Dona Michelle e o marketing estampado no peito

Uma das experiências mais insalubres que vivi em quase três décadas como repórter foi “cobrir” a Casa da Dinda nos fins de semana. Era o destino inevitável de quem era setorista do Palácio do Planalto no Governo Collor e estava de plantão. Sim, os jornalistas fazem plantão fim de semana, numa frequência que varia conforme o tamanho da redação. Não, ninguém ganha a mais por isso. É parte do pacote. A Casa da Dinda, pra quem não lembra ou sabe, era a mansão no Lago Norte da família Collor de Mello onde o presidente dormia. O nome era uma homenagem à avó de dona Leda Collor, mãe do então presidente. Coisa de gente rica, que batiza seus palacetes, fazendas, jatos e iates. Collor não usava o Palácio da Alvorada. O caçador de marajás queria passar uma ideia de austero, espartano, mas a mídia, que na época investigava, e não ganhava dossiês de Juízes, da Polícia Federal e do Ministério Público – até ganhava, mas não era tão rotineiro e direcionado como hoje -, acabou descobrindo que ali havia sido feito, com dinheiro sujo, uma reforma milionária, com direito a um suntuoso jardim com cachoeiras e tudo. Estávamos no final de 1992, já era o ocaso do governo Collor, o caçador de maracujás, como debochava Lula, ou filhote da ditadura, como ironizava Brizola.

Fato é que a Casa da Dinda era a residência de Collor e cabia aos jornalistas ficar na porta, o dia inteiro. Plantões da imprensa são comuns em residências de presidentes, como no Palácio da Alvorada, onde morou a maioria dos presidentes e generais-presidentes desde a fundação de Brasília, e no Jaburu – onde escolheu morar Temer com medo de fantasmas petistas. As histórias desses plantões dão um livro. No caso de Collor, o plantão era indispensável já que ele usava o fim de semana para ações marqueteiras. Uma dessas ações era fazer um cooper usando alguma camiseta com mensagens – geralmente ufanistas e patrióticas. Abriam-se os portões de madeira da Dinda e lá iam repórteres, fotojornalistas e cinegrafistas – estes últimos com seus pesados equipamentos -, quase todos de terno e gravata, correr atrás do presidente, que ao final das disparadas gostava de dar entrevistas. Não raro, colloridos – como era chamada sua claque popular – ficavam ali de plantão esperando ver o “mito”. Por vezes, ele saia de carro, e íamos em comboio atrás, em disparada, rompendo a velocidade da luz pelas ruas do Plano Piloto. Mas as mensagens nas camisetas eram a chave – e não raro viravam matérias. Uma delas, “O tempo é o senhor da razão”, entrou para a história. Foi um dos últimos atos de resistência de Collor antes de cair.

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A Casa da Dinda – mansão do ex-presidente Fernando Collor de Mello –, que virou um espaço para suas ações marqueteiras nos fins de semana, cobertos pelos “setoristas” do Planalto; e as camisetas com mensagens, marcas de um governo fake.

Não se sabe se Jair Bolsonaro, que, em poucos dias, assumirá a Presidência, e morará no Palácio da Alvorada – com as imagens sacras devidamente retiradas a pedido da primeira-dama evangélica – fará ações de marketing parecidas. Tudo indica que sim. Se usará camisetas com mensagens é um mistério. Mas, vejam só, Michelle Bolsonaro parece simpática à ideia. Fotos feitas da chegada dela em Itacuruçá (RJ), depois de passar o Natal com o presidente eleito na Ilha da Marambaia, mostraram a moça carregando o cachorro da família e vestindo uma camiseta com a frase: “Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema”. A estampa é uma óbvia referência – gratuita a essa altura – a uma frase dita pela juíza Gabriela Hardt ao ex-presidente Lula durante o primeiro depoimento prestado por ele à Justiça de Curitiba – depois Sérgio Moro aceitou assumir o Ministério da Justiça e da Segurança Pública do futuro governo. Como imagina-se que o recado não seja para o marido, os jornalistas que se preparem. Não tem Dinda, mas tem marketing, do mesmo jeitinho.

 

 

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