Animação adulta brasileira da Netflix samba na cara dos hipócritas, na véspera do novo governo, e, claro, já sofre pedidos de censura

Governo autoritário e conservador é aquela coisa meio sem noção mesmo. As famosas bolinhas que dançavam na tela do filme Laranja Mecânica para cobrir cenas de nudez eram só o pontinho preto do iceberg – que custou a degelar e agora volta a ganhar forma, ameaçando devolver o país à Era do Gelo. Para quem acha que a Censura Federal pintou e bordou somente com músicas de Chico Buarque, shows da banda Secos & Molhados, filmes de Glauber Rocha, peças do Teatro Galpão e livros de Cassandra Rios, melhor se aprofundar. Segundo o jornalista e escritor Zuenir Ventura, durante os dez anos de vigência do AI-5 (1968-1978) – dos 21 da ditadura implantada em 1964 -, cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram proibidas, sem contar as novelas e a censura ao jornalismo. Obras que feriam a “moral e os bons costumes”, que expunham os problemas sociais ou que eram consideradas comunistas – é, nem isso mudou -, só poderiam ser liberadas se fossem refeitas, ou eram descartadas na hora. Acredite, nem a Turma da Mônica escapou. O criador Mauricio de Sousa teve problemas em várias histórias do gibi. Em uma, os militares proibiram o título “O Sequestro do Cascão”, porque naquele instante um embaixador estrangeiro, Charles Burke Elbrick, havia sido sequestrado. O censor postado na redação da Abril também implicou com um quadrinho que exibia lateralmente o bumbum de Cebolinha, durante uma cena de banho. Às vésperas do governo Bolsonaro, que não esconde seu pavor homofóbico – a farsa do kit gay não nos deixa mentir -, a Tradição, Família e Propriedade volta a bater à porta. E o terror ao mundo LGBT (ou LGBTQ+, se atualizarmos) parece ser a obsessão dessa gente, que só falta implantar o “Tratamento Ludovico”* nas escolas.

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“Super Drags”, a série onde os personagens do título, Drag Queens, atuam na proteção e resgate de outros homossexuais, apresentados como vítimas da sociedade. O vilão? Um caricato pastor neopentecostal. Magno Malta e cia querem censurar.

A Netflix, onde não faltam filmes adultos, todos devidamente classificados por faixa etária, como manda a lei, lançou no último dia 9/11 “Super Drags”, desenho que conta a história de três super heroínas, que são drag queens – uma espécie de versão LGBT das meninas superpoderosas, só que bem mais explícito. Pabllo Vittar, Trixie Mattel, William Beli e Shangela Laquifa Wadley dublam as personagens. “Super Drags” é a primeira animação brasileira original Netflix, criada por Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut, e tem classificação indicativa para maiores de 16 anos. Se é verdade que não faltam desenhos bizarros nos canais infantis a cabo ou por streaming – e essa é apenas uma constatação de quem assiste com os filhos, vigilante à faixa etária, esquisitices como “O Incrível Mundo de Gumball”, “Apenas um Show” e “Bob Esponja” -, a criação de uma série que represente, com muito humor e acidez, a comunidade LGBT, é bem-vinda. A Netflix produz e adiciona dezenas de animações durante o ano, muitas pesadas, mas nem por isso alvo dos “defensores da família”. Casos de “Big Mouth”, “Rick & Morty, “BoJack Horseman” e “Policial Paradise”. Essa última, por exemplo, para maiores de 18 anos, tem uso de drogas, sexo explícito e zoofilia. Sem falar nos clássicos do “passado” como “Beavis and Butt-Head”, na MTV, e, claro, “South Park”. Nenhuma das séries é para uma criança assistir, todas tem classificação indicativa e a Netflix, como os demais canais, disponibiliza meios de bloqueio para conteúdo adulto.

Já esperando a polêmica, a própria Netflix preparou uma chamada onde Vedete Champagne (na voz de Silvetty Montilla) explica que nem toda animação é feita para crianças – e que esta tem classificação 16 anos (Assista). “Super Drags” (Assista o trailer), obviamente, é alvo porque trata de LGBTs. E é lançado – estratégia ou não – há menos de dois meses da posse do governo mais conservador pós-redemocratização. A série, por exemplo, não poupa idiotices como a “cura gay”, inserindo um vilão bem atual, o profeta Sandoval Pedroso, uma caricatura de pastor evangélico neopentecostal.

Sinal de que vem chumbo grosso aí é que a Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional, uma espécie de TFP parlamentar – sim, ela existe  -, e que tem entre seus embaixadores Magno Malta, o chapa do presidente que ainda não ganhou seu ministério -, quer que a série seja retirada do ar. Acredita que estimula as crianças a “se tornarem” homossexuais e acredita que o desenho fere a família. Já fez uma petição que, supostamente, conta com 15 mil assinaturas. A Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional devia cuidar da própria família e deixar que cuidamos das nossas.

Viva o humor mordaz, libertário e engajado! Censura nunca mais!

* Tratamento Ludovico é uma terapia fictícia de aversão assistida mediante o uso de drogas utilizada no filme Laranja Mecânica. Consiste em expor obrigatoriamente o paciente a assistir imagens violentas por grandes períodos de tempo, enquanto sob efeito das drogas, o que provoca um efeito de experiência de quase-morte. Ao obrigar a ver imagens horríveis de estupros, assaltos e outros atos de violência enquanto sofre os efeitos das drogas, o paciente assimilaria a sensação e se tornaria incapacitado ou se sentiria indisposto se tentasse realizar ou simplesmente testemunhar tais atos de violência. No processo de criação tanto do romance quanto da adaptação cinematográfica de A Laranja Mecânica, tanto o autor do livro Anthony Burgess como o diretor do filme Stanley Kubrick se esforçaram muito para incorporar uma grande quantidade de símbolos ao contexto da história. Esta riqueza em representações da cultura contemporânea e da ciência moderna na obra supõe uma das causas de que a história de A Laranja Mecânica tenha conservado sua atualidade até hoje.

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Alex (Malcolm McDowell) passa por uma sessão do Tratamento Ludovico no espetacular filme Laranja Mecânica (“A clockwork orange”, 1971), do diretor Stanley Kubrick. Um horrorshow, usando a própria realidade como fonte de inspiração.

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