Bolsonaro dá presente de grego para Moro ao indicá-lo para o STF

Ao anunciar o nome de Sérgio Moro para uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal, um ano e seis meses antes da previsão da próxima vaga na Corte, aquilo que poderia soar como homenagem ao ex-magistrado, ponto culminante na carreira do homem que foi juiz por 22 anos, foi um Cavalo de Tróia de Jair Bolsonaro, uma cartada política subterrânea: com Moro no STF em 2020, o capitão espera tirar o ex-juiz do páreo na corrida presidencial de 2022. Ou, pelo menos é o que imagina Bolsonaro, já que Moro assumiria como um ministro castrado. Não poderia, por exemplo, julgar casos ou réus da Lava Jato, o que certamente lhe tiraria os holofotes sob os quais sempre brilhou. Não é de se estranhar, assim, que Moro, um dia depois da generosa oferta de Bolsonaro, tenha aproveitado um evento para esclarecer que não colocou qualquer condição quando aceitou o convite para integrar a equipe ministerial do presidente Jair Bolsonaro.

“Não estabeleci nenhuma condição. Não vou receber convite para ser ministro e estabelecer condições sobre circunstâncias do futuro que não se pode controlar”, afirmou o ministro, durante palestra em Curitiba. “Não tem a vaga no momento. Quando surgir a vaga lá na frente o presidente vai avaliar se ele vai realizar o convite para mim. Se ele formular o convite aí eu vou avaliar se eu vou aceitar”, desdenhou Moro. Uma frase estranha já que qualquer ex-juiz sonharia em compor o Supremo Tribunal Federal. E manter-se no Ministério da Justiça não nos parece o sonho de consumo do “Conge”. É claro que Moro sonha com 2022, da mesma forma como é óbvio que Bolsonaro sonha, como todo presidente, em tentar uma reeleição. Tudo vai depender, claro, de uma série de fatores, como os rumos da economia. Mas a cartada foi dada.

A próxima vaga no tribunal deve ser aberta em novembro do ano que vem, quando se aposentará, aos 75 anos, o decano da Corte, ministro Celso de Mello. Gerson Camarotti, da TV Globo, como outros comentaristas, preferiram ver no fato uma tentativa de Bolsonaro de fortalecer o ministro da Justiça depois da derrota sofrida na votação da reforma administrativa. Na semana passada, uma comissão do Congresso decidiu transferir o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça para o Ministério da Economia. Ledo engano. O que Bolsonaro quer é tirar um presidenciável, que hoje está na sua aba – e cujo sucesso depende do seu sucesso – do páreo.

Ministros e ex-ministros do STF não costumam ter luz própria ou serem figuras populares. Exceção feita, graças à mídia, e à cobertura do chamado Mensalão, ao ex-presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, que, desde que deixou o cargo, por conta própria, é cogitado para concorrer ao Planalto, mas sempre desdenhou. Na corrida do ano passado, chegou a entabular algumas conversas e filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), que o via como a maior esperança de chegar pela primeira vez ao Palácio do Planalto. Na época, início de 2018, chegava a aparecer com 10% das intenções de voto. No final, declarou voto no petista Fernando Haddad. Moro não é Barbosa.

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