Bolsonaro, programado para sabotar

“A nossa vida tem valor. Mas tem algo muito mais valoroso que nossa vida, que é nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para nosso povo para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de prova absoluta”.
Capitão Jair Bolsonaro, em discurso cifrado – ou escancarado, se preferir – , no final de semana, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, durante evento em memória ao marechal Emilio Mallet, o patrono da Artilharia.

Tudo o que de mais inacreditável se pensou, se cogitou e se falou até hoje sobre o capitão Jair Bolsonaro se confirmou. A gravidade é que o deputado medíocre – e folclórico para quem não enxergava sua ameaça como real e o vendia como um palhaço inofensivo, uma peça de carne para os leões da audiência no zoo de programas como Pânico – usa agora no peito, ao menos simbolicamente, uma faixa presidencial. E o que diz tem consequências graves e não movem apenas um exército de robôs em redes sociais, como por sinal continuam fazendo, mas a fatia do eleitorado de extrema-direita que o adotou como ídolo, não importa o que diga. Aliás, quanto maior a barbaridade, mais se constrói a persona Bolsonaro. A primeira barbaridade que se disse de Bolsonaro é que ele poderia virar presidente. Deu no que deu. A última, objeto das preocupações atuais, que seria capaz de, usando de uma legislação pró-armas – que teve um tropeço no Senado, mas certamente não vai parar por aí, já se fala em plebiscito -, incentivar a formação de uma milícia, de grupos para-militares, para defendê-lo e mantê-lo no poder, a despeito dos generais que demite e dos economistas que humilha. Exagero? No final de semana, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, Bolsonaro mostrou que, novamente, fala sério. E que não há absurdos suficientes para seu repertório. Nem freios, exceto os criados pela própria democracia – como cita O Globo hoje no espantoso editorial “Bolsonaro precisa ser reeducado em democracia”, para impedir que chegue aonde quer. E aonde quer chegar Bolsonaro? Seu objetivo não declarado, já enxergam alguns, é, em algum momento, quando tentarem apeá-lo do poder – o que ocorreria antes do fim do seu mandato, segundo as bolsas de aposta – tentar resistir usando as milícias que constrói com as armas que hoje deixa vender a soldo.

Muita loucura? Se a ideia lhe parece absurda, pense em quantas outras ideias absurdas viraram fatos reais neste país desde o início do processo de impeachment de Dilma Rousseff, passando pela prisão de Lula, “com o Supremo, com tudo”, e sua impossibilidade de concorrer a presidente. Em Santa Maria, Bolsonaro flertou explicitamente com suas ideias fascistas de exercício de poder, ao dizer em uma solenidade militar que, mais do que o Congresso, ele quer o povo ao seu lado para executar seu programa, fazendo um elo disso com seus decretos que liberam posse e porte de armas pela população. A tal democracia direta, de que já se falou aqui e ali, com uma população armada que, no entender do presidente, servirá “para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de prova absoluta”. Tomem o poder de quem, cara-pálida?. Seja por um impeachment, seja por novas eleições, o único ameaçado aqui é Bolsonaro, por sua inépcia total para o governo, provada em seus meses de governo.

Ao defender, na segunda seguinte, o que chamou de “batalha do decreto das armas”, que perdeu, Bolsonaro saiu-se com essa: quem quer desarmar o povo é quem quer o poder absoluto. “E eu quero que o povo, o cidadão de bem, tenha o direito à legítima defesa”, declarou o presidente, direcionando suas palavras aos parlamentares presentes na cerimônia que se realizava no Planalto. Repare que “defendo o armamento individual para o nosso povo” ultrapassa, em muito, qualquer argumento prosaico dos armamentistas de direito à defesa. E o que é assumir de “forma absoluta”? Ganhar no voto é uma forma absoluta? Se reeleger? Será legítimo resistir no poder se o novo eleito representasse forças que tenham pensamento contrário ao do poder vigente? Bolsonaro se recusaria a passar a faixa, se esse for o destino, para um presidente de esquerda?

Bolsonaro não está falando sozinho, embora por vezes, louco que é, o pareça. Está enviando mensagens a quem ainda é seu eleitorado – e continuará a apoia-lo, o que quer que faça. Os verde-amarelos que você viu nas ruas, entre as duas manifestações democráticas pela educação, e cujo mote era fora Congresso, fora Judiciário, fora “política tradicional”. Sim, gente, isso existe. Se você, portanto, ainda não encontrou o projeto de governo de Bolsonaro, não busque na reforma da Previdência. O projeto dele é ficar a qualquer custo. Ele é o grande sabotador da democracia que o elegeu.

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