De Nova York, a Globo cobre a Venezuela

A geografia da cobertura jornalística é diferente da geografia do mapa mundi – ou da terra plana, se você preferir, prometo não polemizar sobre isso hoje. Em minhas três décadas como jornalista, sempre vibrei quando era enviado in loco para uma cobertura, fosse uma viagem presidencial à Antártica, mandando as matérias a bordo de uma redação improvisada no Barão de Teffé, seja de Letícia, na Colômbia, ou Xapuri, no Acre, dedilhando a “marmita” – como eram chamados os tataravós dos notebooks – com o material jornalístico apurado a bordo de um helicóptero da FAB ou sentado literalmente na calçada. Ir aonde os fatos ocorrem, e apura-los onde ocorrem, dá credibilidade ao material jornalístico. Considerando, claro, que o veículo para o qual você trabalha irá publicar – ou transmitir, ou levar ao ar, no caso dos meios eletrônicos – o que você apurou. A pauperização das redações – no pior dos sentidos – foi mudando essa realidade. E hoje cobre-se o Brasil quase sempre de Brasília. Ou de São Paulo. Veja o caso da revista IstoÉ, que fechou as sucursais do Rio de Janeiro e Brasília, e hoje informa o país e o mundo aos seus leitores do velho prédio na Lapa de Baixo. Viagens para coberturas jornalísticas foram escasseando. E correspondentes estrangeiros foram se tornando coringas raros nas redações. Mesmo na TV Globo. O livro “Correspondentes”, lançado em agosto do ano passado, conta um pouco desses tempos áureos, narrando a história de 20 repórteres que cobriram guerras, furacões, terremotos, revoluções, sem estar em um estúdio em Brasília, Londres – ponta de lança da cobertura global na Europa – ou Nova York, a capital do mundo, de onde se cobre quase tudo. Obviamente, nem só fatores financeiros explicam essa cobertura esquartejada dos fatos ocorridos pelo planeta – e uma estranha bússola que rege algumas coberturas, como na Venezuela atualmente.

A TV Globo cobriu de Paris, e não do seu puxadinho em Londres, o protesto dos coletes amarelos no Dia do Trabalho, com confrontos com a polícia. Estava lá Rodrigo Alvarez, evidentemente gravando sua passagem de um local seguro, com as imagens que realmente interessam sendo geradas por agências de notícia internacionais. Mas estava lá o journaliste, na capital francesa, ainda que a emissora faça pouco mais do que colocar um repórter na rua, com uma pauta na cabeça – os “coletes amarelos” são os black blocs franceses – e uma microfone com logotipo na mão. Até onde se sabe, fora NY, os correspondentes globais estão em Londres – terra de Cecília Malan, filha do ex-ministro de FHC, Pedro Malan, mais lembrada por ter surtado na cobertura de atentados em Paris -, Paris, Roma – Ilze Scamparini, veterana, com mais de 15 anos como correspondente – e Berlim. Jerusalém e, aparentemente, Lisboa, foram desocupadas. Numa emergência, nos tempos de hoje, pode recorrer a frilas, que estão por todo o planeta, mais espalhados que mineiros pela Terra. Um notebook, um celular, um microfone, e algum equipamento, e está tudo resolvido. Ainda assim, geralmente, são bonecos de posto. O noticiário – informações, imagens – vem pelas agências de notícia e pela orientação dos redatores dos jornais.

Na América do Sul, sabe-se que a Globo tem correspondente em Buenos Aires, o simpático e fanfarrão Ariel Palacios. Lá já esteve Delis Ortiz, que voltou para Brasília, de onde cobria, devidamente pautada, as crises na Venezuela. Há dois anos, José Roberto Burnier chegou a ir a Caracas registrar, claro, protestos contra Nicolás Maduro. Mas são eventos raros. Caracas é coberto de Buenos Aires. E, mais recentemente, no governo Bolsonaro, de Nova York, a 3.400 km do Palácio Miraflores. Onde os microfones da Globo não possam ser vistos de perto. Por que quem apoia a democracia na Venezuela, e sabe o governo que se instalou no Brasil, com Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho e Ernesto Araújo, sabe que por trás dele está a cobertura da Globo, onde Maduro é ditador e Juan Guaidó, o gogo boy de Trump, é o autoproclamado presidente interino da Venezuela. Melhor não facilitar. De Nova York o mundo parece mesmo mais colorido.

  • Texto inspirado num tema do Conversa Afiada com Paulo Henrique Amorim

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