O circo de pulgas de Sérgio Moro

Na Europa dos séculos 18 e 19, popularizaram-se os circos de pulgas. Esse espetáculo deixava o público curiosíssimo, sem saber como os insetos poderiam ser treinados para pular de trampolins, andar na corda bamba e até serem atirados de canhões? Ao mesmo tempo, o admirável público tinha uma dificuldade óbvia: como acompanhar um espetáculo tão minúsculo? Estaria mesmo vendo cenas incríveis diante de seu olhos? Teriam mesmo feito elas tais acrobacias? Esse adestramento era possível ou haveria algo de ilusão de ótica nessas performances? Havia relatos de muitas pulgas que fugiam durante as apresentações e com o tempo os shows caíram no ostracismo, especialmente com o aumento da higiene pessoal no século 20, que quase eliminou a espécie e os circos entraram em decadência. O circo de pulgas era, a rigor, um pacto entre artistas e platéia, onde mais importante não era o que se via, mas o que se achava que se tinha visto. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado realizou durante muitas horas nesta quarta, 19, em clima absolutamente chato e civilizado, uma apresentação com o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Moro saiu convencido de que pulou de trampolins e andou na corda bamba, mas, para a platéia, ficou a sensação de uma grande encenação, pactuada por governistas e oposição, onde cada um seguiu seu script, leu as perguntas preparadas por suas assessorias, fez seu discurso para a TV Senado e cumpriu seu papel. A oposição fingiu encurralar Moro, baseado nas mensagens que começaram a ser divulgadas pelo site The Intercept no dia 9 deste mês. A situação fingiu defendê-lo das “supostas” suspeitas. E Moro, ensaiado – ou media treinado – procurou desqualificar o site, disse não ter nada a esconder, mesmo alegando falta de memória para a maioria dos diálogos com os quais foi confrontado e chegou a dizer que as mensagens “podem ter sido alteradas”.

De acordo com The Intercept, os dados mostram que Moro orientou a atuação de integrantes da força-tarefa da operação Lava Jato. Os diálogos são cristalinos, mas nada como algumas horas cansativas numa CCJ para você perder as pulgas de vista. As perguntas de repente começaram a se repetir, como diálogos de novela. Ficou tudo pasteurizado, modorrento. Nenhum senador se deu ao trabalho de levar imagens – cartazes que fossem – para fixar os diálogos, que ficaram no plano etéreo do “ele disse, eu disse”. Moro defendeu que o conteúdo seja submetido a uma “autoridade independente” – possivelmente um de seus escorregões do dia, como se material jornalístico passasse por censura prévia da Polícia Federal ou outra instância. E errou também ao admitir, sem necessidade, que, sim, deixa o cargo se algo mais aparecer que o comprometa. Admitir isso foi ruim. “Eu não tenho nenhum apego pelo cargo em si. Apresente tudo. Vamos submeter isso ao escrutínio público. E, se houver ali irregularidade da minha parte, eu saio, mas não houve”, titubeou.

E seguiu repetindo alguns mantras treinados que funcionaram, por passividade da oposição – ouviu-se alguém demonstrar indignação justa ou, disfarçadamente, elevar o tom de voz? – e pelo próprio formato da audiência, monótona, monocórdia, ritualística, pastoril. Sem falar o óbvio: faltam grandes oradores na oposição. Quem? O senador Randolfe Rodrigues, da Rede do AP, inexplicavelmente líder da oposição e darling da TV Globo, simultaneamente – que competiu em voz anasalada com Moro -, propôs que o ministro abrisse suas conversas no Telegram na nuvem do app. Ouviu um sonoro não. Jaques Wagner, o senador do PT da Bahia, remou na surrada divulgação das conversas da então presidente Dilma Rousseff com Lula no Jornal Nacional. Moro disse que era assunto vencido. O senador Humberto Costa, do PT pernambucano, lembrou a Moro que cassou o voto de milhões de brasileiros ao prender Lula. Ninguém pareceu se emocionar. “Evidentemente não tenho nada que esconder, a ideia foi vir aqui espontaneamente a esclarecer muito em torno desse sensacionalismo que está sendo criado em cima dessas notícias”, repetia Moro, batendo na tese do hackeamnento como um crime e não como meio para o exercício do jornalismo independente que nossa imprensa tupiniquim não faz. A pulga saltou, saltou, saltou, e ninguém sabe se foi atirada de um canhão ou se aproveitou o colarinho baixo das autoridades para chupar alguns pescoços.

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