Com apoio do Planalto, Congresso volta a ser comandado pela Arena – pela primeira vez desde a ditadura

Eduardo Cunha voltou, dessa vez ao Senado. Quer dizer, não o então presidente da Câmara que capitaneou o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Esse segue em cana, sem livro, sem delação, sem importância. Foi bucha do golpe parlamentar. O que vimos surgir foi um Eduardo Cunha ao contrário, vindo dos rincões. De coincidência, outra cria do baixo clero, eleito numa circunstância política esquisita, conhecido apenas nos seus currais, mais especificamente o portentoso Amapá, terra de grande tradição política, tipo…tipo…José Sarney – que é maranhense, e foi lá buscar os votos que não conseguiria em casa. Sim, a política anda tão rasteira que o Senado tem baixo clero – baixíssimo. E seu novo líder é David Samuel Alcolumbre Tobelem (DEM-AP), novo presidente da Casa, apoiado pelo evangelista da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que, para usar outra figura bíblica, apunhalou Renan Calheiros como Brutus a Júlio César. Na verdade, Renan entrou para a votação com metade do punhal já cravado pelo suspeito senador Flávio Bolsonaro, que já vinha dizendo que Renan nem no Velho Testamento. Nas redes sociais, Onyx, com seu farto conhecimento bíblico, brincou com as figuras de Davi e Golias: “Davi respondeu: você vem contra mim com espada, lança e dardo. Mas eu vou contra você em nome do Senhor Todo Poderoso, que você desafiou” – no caso, Bolsonaro. Ah, a mulher de Lorenzoni – com quem se casou há pouco mais de dois meses numa festança no Clube do Congresso, em Brasília -, Denise Verbeling, trabalha no gabinete do Alcolumbre.

Com isso, o governo de Jair Bolsonaro tem um balaio de zumbis, liderado pelo cadáver ambulante DEM, comandando as duas Casas. Se você considerar que o DEM vem do PFL, do PDS, da Arena, é a volta do partido da ditadura à Presidência do Congresso. Rodrigo Maia e David Alcolumbre, que não merecem ter seus retratos nem na parede do sindicato dos paneleiros, serão, assim, os cavalinhos que terão as rédeas puxadas pelo Planalto para tentar aprovar seus projetos no Congresso. Até aqui, dos partidos da atualidade, o único que presidiu as duas casas simultaneamente foi o MDB. É mais ou menos como imaginar um capitão reformado, politicamente inexpressivo, filiado a um partido de aluguel, defensor das ideias mais nefastas e atrasadas para o país, ganhando as eleições e comandando o Executivo. Peraí!

Captura de tela inteira 02022019 212303.bmp
Arena no poder: Alcolumbre, do Amapá para o mundo. Votou pelo impeachment de Dilma, pelas reformas trabalhistas, defendeu o mandato de Aécio, empregou a mulher de Onyx Lorenzoni no Gabinete e agora presidirá o Senado.

Alcolumbre começou a sua carreira política como vereador na cidade de Macapá, aos 41 anos. Iniciou o concorridíssimo curso de ciências econômicas no Centro de Ensino Superior do Amapá, mas não concluiu – não tem, portanto, curso superior. Exerceu o mandato por dois anos (de 2001 a 2002), quando deixou o cargo no meio para assumir seu primeiro mandato como deputado federal. Na época, era do PDT. Reelegeu-se duas vezes para a Câmara dos Deputados, totalizando três mandatos consecutivos. Em seu primeiro mandato como Senador, é lembrado apenas como um dos que ajudou o Senado a derrubar a decisão do Supremo que afastou o então senador Aécio Neves (PSDB-MG), hoje deputado federal. Em 2018, concorreu ao governo de Amapá, mas ficou em terceiro lugar. Na ocasião, declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 770 mil em bens. Com a derrota, retomou seu mandato de senador. Ou seja, é mais um derrotado nas urnas a ganhar holofotes no palco de mediocridades que tornaram-se os três poderes.

Atenção, otimistas incorrigíveis. Dizer que Bolsonaro será o primeiro presidente a governar com o DEM no poder, significa governar sem o MDB. Que não está nada satisfeito com o resultado, até porque já contava com o ovo no…na poltrona confortável da mesa diretora do Senado. Aí voltamos ao Cunha. A eleição de Alcolumbre – sim, parece nome de tubos e conexões – deixa o MDB, que já foi de Cunha e hoje é de Renan, como uma pedra no sapato de Planalto. Ou, para sermos mais up to date, um movimento intestinal desconfortável.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close