Mar de lama e dor sem fim

Três meses atrás eu acompanhava com meu orgulho de jornalista mineiro uma grande amiga, uma das repórteres mais competentes, lúcidas e sensíveis com quem já convivi – e com quem tive o prazer de trabalhar muitos anos atrás no velho JB -, lançar um desses livros que nascem obras-primas, “Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil”, seu mergulho pessoal depois da cobertura do episódio pela TV Globo. A data marcava os três anos do rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, e da enxurrada de lama que destruiu o distrito de Bento Rodrigues, deixou 19 mortos e danos ecológicos irreversíveis. Cristina Serra não para há dois dias, referência que se tornou com seu talento, desde que o país assistiu estarrecido à mesma mineradora, a Vale do Rio Doce, que acha que pode tudo, na corcunda das autoridades, derramar mais mortes nas veias do país, com o rompimento da barragem em Brumadinho, na já trágica sexta-feira, 25. O Brasil não aprendeu com Mariana, e Brumadinho vai colecionando, à medida em que os corpos brotam da lama escura, dezenas de mortes. Superamos Mariana. Até este momento, ninguém foi preso e as autoridades mostram-se mais perplexas do que indignadas. Sobrevoos de helicóptero, promessas de punição, multas tardias.

Invadimos a rotina de Cris Serra neste domingo, com a licença de sua generosidade, que só rivaliza com o tamanho do seu coração e a belezura do seu sorriso, pra fazer três perguntas, que trazemos agora aos leitores de Gilberto Pão Doce.

Gilberto Pão Doce – Cris, você cobriu como repórter o rompimento das barragens em Mariana-MG. Três anos depois, mais uma tragédia acontece. No meio disso, você lançou um livro fantástico. Como a brasileira, a repórter, a escritora, viu Brumadinho, e de novo a Vale, derramar mais mortes na já sofrida vida nacional? Qual o sentimento?

Cristina Serra – Passei do choque e da perplexidade, na sexta-feira, vendo as primeiras imagens, à indignação e revolta, à medida que as informações foram sendo divulgadas. É inadmissível que o centro administrativo e o refeitório dos trabalhadores ficassem a jusante da barragem, ou seja, abaixo da barragem, exatamente por onde a lama desceria, caso um acidente acontecesse, como, de fato, aconteceu. Isso é uma tremenda irresponsabilidade, descaso com a vida humana. Quem deixou que essa situação permanecesse cometeu um crime. Basta um mínimo de bom senso pra chegar lá e dizer: “Não, isso não pode. Vamos mudar essa estrutura de lugar”. Além disso, casas e pousadas não poderiam ficar tão próximas de um complexo minerador. Barragens de rejeitos são estruturas de risco, mesmo que sejam operadas seguindo rigorosamente todos os padrões de segurança. Por que? Porque armazenam material com água, que se comporta de maneira não totalmente previsível pelos especialistas. Barragens exigem monitoramento rigoroso e constante. Não podem ficar próximas a comunidades. Alguém deixou que isso acontecesse. Essa responsabilidade precisa ser apurada.

GPD Concretamente, o que precisa ser feito – e você já diz isso no seu livro – e não foi feito e talvez nunca seja feito para impedir mais Marianas, mais Brumadinhos, quem sabe Belo Horizonte, Itabirito, Ouro Preto, Rio Acima…?

Cris Serra – Em primeiro lugar, as empresas deveriam ser obcecadas em cumprir as normas de segurança. E o poder público deveria ser aparelhado para exercer o seu papel, que é fiscalizar. Mas o que verifiquei no caso de Mariana é que o sucateamento dos órgãos públicos só pode ser proposital. Apenas um dado: em 2016, o Departamento Nacional de Produção Mineral tinha 985 servidores para todo o Brasil, para dar conta de todas as atribuições do DNPM. Desse total, apenas 5 tinham formação em geotecnia, que é a especialização necessária para entender de barragem. Outra coisa: o processo de licenciamento desses grandes empreendimentos é um faz de conta. O caso de Fundão, em Mariana, mostra isso. Está tudo no livro, em detalhes, e dando nome aos bois. A verdade é que as mineradoras fazem o que bem entendem em Minas Gerais. E não deve ser diferente no Pará, que hoje é província mineral mais importante do Brasil, onde está o minério de ferro de melhor qualidade.

GPD – Brumadinho encontra um governo novo, que acabou de exibir em Davos uma falsa musculatura ambiental, quando na verdade o discurso hoje é na direção do desenvolvimentismo a qualquer preço, pela “flexibilização” e desprezo das normas ambientais, um clima de vale-tudo que se reflete no próprio ministério. Eles vão aprender algo com isso?

Cris Serra – O novo governo pretender passar o rolo compressor na agenda ambiental e flexibilizar a legislação atual, que, diga-se de passagem, é boa. O que falta é que seja cumprida. Talvez Brumadinho, com seu avassalador custo humano, refreie o ímpeto do “correntão” no Congresso. Mas, tenho dúvidas. Quando aconteceu o desastre em Mariana, logo depois, a Assembleia Legislativa de Minas mudou a lei de licenciamento estadual, tornou-a mais “flexível’, eufemismo para dizer que as novas regras tornam mais fácil a vida das empresas. Dos 77 deputados estaduais eleitos em 2014, 59 receberam doações de campanha de mineradoras. Na época, a doação empresarial era permitida. Agora, com esse novo arranjo de poder em Brasília, tudo pode acontecer, mesmo diante desse luto e de tanta dor, que parece não ter fim.

 

 

Um comentário em “Mar de lama e dor sem fim

  1. Infelizmente, nossa imprensa investigativa, acabou; a Cristina Serra, chegou a editar um Livro; se vendeu não se sabe, mas o espectro foi esquecido; prova de tudo isso, a três Anos, convivemos com o mesmo abismo, e NADA aconteceu; aqueles Jornalistas não apegados a dogmas, e que não estavam vendidos, NADA fizeram de verdade; já estão responsabilizando o Bolsonaro; fizeram uma piada, em cima de sua fala; imaginem se a GLOBO iria facilitar, deixandocom isso, os VERDADEIROS culpados, sem Maculas…

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