De Willy Wonka a Alice: sem Ministério do Trabalho e maquiando dados de emprego e renda do IBGE, Bolsonaro, eleito por uma fábrica de fake news, quer inventar o País das Maravilhas

“Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil, porque isso daí é uma farsa. (…) Nós temos que ter realmente uma taxa, não de desempregados, uma taxa de empregados no Brasil”.
Jair Bolsonaro, ditador eleito, em 05/11/18, prontinho pra um extreme makeover das taxas de emprego e renda medidos pelo IBGE. Sem Ministério do Trabalho, melhor reclamar pro bispo. Macedo.

“Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”.
Rubens Ricupero, então ministro da Fazenda, em 01/09/1994, em conversa nos bastidores da TV com o jornalista Carlos Monforte, captada por antenas parabólicas de telespectadores antes de entrar ao vivo no Jornal da Globo. Ele se referia ao IPC-r, o índice que reajustava os salários.

Há 88 anos, mais precisamente em 26 de novembro de 1930, uma das primeiras iniciativas do “governo revolucionário” implantado por Getúlio Vargas foi criar o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, chamado por Lindolfo Collor, o primeiro titular da pasta, de “Ministério da Revolução”. A pasta – possivelmente junto com Educação, Saúde, Justiça, Fazenda e Itamaraty, as mais emblemáticas da Esplanada – surgiu para concretizar o projeto do novo regime de interferir sistematicamente no conflito entre capital e trabalho. Até então, no Brasil, as questões relativas ao mundo do trabalho eram tratadas pelo Ministério da Agricultura – sendo na realidade praticamente ignoradas pelo governo. De volta ao passado. O ditador eleito Jair Bolsonaro, que já disse – sim, ele disse na campanha – que quer que o Brasil “volte a ser como há 40 ou 50 anos”, vai superar sua meta. Vai voltar quase 90 anos. Ele confirmou nesta quarta, 07, que vai acabar com o Ministério do Trabalho, que será engolido por alguma pasta nanica. Mais do que isso, Bolsonaro prepara-se para mexer em um dos índices mais confiáveis do país, a metodologia que mede taxas de emprego e renda, divulgada pelo IBGE.  Bolsonaro, que na campanha se aproveitava desse índice para falar mal do “legado petista”, agora chama-o de “farsa”. Nada como um dia depois do outro com uma eleição no meio.

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Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, Ricupero e Getúlio Vargas. O ditador eleito vai extinguir o Ministério do Trabalho, criado há 88 anos, e quer mexer na taxa de emprego e renda medida pelo IBGE, centro de excelência e que usa metodologias internacionais, para “mostrar o que é bom e esconder o que é ruim”, como ensinava Rubens Ricupero. Também vai empurrar o Ministério do Trabalho para dentro de alguma pasta nanica. Se não tem emprego e estamos em liquidação, pra que medir o desemprego, certo?

O tema é um dos mais sensíveis na economia, com uma taxa de 11,9% de desemprego, o que significa que 12,4 milhões de pessoas estão em busca de uma oportunidade. A intenção é evidente: maquiar os números. Tão óbvio que economistas que acompanham os dados de mercado de trabalho e funcionários do IBGE estrilaram. Só para que se tenha uma ideia, o IBGE foi criado em 1936, passou pelo Estado Novo e pelo Regime Militar sem nunca ter sofrido qualquer tipo de interferência de um presidente. Bolsonaro diz se inspirar num pais quebrado, a Argentina, que fez uma intervenção no órgão de pesquisa que causou descrença na taxa de inflação. Depois disso, a revista britânica The Economist deixou de publicar os dados oficiais da Argentina.

Sem Ministério do Trabalho, maquiando os dados de emprego e renda, Bolsonaro, eleito com uma Fantástica Fábrica de Fake News, pode criar o País das Maravilhas. De Willy Wonka, passará a Alice – junto com Ony Lorenzoni, o Gato de Cheshire, e Paulo Guedes, ou Absolem, a lagarta lisérgica que não tira o narguilé da boca -, transmitindo ao país seu “milagre econômico” turbinado por fumaça enquanto negocia com o Congresso, em meio o fog democrático, as leis e mudanças constitucionais que quer. Nesse ponto o marketing será essencial, numa estratégia parecida com a usada pela agência AM4, responsável pela campanha digital do presidente eleito. Se não tem um Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil e mago político do general-presidente Ernesto Geisel, Bolsonaro montou um bem azeitado esquema nas redes sociais. Só terá que desligar a torneira do esgoto das fake news contra seu ex-adversário Fernando Haddad e abrir as comportas das good news de seu governo. No fundo, a mesma coisa.

Bolsonaro, por sinal, está montando o governo mais reacionário do período pós-ditadura. Além dos Onyx e Guedes já anunciados, ele confirmou que o general Augusto Heleno, que já havia sido anunciado como ministro da Defesa, assumirá agora o posto de ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). A Defesa voltará a ser um feudo quatro estrelas: o capitão nomeará um oficial-general, o topo das carreiras no Exército, Marinha ou Aeronáutica. Na Agricultura, adivinhem, a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS) será a dona do latifúndio. Reforma agrária é coisa do passado. MST, chupa! Atual presidente da Frente Parlamentar Agropecuária do Congresso Nacional, conhecida como a bancada ruralista, Tereza Cristina foi indicada pela FPA para o cargo. No Congresso, Tereza Cristina foi uma das principais defensoras do projeto que muda as regras no registro de agrotóxicos.

Em tempo: o TSE, numa atitude insólita e inédita em tempos democráticos – bom, não são mais democráticos – considera antecipar a diplomação de Bolsonaro para antes de sua próxima cirurgia. A Corte sugeriu que a solenidade ocorra no dia 11 de dezembro, um dia antes de presidente eleito ser submetido a procedimento de reversão de colostomia.

Esgoto é a palavra que me ocorre.

2 comentários em “De Willy Wonka a Alice: sem Ministério do Trabalho e maquiando dados de emprego e renda do IBGE, Bolsonaro, eleito por uma fábrica de fake news, quer inventar o País das Maravilhas

  1. Meu caro Ricardo, sinceramente está difícil dar aquela trégua natural de início de governo. A cada dia é um absurdo! Agora o presidente é quem vai avaliar o Enem! Parece piada? Deveria ser, mas não é! Estou doido para encontrar eleitores do sujeito!! Meu Deus, será que é apenas um pesadelo??

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