“Ernie”, o deslumbrado do Twitter, que cumprimenta neofascistas e baba em quadro que inspirou massacre

Um chanceler é, por definição, um homem tão culto quanto sereno em sua convivência cotidiana com novas culturas. Já foi o encarregado da guarda do selo real. Exato, começou como um honorável guarda-selos. E, em certas épocas, foi o responsável pela administração da justiça e chefe dos conselheiros do rei. O chanceler hoje é o funcionário consular mais importante, o ministro das Relações Exteriores ou dos Negócios Estrangeiros. Viagem é sua vida. E conviver com outras culturais é algo com que lida com naturalidade. Não há espaço para espantos. Mas aí você coloca como chanceler um diplomata de quinta categoria comandando a Casa de Rio Branco, cujo discípulo não é Aristóteles, Platão ou Descartes. Nem Varnhagen, considerado um dos patronos da historiografia brasileira. O próprio Instituto Rio Branco poderia ajuda-lo, por relembrar grandes diplomatas que atualmente nomeiam algumas de suas salas de aula, sua biblioteca e seu auditório. Uma das salas leva o nome do grande José Guilherme Merquior. Mas nós temos um diplomata que admira Olavo de Carvalho, seu padrinho no cargo. E que é de uma estatura tão baixa que exibe, sem ficar vermelho, seu deslumbre com o cargo e seu fetiche pela direita, pelas redes sociais. Um passeio pelas redes sociais – mais especificamente pelo Twitter – de Ernesto Araújo, o “Ernie”, mostra bem porque a Casa de Rio Branco, portentosa e orgulhosa de sua história, vive hoje dias embaraçosos. Certamente sem ignorar que a História serve de sustento para bons argumentos e também para falácias, mostrou sem disfarces, em seus últimos tuítes, sua admiração por fascistas de várias gerações, fiel ao ideário do governo Bolsonaro-Carvalho.

Leia “Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump – Parte 7: o desmonte do Itamaraty” e toda a série histórica.

“Ernie” é tosco, ignorante e sua cretinice cabe em seus tuítes. O mais recente retrata, como numa coluna social, seu encontro, em Roma, com Matteo Salvini, que descreve como “grande líder da regeneração europeia”, mas que não passa de uma versão italiana da sua espécie, o ministro do Interior que é uma das estrelas da Liga, de ultradireita, e que seguindo o manual do político boçal, rejeita a imigração e a globalização, defende o direito de ter arma em casa para a legítima defesa e, claro, defende a família tradicional e os valores cristãos. Como todo puritano de araque, deve estar cheio de esqueletos no armário. “L’Italia s’è desta, dell’elmo di Scipio s’è cinta la testa” tuitou Araújo, citando o trecho do hino itaiano, que refere-se ao elmo de Cipião, vencedor de Cartago. “O Brasil também acordou. Também cingimos o elmo e estamos prontos para a luta decisiva”, clamou o chanceler, em seu texto de fotonovela, fingindo demonstrar erudição histórica. Existe um nome para Salvini: neofascista. E esse é o herói de “Ernie”. Existem outros.

Em outro tuíte, Ernesto Araújo bateu ponto na Polônia. Posou no Castelo de Varsóvia, com o retrato do rei polonês Jan Sobieski, “vencedor da batalha dos portões de Viena em 1683”, aquela em que os exércitos otomanos foram derrotados às portas da capital do império Habsburgo. Claro, nem eu, nem a maioria dos mortais, sabe quem é Sobieski. Mas nada como estudar essa disciplina escorregadia, a história. A tal batalha de Viena ganhou recentemente contornos interessantes. Na origem, foi o momento em que os otomanos foram detidos em seu máximo avanço na Europa. A batalha foi vendida à época como um choque de civilizações. A cristandade europeia versus o califado muçulmano. Mas não foi um combate Islã versus cristianismo, foi parte de uma guerra política e com alianças e lealdades motivadas também por interesses políticos. O rei Jan Sobieski, o do retrato, não estava exatamente disposto ao custeio de um exército para salvar Viena e o imperador. Isso explica o fato de que foi o Papa Inocêncio XI o principal financiador da resistência contra os exércitos otomanos. Sobieski acabou, com o passar dos anos, celebrado como “salvador do Ocidente” por neofascistas, supremacistas brancos e canalhas ideologicamente comprometidos em geral, para quem estamos numa nova fase dessa guerra. “A Europa voltará a ser governada por patriotas”. Não por acaso o velho rei era ídolo de um garoto, Anders Breivik, o terrorista que executou 77 pessoas na Noruega em 2011. O manifesto em que Breivik justifica seu crime atacando “marxistas culturais” e defensores da “hegemonia multiculturalista” — obsessões repetidas pela turma de Araújo — se chamava “2083 – Uma Declaração Européia de Independência”. O ano de 2083 marcará o 400º aniversário da Batalha de Viena, tema da pintura sob a qual posou Araújo.

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Dias antes, no final de abril, em Los Angeles para participar da Milken Conference, o maior evento de investimentos do mundo, “Ernie” esteve no Consulado-Geral do Brasil e, em frente ao Consulado, aproveitou para tirar uma foto com a estátua de John Wayne – ídolo também de Olavo de Carvalho, o cowboy de Richmond. Ele, John Wayne, que você, como eu, deve admirar pelos filmes de faroeste, mas que você, como eu, não ignoramos o que representa. John Wayne, o ator e o homem, defendia uma “solução final” para o índios. Índio bom é índio morto. É famoso o dia em que Hollywood viveu um de seus maiores constrangimentos. A entrega do Oscar para melhor ator de 1973 era fava contada. Todos não tinham dúvidas de que Marlon Brando levaria o prêmio por seu papel em “O Poderoso Chefão”. Mas a história foi feita quando o ator recusou-se a aceitar o Oscar para protestar contra o tratamento dado aos índios americanos. Sua objeção foi entregue no palco por uma jovem índia ativista chamada Sacheen Littlefeather, gerando intensa polêmica e crítica em todo o país.

Se continuarmos a peregrinar pelo Twitter do nosso chanceler não teremos surpresa. Na Páscoa, colocou uma estranha foto de um cordeiro – que mané coelhinho! – com a inscrição “Neste dia em que os cristãos celebram o sacrifício do cordeiro, pensemos nos que sofrem perseguição em Seu nome e assim vislumbram a Sua paixão. “Pois ele tomou para si a nossa dor e suportou o nosso sofrimento.” O cordeiro carrega uma cruz com uma inscrição em latim. “Agnus Dei, qui tollis peccata mundi” – Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós. Agnus Dei, Opus Dei. Coisas no “Ernie”. E dias antes aparecia sorridente na residência oficial de Olivos, recebido pelo impopular presidente Mauricio Macri e sua quebrada Argentina. Talvez buscasse inspiração para a nossa própria recessão, que vem voltando aí, como mostram os números da economia. Não vou cansa-los. Antes, fotos da manifestações anti-Maduro na Venezuela, etc. É o bom e velho “Ernie”, na sua melhor forma, envergonhando a todos nós. Pobre Itamaraty.

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