É permitido proibir: censura em comercial do BB segue cartilha nazista do controle da propaganda

Quando se estudar, no futuro, o governo de Jair Bolsonaro, tanto quanto as manobras na diplomacia, com o alinhamento lacaio ao governo norte-americano e o desprezo pelo terceiro mundo, e na educação, como a militarização das escolas, a tentativa de instituir o que se convencionou chamar de “Escola Sem Partido” e o trabalho para esvaziar os centros de ensino do pensamento – sociologia, filosofia, antropologia, ciências políticas e sociais em geral – e instituir a moral cristã protestante e um tremendo retrocesso nos costumes – o que até agora tem sido embarreirado pelo dique construído por alguns ministros do Supremo -, haverá um capítulo especial sobre o controle da comunicação. Que não passa só pela tese da “democracia” direta via redes sociais, mas pela evidente retórica antipetista (significando aí a antipolítica), anticultura, com a “facada” na Lei Rouanet e o desprezo pela classe artística – os ciganos do Reich Bolsonarista – homofóbica, racista, sexista, machista. O controle não só dos meios de comunicação de massa, que na época do Nazismo significava dominar as rádios, os jornais e a cinematografia – com a sofisticação do cinema nazi para além de Leni Riefenstahl -, mas da propaganda. Entendida aí no conceito mais amplo, o que aproxima a estratégia de Hitler, como dos governos fascistas de um modo geral, do ensaio de orquestra de Bolsonaro. Se hoje não interessa, ao contrário, a retórica antissemita, vale e muito o conjunto de discursos elaborados contra a população que representa, por falta de melhor definição, a diversidade. Diversa é a mulher independente. Diverso é o gay. O LGBT e outras letrinhas que se queira agregar. Diverso é o trabalhador que protesta pelos seus direitos surrupiados. Diverso é quem se veste, se porta e fala como quem tem opinião própria, ainda que tatuada na pele. Diverso é quem não se submete.

Não por acaso, as telenovelas da Globo, apesar da dramaturgia precária e dos atores que parecem, em sua maioria, saídos de Malhação, representam, sem querer, o mundo dos pesadelos dos Bolsonaros, de Olavo de Carvalho e dos cavalheiros desse apocalipse now. O episódio da retirada do ar uma campanha publicitária de um banco estatal, o Banco do Brasil, dirigida ao público jovem, com atores que representam a diversidade racial e sexual que está nas ruas, nos bares, nas casas, nos transportes públicos, que é a cara do Brasil, não é apenas muito grave por ser um ato de censura que partiu diretamente do presidente da República. É grave porque deixa exposta uma ação de uma ainda não completamente engendrada máquina estatal no melhor estilo DIP, que deseja não apenas vender o “Brasil, ame-o ou deixe-o”, mas ajudar a empurrar pra fora quem não quiser deixar por bem. No ar desde o início de abril, a propaganda – que dura apenas 30 segundos! -foi suspensa no último dia 14 depois que o presidente assistiu ao filme. Participaram atores jovens, negros, tatuados e uma transexual. Mulher negra, com cabelos curtinhos. Ela usa uma jaqueta verde brilhante. Na cena, ela está fazendo uma selfie com o celular. Diante do impacto da censura, o BB, que mandou demitir o diretor de marketing, Delano Valentim, tentou minimizar, dizendo que a propaganda seria retirada por não refletir a diversidade da população brasileira. Ignorou a estratégia de guerrilha das equipes de marketing e tecnologia do banco, que, diante da competição voraz das fintechs, hoje uma ameaça concreta aos maiores bancos, tentou alcançar, com alguma ousadia, os maiores adeptos das startups financeiras, que têm entre os jovens seus maiores adeptos.

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Personagens da propaganda de 30 segundos do Banco do Brasil, com Participaram atores jovens, negros, tatuados e uma transexual, que tenta vender o app do BB para concorrer com as Fintechs. Bolsonaro mandou pessoalmente tirar o comercial do ar por não refletir o perfil do povo brasileiro. Censura e controle dos meios de comunicação, como nas piores ditaduras fascistas.

Nem no regime militar, João Figueiredo ousou pedir para tirar do ar o comercial altamente sexy da Ellus, criado por uma pequena agência chamada Fox, no distante 1979, ao som de “Mania de você”, de Rita Lee, que remetia ao sexo em uma época em quase nada era permitido. Isso se explica. Bolsonaro simplesmente não suporta a ideia de que exista o diferente, incluído aí quem não votou nele e a turma no armário, que parece arrependida do voto. Bolsonaro, Damares e Rubem Novaes, presidente do BB, irmãs Cajazeiras da moral publicitária, censuraram o comercial dirigido ao público jovem repetindo sim um processo nazista de exclusão. Para quem não se lembra dos brilhantes personagens criados por Dias Gomes, um dos autores brasileiros mais censurados pela ditadura, as irmãs Cajazeiras, da novela “O Bem Amado”, formam um trio de solteironas sexualmente reprimidas, que mal disfarçam a hipocrisia. Em público, são avessas a imoralidades e posam de damas corretas. Na intimidade, compactuam com o assédio e as artimanhas de Odorico, político corrupto e populista (vivido pelo brilhante Paulo Gracindo), de quem são fiéis aliadas. Seduzidas por promessas de casamento, mantêm relacionamentos amorosos com o prefeito, sem desconfiarem umas das outras. Qualquer semelhança…

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A propaganda nazista dos tempos de Hitler incluía grandes marcas a a ideia de uma família perfeita, de raça pura e livre das minorias

Vale lembrar que o Conar, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, até agora, se omitiu. Ele não só pode, como deve se posicionar. Julgou, e absolveu, por exemplo, uma polêmica campanha da Paralimpíada, nas redes sociais, criada pelo próprio Comitê Paralímpico Brasileiro. O Conar é mantido pela contribuição das principais entidades da publicidade brasileira e seus filiados – anunciantes, agências e veículos. Porque, tudo indica, só vai piorar. Em reunião no Banco do Brasil com inúmeras agências de publicidade, determinou-se, por orientação do Planalto, que palavras como “lacrou” e outras ligadas ao universo LGBT estão proibidas de ser usadas em qualquer tipo de peça publicitária e de divulgação. A sombra da censura estatal só começa a cobrir o horizonte. Como escreveu o blogueiro Thiago Amparo, “homogeneizar campanhas publicitárias é incitar preconceito contra grupos que tem sido historicamente colocados em condição de invisíveis. O mercado e o movimento sabem disso. O presidente não”. Ah, o governo lançará uma carérrima campanha publicitária para defender a reforma da Previdência. A verba inicial da campanha é de R$ 40 milhões. Nela, esperem negros, idosos, até mulheres, que precisam ser convencidos a agasalhar o sonho erótico-econômico de Guedes, mas não esperem, por exemplo, gays ou transgêneros. Eles definitivamente não representam o clã incrustado no poder.

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