“Vila Militar do Chaves” é a paulada na moleira que faltou na propaganda de Haddad

Poucas coisas têm um feito tão destruidor na realidade quanto o humor. E o que pode ser mais inspirador para uma sátira política do que o Governo Jair Bolsonaro? Mas onde procurar isso fora das redes sociais, do Porta dos Fundos e da avalanche de memes diários – a maioria toscos? Pois a paródia perfeita foi levada ao ar na TV Globo, no programa “Tá no Ar”, na noite de terça, 15. E a “Vila Militar do Chaves” recriada por Marcelo Adnet, Marcius Melhem e equipe, ancorada nos personagens da série-chiclete Chaves – até hoje reprisada no SBT -, é tão avassaladora e desmoralizante que não dá para não imaginar o que teria acontecido se tivesse sido levada ao ar há menos de três meses atrás na propaganda política de Fernando Haddad (Assista). Nenhuma sátira política recente chega aos pés do que conseguiu Adnet – Casseta & Planeta fazia uma “sátira do bem” com Hubert encarnando FHC -, colocando-o na curiosa situação de alguém que rompeu um bloqueio midiático na TV privada mais adesista do planeta.

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“Pode parar com esse ‘mé-mé-mé’, com esse ‘pi-pi-pi’. Essa geração ‘mi-mi-mi’, ‘pi-pi-pi’ dos vermelhos. Você chorar eu até entendo, porque seu pai deu uma fraquejada. Agora, você é homem. Homem não chora. Os dois podem ir pra casa”.
Capitão Jair, após ver Chiquinha e Chaves chorando. No já histórico Tá no Ar de 15/01.

Apresentada como estreia da última temporada do programa, uma das poucas coisas interessantes na TV aberta, a sátira virou assunto imediato nas redes sociais, obviamente fazendo rolar de rir os “cidadãos de bem” e enfurecendo bolsominions de todas as patentes. Afinal, Bolsonaro é impiedosamente imitado como um ditador. A piada foi substituir o personagem Senhor Barriga por um militar – farda impecável, quepe e algumas medalhas no peito -, que, para espanto de todos, chegou como o novo dono da Vila. “Ele não!”, esbravejou Chiquinha – recriando a hashtag petista -, ao ser avisada por Chaves sobre a chegada do capitão Jair. “Eu sou o novo dono da Vila daí. Depois de anos de incompetência e má administração, eu vim resolver essa questão. Seu Madruga, melhor já ir pagando os 14 meses de aluguel que você deve”, disse o personagem interpretado por Adnet, com sotaque e trejeitos que o fizeram encarnar uma caricatura absolutamente impecável do atual presidente.

Logo Seu Madruga é preso por dois soldados, mesmo destino de todos os que entram em cena. A platéia só não é presa porque quem deveria fazê-lo foi demitido antes – outro chiste, dessa vez com Onyx e sua Casa Civil “despetizada”.  A truculência do novo dono do pedaço faz rir, mas nem de longe pode ser considerada uma humanização de Bolsonaro, o que poderia acontecer se o humor ferino de Adnet não fosse mais cortante que qualquer efeito colateral da sátira. Até um bordão – va-ga-bun-do – é encaixado e repetido exaustivamente, desses que podem varrer o resto do mandato presidencial. Vagabundos são os desempregados, moradores de rua, os professores… Há espaço para falar de homofobia, misoginia, kit gay, ideologia de gênero, família desajustada, azul e rosa, caso Queiroz.

Adnet fez em 3:20 minutos o que ninguém conseguiu fazer durante toda a campanha eleitoral e depois dela. Destruiu Bolsonaro. Aguarda-se o próximo programa.

 

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