A teologia da compreensão: Boff perdoa Ciro e ensina que é possível falar com o coração e não com o fígado

Ciro Gomes xingar alguém não é novidade. A trajetória política de Ciro é uma coleção de impropérios e ofensas, sejamos coerentes, dirigidas a pessoas de todo espectro político. Ele também é um bom orador, considero-o um sujeito articulado e inteligente e, sem dúvida, seria meu voto no segundo turno, se fosse ele a enfrentar o Coiso. Mas, bom, Ciro tem a língua solta. Xinga como quem espirra. Sai meio que involuntariamente. Normalmente, Ciro não xinga na cara. Xinga quando o ofendido está bem longe. Ou quando não pode se defender, como o repórter em Roraima, botado pra correr por seus seguranças. O repórter mandou mal demais. Mas é razoável ofendê-lo? Os ciristas, claro, piram. Dessa vez, a metralhadora giratória do ex-presidenciável do PDT, aquele que passou toda a transição do primeiro para o segundo turno na Europa e depois voltou sem apoiar Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro – não que isso tivesse salvo o petista, mas será uma omissão política que marcará sua vida pública – dessa vez mirou o teólogo Leonardo Boff.

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Boff, expoente da teologia da libertação no país e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluído, é para Ciro Gomes um “bosta” e “bajulador” de Lula. Ciro precisa urgentemente entrar numa máquina do tempo e voltar de 2022 para o final de 2018. Por que a coisa aqui está feia.

Quando li a primeira vez, achei que era fake news. Nem Ciro seria capaz de ofender Boff. Nem é pela barba branca, mas é como xingar Papai Noel porque não gostou dos presentes de Natal. O que fez Boff para despertar a ira de Ciro. Bom, Boff é amigo de Lula. Um dos amigos mais íntimos. Pseudônimo do catarinense Leonardo Genésio Darci Boff, hoje com 79 anos, expoente da teologia da libertação no país e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluídos, o teólogo, escritor e professor universitário, graduado em Teologia no Instituto dos Franciscanos de Petrópolis do Rio de Janeiro e doutor em Filosofia e Teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha, já fez ele mesmo críticas ao PT. Aos excessos cometidos pelo partido, aos erros, aos desvios de sua história. E as levou a Lula. Não é um puxa-saco, é um amigo e um conselheiro. Mas em tempos de ódio, ricocheteiam sobre todos balas dirigidas a Lula.

À Folha de S. Paulo, nesta quarta, 31, Ciro jurou que nunca mais vai fazer campanha para o PT – uma salva de palmas para ele – e não revelou em quem votou no segundo turno. Oi??? Tá, ok, mas quando devia parar para respirar, Ciro puxou todo o oxigênio do cérebro e entrou no modo desgovernado. “Eles (“eles” são os petistas, tá gente) podem inventar o que quiserem. Pega um bosta como esse Leonardo Boff (que criticou Ciro por não declarar voto a Haddad). Estou com texto dele aqui. Aí porque não atendo o apelo dele, vai pelo lado inverso. Qual a opinião do Boff sobre o mensalão e petrolão? Ou ele achava que o Lula também não sabia da roubalheira da Petrobras? (…) O Lula se corrompeu por isso, porque hoje está cercado de bajulador, com todo tipo de condescendências”, vomitou. Frei Betto é outro desses “bajuladores”, na concepção de Ciro.

Engraçado, eu fico aqui pensando se Ciro, mesmo sem subir no palanque de Haddad, tivesse dado uma entrevista, na véspera do segundo turno, chamando Bolsonaro – a quem já xingou antes – de “bosta”. Mas Ciro não vive no país de Bolsonaro, nesses quatro anos de mandatos dados ao ditador. Pode voltar para a Europa a hora que quiser, entrar num período sabático, alegar exílio político, ou uma baboseira dessas. Só que Ciro foi esmagado pela teologia da compreensão de Boff, que, ao invés de devolver as ofensas – ele jamais faria isso – disse que entende o excesso do pedetista causado pelo seu caráter furioso. “Minha posição é dos filósofos, dentre os quais me conto: nem rir nem chorar, procurar entender. Entendo seu excesso a partir de seu caráter iracundo, embora na entrevista afirma que ‘tem sobriedade e modéstia’”, disse Boff ao UOL. Para o teólogo, a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) representa um risco à democracia. “Precisamos de uma Arca de Noé onde todos possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade e das violências que poderão irromper”, afirmou.

A diferença entre Boff e Ciro é que o primeiro vive em novembro de 2018, a dois meses do Coiso tomar posse. Ciro vive em 2022.

3 comentários em “A teologia da compreensão: Boff perdoa Ciro e ensina que é possível falar com o coração e não com o fígado

  1. Eu tenho um profundo respeito por jornalistas, nossos escritores do cotidiano, mas, falta nestes seres um fator que em mim exacerba. A radicalidade. Eu sou radical. Este cidadão, Ciro Gomes, é pior que o Coiso. O coiso, diz e faz, ele …

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  2. Analisando friamente, Ciro parece Bolsonaro no destempero. Ciro parece que acha que entramos na era da burrice definitivamente. Quem relincha mais alto ganha! Deu certo para Bolsonaro neste ano, mas dificilmente se repete em 2022.

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