A candidatura Bob Filho

A acachapante vitória na votação da malfadada reforma da Previdência – por 71 votos a mais do que os 308 necessários, ajudado pelos dissidentes do PDT e PSB -, um resultado visto como um trunfo pessoal de Rodrigo Maia, acima de articulações do Palácio do Planalto, significou, na prática, o lançamento informal da candidatura à Presidência do filho do ex-prefeito César Maia. Rodrigo chorou. Por que sabe que seu plano esta dando certo bem demais. E dele faz parte fazer o mercado e os financiadores de campanha – com a ajuda dos formadores de opinião – ver a aprovação da reforma da Previdência como um mérito seu, e do Congresso como um todo, e tirar qualquer louro do Palácio. O lançamento não oficial da candidatura de Maia à Presidência teve até discurso demarcando claramente, como tem feito nas últimas semanas, suas diferenças para o homem que ocupa o Planalto e que, sempre que pode, nas manifestações de rua que patrocina, ou com sua tropa de choque nas redes sociais, maltrata o Congresso – que se dependesse de muitos bolsonaristas seria fechado. Não adiantou Bolsonaro chamar Maia de “general da reforma”, ele quer ser presidente do Brasil. E sucedê-lo, ele Bolsonaro que já anunciou aos quatro ventos que é sim candidato à reeleição. Em pouco mais de seis meses de governo, Bolsonaro desidratou. E não consegue sequer ser reconhecido como responsável por uma vitória que beneficia seu governo – a primeira relevante. Enquanto isso, Bob Filho, como Rodrigo Maia era tratado quando ainda andava embaixo do braço do pai, ganhou proporções quase impensáveis para sua breve biografia. O garoto bochechudo é hoje o que temos de mais parecido como um favorito às urnas em 2022. Com Lula preso, claro, com Supremo, com tudo.

Não por acaso, ao deixar a Mesa Diretora para ocupar a tribuna, num gesto calculado e inteligente, tirou da manga um discurso “improvisado” em que não mencionou o presidente da República uma única vez. Guardou seus elogios ao Parlamento, aos líderes, aos partidos e até à oposição – imagine só. Mas Bolsonaro era o objeto oculto de seu discurso. Como quando disse que “as soluções passam pela política” e alertou que não haverá investimentos privados sem democracia forte. “Não haverá investimento privado sem democracia forte. Investidor de longo prazo não investe em país que ataca as instituições. Em nenhum momento, quando a Câmara foi atacada, saí do meu objetivo, que é a votação de hoje”, afirmou, citando indiretamente, o clã Bolsonaro. Quem atacou o Congresso foi ele, Bolsonaro. E falar em democracia forte e solução política deve ter feito Bolsonaro revirar na cadeira presidencial – porque é sabido que ele defende o oposto. Os aplausos e a ovação do plenário ficaram para o choroso Rodrigo Maia, que ainda por cima fez a turma trabalhar, colocando uma lotação no plenário que só tem paralelo na promulgação da Constituição de 1988 e nos impeachments de Collor e Dilma. Em 2022, Maia dirá que ele ajudou a salvar o país aprovando a reforma da Previdência – o que quer que isso signifique, então. Isso, apesar de Bolsonaro, que, como lembrou o analista Ascânio Seleme, no Globo, comporta-se mais como um líder da oposição com suas ideias de “democracia direta” – ou melhor seria dizer, ditadura direta – e rejeição à “velha política”. Pois a velha política deu uma sova no time de articuladores fardados do capitão.

Rodrigo Maia atingiu outro alvo com sua vitória: a esquerda. E não só pelas dissidências, como da deputada pedetista Tabata Amaral, que mostraram, mais uma vez, que nesse canto do córner, ninguém é de ninguém. Sem propor alternativas, foi incapaz de obstruir. E de fazer valer suas emendas. Reduzida a uma minoria quase insignificante nas últimas eleições, viu o Centrão ressurgir, dessa vez não pelos braços do criminoso de guerra Eduardo Cunha, o algoz do impeachment. Mas pelo triunfo de Maia, que conhece como poucos o mecanismo de funcionamento do Congresso e acolheu o grupo de braços abertos.  Pelo cenário atual, a oposição continua, dramaticamente, tendo como melhor opção o ex-presidente preso. Sem Lula, a oposição parece um farol desligado. Seus eleitores detestam Bolsonaro, mas, com o apagão de novas lideranças – pelo menos até agora -, estão dando com os cascos nas rochas. É o que temos para hoje.

 

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