No dia da Passeata dos Imaculados, Chico, Aïnouz e Kleber mostram Brasil que resiste

Às vésperas da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, parte 2, a tentativa torpe, torta, taciturna, soturna, aborrecida, melancólica, tristonha, vil, dos ainda agarrados ao “mito” Bolsonaro e ao antipetismo, os Imaculados do exército de Jair Targaryen, uma reedição chinfrim da passeata ocorrida em março de 1964 em resposta à considerada “ameaça comunista” do governo pré-deposto João Goulart -, o Brasil real, verdadeiro, profundo, que nos orgulha, que nos lembra que temos povo e temos Lula, o oposto dos que que pisam com sapatilhas nos rincões, que repudiam, rejeitam e se amedrontam com arte e cultura, porque sabem que é o Brasil que temem, e pensam que derrotaram, lego engano – deu demonstrações de que Pátria continua viva, pujante, pulsante, ainda que as demonstrações venham de fora – o que não é estranho num país sem Ministério da Cultura e com o ministro da Educação , Abraham Weintraub, um do prepostos do exército de eunucos de consciência que, por enquanto, ainda comanda o país. Não será por muito tempo, como muita coisa indica. Chico, Aïnouz e Kleber Mendonça mostraram, em poucas horas, antes do domingo, 26, da camiseta da CBF e do pato amarelo da Fiesp, um Brasil que existe e resiste. E vai voltar, em breve.

Começando pelo fim, o filme brasileiro “Bacurau” ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes neste sábado, 25, em empate com o drama francês “Les Misérables”. É a primeira vez que o Brasil ganha na categoria, terceira mais importante da competição oficial do evento francês. “Trabalhamos para a cultura no Brasil e o que precisamos é de seu apoio”, fez questão de proclamar o diretor Kleber Mendonça Filho ao receber o prêmio, segundo a agência de notícias France Presse. Ele divide a direção de “Bacurau” com Juliano Dornelles, que foi seu diretor de arte em “Aquarius” (2016), outro marco de resistência nos anos Dilma Rousseff. As coincidências não param aí: com Sônia Braga de “Aquarius” – no elenco, o diretor Kleber Mendonça Filho volta a concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cannes. É um filme sobre o Nordeste, o Nordeste da resistência e o Nordeste, diga-se, que expulsou Bolsonaro- um filme sobre o Brasil, um filme sobre educação, sobre história. Quer mais? “Estou muito feliz que esse filme nasceu aqui no Festival de Cannes e agora está começando a correr o mundo”, afirmou Kleber. “Vamos cuidar mais uns dos outros e respeitar a cultura, a educação, a ciência e o conhecimento”, completou Dornelles – não sei se com a dimensão política talvez involuntária da conquista.

E foi um dia antes, na gloriosa sexta-feira, 24, que outro filme brasileiro foi premiado em Cannes. “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, dirigido por Karim Aïnouz, foi o vencedor da mostra Um Certo Olhar. A produção deu ao Brasil seu primeiro prêmio principal da competição paralela do evento. Cannes, ah, simbólica Cannes. É bom lembrar que o Brasil já saiu vitorioso de Cannes em outras categoria. A maior vitória foi ao levar a Palma de Ouro em 1962, no pré-golpe de 1964, com “O pagador de promessas”, de Anselmo Duarte. Em 1969, com o país já em plena ditadura, na passagem de Artur da Costa e Silva para Emílio Garrastazu Médici- ídolos de Bolsonaro, instituidores da tortura institucional, com o AI-5 quicando – O Ato Institucional nº 5 foi baixado em 13 de dezembro de 1968 – que o mesmo Glauber Rocha levou como Melhor Diretor por “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”.

Bom, e teve essa semana, a notícia – que deve ter trazido náuseas e asco ao governo Bolsonaro, e a sua sucursal em Richmond, Virgínia, Estados Unidos, a vitória do cantor, compositor e escritor Chico Buarque, que venceu o Camões. Chico foi eleito na tarde de terça, 21, o vencedor da 31ª edição do daquele que é considerado o mais importante prêmio literário dos países de língua portuguesa. O anúncio do vencedor foi feito pelo júri após reunião da sede da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. A vitória de Chico foi chancelada com a unanimidade dos votos dos jurados. Chico foi escolhido pelo júri por conta do conjunto de sua obra. Ele já recebeu prêmios Jabuti pelos livros “Leite Derramado” (2009), “Budapeste” (2003) e “Estorvo” (1991). Em 1995, lançou “Benjamin” e em 2014, “O Irmão Alemão”.Também escreveu as peças “Ópera do Malandro” e “Gota d’Água”, além da “novela pecuária” Fazenda Modelo. Em 2017, depois de seis anos, Chico Buarque lançou o álbum “Caravanas”, que teve turnê por todo o país e também chegou a Portugal. “Seu trabalho atravessou fronteiras e mantém-se como uma referência fundamental da cultura do mundo contemporâneo”, escreveu o júri em nota.

José Eduaro Agualusa, no Globo, onde tem – pasmem – coluna, o escritor angolano, escreveu que ao premiar Chico, o Prêmio Camões teve a pretensão de se transformar numa espécie de Nobel da Literatura em língua portuguesa, não obstante ser ainda mal conhecido no Brasil e pouco ressoar para além das fronteiras da lusofonia.

Existe um Brasil que não morreu nas urnas. Nem estará neste domingo, 26, nas ruas. E é desse Brasil do qual faço parte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close