A miniaturização de Moro

O episódio da cientista política Ilona Szabó, nomeada e desconvidada, em poucas horas, por Sérgio Moro, para um cargo de terceiro escalão de sua pasta – a suplência do Conselho de Políticas Criminais e Penitenciárias -, depois de uma queda-de-braço entre o ex-juiz e os filhos de Bolsonaro, que controlam a ferro e a fogo a temperatura dos bolsominions nas redes sociais, é ilustrativo menos da perda de um raro bom quadro que poderia qualificar o Executivo. Menos da evidência de que o poder do trio Flávio, Eduardo e Carlos emana sim da cadeira presidencial, e que não estão ali por acaso, nem navegando sem bússola. Como os generais não estão, os ruralistas não estão, os neopentecostais não estão, os dementes de Olavo de Carvalho não estão. O episódio serve essencialmente para deixar a nu um fato por si só constrangedor. Convocado para ser um dos maiores troféus do medíocre ministério Bolsonaro, bibelô na penteadeira do novo governo, com direito ao título de superministro, emprestado também a Paulo Guedes, Moro, que tirou Lula do páreo e o prendeu sem provas interferindo diretamente no resultado eleitoral do país, elegendo o governo do qual faz parte, sofre um processo de miniaturização. Que vai acabar por regurgita-lo do governo ou tornará sua estatura tão diminuta que fará o vaidoso ex-magistrado se arrepender tardiamente da traição que cometeu. Se o mito Bolsonaro está se evaporando precocemente, hidratado apenas pela militância devota que o ama menos do que odeia seus inimigos políticos, o mito Moro já se perdeu, suas ações na Lava Jato são cada vez mais o enredo de uma série de quinta categoria, e seu olhar altivo cada vez mais mira o chão. Em breve, não atrairá mais olhares nas reuniões ministeriais nem cortejos pelo Congresso, perderá as claques nas ruas, será uma fonte menor para os coleguinhas. O tempo dará a velocidade desse encolhimento.

Incensada como uma das maiores especialistas em segurança pública e política contra drogas no país, Ilona foi uma das coordenadoras da campanha nacional de entrega de armas, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Participou do documentário “Quebrando o Tabu”, inclusive como roteirista, onde um mix de celebridades e ex-autoridades como Fernando Henrique, Bill Clinton, Jimmy Carter, Drauzio Varella e Paulo Coelho falam abertamente da descriminalização das drogas. Diretora do Instituto Igarapé, condena ideias como “bandido bom é bandido morto” e a falta de solução para a quase totalidade dos homicídios no país e, claro, é contra a liberação das armas. Por que Moro decidiu nomeá-la é uma pergunta que só Moro pode responder – talvez esteja tateando seus limites. Por que continua no governo depois de humilhado com o veto ao nome da ativista, a gente sabe. Enfiou o rabo entre as pernas, pediu “escusas” a Ilona Szabó e explicou que a indicação de seu nome teve “repercussão negativa entre certos segmentos” – aquele exército de bolsominions mantidos na coleira por Carlos Bolsonaro. Mais ombridade teve o desarmamentista Renato Sérgio de Lima, do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, que dispensou-se em solidariedade a Szabó. #Grandedia”, escreveu Eduardo Bolsonaro pelo Twitter.

Moro fica porque não tem saída. Emprestou seu nome, alugou sua reputação, penhorou seu juízo, em nome de um provável projeto presidencial. Moro quer suceder Bolsonaro. Se negar, terá o mesmo valor das negativas que fez quando lhe perguntavam se um dia entraria na política. E por paradoxal que seja, agora que está perto do Planalto, que o frequenta, que é poder, está cada vez mais longe dele. Seus projetos serão trucidados no Congresso – inclusive com ajuda da bancada alaranjada liderada pela gladiadora, digo, plagiadora Joice Hasselmann (PSL-SP), na Câmara, e pelo sabujo Major Vitor Hugo (PSL-GO) -, seus discursos ficarão desafinados como sua voz, perderá aos poucos o valor como fonte e, uma noite qualquer, lhe restará choramingar no ombro de Dona Rosângela. Se ela ainda estiver por lá.

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