A montanha pariu um monte de estrume

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, parte 2, a tentativa patética de empoderamento de Jair Targaryen, contando com os poucos patéticos movimentos de direita que ainda o apoiam -os eunucos de consciência de grupos como o Nas Ruas – encabeçado pela deputada Carla Zambelli (PSL-SP) –, Patriotas Lobos Brasil, Avança Brasil, Ativistas Independentes e Direita São Paulo, o MBL foi chamado de traidor por não ter apoiado – somados com a sua natural massa de eleitores de direita raiz, os de camisa da CBF e que o chamam de “mito” – foi um fracasso. Não porque não levou ninguém pras ruas neste domingo, 26. Mas porque mostrou que algo já mudou desde outubro passado, eleição de Bolsonaro, e mesmo desde janeiro, sua posse. O que mudou? Bolsonaro teve que montar seu ministério, tomar posse e tentar governar.

Se a montanha não pariu um rato, pariu um pequeno monte, uma duna, um montículo, que não fará diferença em seu destino, cada vez mais traçado. Pode bem ser um monte de estrume. A tentativa de edição de um grande movimento de massa, um apoio inconteste, algo que fizesse história – que no artigo anterior comparei, guardadas as diferenças históricas, a uma reedição chinfrim da passeata ocorrida em março de 1964 em resposta à considerada “ameaça comunista” do governo pré-deposto João Goulart -, foi um tiro ‘água. Bolsonaro pediu que todos vestissem verde e amarelo, como Collor, em agosto 1992, mas o número dos que não foram foi tão grande que equivaleu ao luto nacional que se seguiu ao apelo collorido. Pelo país afora, as pessoas preferiram não ir dar seu respaldo a Bolsonaro – e as imagens vistas da Avenida Paulista, da praia de Copacabana, da Espanada dos Ministérios – ao menos 26 estados e o DF tinham registrado manifestações em 156 cidades, segundo a TV Globo – mostraram que a direita não só não mete medo (confesso que mexeu comigo quando o elegeu nas urnas, mesmo com a quantidade de gente que não votou nele, nem em ninguém, maioria numérica esmagadora), como não será capaz de segura-lo no destino que já se trata contra essa gentalha que idolatra torturadores, tem como ídolo um astrólogo medíocre e despreza o povo.

Justamente por quem mais o apoiou. O Congresso e seu Centrão. Os patos da Fiesp. O mercado financeiro. Os espinhentos do MBL. Esses e todos os seus equivalentes estão pulando fora, como os ratos mais visíveis de uma praga que se suicida em massa. As imagens noturnas da TV Globo, inclusive nos intervalos dos jogos do Brasileirão, mostrando, propositadamente, ao vivo, as passeatas já com alguns gatos pingados – sem comparar, lado a lado, com o momento mais numeroso dos eventos, como seria jornalisticamente correto – foi sintomático. Manifestações sem povo, apenas um pedaço de zumbis da classe média, inexpressivos, imagens aéreas cheias de buraco. Vinte mil aqui, 10 mil ali, cem desocupados acolá. “Nenhum entusiasmo, nenhuma animação, nenhum jovem”, como escreveu Alex Solnik no Brasil 247. “Colocar gente na rua num domingo é moleza. As pessoas não têm o que fazer. E fazia tempo não tiravam da gaveta suas camisetas da seleção falsificadas. Nem assim Bolsonaro conseguiu arrastar a multidão que esperava”, pontuou ele. As ruas confirmaram as pesquisas: o mito desmilinguiu em menos de seis meses e o barulho está cada vez mais concentrado nas redes sociais. Quem quer tira-lo de lá já bateu o martelo. Já viram que se pendurou numa reforma que não sai e o próprio Posto Ipiranga já ameaça fazer as malas pra Miami. Emprego eles não sabem gerar. Renda. Consumo. Imagine esperança. E sem isso o país vai velizmente para o buraco. Impeachment? Recall? Renúncia forçada, como sugeriu no mesmo 247 o historiador Carlos D’Incao após a “micareta fascista”? O destino dirá. Mas Bolsonaro não fica mais nem perto de quatro anos. Como, modestamente, eu previ a amigos próximos. A próxima luta das forças democráticas é: garantir o que virar no lugar.

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