Menos Médicos, Menos índios

“Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Hígia, por Panaceia e por todos os deuses e deusas que acato este juramento e que o procurarei cumprir com todas as minhas forças físicas e intelectuais”.
Trecho do Juramento de Hipócrates

“Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente”
Trecho da música “Índios”, do Legião Urbana

“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.
Trecho do artigo 231 da Constituição Federal

O programa Menos Médicos do futuro governo segue dando resultados antes mesmo de Jair Bolsonaro tomar posse. Além de desmontar algo que estava dando certo, e apresentando resultados, por causa de uma birra ideológica com Cuba, o ex-capitão e futuro presidente mostrou que seu governo será uma constante troca dos pés pelas mãos. Na falta de um “Posto Ipiranga” para cada pasta ou assunto – o disponível, Paulo Guedes, será testado na Economia a partir de 1º de janeiro -, e com a absoluta submissão da maioria dos ministros aos seus caprichos (excetuando os generais que espalhou pela Esplanada e o vice falastrão), Bolsonaro seguirá fazendo besteira por se meter onde não entende. Caso da classe médica brasileira. A vinda dos médicos estrangeiros, particularmente dos cubanos, foi tratada por Bolsonaro e pelo deputado Luiz Henrique Mandetta, ortopedista e deputado do DEM, como uma terceirização de um setor essencial para alienígenas, quando se confirma agora que o Mais Médicos apenas supria uma demanda que os doutores nacionais não queriam preencher. Sem os 8.332 profissionais cubanos, ficaram expostos os buracos nos rincões – um deles as áreas indígenas em locais recônditos.

Releia os textos “Dr Richel & Mr Bolsonaro” e também “Menos Médicos, Escolas sem Partido, Drones Exterminadores”.

Das 106 vagas que não foram ocupadas depois da primeira etapa de seleção de profissionais para o Mais Médicos, 63 (59%) estão em Distritos Especiais de Saúde Indígena, os Dseis. Dos 34 distritos de saúde indígenas existentes no país, oito — todos no Norte — ficaram com vagas ociosas depois do término das inscrições no último dia 07/12. Especialistas ouvidos pela mídia atribuem o fato a três aspectos: o isolamento de algumas dessas comunidades, principalmente as da região amazônica, o perfil do estudante de medicina brasileiro e o modo como a carreira médica é feita no Brasil. Para se ter uma ideia, das 11 vagas que foram ofertadas no edital do Mais Médicos para o Tapajós, apenas cinco foram ocupadas. Em comparação, os distritos indígenas do litoral tiveram todas as vagas preenchidas na primeira etapa de seleção.

Não vou ficar aqui lembrando o Juramento de Hipócrates, que, pelo jeito virou o Juramento de Hipócritas. Mas lembrarei que a histórica Fundação Nacional do Índio agora está sob a goiabeira da pastora Damares Alves, futura chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Colocar a Funai com “Tia Damares” só confirma o desprezo do novo governo pelos milhares de índios brasileiros. Bolsonaro já disse que índios em reservas são como animais em zoológicos e “Tia” Damares concordou em rever a “política do isolamento” de indígenas. Bolsonaro também antecipou que vai suspender todos os processos de demarcação de terras indígenas e alterar o status constitucional da Funai, de órgão de defesa do direito indígena para uma instituição subordinada ao interesse agrícola. Para Bolsonaro, as áreas já demarcadas estão “superdimensionadas”. Atualmente, o Brasil tem 436 terras indígenas plenamente reconhecidas —que somam 117 milhões de hectares, 14% do território nacional. O futuro presidente defende que as terras indígenas sejam abertas para empreendimentos de infraestrutura e atividades de mineração.

A Constituição de 1988 estabeleceu que os territórios indígenas no Brasil fossem demarcados pelo Governo federal em até cinco anos. Não foram. Segundo dados da Funai, cerca de 130 terras indígenas estão em processo de demarcação no Brasil e, portanto, poderiam ser afetadas pela medida planejada por Bolsonaro. Outras 116 estão em estudo para aprovação como terra tradicional e mais 484 áreas são reivindicadas para análise.

Talvez o Menos Médicos tenha uma intenção oculta de se inserir no Menos Índios.

“Tia” Damares defende (a sério) “Bolsa-Estupro” na Gilead de Bolsonaro

A pastora Damares Alves, futura chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, e mais conhecida por ser assessora do quase ex-senador e calamitoso cantor gospel Magno Malta, podia estar roubando, matando, batendo em cachorro, mas ela só quer que a República de Gilead a ser fundada por Bolsonaro continue cúmplice das mortes por aborto clandestino. Que atingem, invariavelmente, mulheres negras, jovens, solteiras e com até o ensino fundamental que caem nas mãos de açougueiros e não podem pagar os “abortistas” de classe média. Como solucionar isso? O Prêmio Ideia de Jerico do Ano já está garantido a Damares, que quer agilizar a aprovação do Estatuto do Nascituro, para proteger fetos. O Estatuto inclui o que já é chamado de “bolsa-estupro”, para mulheres que engravidarem de estupradores e decidirem ter o filho assim mesmo. Você leu direito. Estão oferecendo grana para que mulheres se violentem uma segunda vez e tenham filhos de estupradores. A bolsa, segundo o texto do Estatuto, deve ser paga pelo estuprador, mas, se ele não for identificado, o dinheiro sairia dos cofres públicos. É possível algo mais repelente? Não consegui imaginar, e olhem que li as últimas declarações dela (“Eu vi Jesus num pé de goiaba” ficou no top 5), do Mourão, do Ernesto Araújo, do Ricardo Salles e até revi o piti desalinhado do Onyx.

Leia o artigo anterior sobre “Tia” Damares.

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Futura ministra, a pastora “Tia” Damares, defende prioridade para aprovação de Estatuto do Nascituro, que cria o “Bolsa-Estupro” em que – segurem o estuprador o Estado pagariam pensão alimentícia às crianças concebidas de violência sexual. Claro, desde que a mãe aceite não abortar. Grotesco perde.

“O projeto mais importante em que a gente vai estar trabalhando é o Estatuto do Nascituro”, disse ela, chegando, serelepe, ao CCBB Brasília, sede do gabinete de transição, ao ser questionada sobre qual a prioridade da sua pasta no Congresso. Vejam bem, a ministra da MULHER, da FAMíLIA e dos DIREITOS HUMANOS, que ainda contrabandeou para dentro a Funai, a Fundação Nacional do Índio, tem como projeto máximo o “bolsa-estupro”. O Estatuto, na sua versão original, também transformava o aborto ilegal em crime hediondo, mas isso foi retirado do texto numa versão posterior. “Nós vamos estabelecer políticas públicas para o bebê na barriga da mãe nesta nação.” Políticas públicas para o bebê na barriga da mãe. Aí nasce, vem o Escola Sem Partido, o Menos Médicos, o Cultura Nem Pensar, e todo o Método Ludovico de preparar nossas futuras gerações.

Para fechar, vamos aos números. Cerca de 1 milhão de abortos induzidos ocorrem todos os anos no Brasil, por diversas razões – inclusive as previstas em lei: casos em que a gestação implica risco de vida para a mulher, quando a gestação é decorrente de estupro (já previstos no código penal de 1940) e no caso de anencefalia (recentemente julgado pelo STF). Infelizmente em nosso país são poucos os serviços que funcionam regularmente e as mulheres tem dificuldade em encontrar informações sobre eles. Muitos médicos recusam a realizá-los alegando objeção de consciência, principalmente nos casos de aborto decorrente de violência sexual. Os procedimentos inseguros de interrupção voluntária da gravidez levam à hospitalização de mais de 250 mil mulheres por ano, cerca de 15 mil complicações e 5 mil internações de muita gravidade. Nos últimos 10 anos, foram duas mil mortes maternas por esse motivo, numa estimativa muito conservadora. Números mais realistas, de entidades de defesa dos direitos das mulheres, falam em quatro mortes por dia.

Bom dia, Vietnã.

 

Bolsonaro não governa para todos os brasileiros e deixa claro que faz distinção ideológica; Rosa Weber lembra direitos humanos e respeito às “minorias estigmatizadas”

“Aos que não me apoiaram, peço sua ajuda. (…) Governarei em benefício de todos”.
Jair Messias “Moisés” Bolsonaro, em discurso de diplomação no TSE. Logo depois lembraria que o país tem diferenças “ideológicas” e interesses “alheios” aos seus. E seria lembrado por Rosa Weber, presidente do TSE, que era o Dia Mundial de Direitos Humanos, o que ele – e seu ghost writer – ignoraram. TSE, 10/12

Por mais que eu estivesse hipnotizado pelas tradutoras de Libras (linguagem de surdos) – a do presidente eleito e a do Tribunal Superior Eleitoral -, consegui entender o fundamental na cerimônia nada animada e com viés de saia justa de diplomação do ex-capitão Jair Bolsonaro e de seu vice, o general Hamilton Mourão, pelo TSE. Parecia um dia normal na vida de todos, da nossa democracia, uma ida ao mercado para fazer compras, mas para quem sabe ouvir e interpretar havia muito de subliminar nos discursos. Bolsonaro, por exemplo, elogiou a Justiça Eleitoral e disse que governará para todos, pediu ajuda aos “que não me apoiaram”, mas, de forma absolutamente calculada – e dispensável para quem supostamente chega ao poder para unir o país – frisou que veio para acabar com o que chamou de “ruptura com práticas que historicamente retardaram nosso progresso” e prometeu acabar com “manipulação ideológica e submissão de nosso destino a interesses alheios”. Foi mais longe, numa frase que me calou fundo. “O poder popular não precisa mais de intermediação”, disse. A referência palpável, como disse, era às novas tecnologias que permitem uma “relação direta entre o eleitor e seus representantes”. Mas o que Bolsonaro fez, naquele momento, foi mandar para as cucuias as instituições, incluindo partidos políticos – o que já mostrou indicando seus 22 ministros pela patente ou por indicação de alguma bancada reacionária.

Bolsonaro não apenas convidou para a cerimônia, de forma inédita, sua claque aquartelada, como fez questão de agradecer a presença, com a mesma cerimônia, dos representantes do Judiciário, do Congresso e dos “chefes militares”. “Jamais devemos afastar dos ideais que no unem, como o amor à Pátria” e “Vamos resgatar o orgulho de ser brasileiros” foram algumas das frases daquele que provavelmente é o discurso mais tosco do pós-democracia – reveja parte do discurso de Lula, em 2002. Aplaudido pelos presentes ao final do discurso, Bolsonaro fez o que foi ensinado a fazer quando está feliz. Bateu continência. É o novo cacoete, que conviverá com aquele gesto das arminhas com os dedos, como fez durante toda a campanha, ensinando até uma menina de colo a repetir, coisa linda – se você tem filha, então, ô.

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Bolsonaro em sua diplomação no TSE: destacou as diferenças ideológicas no país, enquanto Rosa Weber lembrou ao ex-capitão o respeito à Constituição, aos Direitos Humanos e às minorias

O discurso de Bolsonaro teve um contraponto, pelo menos pra mim, até certo ponto, inesperado. Se fez parte de todo “O Processo”, Rosa Weber, a presidente do TSE, representando o Judiciário – “com Supremo, com tudo” – deu alguns recados muito diretos par Bolsonaro – e deixei claro que falava “especialmente” para ele e Mourão. Weber começou repelindo “rupturas no processo democrático que desprezem o processo democrático” até lembrar – o que Bolsonaro ignorou, por ignorância ou conveniência – que estávamos no Dia Mundial dos Direitos Humanos. Vou repetir: Dia Mundial dos Direitos Humanos – não é uma data que um futuro presidente devesse ignorar em sua diplomação. Se fosse o Dia do Guarda da Esquina ele lembraria.

Weber – que não é Max, mas mandou bem -lembrou que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completava 70 anos e que, entre seus preceitos, estava a não “distinção de orientação sexual, identidade de gênero ou qualquer outra condição”. Para um futuro presidente que já se mostrou reacionário nos chamados direitos civis, homofóbico e que pretende implantar o tal do ‘Escola sem Partido’, aberração pseudo-educacional que prega o fim do ensino sexual e proíbe disciplinas que tratem de ‘ideologia de gênero’ e usem o termo ‘gênero’ ou ‘orientação sexual’, foi na mosca.

Foi mais longe. Sem citar nominalmente a ditadura implantada em 1964 – que Bolsonaro, Mourão e os militares presentes chamam de “revolução” e cujo legado” defendem, afirmado que os governos da época conquistaram avanços importantes, principalmente na área econômica -, lembrou “tempos especialmente sombrios” que desrespeitavam os direitos humanos. É quase certo que alguns militares cravaram as unhas nas braçadeiras de suas poltronas. “Em um país de tantas desigualdades, refletir sobre declarações não é mero exercício teórico, mas necessidade para governantes e governados”, disse ela. “A democracia não se resume à escolha periódica, mas exercício constante de diálogo e tolerância, mútua aceitação da tolerância. (…) Em uma democracia, maioria e minoria (..) hão de conviver sob a égide dos mecanismos constitucionais”, insistiu, caso alguém não tenha entendido, citando o “respeito às minorias estigmatizadas”. “A democracia repele a noção autoritária do pensamento único. É do respeito democrático a convivência dos opostos”, lacrou.

Rosa Weber incluiu um outro tema na ordem do dia, mais do que fundamental. Lembrou os “refugiados e pessoas deslocadas”, referência indireta – mas óbvia -aos venezuelanos que seguem para Roraima, e agora convivem com uma estranha intervenção federal. Alguns patéticos presentes gritaram “mito” ao final da cerimônia. Mito, antes que eu me esqueça, era Gandhi, não Gengis Khan.

“Tia” Damares parece saída do “Conto da Aia” na distopia real, o futuro governo Bolsonaro

Acabei a segunda temporada do “Conto da Aia”, e fiquei triste. Mas a série, baseada no livro da escritora canadense Margaret Atwood, é só o gancho para esse texto. Infelizmente, por sua atualidade: revelando o funcionamento perverso de estruturas sociais e políticas em uma América que tornou-se uma teocracia totalitária fundamentalista cristã, passando a se chamar República de Gilead. Dividido em castas e com a maioria dos direitos civis suspensos, o país enfrenta, numa distopia assustadora, a queda nas taxas de natalidade transformando mulheres férteis em reprodutoras – as aias. Foi pranteando o fim da temporada que, no grupo de whatsapp dos meus irmãos, recebi um artigo do site Hypeness (Leia, se possível depois de ler esse texto) comparando o pensamento defendido pela pastora Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, com o pensamento da República de Gilead, a nação patriarcal militarizada, que tem a bíblia como Constituição. Achei tão chocante que resolve ir mais longe e ampliar o pensamento vivo da “Tia” Damares, tomando emprestadas algumas frases selecionadas pela Hypeness. É bom que se diga que ler/assistir “Fahrenheit 451“, “Nós“, “Admirável Mundo Novo“, “1984“, “Laranja Mecânica” e outras obras deveria ser obrigatório para quem se diz de oposição a esse estado de coisas. A luz vermelha vai acender na hora.

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Damares Alves, futura chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que parece uma “Tia” saída do Conto da Aia; Tia Lydia, a tutora de Aias do seriado, interpretada pela premiada atriz Ann Dowd; o senador Magno Malta, quando ainda era amigo do peito de Bolsonaro; e deputado Hidekazu Takayama, presidente da Bancada de Gilead, digo, Evangélica, mostrando o tamanho de sua influência no futuro governo.

É bom que se diga que Damares, pastora voluntária na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, que admite a união homoafetiva – o que causou uma turbulência com seus padrinhos da bancada evangélica no Congresso, que considera a luta contra os direitos gays uma de suas maiores bandeiras -, mas é radicalmente contra o aborto e reduz o papel das mulheres na sociedade ao de sombra dos homens -, não é o pior que o universo neopentecostal produziu. A ex-assessora do ex-“vice dos sonhos” Magno Malta (PR-ES), cantor gospel e dublê de senador (em alguns dias, ex-senador) que se afastou de Bolsonaro por não receber indicação para coisa alguma, não era a ministra da Família dos sonhos da Bancada de Gilead. Eles indicaram, numa lista tríplice, os deputados Gilberto Nascimento (PSC-SP), delegado de polícia, Marco Feliciano (Podemos-SP), pastor da Catedral do Avivamento, igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus, e Ronaldo Nogueira (PTB-RS), pastor da Igreja Assembleia de Deus. Sentiu o drama? Ah, Damares Alves é apenas a segunda mulher no governo de Bolsonaro. Além dela, Tereza Cristina, indicada por outra bancada, a Ruralista (do Agronegócio, para os mais finos) será ministra da Agricultura.

Mas vamos a algumas frases epistolares da futura ministra, “Tia” Damares, ditas após ser indicada e em palestras disponíveis na internet ou nas entrevistas que costuma conceder a sites. Todas as frases foram checadas e rechecadas.

“Não são os deputados que vão mudar essa nação, não é o governo que vai mudar essa nação, não é a política que vai mudar essa nação, que é a Igreja Evangélica, quando clama. É a igreja evangélica, quando se levanta, que muda a nação”.

“As instituições piraram nesta nação. Mas há uma instituição que não pirou. E esta nação só pode contar com essa instituição agora. É a igreja de Jesus. (…) Chegou a nossa hora. (…) É o momento de a igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar”.

P.S. O Estado é laico. Art. 19, inciso I da Constituição Federal de 1988: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.

Esse artigo deixa claro que as decisões tomadas no Brasil não devem ser baseadas em princípios ou regras que façam parte de qualquer doutrina ou religião que exista no país.

“A mulher que aborta acreditando que está desengravidando, ela não está desengravidando. (…) Ela caminha o resto da vida com o aborto. Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira”.

“Nós queremos um Brasil sem aborto. De que forma? Um Brasil que priorize políticas públicas de planejamento familiar. Que o aborto nunca seja considerado e visto nesta nação com um método contraceptivo. O aborto apenas nos casos necessários e aqueles previstos em lei. Mesmo aqueles, eu tenho certeza que, quando é oferecida para a mulher uma outra opção, a mulher pensa duas vezes”.

“Nós vamos trabalhar nessa linha. O maior direito do humano é o direito à vida, e a pasta vai desde as mulheres, até a infância, idoso, índio. Vai ser a proteção da vida”.

“As feministas promovem uma guerra entre homens e mulheres. Me preocupo com a ausência da mulher de casa. Hoje, a mulher tem estado muito fora de casa. (Me preocupam) funções que a mulher tinha no passado, principalmente em relação às crianças”.

“Eu costumo brincar o seguinte: como eu gostaria de ficar em casa, toda tarde, numa rede, me balançando, e meu marido ralando muito para me sustentar e me encher de joias e presente. Esse seria o padrão ideal da sociedade. Mas, infelizmente, não é possível, temos de ir para o mercado de trabalho”.

“Gente, ó, Funai não é problema, índio não é problema. Funai não é problema neste governo. O presidente só estava esperando o melhor lugar para colocar a Funai”.

“Eu acredito que o presidente (Bolsonaro), quando falou (em parar as demarcações), tinha embasamento. Questiono, particularmente, algumas áreas indígenas. Mas este é um assunto que vamos discutir muito. Não vai ser uma decisão somente do Ministério dos Direitos Humanos. O mais precioso bem que está em área indígena é o índio. Índio não é só terra, é gente, é ser humano.”

Armem as barricadas, cavem as trincheiras ou fujam para as montanhas – se forem, deem um abraço no Cabo Daciolo.

Meninos Bobos e Levados querem sequestrar a UNE. Tolinhos…

O grupo de direita MBL, ou Movimento Brasil Livre, mas que poderia ser Meninos Bobos e Levados, quer roubar a UNE, a histórica União Nacional dos Estudantes, relevante na luta contra a ditadura e a favor do impeachment de Fernando Collor. As vozes pró-impeachment de Dilma, pro-Temer e Bolsonaro botaram na cabeça que, no governo Bolsonaro, da Escola Sem Partido e dos Estudantes Sem Cérebro, sua missão é transformar o movimento estudantil em mais uma versão com celular e tatuagens da Juventude Arenista. Surgiu, assim, o MBL Estudantil – pode rir, é impossível não deslocar o maxilar nessa frase -, cujo objetivo é alcançar um público que começa no 5º ano do Fundamental 2 até universitários. Ou seja: a partir dos 10 e 11 anos. A missão declarada – continuem a rir – é formar uma nova geração de jovens conservadores que defendem, nas palavras de Pedro D’Eyrot, “a liberdade econômica e os valores culturais do ocidente como a democracia, a filosofia grega e a moral judaico-cristã”.

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Pedro D’Eyrot, idealizador do MBL, em um registro de 2009, muito antes do MBL.  Reprodução: Instagram.

Quem é Pedro D’Eyrot? Ah, é o ex-músico da banda “Bonde do Rolê”, que ajudou a introduzir a cantora pop Pabllo Vittar ao meio músico e que, depois, entediado, criou o MBL. O grupo ocupou o posto principal de mobilizador dos protestos que resultaram no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Hoje tem 2,5 milhões de seguidores no Facebook, incluídos os robôs. E como o MBL vai rivalizar com a UNE? Ora, oferecendo cursos online, vídeos e cartilhas que possam preparar a garotada para discutir com professores em sala de aula e se engajar no movimento estudantil. Como se sabe, o MBL também planeja se tornar um partido político só pra chamar de seu. Hoje estão majoritariamente acampados no DEM e PSDB. Sinceramente, é um movimento natural em época de trevas. Aguarde uma versão de direita da CUT – opa, já existe, desculpe Paulinho da Força” -, do MST e do MTST.

O MBL chama essa nova fase de “segunda metamorfose“. Começou no final de 2014 como um grupo que se dizia apartidário e anticorrupção para pedir o impeachment de Dilma Rousseff e defender o liberalismo econômico. Depois, passou a se associar a partidos de centro-direita para eleger algumas de suas lideranças para legislativos municipais nas eleições de 2016, ao mesmo tempo que se expandia nas redes e se colocava como tropa de choque de pautas conservadoras. Agora, após eleger com grandes votações alguns de seus principais líderes – Kim Kataguiri, Arthur “Mamãe Falei” do Val e Fernando Holiday -, desenha a sua estratégia para continuar a ser influente no Brasil do governo ultradireitista Jair Bolsonaro.

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Tabela de preços de doações do MBL: de Agente da Cia a Rolo Compressor. Que tal contribuir com R$ 1 mil por mês para que bobocas imberbes o representem?

O braço estudantil do MBL foi lançado durante o 4º Congresso Nacional do MBL, realizado em São Paulo nos dias 23 e 24 de novembro. Ainda não está claro se vai participar de eleições na UNE ou na União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), ou se vão criar sua própria “Central de Estudantes”. A UNE é referência por ser a principal e mais antiga entidade estudantil brasileira, lançada em 1938 para representar os alunos do ensino superior. Vinculada historicamente a partidos de esquerda, foi responsável por lançar alguns de seus principais quadros na política, como o deputado federal Orlando Silva (PCdoB) e os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e José Serra (PSDB-SP) —este último presidia a organização em 1964, na ocasião do golpe militar, e acabou exilado junto com outros estudantes.

O dia em que votei em Bolsonaro

(Contém spoiler de The Walking Dead)

Fã da obra original em quadrinhos e também da série The Walking Dead, aprendi um truque para, em alguns momentos, me misturar aos zumbis sem ter que perder meu cérebro. Me embrenhar na horda. Na maneira mais rústica, espalhar pelo corpo os restos mortais, vísceras e carnes, salpicar sangue pelo rosto, e ir em frente. Mas um novo grupo de sobreviventes, os Sussurradores, sofisticaram o disfarce. Eles usam a pele dos zumbis para andar entre as hordas. O que isso tem a ver com esse artigo? Bom, foi assim que votei em Bolsonaro.

Quer dizer, óbvio que não votei. Mas votei. Disse que votei. Pra que? Pra me misturar nas hordas. Entender o que pensam os caminhantes. Sem nenhuma esperança de conversão, isso foi estratégia da campanha, mas para furar a bolha, tentar argumentar, sem que o interlocutor já me rotule rapidamente como “petista” – não sei se perceberam, mas na cabeça dessas pessoas, ser de esquerda é ser petista -, e ignore o meu lado no diálogo. Sim, tem um sadomasoquismo nisso tudo.

A corrida seguia em silêncio, era noite, estávamos cansados, eu e ele, quando puxei assunto com o taxista. Um morador do subúrbio do Rio, que vive com dificuldades, odeia a ex-mulher, como odeia o Uber, e ama os filhos, como ama a possibilidade de um dia acertar as seis dezenas na MegaSena.

– O que o sr está achando do nosso presidente? – arrisquei.
– Ele ainda não assumiu, né. Tenho muita esperança.

Logo surgiu o assunto dos médicos cubanos. Citei que tinha um irmão médico para me dar algum respaldo técnico. Essa parte é verdadeira.

– Vai ter muita cidade sem médico. Podiam ter deixado os cubanos aqui. Eram odiados pela classe médica, mas ajudavam o povo.
– Eram escravos. O governo de Cuba pegava 70% dos salários deles. E já preencheram as vagas. Só queriam espalhar comunistas no meio do nosso povo.

É impressionante como esses sujeitos são esponjas da mídia. Uma vez abduzidos, compram tudo o que diz a mídia. Tentei explicar que isso não era verdade, que a contratação dos cubanos é diferente, o pagamento é feito por meio da Opas – por que fui falar em Opas?- , e que não preencheram as vagas. Muitos se inscreveram, mas menos de 30% dos profissionais inscritos no edital do Mais Médicos já se apresentaram aos municípios para iniciar as atividades. A maior parte não quer trabalhar no interior. Há vagas em áreas indígenas e em cidades com 20% da população ou mais em situação de extrema pobreza.

– O sr é comunista?
– Eu sou flamenguista – sorri suavemente.

O clima ficou tenso. Devia ter dito que era palmeirense. Elogiei a escolha dos militares por Bolsonaro. Cinco generais e um almirante na Esplanada, fora ele, um ex-capitão, e militares no segundo escalão, na equipe de transição, por todos os lados. Ele se sentiu confiante de novo. Elogiou o vice Mourão e o chefe do GSI, Augusto Heleno.

– Meu pai conhece o Augusto Heleno. É um herói nacional. Como Caxias.

Gelei.

Você não acha ruim para o país fechar a Embaixada da Palestina do Brasil “porque a Palestina não é um país” e transferir a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém – para repetir o Donald Trump? A balança comercial com os árabes é muito mais importante. Somos um país em crise.

Ele não sabia o que era Opas, mas sabia o que era Hamas. Mudei de assunto de novo. O táxi seguia seu caminho. Ruas desertas.

– Seus filhos estudam? – perguntei.

– Escolas públicas.

Meus filhos estudam numa escola construtivista na Barra da Tijuca. Eu estava quase sem vísceras. Parecia cada vez mais…humano. Perguntei seu nome pela primeira vez.

– Fulano, você não acha errado que nossos filhos sejam proibidos de ter educação sexual nas escolas? Não é melhor que entendam e respeitem as diferenças de gênero?
– O sr quer um filho viado?

A resposta direta seria uma armadilha. Ele me colocou no córner.

– O sr sabia que quanto mais as crianças sabem sobre sexo, mais eles querem transar? Ex-pe-ri-men-tar, soletrou.

E fez uns trejeitos supostamente gays.

– E o atentado contra o presidente, hem? Mas ele parece bem. Comemorou o título com o Palmeiras… Qual o seu time?
– Flamengo.

Tínhamos algo em comum

– Bolsonaro é Vasco, né.

Silêncio. Estávamos quase chegando. Lembrei a ele que Mourão assumiria a Presidência, simbolicamente, em 1º de janeiro. Trinta e quatro anos depois do general João Baptista Figueiredo deixar o Palácio do Planalto, um representante das mais altas patentes do Exército voltaria a ocupar a presidência do Brasil — embora por poucos dias. Vice-presidente eleito, o general da reserva assumirá o comando do país por cerca de duas semanas. Esse é o período estimado para a recuperação de Bolsonaro, que vai retirar a bolsa de colostomia que o acompanha desde o “atentado” a faca sofrido durante a campanha.

Ele percebeu que fiz aspas com os dedos indicadores quando falei em atentado. Não importava mais. A viagem antropológica e política foi didática. Vou repetir. Até um dia ser desmascarado e possivelmente ser largado em algum acostamento vazio.

A falta que faz um João Saldanha… E como Bolsonaro reviveu Médici

“O general nunca me ouviu quando escalou seu Ministério. Por que, diabos, teria eu que ouvi-lo agora?”
João Saldanha, então técnico da seleção brasileiras nas eliminatórias de 1969, respondendo a comentário do presidente da República, general Emílio Garrastazu Médici, que resolveu “escalar” Dario “Peito de Aço”. João foi demitido. Zagallo assumiu.

1969. João Saldanha e suas 22 feras. Depois do fiasco de 66, na Inglaterra — quando os bicampeões foram eliminados na primeira fase do Mundial, após duas surras para Hungria e de Portugal — só mesmo um time de feras para recuperar o prestígio de nosso futebol. Saldanha, à época o jornalista esportivo mais respeitado do país – e o foi até sua morte -, convocado para dirigir o scratch nas eliminatórias, aceitou o desafio. Mas não era só isso, infelizmente, que vivíamos fora de campo. Saldanha sempre teve noção da encruzilhada em que se colocara: a chance profissional de sua vida e a convivência com um regime de exceção, com influências, inclusive, na CBD – hoje CBF. O “João sem medo” vivia no “País com Medo” – para os militares, o país que “ninguém segura”. De convicções políticas claras — era comunista — João nunca se dobrou à ditadura militar que governava o país. Algum tempo depois foi demitido e começava a Era Zagallo – que talvez ainda não tenha acabado. Era Dunga, Família Scolari. E no meio Coutinho, Lazaroni, Luxemburgo, Leão, Mano e, agora, Tite- com um gênio no meio deles, Telê Santana. O país deixou para trás a ditadura e, aos trancos e barrancos, vem tentando se manter a democracia, mas no futebol, jogadores e dirigentes, seguem servindo ao “general” de plantão. Ainda que ele seja um ex-capitão.

Esse fim de semana, revimos a família Scolari, com o treinador dessa vez encastelado no Palmeiras, merecido campeão brasileiro. Mas que vergonha me deu ao ver o presidente eleito Jair Bolsonaro, palmeirense de ocasião, depois de assistir o “jogo da taça” no camarote dos dirigentes palmeirenses, descer ao gramado, com o crachá da CBF, vestindo a camisa 10 do Palmeiras e erguendo a taça de campeão brasileiro. Os gritos de “mito” por parte dos 41 mil torcedores que lotaram o Allianz Parque –  construído pela WTorre, envolvida na Lava Jato – para o último jogo do campeonato, foram ressaltados pela mídia, que preferiu ignorar os opositores – o toque distópico nesse pesadelo em que nos metemos. Assim como tratar como normal que um presidente eleito com bolsa de colostomia e tudo possa fazer essa farra – erguer taça, dar volta olímpica, que diabo de facada foi essa? Como não lembrar do general Emílio Garrastazu Médici – que, como Bolsonaro, parecia gostar honestamente de futebol – erguer a depois ‘derretida’ taça Jules Rimet ao lado de Pelé, Carlos Alberto e seus “canarinhos” apolíticos.

Ser apolítico em meio a uma ditadura sanguinária é como ser assexuado no meio de uma suruba do fim do mundo.

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Um caleidoscópio: De Médici a Bolsonaro. Palmeirense fake, o vascaíno Bolsonaro usou final do campeonato como estratégia de marketing. Mas aparentemente ele veste até a camisa do Íbis pra ganhar popularidade. Felipão e Felipão Melo batem continência, Bigode passa direto.

Médici era da “linha dura”, a ala mais radical dos militares. Seu governo foi, talvez, o mais repressivo da história política do Brasil, resultando na morte e tortura de centenas de oposicionistas, acusados ou suspeitos de “subversão”. Foi também um período em que parte da oposição decidiu partir para a luta armada. E veio  a Copa de 70. Criou-se um paradoxo nacional, bem retratado no filme “Pra frente, Brasil”. A associação com quem o futuro presidente que admira o regime militar que torturou, matou, censurou e exilou só mostra que o futebol – seus jogadores e dirigentes – não aprendeu nada com a história. Fernando Henrique Cardoso, em seu turno, ergueu a Taça Fifa, abraçou Ronaldinho ‘Cascão’ e festejou com Ricardo Teixeira – um dos três ex-comandantes da CBF (Ricardo Teixeira, Marco Polo Del Nero e José Maria Marin) presos e acusados de lavagem de dinheiro, estelionato, crime contra a ordem tributária, crime contra o sistema financeiro nacional, organização criminosa e crime eleitoral. Lula fez o mesmo com a taça da Copa América, em 2004.

Não se sabe há quanto tempo o carioca Bolsonaro é palmeirense – mas, digamos, ele se converteu na hora certa. Aparecer no último jogo do Brasileirão, com o Palmeiras já campeão – o ex-presidente Lula é uma corintiano fanático -, foi uma boa jogada. Não se tem notícias de que levou vaias. Mas memes nas redes sociais o mostravam como uma metamorfose ambulante: com camisas de diversos times, especialmente o Rio e de São Paulo – Flamengo, Vasco Fluminense, Corinthians, etc. O volante Felipe Melo, que durante a campanha eleitoral já havia dedicado um gol a Bolsonaro – esse ogro ainda surpreende alguém? – prestou continência ao capitão. Mas em cenas vistas e revistas nas redes, é possível perceber que pelo menos um jogador do Palmeiras, por distração ou convicção, deixou Bolsonaro no vácuo, rindo sozinho. William Bigode passou batido por Bolsonaro, e sequer o cumprimentou na entrega das medalhas. Já temos nosso jovem Saldanha. Será ele expurgado do Palmeiras?

Em nome do pai: Eduardo, Flávio e Carlos se bicarão na deep web política

Em nome de Bolsonaro, de Eduardo, Flávio e Carlos Bolsonaro e do espírito de porco, amém. Não citarei Laura e Renan Bolsonaro, menores de idade – ainda assim, foram usados na campanha. Dizer que Eduardo, Flávio e Carlos são mimados não reflete plenamente essa família rodrigueana. A extensão de seu trabalho – repare que nenhum foi nomeado, não por pudor ético, para cargo algum, e que até o filho Eduardo, antes cotado para presidir a Câmara, já foi descartado, assim como Carlos para a Secom, e Flávio para a liderança do Governo no Senado -, está nos bastidores. Na capacidade – e credibilidade momentânea, para parte da população – de espalhar boatos pelas redes, agir nos bastidores, baforar, sem tragar, cortinas de fumaça, saiam do gabinete 905 da Câmara Municipal do Rio ou dos subsolos da transição.

Carlos, o twitteiro, escreveu na noite de 26/11, que a morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após a sua posse. “É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. Sempre fiz minha parte exaustivamente. Pensem e entendam todo o enredo diário”, recomendou o tuíte do vereador, reabrindo um tema da campanha, que impulsionou o pai e só interessa ao presidente eleito. Lentamente, entendi isso. Questionar a motivação do doido de pedra Adélio Bispo de Oliveira, o esfaqueador de Bolsonaro, é uma segunda facada. Alimentada pela família do-re-mi e por rêmoras políticas, como a deputada-plagiadora Joyce Hasselmann, ajuda a manter a aura do mito e afastar ambições quatro estrelas, que se multiplicam pela Esplanada.

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Da esquerda para a direita: o repentino tweet alarmista de Carlos Bolsonaro, escanteado da Secom; a troca de delicadezas entre Bolsonaro e o filho  aparentemente Eduardo falando sobre Carlos; o presidente eleito e o filho senador Flávio, cargo que nunca ocupou;  e Eduardo na Fox falando  como se fosse um chanceler hors concours.

Enquanto isso, em um tour pelos States, Eduardo, o do bonezinho pró-Trump, deu uma entrevista à rede de direita Fox News, apoiadora radical de Donald Trump – uma levantação de bola sem-vergonha -, afirmando que foi aos Estados Unidos para dar os “primeiros passos no resgate da credibilidade do Brasil” e mandar “uma clara mensagem de que não seremos mais um país socialista”. Filho do meio do primeiro casamento de Jair, é o mais ligado ao pai, segundo pessoas próximas à família, e também o mais impulsivo, com um histórico de aversão à mídia e paixão pelas redes sociais. Eduardo, que age como um chanceler oculto, dá voz ao desprezo pela questão ambiental, a perigosa submissão aos Estados Unidos, que compromete exportações para a China, e também a desnecessária questão da embaixada em Jerusalém. O apresentador Lou Dobbs diz que vê muitas semelhanças entre o presidente brasileiro eleito e Donald Trump. Eduardo confirma a semelhança entre Trump e Bolsonaro e diz que seu pai não segue a agenda do politicamente correto. Se tivesse hombridade, por mais tosco que seja o preposto de Olavo de Carvalho, o ministro indicado para a pasta das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, crítico do “marxismo cultural” no Itamaraty, renunciaria.

“Por que alçar o próprio filho à condição de gênio e interlocutor na política externa, capaz de fazer a primeira viagem internacional e até de sabatinar o futuro chanceler?”, questiona – opa! – a colunista Eliane Cantanhêde – ela mesma! -, ao falar sobre a desenvoltura do filho de Jair Bolsonaro nos temas da política internacional. Há uma clara disputa interna entre os filhos de Bolsonaro, menos por poder, mais por influência. Um dos que menos fala, o senador eleito Flávio Bolsonaro, já afirmou que será um “para-raios” de demandas dos senadores endereçadas ao Planalto. Faz sentido, ele é o filho do homem. E, obviamente, compete com as funções da Casa Civil, de Onyx, com a Secretaria-Geral, de Bebbiano, e com a Secretaria de Governo, do general Carlos Alberto dos Santos Cruz. Ou não estamos entendendo nada, e Bolsonaro é um gênio, ou há corvos demais e sementes de menos.

Fotos de Lula Marques, de 03 de fevereiro de 2017, de Bolsonaro, no celular de Jair Bolsonaro – memória, pessoal, memória -, nos relembram que problemas, atritos e ambições acontecem em qualquer família. Se acontecem numa partilha de herança, imagine na briga por espaço com o pai presidente eleito. Nela, é possível ver uma troca de mensagens pelo WhatsApp entre Bolsonaro e o filho, Eduardo Bolsonaro. A foto foi feita durante a eleição para a Câmara dos Deputados, no dia 10/02/207. A primeira mensagem, do pai para o filho, diz: “Se a imprensa te descobrir ai, e o que está fazendo, vão comer seu figado e o meu. Retorne imediatamente”. Em seguida, Eduardo responde:”Quer me dar esporro tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá”. Na eleição para presidência da Câmara, Jair Bolsonaro teve apenas quatro votos. Eduardo não compareceu ao plenário que reelegeu Rodrigo Maia (DEM-RJ) para o biênio 2017/2018.

Para bom entendedor…