“Glória a Deus”: Daciolo, sobrevivente da chacina eleitoral, que virou ícone pop-político, faz aparição no Porta dos Fundos

Cabo Daciolo não para de surpreender desde que desceu os montes, perdeu a eleição, mas teve mais votos que a candidata da Rede, Marina Silva, e o milionário Henrique Meirelles, do MDB, e virou uma espécie de ícone pop-político. Depois de, nos programas eleitorais, e em lives nas redes sociais, denunciar a Ursal, acrônimo para União das Repúblicas Socialistas da América Latina – provavelmente o meme do ano -, e avisar que Jair Bolsonaro estava sendo cooptado pela maçonaria, o ex-candidato do Patriota Daciolo ensaia uma carreira paralela à de parlamentar. Ainda não entendi bem qual é, mas tem futuro. Um dos últimos posts do Porta dos Fundos, produtora de vídeos de comédia veiculados na internet, sexto maior canal brasileiro no YouTube, chama-se “15 milhões de inscritos”, e não tem aparição de Porchat, Tabet ou Duvivier. A estrela é Cabo Daciolo (Assista), que comemora os 15 milhões de inscritos do canal no Youtube. Claro, já foi apedrejado pelos fascistas de sempre – que não tem um pingo de humor. Um site evangélico diz que o político, que é crente e não larga a Bíblia, estava “fazendo propaganda para um canal anticristão” (pausa para você rir).

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Nas tribunas do Congresso, Cabo Daciolo, o ícone pop-político da campanha eleitoral, abre as portas para o Porta dos Fundos e grava vídeo para celebrar os 15 milhões de inscritos do canal. Peça de marketing inesperada e reação dos reaças de semprea

Daciolo é um cara realmente diferente. Ou sofreu um violento processo de abdução, onde teve o cérebro fritado por alienígenas. Ou é gente boa mesmo. Recentemente, apareceu para pegar os filhos no católico Colégio Santo Agostinho, na Barra da Tijuca, e foi ovacionado como um youtuber da moda (Assista). Todos queriam tirar selfies com ele, aos gritos de “Glória a Deus” que, quem diria, virou um bordão. Bem-humorado, Daciolo respondeu: “Vocês têm certeza de que querem uma foto? Os pais de vocês devem ter votado em outro candidato.”

No vídeo do Porta dos Fundos, Daciolo aparece no Congresso, abrindo uma porta de vidro que dá acesso às galerias do plenário – evidentemente, com uma Bíblia na mão. “Quero apresentar algo para a nação brasileira e parabenizar alguns amigos, um canal, qual canal? O canal Portas dos Fundos, que vai completar agora 15 milhões de seguidores”, diz ele, elogiando o humor do canal, que fala “a verdade ao povo…”. Numa das cenas mais non sense, atire seu velho celular escada abaixo e vai checar se ainda está funcionando – usando o mote de que não pode é deixar de acompanhar o canal. O Porta tem entre seus temas favoritos ironia com diversas igrejas, nenhuma em particular – inclusive a Católica, com paródias bíblicas -, e criticar Cabo Daciolo por sua aparição é só mais um sinal de intolerância e estupidez. Não se sabe se o quase ex-deputado recebeu algum cachê pela aparição – e faria sentido que recebesse – , até porque outras estrelas já apareceram no canal como convidados, como Xuxa, que aparece em um vídeo onde é baleada.

Mas isso não tem a menor importância. O vídeo teve, até agora, praticamente a quantidade de votos de Daciolo, mais de um milhão de visualizações, o que mostra que, mesmo nesses tempos estranhos, o bom humor ainda salva. Glória a Deus!

Animação adulta brasileira da Netflix samba na cara dos hipócritas, na véspera do novo governo, e, claro, já sofre pedidos de censura

Governo autoritário e conservador é aquela coisa meio sem noção mesmo. As famosas bolinhas que dançavam na tela do filme Laranja Mecânica para cobrir cenas de nudez eram só o pontinho preto do iceberg – que custou a degelar e agora volta a ganhar forma, ameaçando devolver o país à Era do Gelo. Para quem acha que a Censura Federal pintou e bordou somente com músicas de Chico Buarque, shows da banda Secos & Molhados, filmes de Glauber Rocha, peças do Teatro Galpão e livros de Cassandra Rios, melhor se aprofundar. Segundo o jornalista e escritor Zuenir Ventura, durante os dez anos de vigência do AI-5 (1968-1978) – dos 21 da ditadura implantada em 1964 -, cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram proibidas, sem contar as novelas e a censura ao jornalismo. Obras que feriam a “moral e os bons costumes”, que expunham os problemas sociais ou que eram consideradas comunistas – é, nem isso mudou -, só poderiam ser liberadas se fossem refeitas, ou eram descartadas na hora. Acredite, nem a Turma da Mônica escapou. O criador Mauricio de Sousa teve problemas em várias histórias do gibi. Em uma, os militares proibiram o título “O Sequestro do Cascão”, porque naquele instante um embaixador estrangeiro, Charles Burke Elbrick, havia sido sequestrado. O censor postado na redação da Abril também implicou com um quadrinho que exibia lateralmente o bumbum de Cebolinha, durante uma cena de banho. Às vésperas do governo Bolsonaro, que não esconde seu pavor homofóbico – a farsa do kit gay não nos deixa mentir -, a Tradição, Família e Propriedade volta a bater à porta. E o terror ao mundo LGBT (ou LGBTQ+, se atualizarmos) parece ser a obsessão dessa gente, que só falta implantar o “Tratamento Ludovico”* nas escolas.

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“Super Drags”, a série onde os personagens do título, Drag Queens, atuam na proteção e resgate de outros homossexuais, apresentados como vítimas da sociedade. O vilão? Um caricato pastor neopentecostal. Magno Malta e cia querem censurar.

A Netflix, onde não faltam filmes adultos, todos devidamente classificados por faixa etária, como manda a lei, lançou no último dia 9/11 “Super Drags”, desenho que conta a história de três super heroínas, que são drag queens – uma espécie de versão LGBT das meninas superpoderosas, só que bem mais explícito. Pabllo Vittar, Trixie Mattel, William Beli e Shangela Laquifa Wadley dublam as personagens. “Super Drags” é a primeira animação brasileira original Netflix, criada por Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut, e tem classificação indicativa para maiores de 16 anos. Se é verdade que não faltam desenhos bizarros nos canais infantis a cabo ou por streaming – e essa é apenas uma constatação de quem assiste com os filhos, vigilante à faixa etária, esquisitices como “O Incrível Mundo de Gumball”, “Apenas um Show” e “Bob Esponja” -, a criação de uma série que represente, com muito humor e acidez, a comunidade LGBT, é bem-vinda. A Netflix produz e adiciona dezenas de animações durante o ano, muitas pesadas, mas nem por isso alvo dos “defensores da família”. Casos de “Big Mouth”, “Rick & Morty, “BoJack Horseman” e “Policial Paradise”. Essa última, por exemplo, para maiores de 18 anos, tem uso de drogas, sexo explícito e zoofilia. Sem falar nos clássicos do “passado” como “Beavis and Butt-Head”, na MTV, e, claro, “South Park”. Nenhuma das séries é para uma criança assistir, todas tem classificação indicativa e a Netflix, como os demais canais, disponibiliza meios de bloqueio para conteúdo adulto.

Já esperando a polêmica, a própria Netflix preparou uma chamada onde Vedete Champagne (na voz de Silvetty Montilla) explica que nem toda animação é feita para crianças – e que esta tem classificação 16 anos (Assista). “Super Drags” (Assista o trailer), obviamente, é alvo porque trata de LGBTs. E é lançado – estratégia ou não – há menos de dois meses da posse do governo mais conservador pós-redemocratização. A série, por exemplo, não poupa idiotices como a “cura gay”, inserindo um vilão bem atual, o profeta Sandoval Pedroso, uma caricatura de pastor evangélico neopentecostal.

Sinal de que vem chumbo grosso aí é que a Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional, uma espécie de TFP parlamentar – sim, ela existe  -, e que tem entre seus embaixadores Magno Malta, o chapa do presidente que ainda não ganhou seu ministério -, quer que a série seja retirada do ar. Acredita que estimula as crianças a “se tornarem” homossexuais e acredita que o desenho fere a família. Já fez uma petição que, supostamente, conta com 15 mil assinaturas. A Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional devia cuidar da própria família e deixar que cuidamos das nossas.

Viva o humor mordaz, libertário e engajado! Censura nunca mais!

* Tratamento Ludovico é uma terapia fictícia de aversão assistida mediante o uso de drogas utilizada no filme Laranja Mecânica. Consiste em expor obrigatoriamente o paciente a assistir imagens violentas por grandes períodos de tempo, enquanto sob efeito das drogas, o que provoca um efeito de experiência de quase-morte. Ao obrigar a ver imagens horríveis de estupros, assaltos e outros atos de violência enquanto sofre os efeitos das drogas, o paciente assimilaria a sensação e se tornaria incapacitado ou se sentiria indisposto se tentasse realizar ou simplesmente testemunhar tais atos de violência. No processo de criação tanto do romance quanto da adaptação cinematográfica de A Laranja Mecânica, tanto o autor do livro Anthony Burgess como o diretor do filme Stanley Kubrick se esforçaram muito para incorporar uma grande quantidade de símbolos ao contexto da história. Esta riqueza em representações da cultura contemporânea e da ciência moderna na obra supõe uma das causas de que a história de A Laranja Mecânica tenha conservado sua atualidade até hoje.

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Alex (Malcolm McDowell) passa por uma sessão do Tratamento Ludovico no espetacular filme Laranja Mecânica (“A clockwork orange”, 1971), do diretor Stanley Kubrick. Um horrorshow, usando a própria realidade como fonte de inspiração.

Avante, Stan Lee!

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Stan Lee, uma das maiores lendas da indústria de quadrinhos e criador de boa parte dos personagens da Marvel Comics, partiu aos 95 anos deixando em luto o universo dos quadrinhos. Quando seus heróis ganharam o cinema, passou a fazer aparições relâmpago, a la  Hitchcock.

O blog Gilberto Pão Doce, e seu autor, que cresceu lendo HQs da Marvel, expressa os mais profundos pêsames com a partida de uma das principais mentes criativas da indústria do entretenimento moderno e também criador de uma série de personagens que amamos ao longo de todas as nossas vidas.

RIP, meu herói.

A patética – e justa – aspiração de Dr. Rey

Dr. Rey queria ser ministro da Saúde de Jair Bolsonaro. Queria não, quer. Mesmo depois de vir ao Brasil para postular a vaga e levar com a porta na cara – o ex-capitão foi aconselhado a não recebê-lo -, Dr. Rey escreveu em sua conta no Instagram: “Trago ideias de saúde do primeiro mundo! Pode rir, vou lutar pelo Brasil até meu último suspiro”. Sua bandeira: acabar com o SUS e implantar o sistema republicano americano chamado “Purple Plan”. Ele acha que todo brasileiro pode ter plano de saúde privado. Sabe tudo o Dr Rey. Fato, porém, é que o “Doutor Hollywood”, como se autodenomina (e nome de seu programa na RedeTV!) tem todo o direito de concorrer à vaga em um ministério que tem ícones, por assim dizer, como o astronauta Marcos Pontes e o juiz Sérgio Moro, candidatos a ministro como o “príncipe” Luiz Philippe e Alexandre Frota, e uma bancada exótica de apoiadores como Kim Kataguiri, Joice Hasselman, Tio Trusti, Nelson Barbudo e Caroline de Toni. O cirurgião plástico Roberto Miguel Rey tem todo o direito de ter esperanças.

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Cenas de uma subcelebridade no Rio: Dr Rey na praia de Ipanema, posando com admirador num evento, na porta do condomínio de Bolsonaro e dando uma coletiva com uma bandeirinha do Brasil. Projeto do cirurgião: acabar com o SUS.

A aparição do médico/socialite/apresentador de TV pegou de surpresa até profissionais da imprensa que dão plantão em frente à casa do presidente eleito, em seu condomínio na Barra da Tijuca. Quando Dr. Rey apareceu, os repórteres tinham outro assunto na cabeça – a reunião entre o embaixador da Argentina e Bolsonaro. O aspirante a ministro sequer avisou Bolsonaro que iria ao seu encontro. “Nós estávamos no mesmo partido, lembra? A gente estava no PSC. Éramos amigos, somos amigos. Eu só espero que, talvez, ele me cogite a ministro da saúde”, declarou o cirurgião, em bom portuglês (Veja o vídeo). O fato de Bolsonaro ter barrado o cirurgião pode não ter sido mera incompatibilidade de agenda. Em um vídeo veiculado no YouTube em novembro de 2017, quando Bolsonaro ainda era pré-candidato à presidência da República, Dr. Rey disse que o então deputado do PSC sugou os cofres públicos “por duas gerações” (Assista).

Vamos lá, Bolsonaro, dê uma chance a Dr Rey. Não dá pra ser mais ridículo do que já está.

A defesa da censura prévia no Enem é o prenúncio de um Index Prohibitorum

“Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…”.
Texto na célebre primeira página do Jornal do Brasil, editada por Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, 1968

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.
Fase em Pajubá — dialeto falado pela comunidade LGBT — que constava em questão da prova de linguagens do Enem 2018, para desespero dos homofóbicos.

“Esta prova do Enem, vão falar que eu estou implicando. Agora, pelo amor de Deus! Este tema, da linguagem particular daquelas pessoas…(LGBT). O que temos a ver com isso, meu Deus do céu? Quando a gente vai ver a tradução daquelas palavras… um absurdo, um absurdo! Vai obrigar a molecada a se interessar por isso, agora? (…) Podem ter certeza, fiquem tranquilos: não vai ter questão dessa forma no ano que vem, porque nós vamos tomar conhecimento da prova antes. Não vai ter isso daí. Vão ter perguntas sobre Geografia, dissertações sobre História, questões realmente voltadas ao que interessa ao futuro da nossa geração, do nosso Brasil. E não essas questões menores”.
Jair Bolsonaro, em live na internet, prometendo “vistoriar” a prova do Enem 2019 antes que seu conteúdo seja submetido, elencando as “ideologias de gênero” entre as questões que ele diz considerar desimportantes.

Há cinco dias, escrevi neste blog um artigo “Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio” (Leia aqui) em que, sem nenhum exercício de futurologia, especulei sobre a essência autoritária do governo eleito e sua relação com um dos pilares de uma democracia: uma educação livre. Bolsonaro ficara incomodado com o tema da redação do Enem – o Exame Nacional do Ensino Médio, porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras –, a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Deve ter considerado provocativo. Irritou-o, igualmente, que outras provas, como Ciências Humanas e Linguagens, abordassem tópicos mais do que atuais: feminismo, nazismo, escravidão (pouco depois anunciaria o fim do Ministério do Trabalho, que tem entre suas missões o “Combate ao Trabalho em Condições Análogas às de Escravo”), regime militar, crise de refugiados, LGBTs, entre outros. É pior do que imaginava. Em live, na internet – a ferramenta preferencial do presidente eleito -, Bolsonaro , entre outros temas, avisou que quer “tomar conhecimento da prova do Enem antes da realização do exame”, o que contraria aspectos técnicos e de segurança. O objetivo, reconhece a própria mídia, é evitar questões sobre LGBTs, por exemplo.

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Bolsonaro em live de meia hora disse que vai “vistoriar” a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) antes que seu conteúdo seja submetido aos alunos nos locais de teste. Bolsonaro criticou algumas questões oferecidas na edição deste ano do Enem, especialmente a relativa à espécie de dialeto falado por gays e travestis, o pajubá. Na mesa, em destaque, o livro “Não, Sr. Comuna! Guia Para Desmascarar as Falácias Esquerdista”.  No fundo, uma Menorá (candelabro), um dos utensílios mais importantes da cultura judaica.

Cada um interpreta como quer. Dentro dos meus conceitos, pela minha formação democrática, e com a responsabilidade de quem tem um casal de filhos em idade escolar, estudantes de uma escola construtivista – o oposto da “escola sem partido”, essa ideia amorfa, que junto com o kit gay, impregnou a campanha eleitoral -, isso é o anúncio de censura prévia. E o esboço de um Index Prohibitorum, como os Index Librorum Prohibitorum (Índice de Livros Proibidos, em latim) que listavam as publicações proibidas pela Igreja Católica em seus anos de trevas, ancorada no terrível Concílio de Trento. Bolsonaro reiterou sua estranha obsessão: questões sobre “ideologias de gênero” não podem entrar no Enem.

A questão é, sim, ancestral: o controle sobre informações e ideologia é a chave de qualquer governo autoritário. Qual a diferença entre isso e colocar censores dentro de um jornal para aprovar o que será publicado? – como na ditadura de 64. Ou entre ler letras de músicas, roteiros de peças, ver cenas de filmes, para filtrar o que pode chegar ao público e o que não pode? Sob censura, nos anos de chumbo, os jornais – que apoiaram o golpe -, buscaram, depois do AI-5, maneiras criativas de driblar e, ao mesmo tempo, denunciar o estado de exceção. O Estado de S. Paulo passou a publicar trechos de “Os Lusíadas”, poema épico do português Luís de Camões, nos espaços das matérias vetadas pelos censores. O vespertino da empresa, “Jornal da Tarde”, recorreu a artifício semelhante, publicando receitas culinárias. O JB, na época gloriosa de Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, produziu uma célebre primeira página em que se valeu de recursos como a previsão do tempo – “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…” – e de um anúncio no alto da página: “Ontem foi o dia dos cegos”.

Em sua live, ao lado de uma intérprete de Libras – porção inclusiva de seus vídeos, certamente o conselho de algum marqueteiro esperto -, Bolsonaro aproveitou também para falar sobre o perfil do próximo ministro da Educação, alguém que tenha “autoridade” suficiente e esteja alinhado com o Brasil “conservador”. Bolsonaro disse que o nome será anunciado muito em breve. Um dos cotados é o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, que defende a revisão bibliográfica e curricular para evitar o “ensino partidarizado” e acredita no revisionismo da ditadura de 1964, para amacia-la em uma revolução contra o comunismo. No Congresso, o novo governo vai tentar aprovar o projeto da “Escola sem partido”.

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Livro contendo a lista do Index Librorum Prohibitorum (Veneza, 1564); René Descartes, um dos notáveis a ir para o Index; protesto contra a Censura durante a ditadura; “Tempo negro. Temperatura sufocante”, a atualidade de Alberto Dines, morto recentemente, aos 86 anos; e o tema da redação do Enem 2018, “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

O Enem, é bom lembrar, é realizado desde 1998 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação. Mas foi em 2009 que o Enem passou a ser aplicado como forma de acesso ao ensino superior. A metodologia não é a mesma dos vestibulares tradicionais. As questões apresentadas não são elaboradas integralmente por um mesmo grupo, mas escolhidas entre itens dispostos em um banco de dados com milhares de questões já aplicadas por diversos professores, há anos. Uma rara voz do atual governo a se manifestar, e de forma absolutamente técnica, foi Maria Inês Fini, presidenta do Inep, a autarquia responsável pela realização do Enem. “Não é o Governo que manda na prova”, explicou Fini ao El País. A elaboração das questões é de responsabilidade exclusiva da área técnica. “O Inep tem uma diretoria específica de técnicos consagrados que com a ajuda de uma série de educadores e professores universitários de todas as regiões do país elaboram a prova”, disse ela. Maria Inês Fini não será a próxima ministra da Educação.

Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio

“Agora acordei para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando exterminaram o Congresso. Quando culparam os terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário. Nada muda instantaneamente. (… )”.
Trecho de fala da atriz Elizabeth Moss, protagonista e co-produtora da série ‘O Conto da Aia’, série distópica baseada em livro homônimo de Margareth Atwood. Temporada 1.

A redação do Enem 2018 – o Exame Nacional do Ensino Médio, o maior vestibular do Brasil, utilizado para avaliar a qualidade do ensino médio no país e porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras – teve como tema a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. O tema não surpreendeu professores, que apostavam em uma redação girando em torno de fake news, um dos temas mais polêmicos da campanha. Acabou sendo ainda mais amplo. O Enem deu a estudantes – muitos certamente eleitores de Jair Bolsonaro – a chance de discorrer sobre algoritmos, mídias sociais, manipulação, catarse cibernética. Nada mais apropriado. O ditador eleito montou uma ‘Fantástica Fábrica de Fake News‘, denunciada pela Folha de S.Paulo, nas mídias sociais e especialmente no Whatsapp, uma rede que gera muita confiança porque são pessoas próximas a elas que mandam as notícias. O objetivo de Bolsonaro foi alcançado: fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT nas últimas semanas da campanha e financiadas por empresários amigos do “mito”. O TSE ficou petrificado. A Procuradoria-Geral da República, idem. Quanto ao Enem, às vésperas de um governo de ultradireita, que defende a “escola sem partido” e estimula o macarthismo por alunos, denunciando professores “comunistas”, não se surpreenda se acabar ou abolir a Redação das provas obrigatórias.

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Empreendedores ricos, Luciano Hang (esq) e  Mário Gazin (dir), típicos ricaços sovinas, gravaram vídeo de apoio a Bolsonaro, em que Gazin admitiu Caixa 2 e disse que não aguentava mais gastar na campanha de Bolsonaro. Deve ter valido a pena.

No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhotes do Coiso, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”.

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No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhotes do ditador eleito, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”. Bom, o tema acabou sendo “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Tomou, Papudo!

Se, redigindo, Bolsonaro já teria dificuldade de explicar, em palavras, o serviço sujo que delegou, por caixa 2, a empresas, responsáveis por fabricar e impulsionar fake news – vamos combinar que o forte do ex-capitão não são as palavras -, certamente o ultradireitista tiraria zero na prova de Redação, já que quem escreve textos que firam os direitos humanos pode perder até 200 dos 1 mil pontos possíveis. Imagine Bolsonaro, um homofóbico, misógino, preconceituoso, anti-direitos sociais e trabalhistas, defensor da ditadura de 64, que tem como ídolo o torturador Brilhante Ustra, escrevendo sem ferir a gramática, nem os direitos humanos. Não passaria do primeiro parágrafo.

Encagaçado, o ministro da Educação de Temer (quem?), um certo Rossieli Soares (quem??) teve, imagine só, que vir a público para dizer que o tema da edição de 2018 foi escolhido há quatro meses pelos técnicos do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A campanha eleitoral teve início em 16 de agosto. No primeiro dia do Enem, os candidatos fizeram também provas de Ciências Humanas e Linguagens, onde apareceram tópicos como feminismo, nazismo, escravidão, regime militar, crise de refugiados, entre outros. Na prova de Linguagens, uma pergunta abordava um dicionário criado somente para o vocabulário usado por travestis — a questão pedia que os candidatos decodificasse o que era dito. Bolsonaro, não pense que estou brincando, pode acabar querendo impugnar o Enem por ser parte do inventado kit gay uma de suas fake news da campanha.

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Cenas gays do filme “Bohemian Rhapsody”, que conta a história do mito Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, estão sendo vaiadas (!) nos cinemas brasileiras. O descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie?

E para não dizer que não falei de ódio, depois das vaias à lenda do rock Roger Waters, o ex-Pink Floyd, que exibiu em sua turnê no Brasil o #Elenão e o #Resist em um protesto contra a inescapável eleição de Bolsonaro, dessa vez quem teve a memória desrespeitada foi o cantor Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, que morreu de Aids em 1991, aos 45 anos de idade. Um dos filmes mais aguardados do ano, ‘Bohemian Rhapsody‘ chegou aos cinemas brasileiros na última semana, contando sua biografia. Se por um lado os fãs do grupo saíram extasiados da sala, outra parte dos espectadores brasileiros vaiaram (!) cenas homoafetivas exibidas no longa. E o descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie? É de dar muita vergonha – e medo. Eu vejo “O Conto da Aia” e cada vez mais enxergo o Brasil.

Semanais já tratam Bolsonaro como eleito

Época psicanalisa Bolsonaro, numa capa pra lá de pretensiosa. Carta Capital tenta desconstruir o “mito”. IstoÉ, com uma das capas mais idiotas da história, segue mais preocupada em aprofundar o antipetismo e a divisão da sociedade inventando lendas sobre o a essa altura improvável Governo Haddad. E Veja, numa capa graficamente muito bonita, fala dos “Generais de Bolsonaro”, tratando do que até os coturnos do Mourão já sabem: se eleito, o Coiso vai implantar uma ditadura disfarçada, ainda que legitimada pelo voto.

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Capas das semanais varia entre ameaça de golpe e o extremismo da campanha

As principais revistas semanais brasileiras caminham, acreditam muitos analistas, para o cadafalso. Perderam não apenas tiragem e leitores, mas relevância, importância, consistência, sobriedade e, em alguns casos, compostura. Não souberam se reinventar. Tornaram-se, você sabe quais, apenas linha de transmissão de grupos empresariais e/ou políticos. Mas sou de uma geração que inevitavelmente chega no final de semana curioso – no caso, na sexta, já que todas passaram a rodar mais cedo por economia: qual vai ser a capa de Veja, IstoÉ, Carta Capital e Época, para citar as referências mais óbvias. CrusoÉ, do mesmo grupo do Antagonista, tem surpreendido, mas confesso que ainda tento controlar a minha resistência. Época virou uma espécie de suplemento do Globo. Veja foi uma das poucas sobras da derrocada da Abril.

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Esta semana, a capa mais non sense fica com Veja, que resolve fazer um especial de 50 anos – 1968-2018 -lembrando que “Veja nasceu da ditadura, floresceu na democracia – e chega a cinco décadas de vida pronta para continuar a zelar pelo regime das liberdades”. Imaginar Veja como zeladora não deixa de ser uma imagem interessante. Uma coisa meio bedel da esquerda. A edição, como não podia deixar de ser, é constrangedora – para Veja. Ao garimpar sua história – entre fotos e reportagens – mostra o que a revista já foi e o que virou.

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IstoÉ faz a capa mau humor da semana. Divide sua capa entre metade da cara de Lula (representando o PT, pois imagina-se que a revista saiba que o candidato é Fernando Haddad) e metade da cara de Bolsonaro e pergunta: “Quem é o mais odiado?”. E completa, com seus tradicionais subtítulos palavrosos (tome fôlego): “A polarização entre o antilulopetismo e o antibolsonarismo dá o tom da eleição dos extremos e da irracionalidade. No fim, deve ganhar o menos rejeitado”. Com um lustre de imparcialidade, o que a revista faz é ignorar Haddad, tirando-o da capa, e, subliminarmente, sugerir uma terceira via. Só faltou escrever o nome, que sabemos qual é.

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Época segue em sua sequência de capas com os presidenciáveis, sempre com fotos em close e títulos engraçadinhos. “O Regra-Três – Ciro Gomes entre o antipetismo e o antibolsonarismo”, diz a capa da revista de sexta do jornal O Globo. Haddad era “O candidato obediente – A campanha de Haddad no coração do lulismo”, com uma foto do petista com um chapéu de Lampião. Numa das capas mais bizarras, Marina foi descrita como “A candidata do silêncio – A estratégia de Marina Silva para chegar à Presidência”. A foto mostra Marina de costas.

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Finalmente, Carta Capital flerta com o humor ao colocar um fantasminha de filme B (uma toalha com buracos nos olhos e boca) com um quepe militar (minha ignorância não me permitiu identificar a origem do quepe, mas não me pareceu do Exército brasileiro – peço ajuda aos internautas) com o título “O despertar do velho fantasma – A maioria do Exército abraça Bolsonaro. Ameaças fardadas à democracia pairam no ar”.

Deu a louca na direita

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Nem Sheherazade resistiu ao arsenal de bobagens da dupla Bolsonaro-Mourão. No Twitter, respondeu ao comentário machista do general e se aliou ao #EleNão: “Sou mulher. Crio dois filhos sozinha. Fui criada por minha mãe e minha avó. Não. Não somos criminosas.”

A apresentadora do SBT Rachel Sheherazade, conhecida pelas posições direitistas, como defender o “linchamento” de um bandido durante o SBT Brasil, chocou o mundo conservador ao entrar, pelo Twitter, na campanha contra Jair Bolsonaro, com a hashtag #EleNão – a senha no mundo virtual para quem já descartou votar no mito imaginário. Ela respondeu irritada à declaração do general Hamilton Mourão, vice do capitão, que declarou que famílias sem pai e avô, mas com “mãe e avó”, são “fábricas de desajustados”, que tendem a entrar no mundo do tráfico de drogas. “Sou mulher. Crio dois filhos sozinha. Fui criada por minha mãe e minha avó. Não. Não somos criminosas. Somos HEROÍNAS!”, rebateu, para espanto de muitos seguidores. Não é o primeiro revés na trincheira direitista.

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Reinaldo Azevedo, que se divide entre BandNews FM, RedeTV! e Folha, não lembra o inventor do termo “petralha”. Segue criticando os petistas, mas parece mais incomodado com a incontinência verbal da chapa pura-farda

Reinaldo Azevedo, ex-Veja, criador do termo “petralha”, hoje equilibrando bolinhas no programa “É da Coisa”, na BandNews FM, na RedeTV! e com uma coluna na Folha de S.Paulo, tem feito duras críticas ao comportamento da dupla Bolsonaro-Mourão, inclusive às recentes declarações do capitão em um vídeo gravado no leito da unidade de terapia semi-intensiva do Albert Einstein, onde inventou um complô de Lula para fraudar as eleições e eleger Fernando Haddad, deixando subentendido que o petista não poderia tomar posse. “O fato de Bolsonaro estar num hospital não lhe dá licença de defender teses que agridem os fundamentos da democracia”, escreveu nas redes – e repetiu na TV e no rádio. Reinaldo, que faz questão de esclarecer aos seguidores que não virou petista – e não virou mesmo – mostra apenas que a extrema direita perdeu o rumo.

O humorista Rafinha Bastos, ex-CQC e Agora é Tarde, famoso pelas piadas infelizes – e processos – contra famosos, ironizou a foto de Bolsonaro no Albert Einstein – a primeira divulgada depois de sua internação – fazendo com as mãos o característico gesto de atirar. “Posso não concordar com as posições dele, mas gesto de pistolinha na UTI depois de levar uma facada me fez rir alto”, postou no Twitter. A facada também rendeu um raro comentário equilibrado da colunista do Estadão e comentarista da Globonews, Eliane Cantanhêde, conhecida pelas fontes no alto tucanato. “O efeito Lula está sendo mais eficaz para Haddad do que o efeito facada para Bolsonaro”, reconheceu.

Não há nenhuma conversão desses formadores de opinião, nem sabotaram seus bebedouros com água batizada. Eles continuam muito parecidos com o que sempre foram – e a maior parte não dá o braço a torcer. Mas a polarização entre esquerda – Haddad e Ciro – e direita – Bolsonaro – pelo funil do segundo turno, somada às barbaridades da chapa pura-farda, têm provocado declarações até há pouco impensáveis. Claro que a maioria dos direitistas raiz mantém o antipetismo febril, surfando em factóides como, mais recentemente, uma possível anistia de Haddad a Lula, caso ele seja eleito – o que o próprio candidato da coligação “O povo feliz de novo” nega que pretenda fazer. “O Brasil merece ser governado da cadeia por um corrupto? As ordens do PT, como no PCC, partem da cadeia”, tagarela o dublê de “historiador” e comentarista da Jovem Pan – uma espécie de Direita FM, Marco Antonio Villa. “Caso vencesse as eleições, Fernando Haddad – se continuasse fazendo o que faz hoje -, passaria mais tempo na cadeia ouvindo ordens de um ex-presidente presidiário do que no Palácio do Planalto”, faz coro Augusto Nunes, colunista de Veja e, claro, da Jovem Pan.

Perdoem, portanto, o escorregão de sensatez de Sheherazade. Não há surto de bom senso que dure para sempre.