O ungido

“A minoria atrapalha, a maioria trabalha. (…) Temos que dar um sinal ao país de que nós somos a maioria, de que nossas cores são as da nossa bandeira. Verde, amarela, azul e branco. Queremos avançar com as reformas de modernização. Vamos mostrar a essa minoria que intranquiliza o poder, de que é hora de dar um basta a tudo isso. Vamos inundar esse país de verde e amarelo, mostrar as cores que balançam o nosso coração. Peço a todos para que no próximo domingo que saiam de casa nas janelas e roupas com uma das peças de cores de nossa bandeira”.

Não, o discurso acima não foi feito por Jair Bolsonaro, o “mito” da Camiseta selinho CBF, do Patinho de Borracha da Fiesp, da “arminha”, o muso dos coxinhas, o membro honorário da Taurus, o destruidor de universidades, o fiscal de cu alheio, o governante inoperante, o capitão traidor da Pátria, o deputado preguiçoso, o frentista do Posto Ipiranga, o neandertal nas relações entre poderes. Isso foi  dito há quase um quarto de século por outro presidente que se escudava nas elites e tinha a ilusão de controlar o povo. Foi outro ungido pelas oligarquias nacionais, Fernando Collor de Mello, que em agosto 1992 (clique aqui), já na merda total, pediu aos brasileiros que respondessem aos cara-pintadas, que já engrossavam fileiras, opondo-se a eles e vestindo-se todos, no domingo seguinte, de verde e amarelo. Conseguiu, como acontecerá agora de novo, provocar o inverso. Um catatônico movimento de luto, de preto, um gigantesco velório pelo país que este presidente está matando. O tiro saiu pela culatra, mostra a história – e ela se repetirá. Pelo país afora, as pessoas adotaram o preto, com roupas e bandeiras nas fachadas das casas e janelas dos prédios. A reação popular foi mais um tijolo na construção do movimento pelo impeachment. E o resto é história. Em de setembro, a Câmara aprovou por 441 votos a favor e 33 contra a abertura do processo contra o então presidente collorido. O processo de impeachment foi instaurado no Senado e, no dia 2 de outubro, Collor foi afastado da Presidência, sendo substituído pelo saudoso Itamar Franco. Em dezembro, antes de o Senado aprovar a perda de seu mandato, Collor renunciou ao cargo para o qual havia sido eleito em 1989. Finito. Em termos, hoje ele é honroso senador por Alagoas.

Leia também “É hora de os estudantes irem para as ruas”, clicando aqui e “As ruas rugiram. Bolsonaro, que despreza o povo, não perde por esperar”, clicando aqui.

A pergunta de três chocolatinhos e meio é: até que ponto a história se repetirá e Bolsonaro, convencido hoje de que é quase um homem santo, o cabra marcado para viver, que resistiu a uma facada, supostamente real, e que agora resiste a outras facadas, metafóricas, desferidas pelo Congresso, “em relação ao qual nutre indisfarçável desprezo, embora tenha sido obscuro parlamentar durante 28 anos” – como escreveu o Estadão (falaremos do editorial mais abaixo) -, dará a volta por cima e vencerá? Depois dos movimentos de rua do último dia 15, e já prevendo expressivas manifestações no próximos dia 30, caiu-lhe alguma ficha. Viu que não controla não só a própria casa, muito menos o país. Perto de dois milhões de pessoas em mais de 200 cidades brasileiras explodiram nas ruas, na Paulista, na Candelária e na Lapa, na Esplanada dos Ministérios, na Praça Sete, na Boca Maldita, no Marco Zero, no Farol da Barra, como escrevi, disparando os Canhões de Navarone e soltando chumbo grosso sobre o Planalto, ocupado momentaneamente por esse governo torpe, inoperante e lastimável. Embora houvesse uma militância petista atuante, sim, lá estavam as boas e velhas bandeiras da esquerda, estava também uma turma sem partido, sem candidato, mais contra que a favor – que é como tudo começa, varre-se o lixo antes de se arrumar a casa -, um massa numerosa, amorfa, multicolor, panpartidára, plurideológia, e com muita, muita raiva. Havia ali muitos ex-bolsominions – ou ex-amoedistas, como preferem os mais envergonhados, que perderam a paciência e já viram que esse governo tem tudo para não durar quatro anos. Vai durar? Não sei. Mas acho difícil. Especialmente se continuar tendo boas ideias. Como levar a disputa, de novo, para as ruas.

Como os gênios olavistas que, ao invés de afastar Bolsonaro das ruas, de onde terá que manter cada vez mais distância, e força-lo a trabalhar, dar respostas ao país em colapso, resolve, como se ainda estivéssemos em campanha – de novo isso – convocar os “verdadeiros brasileiros”, os “não militantes”, os que não são “imbecis, nem idiotas úteis, nem massa de manobra”, a sair às ruas também. Um revival collorido nas ruas, um quarto de século depois. O cheirinho de fracasso que exala é tão grande que, não por acaso, depois do MBL, do Vem Pra Rua e do NasRuas, que renegaram a manifestação hashtag #dia26nasruas, o próprio biruliru decidiu que também não vai, tá ok, vocês vão lá e me representam, de verde e amarelo – como confirmou na terça-feira, 21, o porta-voz do óbvio, general Otávio Rêgo Barros. Bolsonaro aproveitou uma reunião para orientar os ministros que não compareçam, pelo menos não como ministros – seja lá o que isso signifique. O capitão também preferia não ver os filhos por lá, tá ok, cuidem do twitter, mas não se surpreendam se Moe, Larry e Curly-Joe derem as caras nos carros de som e – tá avisado -, apesar de andar dizendo que se afastaria um pouco da política brasileira, não se surpreenda se o guru da família Bolsonaro também aparecer – apesar do nojinho que o cidadão de Richmond sabidamente tem de pisar no Brasil, essa terra de gente marrom e atrasada.

Bolsonaro decidiu não ir, ao que consta, também por segurança, não apenas pela popularidade em baixa. Nas pesquisas e na mídia. Com 36,2% da população considerando a gestão de Jair Bolsonaro “ruim” ou “péssima” e 28,6% avaliando como “ótima” ou “boa”, pela primeira vez a desaprovação do Governo Bolsonaro superou a aprovação, apontou pesquisa da consultoria Atlas Político, divulgada na terça, 21, pelo El País – e, sim, você não lerá isso em qualquer lugar. “O resultado mostra uma conversão de avaliação regular em ruim ou péssimo. Ou seja, uma intensificação da rejeição entre os que já não estavam gostando tanto assim do Governo. Por outro lado, se você olhar a aprovação, ela caiu menos. Mostra uma certa resiliência da base que ele tem e que parece estar segurando bastante bem”, analisou Andrei Roman, diretor do Atlas Político. Sobre o editorial do Estadão, a que me referi lá em cima, falemos agora.

Conta o escritor Fernando Morais que foram necessários alguns anos para que os jornais rompessem com a ditadura – a censura e o empastelamento dos veículos ajudou muito. “Com Bolsonaro foram precisos apenas quatro meses”, contabilizou Moraes, que sabe das coisas, citando o impressionante editorial do jornal dos Mesquita desta terça, 21/05. O texto, “A razia de Bolsonaro”, com chamada de primeira página, ainda que discreta – merecia ter sido todo transcrito na capa. O  Estadão comenta o suspeitosíssimo surto de Bolsonaro – claro, nas redes sociais. Depois de ter distribuído pelo WhatsApp um texto segundo o qual o País é “ingovernável” sem os “conchavos” políticos e de dizer que conta “com a sociedade” para “juntos revertermos essa situação”, o presidente voltou a fazer apelos diretos ao “povo” contra o Congresso – e a se dar um caráter divino, messiânico, divulgando em seu perfil no Facebook o vídeo de um pastor congolês – opa! – que diz que Bolsonaro “foi escolhido por Deus” para comandar o Brasil. “Não existe teoria da conspiração, existe uma mudança de paradigma na política”, comentou Bolsonaro. Coisa de doido.

“Cresce a inquietante sensação de que Bolsonaro decidiu governar não conforme a Constituição e com respeito às instituições democráticas, mas como um falso Messias cuja vontade não pode ser contrariada por supostamente traduzir os desejos do “povo” e, mais, de Deus”, constata o já histórico editorial do Estadão – não, não lemos isso na Carta Capital, na Piauí, no El País, na Intercept. Foi no Estadão mesmo. “Espera-se que a democracia brasileira e suas instituições resistam a essa razia”, finaliza o Estadão. Ah, razia. Do francês razzier, rezzou, por sua vez do árabe غز; ghazw ou ghazah. Ou seja última incursão, saque. É isso, Bolsonaro se acha o ungido. Ou não acha, o que dá no mesmo – desde que esteja nos trending topics. Não perde por esperar. Aliás, perderá, e muito.

3 comentários em “O ungido

  1. Apreciei imensamente o seu texto, caro Jornalista Gilberto. Há tempo me incomodo com a liguagem “bom moço” dos que chamam de “presidente” a quem não o merce por chegar a este por posto pelos descaminhos dos golpes, da traição à pátria, ao massacre à soberania, articulado em aliança com a casa grande escravocrata e colonialista, com os “santos” safados de pau oco das religiões (neopentecostais e sionistas) e aos pareas alienados, desgarrados do espírito de classe dos trabalhadores.

    Peço-lhe licença para partir deste seu artigo fazer um comentário em meu blog com a humilde pretensão de analisar a conjuntura (http://cartasprofeeticas.org).

    Forte abraço com meus cumprimentos, Dom Orvandil.

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  2. Que bom aprovaram o meu comentário! Abraços

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