Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 7: o desmonte do Itamaraty

De todas as idiossincrasias do atual governo, uma das mais intensas concentrações de boçalidade institucional se dá no quadrilátero que abriga o Palácio dos Arcos, ou Itamaraty, diferenciado dos demais prédios da Esplanada pelo paisagismo de Roberto Burle Marx e pelo espelho d’água, onde encontra-se a escultura “Meteoro”, desenhada por Bruno Giorgi. Ali, como repórter em Brasília, fiz algumas entrevistas com chanceleres brilhantes, entre eles Celso Lafer, que me recebeu para falarmos da viagem do então presidente Collor à Antártica – para onde também embarquei, primeiro num Hércules da FAB, depois no navio oceanográfico Barão de Teffé. Fundado em 1736 num lugar onde meritocracia sempre foi base e experiência conta muito, o Itamaraty está hoje entregue ao Capitão Furacão Ernesto “No Che” Araújo, ministro das Relações Exteriores autoproclamado. “Ernie” tem uma grande missão: destruir a portentosa e orgulhosa diplomacia brasileira, como um Popeye sem espinafre que assume o leme do Encouraçado Potemkin com o objetivo deliberado de coloca-lo a pique. A exoneração do embaixador Paulo Roberto de Almeida da presidência do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri) é só mais um ato – não o último, enquanto os militares deixarem e a história não virar – de um homem que tem três patrões.

Um é Donald Trump – representando a fantasia amoral de Ernesto Araújo por submissão ao governo dos Estados Unidos. O outro patrão é Olavo de Carvalho, o drugstore cowboy que vive em Richmond, Virgínia, Estados Unidos e que, como guru da direita brasileira, nomeou não só “Ernie” para o Itamaraty, como o colombiano Ricardo Velez Rodriguez, saído dos quadros da Escola de Comando do Estado Maior do Exército para o MEC. O terceiro patrão de Araújo, evidentemente, é Bolsonaro. Como Velez é o Bispo do MEC, Araújo é o Pastor do Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump. Num governo onde um Capitão reformado, expulso do Exército, se aventura a bancar o comandante-em-chefe, mandando na centena de generais, almirantes, brigadeiros e fardados que espalhou pelos vários escalões do poder, “Ernie” seguiu a mesma lógica. Embaixadores estão obedecendo a ministros de segunda classe e as secretarias foram ocupadas por funcionários juniores. Vários embaixadores foram exonerados de seus cargos.

Leia também “Olavo surta enquanto Richmond perde influência para a Vila Militar”; “Bolsonaro, “Tia” Damares e Tio “Palmatória” querem transformar o Brasil numa pacata comunidade Amish“; “Seu” Olavo dispara fogo amigo contra bancada bolsominion, que não foi pra Cuba, mas fez a feira na China”; e “Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 6: a castração de Maduro”.

A saída de Paulo Almeida ocorreu após republicar, em seu blog pessoal, artigos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do ex-ministro Rubens Ricupero com críticas à diplomacia brasileira, e também texto do próprio chanceler, que rebate os dois primeiros. O embaixador assumiu o cargo no Ipri em agosto de 2016, no governo Temer. Segundo ele, o chefe de gabinete do Itamaraty, Pedro Wollny, telefonou para comunicar sua saída. Havia falado demais. Questionado, o Itamaraty afirmou, por meio de nota, que a mudança estava decidida anteriormente. “Personalidades autoritárias não apreciam espíritos libertários como o meu”, postou depois o diplomata afastado. Almeida é diplomata de carreira desde 1977. Serviu em diversos postos no exterior, incluindo a Bélgica. Ernesto Araújo atendeu, assim, aos seus patrões. A Olavo de Carvalho, chegou a mandar um twitter, republicado pelo astrólogo, deixando claro que a demissão fora de sua inteira responsabilidade. “Sinto que algumas pessoas tenham atribuído a uma intervenção do professor. Eu não queria causar nenhum embaraço a ele”, tuitou Araújo, prestando contas a Olavo de Carvalho de forma constrangedora. Espera-se para breve a remoção do “Meteoro” de Bruno Giorgi para o Museu Nacional do Rio, onde fará companhia ao Meteorito Bendegó, que sobreviveu ao incêndio que destruiu a Casa.

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