Não ouça o mal, não fale o mal e não veja o mal

Acho que, intimamente, ainda tinha a esperança de que Jair Bolsonaro limitasse suas viagens a dois ou três pontos do território nacional além de seu condomínio de frente pro mar na Barra da Tijuca, Rio, e o gabinete no Palácio do Planalto, em Brasília. Eventos militares em sua quase totalidade. De repente, com a aproximação do Fórum Econômico de Davos, que começa na semana que vem, a cidade mais alta da Europa, com 1.560 metros de altitude, receberá um presidente cuja estatura me mata de vergonha. Líderes do mundo dos negócios, como investidores e presidentes de empresas, que voam uma vez por ano para a cidadezinha suíça, precisavam receber uma espécie de cartilha – não produzida pelo MEC de Ricardo Vélez Rodríguez, nem pelo Itamaraty de Ernesto Araújo, dois discípulos do olavismo – explicando que o cidadão que se apresentará como presidente do Brasil não representa – nem mesmo no voto – a maioria dos cidadãos brasileiros. A cartilha explicaria o impeachment fake de Dilma, a condenação fake de Lula, a facada fake em Bolsonaro e, com alguma sorte, esvaziaria o plenário onde Bolsonaro discursará e levaria ao cancelamento de pelo menos dois terços de sua agenda internacional. Ilustrada pelos três macaquinhos sábios, mizaru, kikazaru e iwazaru, teria o título de “Não ouça o mal, não fale o mal e não veja o mal”.

A mídia tem feito um esforço quase comovente, dentro da onda do “agora vai” – alguém se lembra das primeiras semanas de Temer, as redações varridas pelo patriotismo verde e amarelo? -, para mostrar que os números pífios da economia indicam uma retomada que não virá tão cedo. E que os muitos cortes nos investimentos, a venda do patrimônio, o arrocho salarial e a terapia de choque sem anestesia propostos pelo Posto Ipiranga levarão todos a um nirvana, com o país idílico tomado por nacionalistas assistindo o por-do-sol dourado sobre o mar, enquanto ondas espirram lentamente na areia. Close up em Bolsonaro, em slow motion, correndo apenas de coturnos, a faixa presidencial transformada em tanga, no crepúsculo do país. Devem imaginar que o mito chegará assim para sua estreia internacional. Alguns jornais, sem constrangimento, já falam que, sem Trump e Macron para fazer sombra, Bolsonaro – cito – “deverá assumir o protagonismo do evento”. Cito de novo: “As promessas de abertura do mercado brasileiro, o combate à corrupção e o discurso liberal da equipe econômica atraem as atenções de empresários e do governo da Suíça”.

imagens temporárias 11_
No sentido horário: Bolsonaro, Ernesto Araújo, Ricardo Vélez Rodríguez, João Doria e Sérgio Moro na comitiva que vai nos desmoralizar de vez em Davos.

Bolsonaro estará no evento, se a bolsa não estourar, entre os dias 22 e 24, no momento em que temas como a defesa da floresta, dos índios, imigrantes, a igualdade de gênero e os direitos humanos despencam no ranking de prioridades de seu mandato. O foco, portanto, estará em sua agenda econômica – se é que existe algo tão elaborado na Esplanada -, sobretudo o pacote de privatização e abertura comercial. Bolsonaro, cuja política internacional no momento se resume a ajudar Trump a esmagar Maduro, usando o chamado Grupo de Lima, apoiar publicamente Netanyahu, criando conflitos com governos e investidores árabes, com sua política anti-Palestina, e sair do histórico Acordo Global sobre Migrações, impactando irresponsavelmente os brasileiros no exterior – para cada migrante internacional no Brasil há pelo menos dois brasileiros em outros países -, deve exibir – literalmente, eles estão na numerosa comitiva – as cabeças de Paulo Guedes e Sérgio Moro na esperança de que esqueçam da sua. E ter encontros marcantes com estadistas como os presidentes da Colômbia, Ivan Duque, e Lenin Moreno, do Equador.

Bolsonaro, enfim, disse que vai a Davos “apresentar um Brasil diferente e livre da corrupção”. Talvez por isso leve João Doria. E Ernesto, o chanceler contra a “globalização”, logo ali, em Davos, uma das peças centrais desse processo de construção de uma ordem mundial a partir dos anos 1990. E se nada mudou na comitiva, está prevista ainda a presença de Luciano Huck que, quem sabe, não ajuda a fechar as cortinas quando o fórum terminar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close