Imperium mediocre, mediocre oraculi

O “ideólogo da direita” Olavo de Carvalho – como costuma ser definido, e ele ama, afinal chamar de ideológico ou filósofo um ultradireitista desqualificado como ele é um tremendo elogio -, cujas concepções, pensamentos e construções filosóficas, que desabam, como um castelo de cartas, ao primeiro sopro ideológico honesto, e que tornou-se a eminência parda do governo Bolsonaro, para ciumeira geral de seus generais estrelados, de seu “Posto Ipiranga” e de seu juiz de estimação, rompeu o silêncio e falou por alguns minutos, por telefone, com a repórter Natália Portinari, do Globo (Leia), onde mostrou-se o que é: um fake news total, um personagem fake, um filósofo fake, um consultor fake, indicando ministros fake. Em um governo que já virou um pesadelo surrealista de Dalí, dois ministros estratégicos vieram do ‘caderninho’ de Olavo. Se Paulo Guedes é o Posto Ipiranga e Sérgio Moro o Posto BR de Bolsonaro, Olavo é o posto ExxonMobil,  que sonha ver o Brasil como um Panamá sem canal, mas com pré-sal suficiente para dar e vender. Olavo é o “Pequeno Príncipe” de Bolsonaro, seu blog de cabeceira. Se merecem.

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Apresentação do Blog de Olavo de Carvalho, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria. Pose de imitador de John Wayne, idolatria aos Estados Unidos e anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba.

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e o futuro chanceler Ernesto Araújo, são, como de resto, ilustres desconhecidos em um ministério sem rostos, de não notáveis, e onde os poucos entes com ligações partidárias são considerados cota pessoal – o que significa que Bolsonaro ignorará os partidos e tentará governar com bancadas movediças, evangélicos, ruralistas, lobistas de planos de saúde e da indústria das armas – e seus dois “superministros” Paulo Guedes e Sérgio Moro. É tosco imaginar que em um mundo onde se pode ler Kant, Rousseau, Hegel, Gramsci, Schopenhauer, Nietzsche, Maquiavel, Marx, Paulo Freire, Heidegger, Comte, Sartre, Adorno, Hume, Tomás de Aquino, Descartes, Platão, Aristóteles, Sócrates – ou, vamos lá, Chomsky, Cortella, Karnal –, alguém ouça o drugstore cowboy Olavo de Carvalho, que se dá tanta importância que lembra – apenas lembra – o afetado e pedante Paulo Francis, mas sem sua genialidade e com muito menos humor. E com um deslumbramento do país em que vive que o faz desprezar o país em que nasceu, um esnobe que pensa que transita mentalmente entre as fronteiras de dois mundo, como se fosse um profundo conhecedor de tudo. Acha que nasceu há dez mil anos atrás, mas mal consegue ficar de pé, engatinha, levanta, dá alguns passos e desaba. Só Bolsonaro e a trôpega direita brasileira para seguir seus conselhos.

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O filósofo e dublê de caçador Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro, tarado por armas, e o filhote de urso que abateu pessoalmente.

Na entrevista ao Globo, ele debocha da repórter – chega a dizer que se apaixonaria por ele, o velhaco -, como se fosse um Deus falando com um mortal nas escadarias do Olimpo. Seu Blog – não dá para opinar sobre alguém hoje sem entrar em suas redes sociais, por mais insalubre que seja o trabalho -, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – em português, “Nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria” – o mostra em uma pose de imitador de John Wayne, que de tão caricatural parece remake de ‘Bonzanza’. A idolatria aos Estados Unidos e o anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba, está lá, puro, direto, sem curvas, conexão total com os babacas que o seguem.

Pretensioso, arrogante, narcisista, mitômano, faz de seu blog um passeio por lambidas na própria virilha e cagação de regras. Está nas principais redes sociais e disponibiliza um “Boletim Olavo de Carvalho”, um emaranhado de baboseiras que parecem coisa do livro “Cartas do Inferno”, do famoso teólogo C. S. Lewis – na década de 1940, C.S. Lewis escreveu uma série que foi publicada no The Guardian, contando a história de um demônio que enviava instruções a um subordinado através de cartas, com o propósito de destruir a fé de um cristão recém-convertido. Em um de seus últimos posts, “Isto explica praticamente TUDO (a caixa alta á dele), mostra, num gráfico simplório, sem fonte, que – respire fundo – a “qualidade do sêmen” masculino, comparada com 1940, caiu vertiginosamente. E abre para debates, com comentários que mostram bem quem é sua claque. “Ou seja estamos cada vez mais femininos…ou ficando ralos. Homens sem testosterona”, comenta um deles. “Meu Deus… junto com isso a testosterona, a virilidade, inteligência, coragem, amorosidade, TUDO vai pro beleléu”, espanta-se uma (!) internauta. Esse é o nível do debate.

Em outro post, ele observa: “A chegada da direita ao poder pelo voto popular foi o acontecimento mais traumático na vida da classe jornalística brasileira. Ela nunca imaginou que tamanha calamidade pudesse lhe acontecer, coitadinha”. O ódio à mídia tradicional, praticamente ignorada por Bolsonaro na campanha e depois de eleito, casa com esses ideais, de quem pretende governar pelas redes sociais. Em vídeo recente (Assista sem esperanças), intitulado “Democracia, o caralho” (isso mesmo), Olavo de Carvalho – estante fake de livros ao fundo e um curioso anel no dedo mínimo -, defende a tese de que a eleição de Bolsonaro é o reencontro do país com sua maioria conservadora. Dizer que o Brasil é uma democracia é uma coisa ridícula. (…) O Brasil não é uma democracia. Isso é uma farsa grotesca, ofensiva, insultuosa, agora vamos ter a democracia com Jair Bolsonaro” diz ele, para quem o PSL será o “grande partido conservador que sempre nos faltou”. Será que ele já ouviu falar em Arena?

Ah, no Facebook, Olavo oferece “Cursos avulsos com 50% de desconto”. Black Friday? Não sei, mas é uma oportunidade que não posso deixar de perder.

7 comentários em “Imperium mediocre, mediocre oraculi

  1. É de lascar, ter de conviver por um tempo ouvindo falar desse escroto. Mas a democracia precisa suportar ideias de qualquer idiota como esse tal de Olavo. Até há pouco tempo nunca tinha ouvido falar desse indivíduo.

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  2. Não concordo com a afirmação de que o tal do olavo de carvalho seja o pequeno príncipe do capetão. O deputado (medíocre) bolsonaro está mais para a blague oswaldiana “não li e não gostei”. Pelo que se conhece do seu, digamos assim, pensamento publicado, pode-se inferir que jamais leu livro algum, mesmo que do olavo, ou pretenda fazê-lo nos próximos anos.
    Para ser condescende, talvez seja possível que tenha lido uma ou algumas antigas fotonovelas, Capricho etc… o que não explica nem justifica a enorme quantidade de insanidades e mentiras que profere cada vez que se pronuncia….

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