Mourão usou neuralyzer na mídia

A maior fake news do governo Bolsonaro chama-se Hamilton Mourão, que não era o “vice dos sonhos” – ganha um CD gospel quem descobrir por onde anda Magno Malta -, mas é o darling da mídia e de muita gente nesse Brasil do Ame-o ou Deixe-o. Por mais tempo no Poder – ainda que numa interinidade fajuta em Brasília – do que se poderia esperar, já que Bolsonaro foi a Davos para ler um tweet e agora segue se recuperando da cirurgia, Mourão tem feito o marketing do general bonzinho *, amigo do povo, mesmo sem sair nas ruas, e receptivo a causas progressistas, como o aborto, embora seja mais conhecido como admirador do torturador Brilhante Ustra – como de resto a família Bolsonaro. Em um mês de governo, e já meio que acostumado a vestir a faixa presidencial por debaixo da farda, o moderado, o sensato, o gentil Mourão, que interrompe a marcha até o carro oficial pra falar com os “coleguinhas”, deve terminar cada conversa aplicando uma rajada de neuralyzer em seus interlocutores, no melhor estilo ‘Homens de Preto’. Só isso para explicar porque o linha dura virou o Jesus na goiabeira no pomar bolsonariano. Exceto, claro, para os filhotes Moe, Larry e Curly, para quem o protagonismo midiático do general Mourão é calculado. Eles acreditam piamente, Curly à frente, que o general busca se mostrar como uma figura mais preparada em caso de alguma crise desestabilizar o governo – avaliação, por sinal, ouvida em nove em cada dez rodinhas de jornalistas de Brasília.

Como recordar é viver, vamos lembrar. Mourão da Goiabeira, que se tornou uma espécie de Vigilante da Corrupção na Esplanada – embora só dê declarações genéricas, do tipo “É grave”, “Tem que investigar a fundo”, e fique na retórica -, que prega “sensibilidade” nas reformas para evitar sua “judicialização”, que se disse favorável ao aborto “se a pessoa não tem condições de manter o filho” – preste atenção no duplo sentido dessa frase, pense-a no aspecto do controle da natalidade -, que interpretou como ameaça à democracia a partida forçada de Jean Wyllys, que disse ao representante palestino e outras autoridades árabes que embaixada em Israel não mudará, que disse que o decreto das armas não coíbe violência – como afirmara seu comandante em chefe -, é o mesmo Mourão que, ao assumir a Presidência, acabou na prática com a Lei de Acesso à Informação, promulgada por Dilma Rousseff, uma conquista da sociedade e da democracia em favor da transparência. E não foi uma declaração, foi um decreto, ampliando  – e muito – o número de pessoas que podem classificar documentos do governo como ultrassecretos, o que os torna inacessíveis por 25 anos, podendo ser prorrogados por mais 25 anos. Agora, até uma parcela dos funcionários comissionados têm o poder de evitar que a população tenha conhecimento dos atos do governo. É a ação mais contundente de censura – e é só o primeiro mês. Esse é o Mourão gente, o adorador do Ustra, cujos arquivos agora estão mais bem guardados do que nunca.

Antes da posse, vamos recordar, foi Mourão quem admitiu à Globo News o que chamou de “autogolpe”, com “o emprego das Forças Armadas”, em caso de “anarquia” – ele falava de uma possível soltura de Lula em meio às eleições. Mourão defendeu uma Constituinte sem participação popular, feita por uma “Comissão de Notáveis”. Mourão chamou os africanos de “malandros” e os indígenas de “indolentes”. Mourão disse que as famílias chefiadas por mães e avós nas comunidades pobres eram “uma fábrica de desajustados”. Mourão, ao defender uma reforma trabalhista na veia, chamou o décimo-terceiro salário de “jabuticaba nacional”. Esse Mourão não tomou posse como vice? Ou será que, iluminado pelas presenças ilustres de seus colegas de Esplanada, gente da estirpe de “Tia” Damares, Ernesto “No Che” Araújo, e Tio “Palmatória” Vélez Rodríguez, foi tomado por um súbito amor pelas boas causas. Claro, incluindo nas boas causas, a promoção para o filho no Banco do Brasil.

* Não consigo ouvir alguém chamar o Mourão de “gente boa” e “figura palatável” sem lembrar de Kate Lyra, e seu famoso bordão: “Brasileiro é tão bonzinho…”. 

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