Quase escanteado por Trump, Guaidó insiste no golpe militar a todo custo

Primeiro, há que se entender porque alguém se autoproclama presidente de uma democracia, que já tem presidente eleito e tudo e, pior que isso, acreditam nele. Inclusive, claro, o Brasil de Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho. Explica-se: essa Nação é a Venezuela e não queremos que o Nicolás Maduro, representante do bolivarianismo chavista, continue por lá, queremos? Aí um certo Juan Guaidó passa a ser tratado como presidente autoproclamado, o que é mais ou menos como o morador de um prédio, durante uma assembleia, se declarar síndico autoeleito. Ou o sócio de um clube aproveitar que está todo mundo na piscina, subir numa mesa e gritar: ‘sou comodoro autonomeado’. Nenhum morador vai dar bola para as circulares desse síndico de araque, nenhum clube vai aceitar as ordens desse comodoro fajuto, mas, no caso de Maduro, Guaidó e da Venezuela, decidiu-se que a autoproclamação vale, assim, porque vale, afinal, Maduro, para uma parte do mundo aos pés de Trump, representa o novo eixo do mal. De onde a Coréia do Norte, mesmo comandada por um ditador, foi retirada. Para ficar no exemplo evidente de Kim Jong-un, que agora é líder da Coréia do Norte, não mais ditador – enquanto interessar a Trump. Segundo, um país, no caso, os Estados Unidos mesmo, decide assumir publicamente movimentos diplomáticos, os mais circenses possíveis, e fazer ameaças militares para derrubar Maduro, e isso é tratado com a mais absoluta naturalidade. Pelos demais países, pelo Grupo do meu pé de laranja Lima, pela mídia. A desculpa oficial é que a Venezuela vive o caos e ignora-se que isso ocorre justamente porque a grande potência do Norte impõe um covarde cerco financeiro contra o governo da Venezuela, matando de fome seu povo. Trump quer Maduro fora e vale tudo pra isso.

É mais ou menos como se John F. Kennedy, que empurrou as relações americanas com João Goulart para o ápice da deterioração total, assumisse publicamente, e não em conversas secretas, reveladas muito tempo depois, que queria derrubar Jango e, mais do que isso, que o faria apoiando um golpe militar, que se consumou, afinal, em 1964. Tempos depois, Lincoln Gordon, o embaixador, teria suas conversas sobre a ajuda do Pentágono para uma solução final para o Brasil revelados. Não se poderia admitir uma “nova Cuba na América Latina”. Era a Operação Brother Sam. Isso não é ficção, é história, como é história o golpismo de Guaidó, bancado publicamente pelo país de Trump, e a consequente ameaça militar contra Maduro.

Vivemos o fechamento da fronteira do Brasil com a Venezuela, tivemos o episódio dos dois caminhões com ajuda humanitária brasileira que chegaram a Pacaraima, e a a piada não se desfaz. E agora temos uma nova etapa da diplomacia non sense. Isolado, fracassado em sua tentativa de liderar um golpe, em 30 de abril, e depois de reconhecer que Maduro, ao contrário dos informes de Washington, continua com pleno controle sobre os comandantes militares, o autoproclamado surtou. Neste sábado, 11, como quem vai ao mercado escolher as frutas da estação, Guaidó mandou um enviado aos Estados Unidos, um certo embaixador Carlos Vecchio, para que se reúna com oficiais do Pentágono para cooperar em uma “solução para a crise política” do país da América do Sul. Em outras palavras, que o Comando do Sul volte a considerar uma intervenção militar na Venezuela. “Dissemos desde o início que usaríamos todos os recursos à disposição para fazer pressão”, disse Guaidó, gogo boy de Trump, em seu malabarismo com as palavras.

Na real? Bateu o desespero em Guaidó e ele começa a temer ser escanteado. Os protestos definharam. Informações da agência France Press apontam que menos de duas mil pessoas se reuniram em uma região de Caracas que é pouco hostil aos manifestantes, neste fim de semana. Guaidó falou à “multidão” e disse que é preciso vencer o medo e continuar com os protestos em todo o país. O discurso é de descolamento da realidade. “Estamos em um momento histórico”, disse o líder da oposição. “Mesmo estando com medo, desesperançosos, nós continuamos a encher as ruas com esperança, poder e confiança”, disse. Aliados de Guiadó nem mesmo nas ruas estão mais, abrigaram-se em embaixadas amigas em Caracas. Oficiais da administração Trump seguem na ladainha de que “todas as opções estão na mesa” para derrubar Maduro, que chama Guaidó de marionete dos EUA querendo tirá-lo do poder com um golpe. Guiadó disse a um jornal italiano esta semana que “provavelmente” aceitaria intervenção militar dos EUA, se o país a propusesse. Não proporá. China e Rússia estão de olho. A maioria dos países latino-americanos, assim como a União Europeia – mesmo apoiando Guaidó -, expressou oposição a uma potencial intervenção militar na Venezuela. Mais fácil aparecer em breve outro Guaidó, talvez fardado, com algumas medalhas no peito, se auto-intitulando o novo presidente autoproclamado. Guaidó vai se tornando velozmente descartável rumo ao limbo da história.

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