“Tia” Damares parece saída do “Conto da Aia” na distopia real, o futuro governo Bolsonaro

Acabei a segunda temporada do “Conto da Aia”, e fiquei triste. Mas a série, baseada no livro da escritora canadense Margaret Atwood, é só o gancho para esse texto. Infelizmente, por sua atualidade: revelando o funcionamento perverso de estruturas sociais e políticas em uma América que tornou-se uma teocracia totalitária fundamentalista cristã, passando a se chamar República de Gilead. Dividido em castas e com a maioria dos direitos civis suspensos, o país enfrenta, numa distopia assustadora, a queda nas taxas de natalidade transformando mulheres férteis em reprodutoras – as aias. Foi pranteando o fim da temporada que, no grupo de whatsapp dos meus irmãos, recebi um artigo do site Hypeness (Leia, se possível depois de ler esse texto) comparando o pensamento defendido pela pastora Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, com o pensamento da República de Gilead, a nação patriarcal militarizada, que tem a bíblia como Constituição. Achei tão chocante que resolve ir mais longe e ampliar o pensamento vivo da “Tia” Damares, tomando emprestadas algumas frases selecionadas pela Hypeness. É bom que se diga que ler/assistir “Fahrenheit 451“, “Nós“, “Admirável Mundo Novo“, “1984“, “Laranja Mecânica” e outras obras deveria ser obrigatório para quem se diz de oposição a esse estado de coisas. A luz vermelha vai acender na hora.

21_2018.jpg
Damares Alves, futura chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que parece uma “Tia” saída do Conto da Aia; Tia Lydia, a tutora de Aias do seriado, interpretada pela premiada atriz Ann Dowd; o senador Magno Malta, quando ainda era amigo do peito de Bolsonaro; e deputado Hidekazu Takayama, presidente da Bancada de Gilead, digo, Evangélica, mostrando o tamanho de sua influência no futuro governo.

É bom que se diga que Damares, pastora voluntária na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, que admite a união homoafetiva – o que causou uma turbulência com seus padrinhos da bancada evangélica no Congresso, que considera a luta contra os direitos gays uma de suas maiores bandeiras -, mas é radicalmente contra o aborto e reduz o papel das mulheres na sociedade ao de sombra dos homens -, não é o pior que o universo neopentecostal produziu. A ex-assessora do ex-“vice dos sonhos” Magno Malta (PR-ES), cantor gospel e dublê de senador (em alguns dias, ex-senador) que se afastou de Bolsonaro por não receber indicação para coisa alguma, não era a ministra da Família dos sonhos da Bancada de Gilead. Eles indicaram, numa lista tríplice, os deputados Gilberto Nascimento (PSC-SP), delegado de polícia, Marco Feliciano (Podemos-SP), pastor da Catedral do Avivamento, igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus, e Ronaldo Nogueira (PTB-RS), pastor da Igreja Assembleia de Deus. Sentiu o drama? Ah, Damares Alves é apenas a segunda mulher no governo de Bolsonaro. Além dela, Tereza Cristina, indicada por outra bancada, a Ruralista (do Agronegócio, para os mais finos) será ministra da Agricultura.

Mas vamos a algumas frases epistolares da futura ministra, “Tia” Damares, ditas após ser indicada e em palestras disponíveis na internet ou nas entrevistas que costuma conceder a sites. Todas as frases foram checadas e rechecadas.

“Não são os deputados que vão mudar essa nação, não é o governo que vai mudar essa nação, não é a política que vai mudar essa nação, que é a Igreja Evangélica, quando clama. É a igreja evangélica, quando se levanta, que muda a nação”.

“As instituições piraram nesta nação. Mas há uma instituição que não pirou. E esta nação só pode contar com essa instituição agora. É a igreja de Jesus. (…) Chegou a nossa hora. (…) É o momento de a igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar”.

P.S. O Estado é laico. Art. 19, inciso I da Constituição Federal de 1988: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.

Esse artigo deixa claro que as decisões tomadas no Brasil não devem ser baseadas em princípios ou regras que façam parte de qualquer doutrina ou religião que exista no país.

“A mulher que aborta acreditando que está desengravidando, ela não está desengravidando. (…) Ela caminha o resto da vida com o aborto. Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira”.

“Nós queremos um Brasil sem aborto. De que forma? Um Brasil que priorize políticas públicas de planejamento familiar. Que o aborto nunca seja considerado e visto nesta nação com um método contraceptivo. O aborto apenas nos casos necessários e aqueles previstos em lei. Mesmo aqueles, eu tenho certeza que, quando é oferecida para a mulher uma outra opção, a mulher pensa duas vezes”.

“Nós vamos trabalhar nessa linha. O maior direito do humano é o direito à vida, e a pasta vai desde as mulheres, até a infância, idoso, índio. Vai ser a proteção da vida”.

“As feministas promovem uma guerra entre homens e mulheres. Me preocupo com a ausência da mulher de casa. Hoje, a mulher tem estado muito fora de casa. (Me preocupam) funções que a mulher tinha no passado, principalmente em relação às crianças”.

“Eu costumo brincar o seguinte: como eu gostaria de ficar em casa, toda tarde, numa rede, me balançando, e meu marido ralando muito para me sustentar e me encher de joias e presente. Esse seria o padrão ideal da sociedade. Mas, infelizmente, não é possível, temos de ir para o mercado de trabalho”.

“Gente, ó, Funai não é problema, índio não é problema. Funai não é problema neste governo. O presidente só estava esperando o melhor lugar para colocar a Funai”.

“Eu acredito que o presidente (Bolsonaro), quando falou (em parar as demarcações), tinha embasamento. Questiono, particularmente, algumas áreas indígenas. Mas este é um assunto que vamos discutir muito. Não vai ser uma decisão somente do Ministério dos Direitos Humanos. O mais precioso bem que está em área indígena é o índio. Índio não é só terra, é gente, é ser humano.”

Armem as barricadas, cavem as trincheiras ou fujam para as montanhas – se forem, deem um abraço no Cabo Daciolo.

Um comentário em ““Tia” Damares parece saída do “Conto da Aia” na distopia real, o futuro governo Bolsonaro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close