Governo Bolsonaro, meu universo paralelo

Há muito o que dizer sobre o novo governo, mas, por outro lado, o desalento é tão grande que compete com a fúria do cidadão e do jornalista – e que nos últimos dias tem vencido a vontade de escrever algo sobre esse festival de horrores que são os primeiros dias do novo governo. Senti isso logo após a vitória do Messias sobre Haddad, quando cheguei a pensar em pendurar o mouse e aposentar o blog, mas segui e já passamos de cem textos publicados e de 36 mil hits. Não é nada, não é nada, mas foda-se. Não escrevo para ter audiência, isso aqui é o meu divã sem paredes. Masoquistamente, acompanhei ao vivo e li muito – confesso, principalmente por dever profissional – estes últimos lances e o que dá vontade de escrever é quase impublicável. A cena do “cavalo petista” que tentou estragar o desfile de Rolls Royce pela Esplanada, com Carlos na garupa (não do cavalo, do carro) foi a grande cena, menos pelo equino de branco e mais pelo de terno azul, evidenciando o governo das mídias sociais e da manipulação à frente da imprensa, ilhada em currais, a ponto de gerar uma nota da ultimamente enferrujada Associação Brasileira de Imprensa (ABI), boa nas intenções, péssima na forma. Até a histórica ABI de Barbosa Lima Sobrinho – revirando no túmulo – esqueceu como escrever além de 280 caracteres. Carlos, como se sabe, é o cara da Fantástica Fábrica de Fake News, ignorada pelo TSE, e sua carona no RR foi simbólica. Assim como Bolsonaro acenando para a grama – as fotos não conseguiam alcançar os 100 mil idiotas presentes (números OFICIAIS) tamanha a distância imposta por seguranças, barreiras, canhões e mísseis anti-aéreos.

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Sem legendas, leia o texto.

Será que essa parafernália militar obsoleta era para deixar protegido a Máquina Mortífera Benjamin Netanyahu, o israelense que, junto com Donald Trump, mora no coração do presidente empossado? Bolsonaro esperava outra facada – se é que facada houve – ou um míssil muçulmano contra “Bibi” Netanyahu? Teremos uma aliança PSL-Likud? As imagens de Bolsonaro quase se ajoelhando, na ida e na volta dos cumprimentos aos chefes de Estado, diante de sua cara-metade, um dos 10 (dez!) chefes de Estado presentes em sua posse – foi de doer o coração. Por sinal, com estadistas de Cuba, Venezuela e Nicarágua vetados na posse, o mínimo que se esperava era que estadistas com vergonha na cara mantivessem distância. Como Evo Morales, o presidente da Bolívia. Não só foi, como cumprimentou Bolsonaro. Tudo pelo gás. Depois postou no Twitter: “Somos sócios estratégicos que miram o mesmo horizonte da #PátriaGrande”, acrescentou. Hora de Lula aposentar o paletó indígena que ganhou de Morales, desenhado pela estilista boliviana Beatriz Canedo Patiño.

As cerimônias de posse e entrega da faixa – no Congresso e no Planalto – estão, por sinal, entre as coisas mais constrangedoras que já vi na vida, logo igualadas pelas posses de seus ministros. Cerimônia militarizada, esvaziada, sem povo – eu disse POVO, não torcedores de Brasil x USA em Miami -, um Bolsonaro de olhos vazios, sorriso de borracha, esforçando-se em fingir emoção – impossível pra um diagnosticado sociopata. A “multidão” e o “mito” não eram multidão, nem mito. Eram um bobo e sua Corte. Bolsonaro seguiu, como na campanha, que para ele não acabou, falando em família, interesses ideológicos, “bandeira vermelha”, desprezando a política e o políticos. Apesar das falsas juras de amor ao Congresso, Bolsonaro, sete mandatos, despreza o Legislativo. Seu lar é a caserna, seu terno é a farda que perdeu por indisciplina, seu discurso é o redigido por alguém porque ele realmente não sabe falar. A mídia – a adesista Globo à frente – chamou de “econômico”, incapaz de falar em lacônico. Ver Mourão, o general vice do capitão, gritar seu juramento diante do plenário do Congresso, muitos decibéis acima de Bolsonaro, não foi só embaraçoso, foi revelador. O entendedor entenderá.

Juraram a democracia, o que foi destacado pela mesma mídia – a dos curraizinhos “denunciados” pela ABI – como se fosse uma vantagem, não obrigação constitucional. Bolsonaro ainda transformou a primeira-dama em meme, com suas traduções em libras, o ar clown do espetáculo patético. Claro, a mídia achou o má-xi-mo. Que primeira-dama influente! Ruth Cardoso? Marisa Letícia Lula da Silva? Que nada, o “it” é a primeira-dama Michelle Bolsonaro, com seu vestido rosa produzido pela estilista Marie Lafayette, a mesma que fizera seu vestido de noiva. Mas o Universo Paralelo em que fomos imersos seguiu no dia seguinte, com a posse dos 22 ministros. Seria possível focar nos discursos mais trombeteados pela mídia, dos superministros Paulo Guedes e Sérgio Moro, um prometendo demitir, vender, privatizar, foder o funcionalismo público, o outro acabar com o crime distribuindo kit armas para todos, desde que não mexam no ministério Bolsonaro, que tem metade dos membros investigados e pelo menos uma confissão de caixa dois, Onyx Lorenzoni, o primeiro a começar a “limpa” de petistas do Planalto com demissões em massa.

Vou me ater aos discursos de duas pessoas que amo de paixão: “Tia” Damares e Ernesto “No Che” Araújo. Já a ministra da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que é inaugurada agora uma “nova era” no país, em que “menino veste azul e menina veste rosa”. Damares, autora da ideia do “kit aborto”, afirmou que “menina será princesa e menino será príncipe”. Eu tenho filho e filho, então não falo como padre em encontro de casados. Essa pastora, fazendeira em um dos principais latifúndios conservadores desse governo de direita, merece é um bom pasto. Voz de Magno Malta, o ex-senador gospel preterido por Bolsonaro por ser tão enrolado quanto os caracóis dos seus cabelos, é um dos ângulos mais reacionários desse governo obtuso. Fala para a família ue Bolsonaro que quer ver prosperar sua República de Gileade, uma teonomia cristã militar. E faz interseção com o Escola Sem Partido, na Educação. Controlar a educação é tudo, já ensinaram próceres neopentecostais. “O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã. Todas as políticas públicas neste país terão que ser constituídas com base na família”, disse ela, enquanto uma Medida Provisória do governo definia “família”. Editada por Bolsonaro, tirou a população LGBTI da lista de grupos beneficiados por políticas de proteção aos direitos humanos.

Já o chanceler Ernesto Araújo, que mal saiu das fraldas de embaixador, fez citações em grego, citou passagens bíblicas – “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” – e falou em “oikofobia”. Não, não é medo de focinho de porco. O globalismo se constitui em ódio”, disse o obtuso. “O problema do mundo não é a xenofobia e sim a oikofobia”, continuou, referindo-se à aversão ao próprio lar. Aprendeu, né? Deve ter sido uma dica do padrinho Olavo de Carvalho. “Como parecer inteligente em dez frases bestas”. “Para destruir a humanidade é preciso acabar com as nações e afastar o homem de Deus. É contra isso que nos insurgimos.” Muito mais foi dito, e muito mais eu poderia escrever, mas chega por hoje. Estou almoçando e dois casais numa mesa vizinha elogiam o currículo da mulher do Mourão. Deu.

 

 

Um comentário em “Governo Bolsonaro, meu universo paralelo

  1. Análise magnífica! Sou seu fã desde já!

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