“Tio Palmatória” quer universidades só para a elite e o povo nas escolas militares

“As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica (do país)”.
Ricardo Vélez-Rodriguez, ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro. Em entrevista ao Valor Econômico.

“Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão”
Música de Geraldo Vandré

Na nascedora São São Paulo, vivíamos a primeira epidemia de febre amarela, que faria a população urbana cair pela metade. Muito maior era Canudos de Antônio Conselheiro, que estava prestes a cair após um confronto entre o movimento popular e o Exército Brasileiro. Era 1896. Nesse ano, um filósofo e pensador político italiano, Gaetano Mosca, escreveu “Elementi di Scienza Política”, onde elaborou a teoria das elites. Mosca fincou as estacas que definiriam de vez o elitismo ao salientar que em toda sociedade, seja ela arcaica, antiga ou moderna, existe sempre uma minoria que é detentora do poder em detrimento de uma maioria que dele está privado. E que faz o diabo para mantê-lo. Uma das formas clássicas de domínio das elites é pela educação. Que acharia Mosca, digamos, de um ministro da Educação que, quase um século e meio depois, defende publicamente um sistema embasado no favorecimento de minorias, constituídas por membros da aristocracia, estabelecida no ensino formal superior e nos bons costumes, pedra já cantada por Platão e Aristóteles. Absurdo?

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O italiano Gaetano Mosca, que escreveu “Elementi di Scienza Política”, onde elaborou a teoria das elites.

É porque você ainda não se debruçou sobre essa temeridade apátrida Ricardo Vélez-Rodriguez, uma das serpentes chocadas na Esplanada por Olavo de Carvalho. Da ala dos “ideológicos” de Bolsonaro, Ricardo “Palmatória ” Vélez-Rodriguez, como “Tia” Damares e Ernesto “No Che” Araújo, mostrou que tem orgulho em defender o que a nós enoja: a manutenção institucional da diferença de classes. Falando ao Valor Econômico, disse, com todas as letras, que “a ideia de universidade para todos não existe” e defendeu que as vagas no ensino superior sejam reservadas a uma elite. Ao povo, as escolas militares, para mantê-los no cabresto e aprender a “morrer pela pátria e viver sem razão”.

Esse é o “Tio Palmatória”, teólogo e supostamente filósofo – provavelmente no naipe do astrólogo Olavo de Carvalho – direto da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá para o mundo. Sim, Pontificia Universidad Javeriana de la Compañía de Jesús, com sua história de ensino religioso dirigido. Também fez um curso de Teologia no Seminário Conciliar de Bogotá. Antes, cursou o Liceu de La Salle e o bacharelado em Humanidades, no Instituto Tihamér Tóth, todos na capital colombiana. Um currículo e tanto, enfeitado depois com alguns outros diplomas, agora a serviço do Brasil.

Em sua desavergonhada pregação direitista, fez uma comparação pra lá de preconceituosa. “Nada contra o Uber, mas esse cidadão poderia ter evitado perder seis anos estudando legislação”, disse, comentando que não faz sentido um advogado estudar anos para virar motorista de Uber. Será que “Tio Palmatória” conhece os conceitos de recessão, desemprego e subemprego?

Vélez critica ainda o que os bolsominions chamam de Escola sem Partido e ensino de ideologia de gênero nas escolas. Num país que já teve entre seus ministros da Educação gente limitada como Cid Gomes, Cristovam Buarque, Carlos Chiarelli, Hugo Napoleão, Jorge Bornhausen e Jarbas Passarinho, não é difícil entregar a “Tio Palmatória” a distinção de mais reacionário de todos. Mas que ninguém se engane reputando-o como mais um “personagem” do governo Bolsonaro. Anticomunista e defensor do liberalismo “de mercado”, defensor das instituições militares de ensino, onde, segundo ele, há “patriotismo, disciplina, valorização dos docentes e amor pelo Brasil”, esse cidadão é um perigo para a democracia e para os nossos filhos. Faz todo o sentido que seu blog se chame Rocinante, nome do cavalo de Dom Quixote de La Mancha. Apesar, claro, da ofensa aos equinos.

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