Da fantástica fábrica de fake news aos factoides do Napolelão do Planalto

Não há mais dúvida, oito longos meses se passaram, de que Jair Bolsonaro inaugurou no Planalto um fantástica fábrica de factoides. Uma bem elaborada agenda de escrotidão que entusiasma sua claque e distrai a oposição – melhor dizendo, os opositores, porque oposição é matéria-prima escassa – com o objetivo final de mantê-lo no noticiário, construindo cuidadosamente a imagem de um presidente irascível, irracional, irrefreável. Ignorante? Também. Mas não importa. Bolsonaro usa a estratégica da vida toda, desde quando era um deputado bisonho do baixo clero chamado para encaixar quadros polêmicos do CQC e do programa de Luciana Gimenez. Falem mal, mas falem de mim, diz Bolsonaro a cada nova ação midiática repelente planejada com os assessores mais próximos e, muito provavelmente, com os filhos. Além da onipresença no noticiário, ideal para quem já se animou com as facilidades do cargo e fala em se candidatas à reeleição, Bolsonaro consegue, com seus factoides do mal, desviar das balas perdidas de temas indigestos, como o desemprego galopante, a economia em frangalhos, as contas públicas beirando o “apagão” ministerial. Como efeito especial, cria a fantasia de um país que parece estar dando certo, porque o mercado diz ter esperanças, escondendo sob tapumes os esqueletos do povo – e os seus.

A última agenda de direita de Bolsonaro só surpreende a quem ainda não entendeu seu modus operandi. Mais do que voltar a elogiar o coronel Brilhante Ustra, notório torturador do regime militar, a quem chamou de “herói nacional” – Ustra é a reserva moral perfeita para a direita nacional -, Bolsonaro recebeu sua viúva, Maria Joseíta, no Palácio do Planalto. E lá vai a mídia, agora sem balanços das empresas em suas páginas, como um séquito de águas vivas, fazer espuma para a agenda deplorável. Como não noticiar as ações do presidente, ainda que o deteste? Como não dar espaço para suas lives, mesmo que seja para dar espaço para mais uma atrocidade, com o desrespeito à memória do pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, em meio a um corte de cabelo a la Führer. Não adianta ser de direita, é preciso parecer de direita. E jorram charges, Lula e Hitler, separados no berço, mas jorram. Como não dar espaço para os “conflitos” internos no governo, fabricados com o esmero de um artesão treinado? Como não abrir espaço para as críticas ocasionais do reptiliano Rodrigo Maia, a quem se reputa futura candidatura presidencial, quando na verdade aliado melhor Bolsonaro não poderia ter no Congresso?

A questão dos direitos humanos, ah, a questão dos direitos humanos, essa, Bolsonaro aprendeu ao longo da vida, é excelente para um bom surfe na imagem. E para alimentar os opositores, afinal, é preciso tê-los. Defende torturadores, exalta regimes militares, defenestra ícones da esquerda, defende o extermínio de “bandidos”, apoia atrocidades ditas por “homens de bem” que rezam por sua cartilha. Mesmo a sequelada direita nacional tem vergonha de ser tão direita quanto Bolsonaro. É demais. O que torna o espaço quase um latifúndio pessoal, um playground onde Bolsonaro desce e brinca com desenvoltura sempre que precisa de uma boa cortina de fumaça. Está construída a República de Gilead. Com “tia” Damares Alves, com Augusto Heleno, com Ernesto Araújo, com Onyx Lorenzoni, com Ricardo Salles, com Abraham Weintraub, com tudo. Ah, e sem Gustavo Bebianno, cuja saída sem deixar grandes estilhaços é outro mistério da trindade bolsonariana.

A agenda dos direitos humanos casa com a agenda dos costumes, e daí surge o presidente homofóbico e misógino, o machista Johnny Bravo. E basta rastrear os passos de Bolsonaro para chegar as outros factoides de respeito, como a questão ambiental e as ciências, que redundaram na demissão do diretor do Inpe, Ricardo Galvão. E aparece o presidente terraplanista, que não acredita em desmatamento, nem em efeito estufa, que quer explorar, expropriar melhor dizendo, as terras indígenas, que relativiza a morte de um cacique, o inocente do nióbio que esconde o entreguista do pré-sal. E, já que a economia entrou na prosa, ali aparece o Bolsonaro que nunca existiu, o privatizador, o pulverizador de estatais, o exterminador de funcionários públicos, contraditório com o seu passado de deputado-capitão, mas inevitável para quem fez um pacto com a República de Chicago. Afinal, Bolsonaro, o que não entende nada de economia, precisava de um dublê para as finanças e para fazer as reformas que o mercado pautou para dar-lhe suporte. Afinal, ninguém fala tanta besteira sem ter o cacife do baronato nacional. Ele veio para te confundir, e está conseguindo.

E la nave va, carregada de factoides, pronta para qualquer tempestade.

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