Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 5: o carola do Itamaraty

“Meus detratores me chamam de louco por acreditar em Deus e por acreditar que Deus influencia a história. Não ligo. Deus está de volta e a Nação está de volta”.
Trecho do artigo inédito do futuro bispo, digo, chanceler Ernesto Araújo. Escrito para o site The New Criterion

The New Criterion, ou “O Novo Sistema” é uma publicação on line de direita, com webcasts – rede de publicações – extraídos de artigos, conferências, simpósios e palestras de gente como a gente – só que não. O cyberespaço nesse caso é restrito para fascistas e fundamentalistas exercerem seu direito divino à opinião. A próxima edição desse compêndio de lunáticos, muito pouco conhecido fora do universo democrático, que estará no ar em janeiro, está circulando loucamente em grupos de Whatsapp de gente séria na Casa de Rio Branco. É que traz um artigo ainda inédito de Ernesto “no Che” Araújo, o homem que estará à frente do Itamaraty – e já iniciou os expurgos para isso. Carpete do americanismo a la Trump, o Diadorim da Nova Era – desculpe, Guimarães Rosa -, apadrinhado de Olavo de Carvalho, escreveu o texto “Now we do“, ou “Agora fazemos” – um pífio trocadilho com o “Yes we can“, a frase símbolo da campanha do democrata Barack Obama, que antecedeu Donald no cargo. No texto, Araújo, já assinando como chanceler brasileiro, mostra como despreparo, preconceito, egocentrismo e pitadas de ignorância social e histórica, apelo religioso – uma espécie de Damares de barba – e fobia comunista – calma, Araújo, embaixo da sua cama só tem penico -, podem desgovernar a política externa brasileira e parir o diplomata mais medíocre que já liderou essa instituição secular.

Leia também “Ministério das Relações Exteriores do Reino de Deus – Parte 4: a guilhotina de Ernesto “Robespierre” Araújo”, “Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 3: a geografia da discriminação”, “Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 2” e “Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump”, o primeiro.

No texto inédito de Araujo, ao qual Gilberto Pão Doce teve acesso, ele vende um Brasil infernal – diz, por exemplo, que, para sobreviver, todos no Brasil tinham de pagar propina -, para arrematar com os “novos tempos” que, garante o diplomata, serão a Era Bolsonaro. Seu alvo preferencial, claro, é o PT que, junto com a ameaça comunista, parecem ser pesadelos recorrentes do insone chanceler. Segundo ele, no artigo, o PT exportou seu “modelo” de corrupção para outros países latino-americanos, na tentativa de criar e consolidar uma rede de regimes de esquerda corruptos na região. Mas as urnas trouxeram a redenção nacional, diz, contra o “candidato marxista” Fernando Haddad. Araújo, o dublê de historiador com a Bíblia no sovaco, descreve o PT como o partido comandado por “intelectuais marxistas, ex-guerrilheiros de esquerda e membros da burocracia sindical”. Nada mais olaviano. “Foi a divina providência que guiou o Brazil…reunindo as ideias de Olavo de Carvalho, a Operação Lava Jato e a determinação e patriotismo de Bolsonaro?”. Sim, isso é literal.

“Temos a chance de viver democraticamente – pela vontade do povo e não de acordo com uma seleção de frases vazias”, acrescenta o trumpista. Araújo reconhece que o discursos religioso de Bolsonaro foi fundamental para sua eleição. “O Brasil espera viver um renascimento político e religioso”, diz ele, onde o político vem no vácuo do religioso. O discurso foi feito, evidentemente, para o público americano que lê o site, que, lá como cá, vive na onda bíblia, armas e patriotismo. Para que se tenha uma ideia, o Museu da Bíblia – isso mesmo -, inaugurado há um ano em Washington -, é a principal atração do turismo conservador na capital. Desde que abriu as portas em novembro do ano passado — curiosamente quando a eleição de Trump completava seu primeiro aniversário — mais de um milhão de pessoas pagaram ao menos US$ 20 pelo ingresso simples para a visitação, a quatro quadras do Capitólio. Outro museu preferido dos conservadores é o Museu Nacional das Armas, bancado pela Associação Nacional de Rifles (NRA, na sigla em inglês), defensores vigorosos da Segunda Emenda constitucional, que garante aos americanos o direito de terem armas.

Questões à parte, o pensamento vivo de Ernesto Araújo traz três perguntas imediatas: Como o Itamaraty forma e admite em seus quadros uma pessoa tão obtusa?; O que pretende Bolsonaro colocando um sujeito desse naipe no comando das relações exteriores do país?; e para que canto escuro do planeta esse tipo de retórica atrasada, intolerante, opressiva e totalitária nos levará?

 

 

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