Bolsonaro, o colecionador de ossos

Anote aí, Capitão. Adolf Hitler. Para uma viagem futura à Alemanha, quem sabe numa visita ao Memorial do Holocausto. Pol Pot. Para um tour pela Ásia que inclua o Camboja. Francisco Franco. Quando colocar a Espanha no roteiro. Benito Mussolini. O aliado de Hitler, quando der um pulinho na Itália e tiver que improvisar um discurso. Ivan 4º, o Terrível. Passagem pela Rússia. Mengistu Haile Mariam ou Idi Amin Dada. Quando der na telha de ir na África, quem sabe num safári. Jorge Rafael Videla. Sugestão para um pulinho na Argentina. Kublai Khan e Imperatriz Cixi. Para uma ida à China ou Mongólia – consulte antes Olavo de Carvalho. Saddam Hussein. Numa viagem trivial ao Iraque. Ou, quem sabe, Muammar Gaddafi, quando estiver negociando armas com a Líbia. François Duvalier, Papa Doc para os íntimos. Passando pelo Haiti. Gamal Abdel Nasser. Quando for conhecer as Pirâmides. Ficam aqui algumas sugestões de ditadores sanguinários – a lista é interminável – que Jair Bolsonaro poderá elogiar ao longo de seu mandato, nas muitas viagens internacionais que deve fazer.

O ex-deputado medíocre que tinha no gabinete uma galeria de fotos de todos os generais-ditadores brasileiros – Marechal Castello Branco – que disse ter sido “eleito” em 1964 –, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Baptista de Oliveira Figueiredo, a quem se referiu como “querido e saudoso” – já mostrou que é um grande colecionador de ditadores. Se houvesse um álbum de figurinhas, bateria bafo com o general Hamilton Mourão. Teríamos, claro, as páginas dos torturadores de menor patente, mas papel relevante, como o ídolo deles, o Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército Brasileiro, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército. O mais recente cromo de Bolsonaro é Alfredo Stroessner, a quem, sentimental que é, homenageou na terça, 26, durante cerimônia de posse do novo diretor-geral da Itaipu Binacional – Adivinhem? Outro militar, general Joaquim Silva e Luna, ex-ministro de Michel Temer -, usina elétrica feita em parceria entre os dois países durante suas ditaduras. Prova de que eles matam, estupram, torturam, jogam no mar, exilam, censuram, mentem, mas fazem.

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Bolsonaro na posse do novo presidente brasileiro de Itaipu. Confraria de milicos saudosistas de ditaduras. (Reprodução/Twitter)

“Isso tudo não seria suficiente se não tivesse, do lado de cá [paraguaio], um homem de visão, um estadista, que sabia perfeitamente que seu país, o Paraguai, só poderia prosseguir, progredir, se tivesse energia. Aqui também a minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner”, declarou, sob palmas da plateia, referindo-se ao ditador sanguinário que comandou o Paraguai entre 1954 e 1989, uma das mais longevas ditaduras do planeta, responsável por milhares de prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos. General do Exército, filho de alemães, Stroessner também foi conivente com refugiados nazistas. Eduard Roschmann, conhecido como o açougueiro de Riga, responsável pela morte de 30 mil judeus na Letônia, e Josef Mengele, médico nazista, receberam acolhida e cidadania do general. Ele morreu em Brasília em 2006, dezessete anos depois ter se exilado no país.

O presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, também esteve presente. Abdo Benítez assumiu em 15 de agosto do ano passado, depois de uma campanha em que tentou se distanciar de seu passado stroessnerista. Seu pai, Mario Abdo, foi o braço direito do ditador por mais de 30 anos. Bolsonaro parecia confortável diante do filhote de reacionário e fez até – oinn- citações da Bíblia. “A verdade nos libertará”, disse a Abdo, que insistiu em chamar de Marito, como fazem seus correligionários do Partido Colorado, o movimento político que deu sustentação à ditadura local. Para o brasileiro, seu colega paraguaio é “um cristão, conservador, homem de família”. E que por “esses valores” decidiu ir à fronteira para apertar sua mão.

Bolsonaro já elogiou outro ditador sanguinário, Augusto Pinochet, que comandou o Chile com mão de ferro. Em dezembro passado, o deputado federal e filho de Bolsonaro, Eduardo, que tem atuado como representante informal do futuro governo em temas de relações exteriores, foi ao Chile, defendeu Pinochet, sobretudo economicamente, e disse que o ditador, cujo regime matou mais de 3 mil pessoas e torturou mais de 30 mil, “impediu que o Chile se transformasse em uma nova Cuba”.

Ao elogiar compulsivamente ditadores que mataram, torturaram e oprimiram seus povos, o Capitão mostra não só desrespeito ao seu povo e a outros povos. Mostra que é um colecionador de ossos.

 

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