Bolsonaro fustiga Mourão pelas costas com medo de estar diante de um Brutus, flertando com o punhal diante da imprevisível família imperial

“Kai su teknon”.
Júlio César para Brutus, mas poderia ser Bolsonaro para Mourão, no pesadelo que habita a casa dos Bolsonaro

O governo Bolsonaro é tão estranho e anti-histórico que, ao contrário da lógica recente brasileira, quando era o vice a dar trabalho – exceção feita ao anódino Marco Maciel- é Bolsonaro quem pega no pé do Mourão. Durante a campanha de forma explícita e até constrangedora, desautorizando algumas posições do vice. Verdadeiros cala-bocas. E agora no governo…bom, agora no governo, Bolsonaro age como se quisesse derrubar Mourão. Literalmente. A ponto de escalar um de seus crentes da guarda, o deputado Marco Feliciano, presidente da Assembléia de Deus Ministério Catedral do Avivamento – seja lá o que isso signifique -, para pregar o impeachment de Mourão. Você leu direito. No Twitter, escreveu @GeneralMourao respeite o presidente @jairbolsonaro. Chega de conspiração! e postou um discurso em que mostra um protocolo pedindo o impeachment do vice. O pastor metrossexual reconhece que é um blefe, um “aviso”. “Não é um tiro pra matar, é um tiro pro alto”, diz. Na véspera da Páscoa, foi o próprio Bolsonaro quem postou um vídeo de seu guru-encosto Olavo de Carvalho, em que o astrólogo metido a filósofo, em seis minutos e tanto, logo depois de praticar disparos de espingarda – gente, isso também é literal, não custa avisar -, pratica um de seus esportes preferidos: tiro ao alvo nos militares no entorno de Bolsonaro, assim como nos políticos que ascenderam com a onda de direita. Vale lembrar que Bolsonaro definiu-se livremente por Mourão, escolheu cada general que o cerca – e são muitos no primeiro escalão – e precisa muito de sua fauna parlamentar, para aprovar as reformas que diz querer aprovar no Congresso.

No vídeo que, depois de 100 mil visualizações, Bolsonaro inexplicavelmente apagou – mas Carlos Bolsonaro logo compartilhou, numa espécie de revezamento de perfis -, o John Wayne de araque chama Bolsonaro de mártir. “Dentro do governo é só intriga, só sacanagem, só egoísmo, é só vaidade, é só isso que tem.” Além de Mourão, outro inimigo público número um eleito pelo astrólogo é o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, a quem se refere de forma desonrosa. Em áudios vazados de WhatsApp, Bolsonaro vibra com a guerrinha pessoal. “Em 2022, ele (Mourão) vai ter uma surpresinha”, ameaça. O que nos remete à cena da família Bolsonaro, metaforicamente em volta da lareira da casa de Olavo de Carvalho, em Richmond, Virgínia, comendo biscoitos de aveia, bebendo leite de cabra e falando mal dos…militares. Peraí, mas qual a lógica disso? Os ciúmes do capitão da independência do vice são maiores que sua capacidade de enxergar, como diríamos, a grande cena? – ele precisa governar e precisa de paz para isso.

Leia também “A Esfinge Mourão”.

Mas paz parece um artigo de luxo na prateleira dos Bolsonaro. Eles se alimentam justamente da falta de paz. Como escreveu Marcos Augusto Gonçalves, na Folha, com menos de quatro meses de governo já se presencia “um cisma de grandes proporções numa administração cuja índole caótica parece ser ainda tolerada por representantes do empresariado e das elites graças às promessas” — aqui e ali fantasiosas, diga-se — do ministro da economia.” A jornalista Malu Gaspar, da Piauí, num belo perfil de Mourão, parece matar a charada. Mourão, mesmo sem ser uma ponte de enorme firmeza, soa como uma travessia menos cheia de percalços. “Atacado pelos radicais bolsonaristas, o vice-presidente se coloca como garantia contra solavancos do governo”, diz ela. As falas de Mourão a empresários, como na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, e a acadêmicos, como em sua ida à Harvard Science Center, em Boston, para falar na Brazil Conference, só acentuaram os ataques de ciúmes dos Bolsonaro, que veem nos gestos tentativas camufladas de usurpar o poder. Bolsonaro sonha atravessar o Rubicão da Reforma da Previdência, o único – e nefasto – legado possível de seu mandato, esperando que os poderes lhe concedam o título de ditador, simbólico ou não, o que não é impossível com Sérgio Moro na Justiça e a magistratura extraordinária da República Brasileira. O que essa família pensa, ou fala, não deve ser considerado como coisa de gente sã, mas o que eles visualizam é mesmo um vice apostando no impeachment, mais ou menos como fez Temer com Dima. Só não se sabe ainda quais seriam as pedaladas da vez.

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