Volta, Lula, volta

“Arthur, você sofreu muito bullying na escola, por ser neto do Lula. Tenho um compromisso com você: vou provar a minha inocência e vou mostrar quem é ladrão e quem não é neste país. As pessoas que me condenaram eu duvido que possam olhar para os netos como eu olhava para você…”
Lula, próximo ao caixão do neto Arthur, segundo relato de presentes

Fiquei muito tempo engasgado. Entalado mesmo. Ainda estou. A garganta arde. Abro a porta pro amor, abro a porta pra dor, deixo a raiva entrar, nenhum se decide em ficar. Os dedos param sobre o teclado, as ideias fogem, me vem um tremendo desalento. Dou uma volta. Leio. Me emociono. Me revolto. Penso em meus filhos. Penso na dor sem fim da perda de alguém que é um pedaço insubstituível de nós. Penso em você, agora, Lula, de volta ao cárcere, sozinho, terno desfeito, a cabeça flutuando muito além do cubículo onde está enjaulado injustamente, depois de ser “liberado” por um tempo cronometrado para o velório e cremação de seu neto, Arthur Lula da Silva, de 7 anos. Sobe no helicóptero, espera no hangar, sobe no avião, dá adeus a Arthur, entra no helicóptero, tranca a cela. Lula, que deveria ser o presidente. Lula, que devolveu o orgulho nacional, como os ecoados por gritos de “Lula livre” e “Lula guerreiro do povo brasileiro”. Alimentando seus tímpanos. A primeira troca de olhares de Lula com o povo em 11 meses. Era ele, Lula. A barba branca, o olhar opaco de dor. Mas altivo. Espinha ereta. Um colosso. O impulso de subir por instantes na lateral para acenar antes de voltar ao carro – uma das cenas mais marcantes. O aparato policial digno de um criminoso com alto poder de reação, policiais federais e estaduais fortemente armados com fuzis, PMs espalhados por todos os cantos, o tratamento dado a bandidos perigosos. O que não desgrudava de Lula tinha no peito o símbolo da polícia dos EUA: “Miami Police – S.W.A.T.” Seis PMs armados não saíram da capela onde o corpo do menino foi velado. O caixão branco sob o qual foram postos um par de chuteiras e uma bola de futebol. O cárcere, o cemitério Jardim da Colina, novamente o cárcere. Sem liberdade, agora sem Arthur. Dou um parágrafo? Encerro o texto? Me vem de novo Lula sozinho na cela. A noite que não terá fim. As paredes se fechando. A cela virando uma trincheira. Comoção no país real, coração rasgado. Nas redes sociais, o esgoto desumano onde vive parte do país soltando fogos, sambando na dor alheia. “O larápio posando de coitado”, não era pose, Eduardo, era a dor lancinante que só entende quem tem coração. “Lula está preso, babacas”, lembrei de Ciro Gomes, ele nunca esteve tão livre Ciro. Você mandou suas condolências? Quem sabe uma coroa de flores do PDT? Bolsonaro se pronunciou? Como dormirá hoje Cármen Lúcia? Moro? Carolina Lebbos? Temer? FHC? Em suas camas confortáveis. Mas deixem estar. O móvel preferido do diabo é o banco comprido. Lula sozinho na cela. Não, sozinho não, a cela está superlotada. Estamos todos lá. Arthur não volta mais. Mas Lula, volta – ainda mais depois de prometer a Arthur. Volta, Lula, volta. Estamos só te esperando.

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Foto: Ricardo Stuckert.

 

6 comentários em “Volta, Lula, volta

  1. Maria Cristina dos Santos 2 de março de 2019 — 22:34

    Obrigada por colocar em palavras o que estou sentindo. Lula gigante, Lula Livre.

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  2. Triste demais!
    “Faz escuro mas eu canto”(Thiago de Mello)
    Texto sobre a Esperança.
    Até que esse Tempo distópico acabe, estaremos na cela, todos juntos com Lula!
    Namastê!

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  3. Renan Augusta Pereira Melo 3 de março de 2019 — 08:23

    muita dor…

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  4. valéria Maria moura vieira 3 de março de 2019 — 09:35

    Dor profunda . Estamos com você meu eterno presidente. Chegará a vez dos seus algozes. Deus tudo vê. será que os 3 patetas do TRF4 , Gilmar mendes , Rosa weber , Luiz Fux , Fachin, …..conseguiram dormir?

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  5. Obrigado, Gilberto! Obrigado por encontrar as palavras para expressar a nossa dor e alentar a nossa esperança nesse tempo de treva.

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  6. Klenze Santos Soares Leite 4 de março de 2019 — 14:23

    E não há um só dia que minhas preces não o alcance. Força guerreiro.

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