O guerrilheiro que não desiste de achar os companheiros

Em 2013, Aluizio Palmar, ex-guerrilheiro, foi convidado para dar um depoimento na Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, em Brasília. O homem sabe de histórias como poucos, ah, sabe. Aluízio é um dos sobreviventes dos anos de chumbo. Que não se omitiu em tempo algum. Nem na época, nem agora, quando relança, com novas revelações, “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?”, pela editora Alameda, livro que relata os últimos passos de seis guerrilheiros – Onofre, Lavéchia, Joel, Daniel, Victor e Enrique – que estavam na Argentina e desapareceram ao ingressar no Brasil para promover ações armadas no Sul do país. O grupo do Onofre Pinto, ex-lider da VPR, foi morto numa emboscada armada pelo Exército em 1974. A obra é o resultado de 26 anos de investigação jornalística e verdadeira obstinação em busca das circunstâncias das mortes e da localização da cova onde foram enterrados cinco brasileiros e um argentino, que insistiram em continuar a luta armada contra a ditadura militar, mesmo após a derrota das organizações guerrilheiras em meados de 1974.

Fluminense de São Fidélis, Estado do Rio de Janeiro, hoje com seus 76 anos, estudou na Universidade Federal Fluminense e, com o golpe militar de 1964, foi preso e banido do país, após ter sido trocado, juntamente com outros 69 presos políticos pelo Embaixador da Suíça no Brasil. Depois de passar oito anos entre o exílio e a clandestinidade, deu início, após a Anistia Política, à carreira jornalística que completou 42 anos. Voltando a 2013, na Câmara, falava sobre sua torturas quando irrompeu no salão um deputado descontrolado. Dedo em riste, olhou para Aluizio Palmar e disse pra quem quisesse ouvir: “Os caras que te torturaram não deveriam ter te deixado sobreviver. O deputado obviamente você já sacou, é nosso atual presidente, Jair Bolsonaro. Gilberto Pão Doce foi procurar Aluízio para falar do livro, mas também para tentar entender como é para um homem que foi banido, perseguido, torturado e perdeu companheiros pelos campos de luta, durante o regime de exceção, ter hoje na Presidência um defensor da ditadura, fã de torturadores e saudosista de tempos abomináveis, que transformaram a vida do país.

Gilberto Pão Doce – Começo perguntando. Onde foi que enterraram os nossos mortos? Me refiro aos da VPR, mas a também todos os que continuam desaparecidos políticos.

Aluizio Palmar – Essa é o dívida que o Brasil tem com seu passado. Na medida em que aqui não foi feita a justiça de transição, os responsáveis pelas graves violações não foram ouvidos pela Justiça. Faltou resolubilidade à recente experiência da Comissão Nacional da Verdade. Apesar de convocados, foram poucos, ou melhor, raros, os responsáveis por torturas, assassinatos e ocultação, que compareceram nas audiências. E os que atenderam às intimações negaram-se a falar e os que falaram, mentiram, omitiram e tergiversaram. O pouco que se sabe sobre os desaparecidos políticos é graças aos trabalho de investigação dos familiares, dos sobreviventes e dos pesquisadores em geral.

GPD -Seu livro é relançado num momento determinante. Quando o presidente é um homem que não reconhece o golpe de 64, diz que não houve ditadura, elogia Brilhante Ustra, Pinochet e Stroessner, já defendeu publicamente atrocidades e até o fuzilamento de líderes, como FHC. Qual a importância de contar a história real, quando querem retira-la até dos livros de história?

Aluizio – Bolsonaro é um homem tosco, que reproduz a fala do que há de mais atrasado na sociedade brasileira. A formação de Bolsonaro foi engendrada no seio do que há de mais abrutalhado e de pessoas ligadas à grupos de extermínio. Portanto, ele é parte da violência, da tortura, dos preconceitos e da exclusão social. Esse exercício, nossa luta diuturna, de resgatar memórias, tem sido uma tarefa dos sobreviventes, dos familiares e historiadores.

GPD – Olavo de Carvalho, o “filósofo” de Bolsonaro e de seus filhos, diz (repetiu isso numa entrevista a Pedro Bial, em sua casa, nos EUA), que o golpe de 64 existiu, mas não foi contra Jango, mas contra os políticos que arquitetaram o golpe, como Carlos Lacerda. Como o senhor responde a essa versão?

Aluizio – As coisas que esse Olavo de Carvalho fala fazem parte desse festival de besteiras que assola o país. É a versão 2019 do Febeabá, criado pelo jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Quem viveu aqueles momentos do pré e pós golpe, sabe muito bem o caráter de classe do golpe militar naquele contexto de guerra fria, num momento de ascensão das massas trabalhadoras, em que as consciências esclarecidas ocupavam postos relevantes na sociedade brasileira. Aliás, eu recomendo um livro que considero de grande importância para a compreensão do golpe militar. Trata-se de “1964, A Conquista do Estado”, do cientista político René Armand Dreifuss. Em sua obra, Dreifuss mostra com dados oficiais que o golpe teve como objetivo impor uma reformulação do aparelho do Estado que beneficiou as classes empresariais e os setores médios da sociedade em detrimento da massa. Lacerda e sua histeria antigetulista foi usado como propagandista para aterrorizar a classe média e impor o medo do comunismo.

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Aluizio Palmar corre o país com a edição atualizada de “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?”, pela editora Alameda

GPD – A Anistia brasileira “para os dois lados” impediu que o Brasil lacrasse o período ditatorial, como fizeram outros países, como Argentina e Chile, e de alguma forma tornam as Forças Armadas ainda saudosistas do regime de exceção?

Aluizio – Essa teoria dos dois demônios é bizarra. É uma interpretação fuleira da história que não deve ser levada a serio. Ao referendar essa ideia obtusa, o STF coloca no mesmo nível a oposição à ditadura e àqueles que torturaram mulheres grávidas, que estupraram homens e mulheres com cassetetes até a morte, dilacerando-lhes os intestinos, como é o caso do jornalista Mário Alves. Estamos pagando o preço de não ter sido feita a Justiça de Transição, com os responsáveis por graves violações não terem respondidos pelos seus crime e também pela manutenção dos currículos na academias militares. Na grade escolar desses espaços de formação, a ideologia da segurança nacional permeia na maioria dos textos.

GPG – Sobre seu livro, você traz revelações explosivas sobre os últimos passos de seis guerrilheiros da VPR que estavam na Argentina e desapareceram ao ingressar no Brasil para promover ações armadas no Sul do país. Foram quase três décadas de investigação jornalística em busca das circunstâncias das mortes e da localização da cova onde foram enterrados cinco brasileiros e um argentino. Por que o sr nuca desistiu?

Aluizio – Esse livro foi para mim uma catarse. Ele encerrou um período de silêncio, em que eu e minha família procurávamos evitar o sofrimento ao recordar as dilacerações de nossos corpos e almas. Eu fui em busca dos desaparecidos políticos e me reencontrei com minha história e ao reencontrar a minha história, trouxe à luz as lutas estudantis em Niterói, a criação de um dos primeiros grupos da luta armada – o MR8 de Niterói, as ações da resistência, as lutas camponesas no interior do Estado do Rio de Janeiro e Paraná, a prisão, torturas, clandestinidade e a busca aos companheiros desaparecidos. Essa reedição está atualizada com novas descobertas, como a circunstância da morte de Onofre Pinto, líder da VPR e os resultados das últimas expedições até o local da chacina dentro do Parque Nacional do Iguaçu.

GPD – Como o senhor analisa o atual momento político que, visto de forma rápida, traz um capitão reformado, eleito presidente, militar e político medíocre, levado pelas circunstâncias, comandando não só o país, como as Forças Armadas, e generais, como o vice-presidente Hamilton Mourão? 

Aluizio – No momento, Bolsonaro está servindo aos grupos que o colocaram no governo. Enquanto for útil e tiver base social Bolsonaro fica. No momento ele está colocando em prática as pautas do empresariado, que são o enxugamento do Estado, a reforma da previdência e alinhamento aos EUA. Para o seu público ele usa as mesmas perfumarias que usou na campanha eleitoral.

GPD – As Forças Armadas brasileiras, e suas lideranças, na sua opinião, não aprenderam nada com 64, com o período de exceção? O espírito golpista ainda reina, mesmo com um presidente de direita no comando?

Aluizio – As Forças Armadas não são um corpo monolítico. Dentro delas existem muitas contradições e a tendência são elas aflorarem com essa sanha dos militares de ocupar cargos públicos e se locupletarem com as sinecuras e benesses que a administração pública oferece. A pauta do anticomunismo já não une as FFAA e quanto ao combate a corrupção, ele vai se esvaziar quando os oficiais íntegros se derem conta que seus pares no governo estão se esbanjando com o erário público. A história vai se repetir. Lembro que tanto Golbery do Couto e Silva como João Figueiredo denunciaram corrupção na ditadura militar.

GPD – Há solução para o país, para a esquerda, além de Lula? Ou só sua libertação, e uma nova vitória nas urnas, seriam capazes de redimir o país e evitar a continuidade deste tremendo retrocesso?

Aluizio – A barbárie vai ceder e as consciências esclarecidas vão dar a volta à tortilha. As chamadas esquerdas tem de superar o sectarismo e abrir o leque. Somente uma ampla frente democrática pode derrotar o grupo que está no governo.

GPD – Com sua história de vida, e ainda um brasileiro, um cidadão, um eleitor, um homem político, que mensagem o sr passaria para o país e, especialmente, para as novas gerações, que parecem viver hoje sua esperança?

Aluizio – Parafraseando o libertador San Martin, unidade, unidade e unidade. Somente vamos derrotar essas forças poderosas com muita unidade, com um programa democrático, sem soberbia e sectarismo.

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