A tortura a Glenn

O cerco do governo a Glenn Greenwald e ao seu The Intercept tem um objetivo evidente: impedir que continuem jorrando as aterradoras verdades expostas dia a dia pelo site, revelando ao país os intestinos da Lava Jato e expondo o cabeça da operação, o ex-juiz Sérgio Moro, chefe de Deltan Dallagnol e dos demais procuradores, e hoje capacho do patrão Jair Bolsonaro. Com o objetivo final de impedir a eleição do ex-presidente Lula, trancafiando-o, e jogando quem sobrasse na cadeira presidencial. A súbita aparição de um decreto de extradição sumária de estrangeiros – mesmo não se aplicando a Glenn – e o aviso de Bolsonaro de que o editor do The Intercept “talvez pegue uma cana aqui no Brasil” somam-se a atitudes terroristas que, mais do que tentar, inutilmente, intimidar Glenn e sua redação, atentam barbaramente contra a liberdade de imprensa no país. Nunca antes na história desse país se viu tamanha desfaçatez e falta de escrúpulos, com paralelo apenas nos regimes de exceção. As ameaças a Glenn equivalem na prática a tentativas de tortura – às quais se somam agora as negativas do Consulado dos Estados Unidos para que seus filhos visitem a avó que está com câncer terminal.

É certo que Glenn não se dobrará ao pau-de-arara de Bolsonaro e Moro. Outros bravos jornalistas resistiram em outros tempos de escuridão. Como a tática da intimidação não funciona, o governo usa de outros elementos grotescos para tentar – desculpem a expressão – manter a narrativa a seu favor e contra o The Intercept. Uma das tentativas é a da desmoralização de Glenn, usando o preconceito de quem ataca como suposto elemento detrator. Ao negar que a portaria 666 tenha tido qualquer relação com Glenn Greenwald, que é norte-americano, Bolsonaro lembrou, laconicamente, que o editor do site é “casado com outro homem” e tem filhos brasileiros. E chamou-o de “malandro”, duas vezes, insinuando que o jornalista casou-se com o hoje deputado do PSOL David Miranda e adotou dois filhos brasileiros com o objetivo de evitar a lei de deportação. A Associação Brasileira da Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) reagiram à “tentativa de intimidar um jornalista independente” e ameaçar a liberdade de imprensa. Nada disseram os bons patrões, que continuam cobrindo, como se fato existisse, a farsa dos hackers. No caso dos veículos “associados” na cobertura ao The Intercept, como a Folha de S.Paulo, a cobertura ganha tons de esquizofrenia, na medida em que ajudam a engrossar o coro da Vaza Jato enquanto cobrem, “jornalisticamente”, a investigação sobre os supostos hackers.

É assim que a mídia tenta dar, de forma cada vez mais desconfortável, credibilidade à descoberta do “hacker de Araraquara” Walter Delgatti Neto, que teria invadido o celular do ministro Sérgio Moro, ainda que tudo o que se tenha sejam ilações “vazadas” pela Polícia Federal. Delgatti, agora se sabe, é o bode expiatório perfeito, acusado de vários crimes, dentre eles estelionato, na tentativa de desqualificar a chamada Vaza Jato. Não há nada, no entanto, que confirme que fonte do Intercept Brasil tenha a patética figura apresentada pelas autoridades. Dois fatos: de acordo com Glenn Greenwald, o primeiro contato com a fonte que repassou os diálogos comprometedores da República do Telegram, ocorreu no início de maio, ou seja, um mês antes da denúncia feita por Moro. E o hacker só apareceu em cena depois que Moro disse ter sido hackeado, tese em que vinha calçando sua defesa para desqualificar os diálogos.

Todo jornalista decente no país tem a obrigação não só de se indignar, mas de denunciar, da forma ao seu alcance, a farsa que tenta transformar Moro e Dallagnol em vítimas e Glenn em algoz. As máscaras estão caindo, mas, nos tempos de hoje, nunca é demais temer o pior.

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