Bolsonaro não aguenta até o fim do mandato

Este modesto blog, aproveitando-se das muitas amizades no mercado, foi ausculta-lo e fez a 20 diferentes coleguinhas, todos com pelo menos 20 anos de experiência nas principais redações do país – onde alguns ainda militam, embora a maioria esteja em blogs e canais na internet – a questão que vale três barrinhas e meia de chocolate: Jair Bolsonaro aguenta cumprir até o fim do mandato? As respostas podem ter sido em alguns casos mais a manifestação de um desejo pessoal, mas na maioria das vezes soou como uma análise bem elaborada, uma tentativa real de entender o Brasil surreal desses últimos meses. Sem nenhuma pretensão de fazer uma pesquisa, mas apenas um brainstorm numa mesa virtual onde se sentaram por alguns minutos 20 grandes jornalistas, foi possível colher uma amostragem impressionante. Mesmo pra mim, que concorda com essa esmagadora maioria, chocou. Dos 20 jornalistas ouvidos pelo blog, sob o compromisso do anonimato, 18 acham que Bolsonaro não chega até o fim do mandato. Ou seja, 90% deles. A maioria acha que renuncia ou é renunciado.

Para essa maioria, a absoluta incapacidade administrativa e inoperância política guiam rapidamente o homem que ocupa o Planalto há pouco mais de seis meses a futuramente engrossar a fileira dos presidentes brasileiros que não chegam ao fim do mandato. Ninguém acredita em golpe militar. Poucos creem num Governo Mourão, uma reedição fardada de Temer. O que ouvi é que Bolsonaro sangrará em um processo de impeachment e, como Fernando Collor de Mello, renunciará antes do fim do processo. Ou nem isso. Não há unanimidade quanto ao impeachment. O Congresso pode encurralá-lo a tal ponto que entregue o mandato sem que haja necessidade de um processo parlamentar. Dependerá dos sinais emitidos pela sociedade – que a cada dois anos vira eleitorado. Um momento crítico, lembra um analista, será o final de 2020 e começo de 2021, depois das eleições municipais. O PT voltará a crescer, liderado por um Lula a essa altura já livre ou em prisão domiciliar? Surgirá uma nova oposição, que hoje não vislumbramos? Com uma oposição de verdade, coisa que não existe hoje, o fim ficaria mais próximo. Ninguém arrisca Ciro como líder sequer de sua língua.

Para um desses colegas, com passagem pelas principais redações do país, Bolsonaro não precisará de uma derrota nas urnas para cair. Renuncia até o começo do ano que vem, “mas pode ser antecipado”. “Por absoluta incompetência e solidão”. Ficará esmagado com uma popularidade de no máximo 20% e governará por um tempo como um morto-vivo. “Até cair. O que deve acontecer assim que aprovar a Reforma da Previdência, não importa de que jeito. Vai perder a serventia”, arrisca um outro jornalista que se especializou em redes sociais. A velocidade da queda de Bolsonaro também poderá ser dada pela “evolução das forças populares”, diz um desses jornalistas, atualmente mais afeito a assessoria e campanhas políticas. Sonho esquerdista? Ele garante que não. Os movimentos de rua terão sim seu peso. “Espero que Bolsonaro caia no contexto de convocação de novas eleições no bojo de movimento da sociedade”, diz ele. Para isso, Bolsonaro e Mourão teriam que cair, ambos, num pacto, para que eleições sejam convocadas. O governo seria dissolvido. Seria uma solução, dizem, forçada pelas Forças Armadas, que perceberam o péssimo negócio de voltar “desse jeito” ao poder, após o golpe de 1964. Com Bolsonaro dragado pela impopularidade crônica, seria péssimo para a imagem das Forças Armadas ir nesse vácuo. “Estamos passando por algo que nós nunca vivemos, os cenários estão abertos. Mas ele não aguenta até o fim”.

Bolsonaro, se cair, como a maioria imagina, será por essa combinação de fatores. Incapacidade de ter uma maioria parlamentar sólida, tornando-o refém de um Congresso – no qual esteve por duas décadas escalado no baixo clero – que já mal o suporta. Só no governo Bolsonaro o reizinho Rodrigo Maia daria as cartas – no mundo normal, seria até afastado do carteado. Já o agravamento em alta velocidade da situação econômica, roubando a maioria dos eleitores que aderiram a ele no segundo turno contra o PT, deixando-no ilhado na impopularidade. “O problema é a economia, que não tem cor partidária. A crise vai se agravar e a agenda dele não vai reativar a atividade econômica, mesmo que a Reforma da Previdência seja aprovada. O antipetismo pode, paradoxalmente, voltar como saudosismo”, diz um jornalista. Exagero? A Bolsonaro restará Olavo de Carvalho, os filhos e a direita nervosa que não passa de 15% do eleitorado – agora mais armada, diga-se de passagem. Um analista dono de um canal muito assistido lembra que Bolsonaro pode ser uma besta quadrada, mas tem intuição política – tanto que intuiu que poderia chegar à Presidência anos atrás quando era um escada do CQC, e apostou num projeto visto por todos como impossível. Menos por ele. “Já imaginou Bolsonaro, o miliciano, montando um exército paralelo e se garantindo no Planalto na marra, editando decretos, tocaiado nas redes sociais?”, pergunta o jornalista, quase duvidando da própria fala. Mas, pensando bem, o que é impossível hoje?

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