Chantagem impressa

As revistas semanais de informação, até então infladas pelo orgulho nacionalista pela vitória de Jair Bolsonaro – e pelo alívio com a derrota do PT -, embarcaram, pelo primeiro final de semana, a 15 dias da posse, na onda já surfada pela mídia impressa diária: mostrar ao governo da República de Chicago, do Clube Militar e do Reino de Deus de Deus, que o “quarto poder” ainda influencia – e é capaz de derrubar presidentes. E que o Messias, por mais que se esforce, não é diferente da classe política em geral, da qual faz parte – nem ele, nem sua prole com mandatos. Bolsonaro e seus filhos – especialmente Carlos Bolsonaro, o expert em mídias sociais -, usaram e abusaram do direito de desprezar tudo o que não fosse Facebook, Twitter, Instagram, WhatsApp e Youtube. TV Globo? Preferem a Record do Reino de Deus? Veja? Época? O Globo? Folha? Crusoé? Melhor fazer anúncios e antecipar ministros pelo Twitter. Até aí, dói na alma dos aquários, mas não no bolso – a parte mais sensível da mídia de papel, e no vácuo, a eletrônica, afinal são os mesmos grupos de comunicação. Mas aí Bolsonaro, eleito e pré-entronizado, deixou claro que a verba de publicidade será fracionada de forma bem diferente. A rota de colisão virou jornalismo, como nos bons tempos, como na capa de Época dessa semana, primoroso perfil do jornalista Bruno Abbud – como há muito não via – do primogênito da família. Isso na semana dos 50 aos do AI-5 foi um alento – mas sabemos que é parte de uma chantagem e não um esforço conjunto de reportagem. No andar de cima, o cala-boca se negocia em cifras.

 

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Abbud registou na última semana Boletim de Ocorrência por ameaças que está recebendo nas redes sociais. Contrariado com o perfil que estava sendo produzido dele – capa desta edição: “Carlos Bolsonaro, o filho que mais influencia o presidente eleito – Apaixonado por armas e redes sociais, o vereador carioca faz e desfaz candidatos a ministro, afasta interlocutores indesejados do pai e toca os perfis de Bolsonaro na web” -, “Carluxo” postou nem sua rede social que está tendo a vida vasculhada. Parece ter ido mais longe. Carlos desejou “boa sorte” ao profissional e pediu a seus seguidores que não dessem “bola”. Depois disso, o repórter passou a ser atacado nas redes. Abbud é um grande profissional e não é nem peão nesse tabuleiro do poder. Faz seu trabalho – com excelência. Como muitos jornalistas ainda fazem – ou publicando o que apuram, em veículos como Brasil 247, Fórum, The Interept, El País Brasil e Huff Post Brasil -, e, claro, em veículos como Carta Capital e Piauí, ou resistindo em blogs -, Abbud teve a chance de furar o bloqueio e escancarou. Muito orgulho ao ver bom jornalismo de volta. Pena que com o tic tac do comercial definindo a hora de explodir.

Bolsonaro segue sem fazer sinalização de paz, e provocando editoriais inconformados. Em tweet recente, anunciou que vai cortar a verba oficial para a imprensa. Ele já sinalizou que a prioridade serão os sites, blogs e mídias das redes sociais – adivinhe quais e ganha uma assinatura “Rolo Compressor” do MBL -, além de alguns veículos de extrema-direita ou alinhados integralmente com ele. No tweet, Bolsonaro afirmou que a Caixa Econômica Federal teria gasto R$ 2,5 bilhões em publicidade em 2018. O banco desmentiu-o, informando que o valor gasto é cinco vezes menor. Mas o importante é desmoralizar. Em editoriais – leiam os editoriais dos veículos impressos, são uma eficiente bússola – jornais como “O Globo”, no texto codificado “À Espera”, exige explicações convincentes do casal Fabrício José Carlos de Queiroz, ex-motorista do senador eleito Flávio Bolsonaro, que, com um vazamento amigo do Coaf, implodiu o esquema dos gabinetes no Congresso (não é, Janaína?, vá em frente) e igualou a família Mito a qualquer Renan Calheiros e Heráclito Fortes. O caso, emblemático, só ganhou peso, graças a esse xadrez subterrâneo jogado entre mídia e futuro governo. Queiroz não será Eriberto. Tudo deverá ser acertado antes. Ou não.

2 comentários em “Chantagem impressa

  1. Christiano Pereira de Almeida Neto 16 de dezembro de 2018 — 16:48

    Carluxo disse, “ainda encontro, a fórmula do amor(?) …”

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