Sai Honestino, entra Costa e Silva. E a ditadura vai ganhando sua forma – em pontes e vinhetas de TV

Honestino Guimarães, como se sabe, foi um líder estudantil e militante contra a ditadura – estudava geologia na Universidade de Brasília – que desapareceu em 10 de outubro de 1973, após ser preso no Rio de Janeiro. Em março de 1996, sua família recebeu um atestado de óbito, sem explicar a causa da morte. Somente em 2014, recebeu anistia política “post mortem” e teve o atestado de óbito corrigido, tendo como causa de sua morte “atos de violência praticados pelo Estado”. O general Costa e Silva, como igualmente se sabe, comandou o Brasil entre março de 1967 e agosto de 1969, período de fortalecimento da repressão e de práticas de tortura. O Ato Institucional 5 (AI-5), que institucionalizou a perda de direitos, foi sancionado por ele em 1968. O primeiro é, para o ditador eleito Jair Bolsonaro, um desses “vermelhos” que deveriam deixar o Brasil – Ame-o ou Deixe-o, certo Silvio Santos? O segundo é um dos ídolos do ex-capitão, que tem em seu gabinete no Congresso fotos emolduradas de todos os generais-presidentes dos anos de chumbo – aliás, Bolsonaro levará sua galeria de ditadores zumbis para o Gabinete Presidencial?

Pois o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF, louco para se render à ditadura eleita, decidiu encher de orgulho o novo presidente e construiu uma perigosa ponte em um país que flerta com o fascismo, a intolerância e o ódio. Por ordem arbitrária da Corte, a “segunda ponte” do Lago Sul deixará de se chamar Honestino Guimarães para retomar o nome de origem, Costa e Silva. Uma lei de 2015, que renomeou a estrutura, foi declarada inconstitucional. O pedido foi feito, entre outros, por uma procuradora e deputada federal eleita Bia Kicis (PRP), que considerou o rebatismo “inconstitucional e autoritário” por não ter havido consulta popular. Nas redes sociais, Bia, que se declara fã do filósofo de direita Olavo de Carvalho e se concede a presidência do Instituto Resgata Brasil, comemora a súbita notoriedade. Cabe recurso, mas o gesto, em si, já é mais um sinal dos tempos negros que temos pela frente. A placa que antecede a ponte já foi pichada com o nome do ditador Costa e Silva.

Quem quiser consultar o processo pode ver aqui a lista dos saudosistas da ditadura responsáveis pelo pedido de troca de nomes.

Imagens temporarias 8
Da esquerda para a direita: Vinheta do SBT resgatando o slogan da ditadura de 64; o ditador Costa e Silva, em foto oficial sem farda; Post no Facebook da deputada federal eleita Bia Kicis, uma das responsáveis pela ação que mudou o nome da “segunda ponte” do Lago de Honestino Guimarães para Costa e Silva; Honestino Guimarães; “santinho” de outro ditador, Emílio Médici, na onda do Ame-o ou Deixe-o; o estudante torturado e assassinado, em carteirinha da época; Silvio Santos, o lambe-botas de ditadores; e uma foto clássica dos anos de chumbo.

Aguarda-se para breve novas mudanças de nomes em locais conhecidos na capital federal:
– Praça dos Três Poderes para Praça General Emílio Garrastazu Médici;
– Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida para Catedral Edir Macedo;
– Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek para Parque da Cidade Humberto de Alencar Castelo Branco;
– Torre de TV para Torre Brilhante Ustra;
– Centro de Convenções Ulysses Guimarães para Centro de Convenções Antonio Carlos Magalhães;
– Memorial JK para Memorial Ernesto Geisel;
– Memorial dos Povos Indígenas para Espaço Equestre João Figueiredo;
– Biblioteca Nacional de Brasília – Essa pode ser incendiada e virar um monumento aos soldados mortos por guerrilheiros de esquerda.

Sobre o “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, slogan da ditadura recriado pelo SBT do lambe-botas Silvio Santos para impressionar o ex-capitão, a emissora jura que deu meia volta, volver. “A emissora não se atentou para o fato de que a frase remetia ao período do regime militar”, explicou numa nota em que anunciava sua retirada. Foi um “equívoco”. Equívoco uma ova.

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