A sociedade do juiz da voz fina com os procuradores amestrados torna suas sentenças lixo hospitalar e confirma Lula como preso político

“Então tá combinado, é quase nada. É tudo somente sexo e amizade. Não tem nenhum engano nem mistério. É tudo só brincadeira e verdade”. Ah, Maria Bethânia, que bonito. Quando a gente simplifica as relações, fica tudo mais transparente. Sérgio Moro e seus procuradores amestrados finalmente assumiram para a sociedade, sem querer assumir, graças a um site meio gringo, mas que faz história, o que sempre foram: namorados coloridos. E a gravidade das trocas de mensagens entre eles, extraídas do aplicativo Telegram, e obtidas por este site Intercept – não vou repetir o que você vai ler e ouvir à exaustão, vou me limitar à análise -, falando do impeachment de Dilma Rousseff, da farsa das “evidências” contra o ex-presidente Lula nos processos contra ele, das manobras para não eleger Haddad, das operações combinadas sem o menor pudor, da fábrica de vazamentos para veículos como O Antagonista, mostra o que todo mundo de bom senso já imaginava: a Lava Jato era, e continua sendo, uma sociedade entre o ex-juiz e hoje ministro Moro e Dallagnol e seu coral de procuradores de Cristo.

O que realmente importa agora é: o que vão fazer com isso. Consequências. A oposição quer Moro no Congresso, sem chororô de “me grampearam e vazaram” porque seria o mesmo que cego reclamar de claridade. Ou como escreveu Reinaldo Azevedo, “a Força Tarefa agora não pode reclamar de procedimentos que usou e usa como órgão de Estado”. E Moro tem que ir ao Congresso. Porque vai ter que ficar frente a frente com a sociedade e, com sua voz a essa altura mais fina que a de Anderson Silva, ouvir que sua amizade colorida com os procuradores amestrados torna suas sentenças lixo hospitalar. Puro e simples. E confirmam Lula como preso político, a Lava Jato como um instrumento jurídico-eleitoral, desde seus primórdios, e tornam os últimos anos de nossa história política – o impeachment de Dilma, as delações em série, a criminalização do PT, a prisão de Lula e sua impossibilidade de se eleger presidente, uma sequência de fatos fabricados para apear o PT do poder e conduzir o país para o lugar que está hoje: governado pela direita abjeta representada por Jair “Talkei” Bolsonaro, seus três rebentos, Moe, Larry e Curly-Joe, pelo astrólogo Olavo de Carvalho e por toda essa República de Gilead, com suas tias de avental e estupradores de gravata.

Os alvos das conversas denunciaram recentemente que tiveram seus celulares hackeados ilegalmente. Certamente foi quando tomaram conhecimento de que tinham sido descobertos e começaram a montar suas estratégias de defesa. Vão tentar posar de vítimas. A estratégia tem tanta chance de sucesso quanto a de um gari da Comlurb limpar sozinho todo o lixo depositado nas areias de Copacabana depois do réveillon. Os áudios são indefensáveis. Batom na cueca. Com glitter. O Intercept sustenta que obteve os diálogos antes de qualquer invasão dos meritíssimos. Segundo o site, as informações foram obtidas de uma fonte anônima. Sinceramente, não importa nem se uma fênix pousou na casa do jornalista Glen Greenwald, do Intercept, levando no bico as gravações. Tentativas de criminalizar a obtenção das provas para desqualifica-las só tornará a verdade mais obvia. Não por acaso, Moe, Larry e Curly-Joe, segundo informam sites, já soltaram suas bestas digitais numa estratégia de desqualificar o jornalista do The Intercept e atacar sua imagem. Para se ter uma ideia da pocilga, Eduardo Bolsonaro começou o dia com um vídeo de janeiro de 2019 onde o aleijão digital bolsonarista Caio Coppolla defende uma grande teoria da conspiração, com alusões à renúncia de Jean Wyllys, cuja vaga foi ocupada por David Miranda, esposo de Greenwald. Em seu comentário, Eduardo considera que a renúncia fez parte de todo um estratagema que continua com a publicação da reportagem neste domingo. Já o vereador carioca Carlos Bolsonaro, o menos indicado a fazer graça com sexualidade alheia – nao é, Carluxxxxo? -, faz troça com o matrimônio de Greenwald para atacar a oposição com comentários sexistas, chamando o partido de David Miranda de “menina do PT”.

Gente mais séria não viu graça nos diálogos. Ministros do Supremo Tribunal Federal, como Marco Aurélio Mello, ficaram alarmados com a publicação pela The Intercept Brasil das mensagens trocadas pelo juiz da voz fina com os procuradores amestrados. E admitem que a revelação das mensagens pode, sim, servir para anular alguns dos processos ali tratados. Comentaristas confiáveis abordam o assunto sem passionalidade e tratam como grave a revelação dessa verdade inconveniente. “Há a possibilidade real do julgamento de Lula ser contestado, e dessa vez com mais razão. Haverá argumentos jurídicos e pressão política de todos os lados, ninguém pode prever o que vai acontecer, mas o fato é que a tese de que Lula não foi julgado dentro da normalidade jurídica ganhou força”, escreveu Celso Rocha de Barros, em artigo hoje na Folha. O vazamento deve levar o Supremo, onde há quem não suporte Moro, e que o suporte – literalmente -, a se pronunciar e, diante da gravidade dos fatos, fazer mesmo os mais fervorosos defensores da operação Lava Jato mudar de posição, tirando a blindagem de Moro, Dallagnol e dos homens que supostamente estavam desmontando um “Mecanismo”, mas estavam construindo outro. A expectativa, diz Tales Faria, do UOL, é de que a divulgação das mensagens mexa com as posições de alguns dos ministros. Especialmente Rosa Weber, Celso de Mello e Cármen Lúcia. “Se isto ocorrer, Moro e os procuradores estarão em apuros. E Lula e demais acusados da Lavo Jato passam a ter novas esperanças”, completa.

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