (sem gesto com os dedinhos) – na época os militares ficavam atrás, não do lado -,  correndo com um bando de jornalistas atrás, e em cerimônia religiosa na Casa da Dinda; Zélia Cardoso de Mello, a “musa” do Plano Collor; e Collor e a fã Claudia Raia, ambos vítimas de boatos

Era setorista do Palácio do Planalto. Haviam muitos “padeiros” lá na época, gente competente, gente incompetente, e os puxa-sacos de sempre. O país falava muito em corrupção – pequenas denúncias que depois virariam uma avalanche que levariam ao impeachment de Collor. Pedro Collor, PC Farias – assassinato de PC Farias -, Tereza Collor, Fiat Elba, LBA, Rosane Collor, Eriberto Freire França, Operação Uruguai, CPI, caras-pintadas. Collor durou de março de 1990 a 29 de dezembro de 1992, quando renunciou, ao mesmo tempo em que era impichado. Só haviam dois assuntos rivalizando com política e economia nessa época. Um foi o assassinato da atriz Daniela Perez por Guilherme de Pádua, quase ao mesmo tempo que o impeachment. A dupla contracenava na novela “De Corpo e Alma”, da TV Globo, escrita por Glória Perez, mãe de Daniela. O outro era Aids – chamada pelos religiosos vigilantes da sexualidade alheia de “peste gay” – nada mais equivocado e preconceituoso. Sim, jovens, os gays, hoje LGBTs, ou – atualizando – LGBTQ+, já eram perseguidos. Muito. No dia 7 de julho de 1990, Cazuza morreu aos 32 anos por um choque séptico causado por complicações do vírus da Aids. No dia 24 de novembro de 1991, o vocalista da banda britânica Queen, Freddie Mercury, morreu aos 45 anos de idade – não deixe de ver o filme sobre sua vida. No dia 12 de setembro de 1992, morreu, aos 60 anos, o ator Anthony Perkins, conhecido por dar vida ao papel do vilão Norman Bates, do filme “Psicose”, de Hitchcock. O país falava muito disso em 1992 – haveria um surto mundial após a morte do astro de Hollywood, Rock Hudson, anos depois. Surgiam boatos/fake news sobre pessoas com Aids. A maioria falsos. Claudia Raia, apoiadora de Collor, foi vítima disso. O boato foi tão devastador que ela fez um teste e mostrou o resultado numa entrevista coletiva. Não tinha Aids, tida naqueles anos como sentença de morte irreversível.

Ela tinha mais visibilidade do que Regina “Eu tenho medo” Duarte porque haviam boatos sobre ela e Collor. E Collor caiu na rede das fofocas. Alimentada – e testemunhei isso, era real – por um emagrecimento repentino do chefe de Estado, que perdera 12 quilos em poucos meses e estava com o rosto cadavérico. Estaria ele doente? Para a mídia, havia duas maneiras de lidar com isso: ignorar solenemente, ou seja, se omitir – o que todos nós fizemos, entre coniventes ou encagaçados de perguntar isso para o homem do “saco roxo”; ou perguntar na lata, sem rodeios, enfrentar a fera, recolocar os fatos como fatos e os boatos como boatos. Eu vejo hoje os jornalistas que “cobrem” Bolsonaro, já imaginando quais serão escalados pra o futuro Comitê de Imprensa, e farejo o mesmo medo. Medo de perguntar. Medo de fazer as perguntas que tem que ser feitas. Expor contradições. Fazer seu trabalho. Eu tive medo, sei o que é ter medo. É mais fácil fazer as perguntas fáceis, não se expor – inclusive com o seu veículo -, manter a credencial, garantir o emprego, não queimar as fontes palacianas, não virar persona non grata. É difícil ser um Jim Acosta, o repórter que enfrentou Trump – no bom sentido jornalístico disso -, ao insistir em uma pergunta sobre a caravana de imigrantes da América Central que estava a caminho dos EUA. “A CNN deveria ter vergonha de ter você trabalhando para eles. É uma pessoa terrível e mal-educada”, esbravejou Trump. Claro que é preciso ter retaguarda pra isso, e não vejo essas escoras firmes hoje em nossa mídia. A CNN, ao contrário, decidiu processar o presidente norte-americano e vários assessores da Casa Branca na sequência da retirada das credenciais ao jornalista Jim Acosta.

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Jim Acosta pergunta, Trump ofende. Jornalista foi descredenciado e CNN decidiu processar o presidente. Você imagina isso aqui?

Naquela época de Collor, só uma pessoa tinha coragem para perguntar, sem ofender, sem ser agressivo, sem se borrar, apenas fazendo a pergunta que tinha que ser feita. Sônia Carneiro, repórter da Rádio JB. Soninha é uma lembrança doce dos tempos de cobertura no Planalto, em Brasília. Ela fazia as perguntas mais desconfortáveis como se fossem triviais. Sem querer aparecer. Apenas porque sabia que era para isso que estava lá, e não curtindo os filhos em casa. Era final de 1991, ou começo de 1992, e Sônia Carneiro perguntou. Sem floreios. Se Collor tinha Aids. Soninha não foi descredenciada. Não teve dedo apontado na cara. Não ouviu desaforos. Agradeceu a pergunta – acho que rolou um “Só você, Soninha…” – e respondeu que estava mais magro por causa das “inúmeras atividades”. Não sei se acreditei na resposta, mas eu e todos ali respiramos aliviados. E passamos a admirar ainda mais Soninha. Os temas mudam, as pautas mudam, mas continuamos precisando de repórteres corajosos, por mais próximos que estejam do poder. Quando penso em Soninha, quando penso em Jim Acosta, não consigo deixar de pensar que, um quarto de século depois, precisamos de gente com bravura para perguntar. Um exército de Soninhas. Mas sinceramente, não vejo.

Menos Médicos, Escolas sem Partido, Drones Exterminadores

“E disseram que eu voltei americanizada
Com o “burro” do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque de um pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca”

“Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada”

Trecho de música que serviu de resposta sarcástica da grande Carmen Miranda a quem a criticava por fazer carreira em Hollywood, como se com isso fosse esquecer o Brasil. Seria uma carmelita descalça – sem trocadilhos – diante dos entreguistas de hoje

“O Ministério da Saúde Pública de Cuba tomou a decisão de não continuar participando do Programa Mais Médicos (no Brasil) e assim comunicou à diretora da Organização Pan-Americana de Saúde [Opas] e aos líderes políticos brasileiros que fundaram e defenderam a iniciativa”.
Nota do Governo Cubano. O comunicado não diz a data em que os médicos cubanos deixarão de trabalhar no programa. A Opas disse apenas que foi comunicada da decisão.

Até Dr. Hollywood, o parafinado, botocado e  candidato dele mesmo a ministro da Saúde de Jair Bolsonaro já entendeu. A meta na sua área é o fim do Sistema Único de Saúde (SUS), que, com todos os seus (muitos) defeitos – gerenciais mais do que de verbas -, é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, que, aos trancos e barrancos – muitos barrancos -, busca garantir acesso universal ao sistema público de saúde, sem discriminação. A atenção integral à saúde, para as pessoas cujo orçamento não cobre planos privados de saúde, não é opção preferencial do futuro governo. Seu projeto de educação, ao mesmo tempo, mistura “Escola sem partido”, doutrinação militar e cristã nas escolas, privatização do ensino técnico e controle das universidades públicas, com reitores biônicos. A escola onde há anos estuda meu casal de filhos me surpreendeu positivamente com um comunicado corajoso – o que só me confirmou o acerto no ensino construtivista. O título do texto basta: “Por que escolas democráticas e comprometidas com a formação de pessoas com pensamento crítico e autonomia moral e intelectual não podem aceitar as propostas do Escola Sem Partido?.” Fiquei orgulhoso. Na segurança pública, a política é a da Taurus e da CBC, manda a “bancada da bala”, o Estatuto do Desarmamento está com os dias contados. Armas para todos. Reagir à violência não com políticas sociais, mas com uma rajada diária de balas – pistolas nos porta-luvas dos carros e drones disparando para matar “bandidos” nas favelas. E na política exterior, ai meu Senhor, o novo chanceler, Ernesto Araújo, é o reflexo do alinhamento total com os Estados Unidos. O desejo oculto de voltar a ser colônia – dessa vez não de Portugal, mas da América de Trump. É, para dizer pouco, constrangedor.

É curioso observar que Bolsonaro, que passou a campanha afirmado que, se eleito, manteria uma política externa “sem viés ideológico” e criticando a ideologização do Itamaraty nos anos petistas, nomeie um sujeito que, como escreveu o jornalista Pedro Doria nas redes sociais, é “ideológico até o talo”. Para lastrear essa opinião. Os próprios jornais neste 15/11 chamam o futuro chanceler de “trumpista” – alguns como elogio. Durante a disputa eleitoral, Araújo criou blog no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. O alinhamento proposto pelo novo governo é tão estreito quanto o buraco da agulha por onde deveria passar o camelo.

Rebobinando a campanha eleitoral.  Em agosto, ainda em campanha, Bolsonaro declarou que “expulsaria” os médicos cubanos do Brasil com base no exame de revalidação de diploma de médicos formados no exterior, o Revalida. A promessa também estava em seu plano de governo. Fora do Mais Médicos, os formados no exterior não podem atuar na medicina brasileira sem a aprovação no Revalida. Mas no caso do programa federal, todos os estrangeiros participantes têm autorização de atuar no Brasil mesmo sem ter se submetido ao exame. Bolsonaro disse ainda que “além de explorar seus cidadãos ao não pagar integralmente os salários dos profissionais, a ditadura cubana demonstra grande irresponsabilidade ao desconsiderar os impactos negativos na vida e na saúde dos brasileiros e na integridade dos cubanos”. O presidente eleito acrescentou que “Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos – uns 70%, calcula – e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares”.”Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”, escreveu no Twitter.

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‘Mais Médicos’ chegaram ao Ceará em 2013 com contrato de trabalho de três anos.  O programa virou um sucesso nacional: médicos estrangeiros onde os brasileiros não faziam questão de atender. Um tapa na cara do corporativismo. Afrontado seguidamente por Bolsonaro, que ameaçou até romper relações com Cuba, o governo cubano informou que decidiu sair do Mais Médicos, citando “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” feitas pelo presidente eleito. Dilma Rousseff criou o programa para atender regiões carentes sem cobertura médica. Posts de Bolsonaro nas redes sociais – sua praia – tentam repassar a culpa para quem queria servir.

No que interessa aos rincões do país, vamos à matemática. Deixarão o país 8.332 profissionais cubanos. Mais de 24 milhões de pessoas podem ficar sem atendimento. São 1.600 municípios hoje com cubanos em seus hospitais. Pequenas cidades do Nordeste temem um “apagão médico”, já adiantou a Folha de S.Paulo. A reação de Bolsonaro? Todo cubano que quiser pedir asilo ao governo brasileiro vai obter. Desce o pano.

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Presidente eleito Jair Bolsonaro anuncia Ernesto Araújo (ao lado dele) como novo ministro das Relações Exteriores. Segundo Bolsonaro, o novo chanceler é diplomata de carreira há 29 anos e um “brilhante intelectual”. De acordo com o site do Itamaraty, Araújo é o atual diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Ler seus textos recentes é um exercício de “sofrência”. USA! USA!
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Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Desejos ocultos de ainda ser colônia.

Pausa para reminiscências. Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Carmen se surpreenderia.

Sobre o “Mais Armas”, lembrei agora de um colega jornalista, nervosinho por natureza, pavio curtíssimo, que, numa carona ocasional, me surpreendeu um dia entrando numa briga de trânsito. Conhecido por seu temperamento explosivo, não deveria levar nem canivete no bolso de trás da calça. Nem para “Selvagem da Motocicleta” servia – desculpe, Coppola. Mas, me mostrou depois que os ânimos se acalmaram, tinha no porta luvas uma pistola, que, confessou, teve muita vontade de sacar. Havia crianças a bordo do lado de lá. Eu, do lado de cá, me encolhi no banco do passageiro. Por sorte, ninguém se feriu. Imagine esse potencial bangue-bangue como rotina, num país já violento até a medula. Mas entendo bem onde vamos parar com o programa “Armas para todos”. E “Drones para pobres”. Para que Bolsa Família, Bolsa Atleta, Água para Todos, Luz para Todos, Fome Zero, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Brasil Alfabetizado, ProUni, Minha Casa, Minha Vida, Programa Universidade para Todos? E Mais Médicos? Vai para Cuba! Foram.

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E viva a internet, viva os memes!

 

“Glória a Deus”: Daciolo, sobrevivente da chacina eleitoral, que virou ícone pop-político, faz aparição no Porta dos Fundos

Cabo Daciolo não para de surpreender desde que desceu os montes, perdeu a eleição, mas teve mais votos que a candidata da Rede, Marina Silva, e o milionário Henrique Meirelles, do MDB, e virou uma espécie de ícone pop-político. Depois de, nos programas eleitorais, e em lives nas redes sociais, denunciar a Ursal, acrônimo para União das Repúblicas Socialistas da América Latina – provavelmente o meme do ano -, e avisar que Jair Bolsonaro estava sendo cooptado pela maçonaria, o ex-candidato do Patriota Daciolo ensaia uma carreira paralela à de parlamentar. Ainda não entendi bem qual é, mas tem futuro. Um dos últimos posts do Porta dos Fundos, produtora de vídeos de comédia veiculados na internet, sexto maior canal brasileiro no YouTube, chama-se “15 milhões de inscritos”, e não tem aparição de Porchat, Tabet ou Duvivier. A estrela é Cabo Daciolo (Assista), que comemora os 15 milhões de inscritos do canal no Youtube. Claro, já foi apedrejado pelos fascistas de sempre – que não tem um pingo de humor. Um site evangélico diz que o político, que é crente e não larga a Bíblia, estava “fazendo propaganda para um canal anticristão” (pausa para você rir).

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Nas tribunas do Congresso, Cabo Daciolo, o ícone pop-político da campanha eleitoral, abre as portas para o Porta dos Fundos e grava vídeo para celebrar os 15 milhões de inscritos do canal. Peça de marketing inesperada e reação dos reaças de semprea

Daciolo é um cara realmente diferente. Ou sofreu um violento processo de abdução, onde teve o cérebro fritado por alienígenas. Ou é gente boa mesmo. Recentemente, apareceu para pegar os filhos no católico Colégio Santo Agostinho, na Barra da Tijuca, e foi ovacionado como um youtuber da moda (Assista). Todos queriam tirar selfies com ele, aos gritos de “Glória a Deus” que, quem diria, virou um bordão. Bem-humorado, Daciolo respondeu: “Vocês têm certeza de que querem uma foto? Os pais de vocês devem ter votado em outro candidato.”

No vídeo do Porta dos Fundos, Daciolo aparece no Congresso, abrindo uma porta de vidro que dá acesso às galerias do plenário – evidentemente, com uma Bíblia na mão. “Quero apresentar algo para a nação brasileira e parabenizar alguns amigos, um canal, qual canal? O canal Portas dos Fundos, que vai completar agora 15 milhões de seguidores”, diz ele, elogiando o humor do canal, que fala “a verdade ao povo…”. Numa das cenas mais non sense, atire seu velho celular escada abaixo e vai checar se ainda está funcionando – usando o mote de que não pode é deixar de acompanhar o canal. O Porta tem entre seus temas favoritos ironia com diversas igrejas, nenhuma em particular – inclusive a Católica, com paródias bíblicas -, e criticar Cabo Daciolo por sua aparição é só mais um sinal de intolerância e estupidez. Não se sabe se o quase ex-deputado recebeu algum cachê pela aparição – e faria sentido que recebesse – , até porque outras estrelas já apareceram no canal como convidados, como Xuxa, que aparece em um vídeo onde é baleada.

Mas isso não tem a menor importância. O vídeo teve, até agora, praticamente a quantidade de votos de Daciolo, mais de um milhão de visualizações, o que mostra que, mesmo nesses tempos estranhos, o bom humor ainda salva. Glória a Deus!

Animação adulta brasileira da Netflix samba na cara dos hipócritas, na véspera do novo governo, e, claro, já sofre pedidos de censura

Governo autoritário e conservador é aquela coisa meio sem noção mesmo. As famosas bolinhas que dançavam na tela do filme Laranja Mecânica para cobrir cenas de nudez eram só o pontinho preto do iceberg – que custou a degelar e agora volta a ganhar forma, ameaçando devolver o país à Era do Gelo. Para quem acha que a Censura Federal pintou e bordou somente com músicas de Chico Buarque, shows da banda Secos & Molhados, filmes de Glauber Rocha, peças do Teatro Galpão e livros de Cassandra Rios, melhor se aprofundar. Segundo o jornalista e escritor Zuenir Ventura, durante os dez anos de vigência do AI-5 (1968-1978) – dos 21 da ditadura implantada em 1964 -, cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram proibidas, sem contar as novelas e a censura ao jornalismo. Obras que feriam a “moral e os bons costumes”, que expunham os problemas sociais ou que eram consideradas comunistas – é, nem isso mudou -, só poderiam ser liberadas se fossem refeitas, ou eram descartadas na hora. Acredite, nem a Turma da Mônica escapou. O criador Mauricio de Sousa teve problemas em várias histórias do gibi. Em uma, os militares proibiram o título “O Sequestro do Cascão”, porque naquele instante um embaixador estrangeiro, Charles Burke Elbrick, havia sido sequestrado. O censor postado na redação da Abril também implicou com um quadrinho que exibia lateralmente o bumbum de Cebolinha, durante uma cena de banho. Às vésperas do governo Bolsonaro, que não esconde seu pavor homofóbico – a farsa do kit gay não nos deixa mentir -, a Tradição, Família e Propriedade volta a bater à porta. E o terror ao mundo LGBT (ou LGBTQ+, se atualizarmos) parece ser a obsessão dessa gente, que só falta implantar o “Tratamento Ludovico”* nas escolas.

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“Super Drags”, a série onde os personagens do título, Drag Queens, atuam na proteção e resgate de outros homossexuais, apresentados como vítimas da sociedade. O vilão? Um caricato pastor neopentecostal. Magno Malta e cia querem censurar.

A Netflix, onde não faltam filmes adultos, todos devidamente classificados por faixa etária, como manda a lei, lançou no último dia 9/11 “Super Drags”, desenho que conta a história de três super heroínas, que são drag queens – uma espécie de versão LGBT das meninas superpoderosas, só que bem mais explícito. Pabllo Vittar, Trixie Mattel, William Beli e Shangela Laquifa Wadley dublam as personagens. “Super Drags” é a primeira animação brasileira original Netflix, criada por Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut, e tem classificação indicativa para maiores de 16 anos. Se é verdade que não faltam desenhos bizarros nos canais infantis a cabo ou por streaming – e essa é apenas uma constatação de quem assiste com os filhos, vigilante à faixa etária, esquisitices como “O Incrível Mundo de Gumball”, “Apenas um Show” e “Bob Esponja” -, a criação de uma série que represente, com muito humor e acidez, a comunidade LGBT, é bem-vinda. A Netflix produz e adiciona dezenas de animações durante o ano, muitas pesadas, mas nem por isso alvo dos “defensores da família”. Casos de “Big Mouth”, “Rick & Morty, “BoJack Horseman” e “Policial Paradise”. Essa última, por exemplo, para maiores de 18 anos, tem uso de drogas, sexo explícito e zoofilia. Sem falar nos clássicos do “passado” como “Beavis and Butt-Head”, na MTV, e, claro, “South Park”. Nenhuma das séries é para uma criança assistir, todas tem classificação indicativa e a Netflix, como os demais canais, disponibiliza meios de bloqueio para conteúdo adulto.

Já esperando a polêmica, a própria Netflix preparou uma chamada onde Vedete Champagne (na voz de Silvetty Montilla) explica que nem toda animação é feita para crianças – e que esta tem classificação 16 anos (Assista). “Super Drags” (Assista o trailer), obviamente, é alvo porque trata de LGBTs. E é lançado – estratégia ou não – há menos de dois meses da posse do governo mais conservador pós-redemocratização. A série, por exemplo, não poupa idiotices como a “cura gay”, inserindo um vilão bem atual, o profeta Sandoval Pedroso, uma caricatura de pastor evangélico neopentecostal.

Sinal de que vem chumbo grosso aí é que a Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional, uma espécie de TFP parlamentar – sim, ela existe  -, e que tem entre seus embaixadores Magno Malta, o chapa do presidente que ainda não ganhou seu ministério -, quer que a série seja retirada do ar. Acredita que estimula as crianças a “se tornarem” homossexuais e acredita que o desenho fere a família. Já fez uma petição que, supostamente, conta com 15 mil assinaturas. A Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional devia cuidar da própria família e deixar que cuidamos das nossas.

Viva o humor mordaz, libertário e engajado! Censura nunca mais!

* Tratamento Ludovico é uma terapia fictícia de aversão assistida mediante o uso de drogas utilizada no filme Laranja Mecânica. Consiste em expor obrigatoriamente o paciente a assistir imagens violentas por grandes períodos de tempo, enquanto sob efeito das drogas, o que provoca um efeito de experiência de quase-morte. Ao obrigar a ver imagens horríveis de estupros, assaltos e outros atos de violência enquanto sofre os efeitos das drogas, o paciente assimilaria a sensação e se tornaria incapacitado ou se sentiria indisposto se tentasse realizar ou simplesmente testemunhar tais atos de violência. No processo de criação tanto do romance quanto da adaptação cinematográfica de A Laranja Mecânica, tanto o autor do livro Anthony Burgess como o diretor do filme Stanley Kubrick se esforçaram muito para incorporar uma grande quantidade de símbolos ao contexto da história. Esta riqueza em representações da cultura contemporânea e da ciência moderna na obra supõe uma das causas de que a história de A Laranja Mecânica tenha conservado sua atualidade até hoje.

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Alex (Malcolm McDowell) passa por uma sessão do Tratamento Ludovico no espetacular filme Laranja Mecânica (“A clockwork orange”, 1971), do diretor Stanley Kubrick. Um horrorshow, usando a própria realidade como fonte de inspiração.

Maitê Proença no Meio Ambiente faz todo o sentido. Que o digam as cachoeiras…

Eu não falei que o Dr Rey – que levou a porta na cara no condomínio de Bolsonaro, na Barra da Tijuca – estava certo em sonhar? Quem não chora, não mama. Quem não pede, não leva. Quem não faz lobby é inocente. Dr Rey só queria acabar com o SUS e nos dar a chance de ter um ministro da Saúde que fala portuglês. Não desista, Dr Rey. Se o ex-astronauta garoto propaganda de travesseiros, Marcos Pontes, pode ser ministro da Ciência e Tecnologia, se a deputada Tereza Cristina, a “musa” dos agrotóxicos – ela propõe flexibilizar as regras para fiscalização e aplicação desse veneno nas plantações – pode ser a chefe da Agricultura, se o fundador do Ibmec, hoje Insper, e do banco BTG, pode ser o guardião da Fazenda, se o juiz Sérgio Moro, que botou Lula na cadeia, abrindo caminho para a eleição de Bolsonaro, pode ser o xerife da Justiça/Polícia Federal, se Onyx Lorenzoni, parte da “Bancada da Bala”, financiado a vida toda pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a Forjas Taurus, pode ser o chefe da Casa Civil, qual é o problema do cirurgião plástico vendedor de pulseiras bioquânticas querer uma vaguinha na Esplanada?

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O superministério Bolsonaro, reunindo o melhor que o marketing tem: Maitê “Dona Beija” Proença, que entende tudo de biodiversidade, pode ir para o Meio Ambiente; o ex-astronauta Marcos Pontes, que vende “travesseiros da Nasa”, vai para Ciência e Tecnologia e pode controlar universidades públicas; Na Agricultura, Tereza Cristina, darling da Bayer – dona da Monsanto -, dona do RoundUp, agrotóxico mais popular do mundo; Paulo Guedes, Ibmec, BTG, “Posto Ipiranga” da Economia; e Dr Rey, o injustiçado, que só queria chefiar a Saúde pra jogar o SUS, do qual entende tanto quanto de senso de ridículo.

Deixem de ser preconceituosos com as subcelebridades! Prova disso é que a atriz, poeta, ex-Saia Justa Maitê Proença – menos conhecida pelas novelas globais, mas por ter arrebentado a banca na capa de fevereiro de 1987, há mais de 30 anos, da Playboy – , que pode ser nossa nova ministra do Meio Ambiente. Eu disse Meio Ambiente, galera, não Cultura. O ex-ator pornô Alexandre Frota, um dos sucessos da produtora Brasileirinhas, e eleito deputado apoiando Bolsonaro, pode manter as esperanças de uma vaga na Cultura. Maitê tem uma relação intrínseca com a mãe natureza. Fotografada por JR Duran, fotógrafo favorito de muitas estrelas, foi catapultada ao estrelato justamente pelos banhos de cachoeira – cachoeira, meio ambiente, tudo a ver! – no papel da sensual Dona Beija, protagonista da novela da hoje extinta TV Manchete. Foi recorde de vendagem por quase dez anos, até que, em 1995, Adriane Galisteu se despiu para a publicação. Maitê posou novamente, mas o primeiro ficou sendo seu ensaio mais lembrado.

Foi divulgado que o nome de Maitê foi proposto ao presidente eleito Jair Bolsonaro para a pasta do meio ambiente “por um grupo de ambientalistas, economistas e pesquisadores”, como adiantou a coluna de Ancelmo Gois nesta segunda, 12. Ela teria um “bom trânsito na área ambiental e fora dela”. Provavelmente, tanto quanto a ex-seringueira, ambientalista e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem de acesso ao mundo cinematográfico de Alexandre Frota. O empresário Paulo Marinho, ex-marido de Maitê Proença e ligado à campanha de Bolsonaro, considerou o nome da atriz para o Meio Ambiente “uma loucura”. Ah, o preconceito. Assim fica difícil formar um ministério de alto nível.

Avante, Stan Lee!

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Stan Lee, uma das maiores lendas da indústria de quadrinhos e criador de boa parte dos personagens da Marvel Comics, partiu aos 95 anos deixando em luto o universo dos quadrinhos. Quando seus heróis ganharam o cinema, passou a fazer aparições relâmpago, a la  Hitchcock.

O blog Gilberto Pão Doce, e seu autor, que cresceu lendo HQs da Marvel, expressa os mais profundos pêsames com a partida de uma das principais mentes criativas da indústria do entretenimento moderno e também criador de uma série de personagens que amamos ao longo de todas as nossas vidas.

RIP, meu herói.

Bolsonaro começa transição ofuscado por dois superministros, Guedes e Moro, que podem ser solução ou problema daqui a quatro anos – ou menos

“A pasta da Justiça, ainda mais turbinada, deve render a Moro protagonismo inédito para um ministro. Caberá a Bolsonaro, que já terceirizou a política econômica para Paulo Guedes, ter habilidade para não se tornar um coadjuvante do próprio mandato”.
Jornalista Carlos Marcelo, dos Diários Associados

Se você achou, a princípio, estranho um ex-capitão presidente tendo como vice um general quatro estrelas reformado – algo como ter o gerente de estoque promovido repentinamente a presidente da empresa e o ex-CEO rebaixado a seu carregador de malas -, olhe de novo para a extravagante Esplanada dos Ministérios que está se formando às vésperas da posse de Jair Bolsonaro. Mourão e os demais generais que habitarão o primeiro escalão, batendo continência para o ex-capitão, estão deixando os holofotes, e colocando em segundo plano a tese de uma crise militar, looping de hierarquia, etc, depois que Bolsonaro anunciou o tamanho dos poderes de Paulo Guedes e Sérgio Moro. A mídia cita, sem exagero, que são “superministros”, tamanhas as áreas acopladas a suas pastas. São, automaticamente, pré-candidatos presidenciais para 2022, o que pode gerar, com o tempo, um curto circuito com Bolsonaro – que, por enquanto, jura de pés juntos que não vai querer um segundo mandato. Ah, tá. Até lá – ou até antes, se Bolsonaro não repetir a sina de Fernando Collor -, eles terão que conviver, os três, inclusive Moro, que já anda dando recados sobre verbas, pedindo dinheiro de loterias, etc. Lula/Fernando Haddad, Ciro Gomes e até Luciano Huck e Joaquim Barbosa são outros possíveis pré-candidatos, mas suas chances dependem da turma pré-citada. Só para reflexão: Bolsonaro é seis anos mais novo que Paulo Guedes e Moro, 46 anos, dezessete a menos que o patrão.

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Silvio Santos fala com Bolsonaro durante o Teleton. “Sei que o Brasil precisa de um presidente que tenha vontade de acertar e o senhor, nas primeiras medidas que tomou, já começou acertando”, disse SS; General Mourão, a la Figueiredo, na capa de Época, a revista-encarte do Globo; Sérgio Moro na capa do Estadão; e Paulo Guedes, em matéria do mesmo Estadão.

Parte da mídia, a econômica em particular, já elegeu o “Posto Ipiranga” como grande fonte. Neste domingo ficamos sabendo que será ele a herdar o Ministério do Trabalho, a ser extinto, o que coloca a Secretaria de Políticas Públicas de Emprego nas suas mãos, podendo criar a tal carteira de trabalho verde e amarela (a minha segue sendo a azulzinha), que – “expressão da moda” – “flexibilizará os direitos trabalhistas“. Restarão aos contratados, em extinção, os direitos constitucionais, como férias remuneradas, 13º salário e FGTS. Além da carteira, a secretaria concentra programas como seguro-desemprego e abono salarial, e o Codefat (conselho do Fundo de Amparo ao Trabalhador), o que amplia a força de Guedes. Em 2018, o FAT teve previsão orçamentária de R$ 76,8 bilhões. Ah, Paulo Guedes deve ter Joaquim Levy -que está no Banco Mundial – no BNDES e Ivan Monteiro na Petrobras. Mansueto Almeida, atual secretário do Tesouro de Michel Temer, também deve estar no governo Bolsonaro.

Já Moro, ministro da Justiça e da Segurança Pública, terá poder de investigação do governo – será o chefe da Política Federal – e informação sobre crimes financeiros – dono do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Continua fortíssimo, embora tenha perdido, na última hora, o Ministério da Transparência e a Controladoria-Geral da União, que tendem a virar tapumes para paisagens vazias. As Organizações Globo – O Globo e Jornal Nacional como carros-chefe – já elegeram Moro como seu darling e oferecem a ele um espaço tão desproporcional que constrange. É notícia todo santo dia, independente da taxa de umidade em Brasília.

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O Extra foi escalado para humanizar Bolsonaro e o faz da forma mais evidente e tosca possível. Capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro”; “A lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc.

Enquanto os jornalões do grupo fazem sua parte, o mais popular dos veículos impressos do grupo Globo, o Extra, foi escalado para um papelão diário. Um dos jornais mais lidos do país, tenta humanizar o chefe Bolsonaro. Só que de forma tão evidente, que beira o ridículo. Bom, leia você mesmo (e veja as imagens) com capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro – Conheça a vida do presidente eleito em fotos e histórias pessoais”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro” (diz o Extra que o pão com leite condensado, preferido do presidente eleito, “está caindo na boca do povo”); “a lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc. Onde será que o Extra consegue material para tantos “furos” diários. Acho que Silvio Santos, o dono do SBT, terá que repensar as pautas de seu novo “Semana do Presidente”. O Extra está roubando todas as pautas.

A patética – e justa – aspiração de Dr. Rey

Dr. Rey queria ser ministro da Saúde de Jair Bolsonaro. Queria não, quer. Mesmo depois de vir ao Brasil para postular a vaga e levar com a porta na cara – o ex-capitão foi aconselhado a não recebê-lo -, Dr. Rey escreveu em sua conta no Instagram: “Trago ideias de saúde do primeiro mundo! Pode rir, vou lutar pelo Brasil até meu último suspiro”. Sua bandeira: acabar com o SUS e implantar o sistema republicano americano chamado “Purple Plan”. Ele acha que todo brasileiro pode ter plano de saúde privado. Sabe tudo o Dr Rey. Fato, porém, é que o “Doutor Hollywood”, como se autodenomina (e nome de seu programa na RedeTV!) tem todo o direito de concorrer à vaga em um ministério que tem ícones, por assim dizer, como o astronauta Marcos Pontes e o juiz Sérgio Moro, candidatos a ministro como o “príncipe” Luiz Philippe e Alexandre Frota, e uma bancada exótica de apoiadores como Kim Kataguiri, Joice Hasselman, Tio Trusti, Nelson Barbudo e Caroline de Toni. O cirurgião plástico Roberto Miguel Rey tem todo o direito de ter esperanças.

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Cenas de uma subcelebridade no Rio: Dr Rey na praia de Ipanema, posando com admirador num evento, na porta do condomínio de Bolsonaro e dando uma coletiva com uma bandeirinha do Brasil. Projeto do cirurgião: acabar com o SUS.

A aparição do médico/socialite/apresentador de TV pegou de surpresa até profissionais da imprensa que dão plantão em frente à casa do presidente eleito, em seu condomínio na Barra da Tijuca. Quando Dr. Rey apareceu, os repórteres tinham outro assunto na cabeça – a reunião entre o embaixador da Argentina e Bolsonaro. O aspirante a ministro sequer avisou Bolsonaro que iria ao seu encontro. “Nós estávamos no mesmo partido, lembra? A gente estava no PSC. Éramos amigos, somos amigos. Eu só espero que, talvez, ele me cogite a ministro da saúde”, declarou o cirurgião, em bom portuglês (Veja o vídeo). O fato de Bolsonaro ter barrado o cirurgião pode não ter sido mera incompatibilidade de agenda. Em um vídeo veiculado no YouTube em novembro de 2017, quando Bolsonaro ainda era pré-candidato à presidência da República, Dr. Rey disse que o então deputado do PSC sugou os cofres públicos “por duas gerações” (Assista).

Vamos lá, Bolsonaro, dê uma chance a Dr Rey. Não dá pra ser mais ridículo do que já está.

A defesa da censura prévia no Enem é o prenúncio de um Index Prohibitorum

“Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…”.
Texto na célebre primeira página do Jornal do Brasil, editada por Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, 1968

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.
Fase em Pajubá — dialeto falado pela comunidade LGBT — que constava em questão da prova de linguagens do Enem 2018, para desespero dos homofóbicos.

“Esta prova do Enem, vão falar que eu estou implicando. Agora, pelo amor de Deus! Este tema, da linguagem particular daquelas pessoas…(LGBT). O que temos a ver com isso, meu Deus do céu? Quando a gente vai ver a tradução daquelas palavras… um absurdo, um absurdo! Vai obrigar a molecada a se interessar por isso, agora? (…) Podem ter certeza, fiquem tranquilos: não vai ter questão dessa forma no ano que vem, porque nós vamos tomar conhecimento da prova antes. Não vai ter isso daí. Vão ter perguntas sobre Geografia, dissertações sobre História, questões realmente voltadas ao que interessa ao futuro da nossa geração, do nosso Brasil. E não essas questões menores”.
Jair Bolsonaro, em live na internet, prometendo “vistoriar” a prova do Enem 2019 antes que seu conteúdo seja submetido, elencando as “ideologias de gênero” entre as questões que ele diz considerar desimportantes.

Há cinco dias, escrevi neste blog um artigo “Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio” (Leia aqui) em que, sem nenhum exercício de futurologia, especulei sobre a essência autoritária do governo eleito e sua relação com um dos pilares de uma democracia: uma educação livre. Bolsonaro ficara incomodado com o tema da redação do Enem – o Exame Nacional do Ensino Médio, porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras –, a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Deve ter considerado provocativo. Irritou-o, igualmente, que outras provas, como Ciências Humanas e Linguagens, abordassem tópicos mais do que atuais: feminismo, nazismo, escravidão (pouco depois anunciaria o fim do Ministério do Trabalho, que tem entre suas missões o “Combate ao Trabalho em Condições Análogas às de Escravo”), regime militar, crise de refugiados, LGBTs, entre outros. É pior do que imaginava. Em live, na internet – a ferramenta preferencial do presidente eleito -, Bolsonaro , entre outros temas, avisou que quer “tomar conhecimento da prova do Enem antes da realização do exame”, o que contraria aspectos técnicos e de segurança. O objetivo, reconhece a própria mídia, é evitar questões sobre LGBTs, por exemplo.

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Bolsonaro em live de meia hora disse que vai “vistoriar” a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) antes que seu conteúdo seja submetido aos alunos nos locais de teste. Bolsonaro criticou algumas questões oferecidas na edição deste ano do Enem, especialmente a relativa à espécie de dialeto falado por gays e travestis, o pajubá. Na mesa, em destaque, o livro “Não, Sr. Comuna! Guia Para Desmascarar as Falácias Esquerdista”.  No fundo, uma Menorá (candelabro), um dos utensílios mais importantes da cultura judaica.

Cada um interpreta como quer. Dentro dos meus conceitos, pela minha formação democrática, e com a responsabilidade de quem tem um casal de filhos em idade escolar, estudantes de uma escola construtivista – o oposto da “escola sem partido”, essa ideia amorfa, que junto com o kit gay, impregnou a campanha eleitoral -, isso é o anúncio de censura prévia. E o esboço de um Index Prohibitorum, como os Index Librorum Prohibitorum (Índice de Livros Proibidos, em latim) que listavam as publicações proibidas pela Igreja Católica em seus anos de trevas, ancorada no terrível Concílio de Trento. Bolsonaro reiterou sua estranha obsessão: questões sobre “ideologias de gênero” não podem entrar no Enem.

A questão é, sim, ancestral: o controle sobre informações e ideologia é a chave de qualquer governo autoritário. Qual a diferença entre isso e colocar censores dentro de um jornal para aprovar o que será publicado? – como na ditadura de 64. Ou entre ler letras de músicas, roteiros de peças, ver cenas de filmes, para filtrar o que pode chegar ao público e o que não pode? Sob censura, nos anos de chumbo, os jornais – que apoiaram o golpe -, buscaram, depois do AI-5, maneiras criativas de driblar e, ao mesmo tempo, denunciar o estado de exceção. O Estado de S. Paulo passou a publicar trechos de “Os Lusíadas”, poema épico do português Luís de Camões, nos espaços das matérias vetadas pelos censores. O vespertino da empresa, “Jornal da Tarde”, recorreu a artifício semelhante, publicando receitas culinárias. O JB, na época gloriosa de Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, produziu uma célebre primeira página em que se valeu de recursos como a previsão do tempo – “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…” – e de um anúncio no alto da página: “Ontem foi o dia dos cegos”.

Em sua live, ao lado de uma intérprete de Libras – porção inclusiva de seus vídeos, certamente o conselho de algum marqueteiro esperto -, Bolsonaro aproveitou também para falar sobre o perfil do próximo ministro da Educação, alguém que tenha “autoridade” suficiente e esteja alinhado com o Brasil “conservador”. Bolsonaro disse que o nome será anunciado muito em breve. Um dos cotados é o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, que defende a revisão bibliográfica e curricular para evitar o “ensino partidarizado” e acredita no revisionismo da ditadura de 1964, para amacia-la em uma revolução contra o comunismo. No Congresso, o novo governo vai tentar aprovar o projeto da “Escola sem partido”.

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Livro contendo a lista do Index Librorum Prohibitorum (Veneza, 1564); René Descartes, um dos notáveis a ir para o Index; protesto contra a Censura durante a ditadura; “Tempo negro. Temperatura sufocante”, a atualidade de Alberto Dines, morto recentemente, aos 86 anos; e o tema da redação do Enem 2018, “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

O Enem, é bom lembrar, é realizado desde 1998 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação. Mas foi em 2009 que o Enem passou a ser aplicado como forma de acesso ao ensino superior. A metodologia não é a mesma dos vestibulares tradicionais. As questões apresentadas não são elaboradas integralmente por um mesmo grupo, mas escolhidas entre itens dispostos em um banco de dados com milhares de questões já aplicadas por diversos professores, há anos. Uma rara voz do atual governo a se manifestar, e de forma absolutamente técnica, foi Maria Inês Fini, presidenta do Inep, a autarquia responsável pela realização do Enem. “Não é o Governo que manda na prova”, explicou Fini ao El País. A elaboração das questões é de responsabilidade exclusiva da área técnica. “O Inep tem uma diretoria específica de técnicos consagrados que com a ajuda de uma série de educadores e professores universitários de todas as regiões do país elaboram a prova”, disse ela. Maria Inês Fini não será a próxima ministra da Educação.