A ‘pegadinha’ de Bolsonaro

Para quem se escandalizou com a Fantástica Fábrica de Fake News montada pela comunicação de Jair Bolsonaro, especialmente entre o final do primeiro turno e o segundo turno da campanha eleitoral, que deu a vitória ao capitão, prepare-se para as notícias que trago. Ao crime eleitoral, denunciado pela Folha de S.Paulo e ignorado pela Justiça Eleitoral, junta-se falsidade ideológica, empulhação, engodo, enganação eletrônica escancarada do eleitor. O empresário carioca Paulo Marinho – suplente do senador eleito Flávio Bolsonaro, mas mais conhecido como ex-marido de Maitê Proença – é um dos principais nomes na órbita do presidente eleito. A casa de Marinho, 66 anos – suspeito na Justiça de ocultar patrimônio milionário em nome de parentes -, no bairro carioca do Jardim Botânico, foi usada para gravar programas eleitorais durante a campanha e serviu como sede para a primeira reunião de transição, antes do convento das carmelitas descalças se mudar para Brasília. Até aí, morreu Neves. Um personagem novo, porém, é André Marinho, filho do Paulo Marinho, dono de um blog de “humor a favor”, recomendado em vídeo pelo próprio Bolsonaro (“Canal André Marinho. Siga, compartilhe, inscreva-se e curta”), fazendo imitações supostamente engraçadas do presidente eleito. É difícil diferenciar a voz de Bolsonaro e de André, de tão idênticas. Ele é realmente talentoso. André, porém, foi mais longe para ajudar a eleger o amigo do pai.

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André Marinho, em seu blog, com óculos de realidade virtual e bandeira do Brasil ao fundo, e um cacho de bananas em cima de uma prancha de surf, imitando fuzilar adversários políticos: “Peguei a Gleisi (Hoffmann, presidente do PT) aqui, peguei. Acabei de passar na gruta da Gleisi. Agora a próxima fase é o pântano do Guido Mantega”.

Em um vídeo que vazou em grupos de Whatsapp – santa ironia -, André aparece entre dois membros do grupo de direita, Movimento Brasil Livre (MBL) – supostamente o autor da gravação, não se sabe se para dar oficina de picaretagem ou o quê -, Kim Kataguiri, eleito deputado federal pelo DEM, e Arthur Moledo do Val, o “Arthur Mamãe Falei”, eleito deputado estadual no Estado de São Paulo -, confessando que, com conhecimento da família Bolsonaro – ele cita o senador eleito pelo PSL, Flávio Bolsonaro, que chegou a ser banido do WhatsApp por “comportamento de spam” – imitava Jair Bolsonaro em grupos de Whatsapp. O que confirma o esquema de contratos para disparos de centenas de milhões de mensagens com empresas como Quickmobile, a Yacows, Croc Services e SMS Market. Junto com os amigos MBL, entre gargalhadas e olhares de admiração, ele se vangloria de ter enganado eleitores e, exagerando, claro, de ter feito “milhares de áudios”, inclusive para os garimpeiros de Serra Pelada, um “reduto petista” – de onde ele tirou isso? “Devo ter virado uns 50 mil votos”, diz André, o imitador. Bom, o vídeo dispensa maiores detalhes. Apenas assista. Era só uma brincadeira? Deixemos a Justiça Eleitoral decidir. Eu sei o que vi.

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Paulo Marinho, Jair Bolsonaro e André Marinho, em momento feliz. Amigos que enganam eleitores unidos, permanecem unidos.

Paulo Marinho é dono de uma consultoria empresarial, a Carmo Consultoria. A proximidade com a família Bolsonaro, como já mostraram veículos, como a insuspeita revista Exame, da Abril, aconteceu por intermédio do então presidente do PSL, Gustavo Bebiano, de quem Marinho é amigo há mais de 30 anos. Eles trabalharam juntos nos anos 2000 no Jornal do Brasil, quando este era comandado por Nelson Tanure. Marinho era o vice-presidente e Bebiano o diretor jurídico. Seu filho, André Marinho, é presidente do braço jovem do Lide (Grupo de Líderes Empresariais), grupo criado em 2003 por João Doria, eleito governador de São Paulo. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, o empresário é conselheiro informal do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB).

O filho de Paulo Marinho, 24 anos, é um bom imitador de Bolsonaro, vamos admitir, chegando a traduzir a conversa entre o presidente eleito e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, no domingo, 28 – dias depois de ter feito um quadro com uma imitação da cena. Flávio Bolsonaro, com o pai ao fundo, até gravou um vídeo para sua campanha ao Senado – que não se sabe se foi levado ao ar, mas está no Youtube – com o Tom Cavalcante de araque. Resta saber se a Justiça Eleitoral vai achar engraçado também.

Bolsonaro quer instituir bipartidarismo – com ele ou contra ele -, ignorar legendas e transformar Congresso em sua montaria

O Congresso Nacional, do qual faz parte – é deputado federal desde 1991, depois de uma passagem como vereador na cidade do Rio e, antes disso, a carreira militar, entrando para a reserva do Exército em 1989 – parece algo que Jair Bolsonaro gostaria de ignorar. Um desses estorvos da democracia, que sempre mostrou desprezar, mas que o elegeu, com Sérgio Moro, com Supremo, com fake news, com tudo. Como o Legislativo está lá, por enquanto, o presidente eleito decidiu fazer política como nas melhores ditaduras do mundo: ignorando as legendas – inclusive a sua -, as lideranças parlamentares e partidárias – os chamados “caciques” -, ou seja, transformado o Congresso em um apêndice do Executivo. Em um fim de semana tipicamente militar (preparem-se, setoristas) – sábado, na comemoração do 73º aniversário da Brigada de Infantaria Paraquedista, e domingo na Escola de Educação Física do Exército, para participar do X Encontro do Calção Preto, que reúne antigos e atuais comandantes -, Bolsonaro, em um ato falho, entregou o que todos já tinham entendido. Ao falar da formação do ministério – até agora, dois “super ministros”, Guedes e Moro -, um bando de desconhecidos apartidários com o selo TFP de qualidade, e generais por toda parte  -, disse que estava escolhendo seu primeiro escalão “com pessoas isentas, independentes, que pensem no Brasil” – ah, bom! -, “e não na agremiação partidária”. Opa!

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Bolsonaro participa de encontro com antigos e atuais comandantes, professores e alunos da Escola de Educação Física do Exército, na Urca. Agenda militar e ministério montado com base em bancadas, escolhas pessoais e dicas de Olavinho. Uma maravilha será esse governo…

Se pudesse – mas não pode, porque foi eleito, e não recebeu super-poderes, nem foi picado por uma aranha radioativa -, Bolsonaro dissolveria os partidos, como fez a ditadura de 1964, que tanto admira, e instituiria o bipartidarismo. Dessa vez, não a Aliança Renovadora Nacional, a Arena, de apoio à ditadura, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição consentida, mas o Partido Pró-Bolsonaro (PPB) e o Partido Contra Bolsonaro (PCB) – ops. Ame-o ou Deixe-o, como nos lembrou o SBT de Silvio Santos. Se a Globo pode ter “Cem milhões de uns” – a Globo jura que, por meio de suas múltiplas plataformas de conteúdo, fala todos os dias com mais de 100 milhões de brasileiros, mas que campanha idiota -, porque a Câmara não pode ser 513 “uns” e o Senado 81 “uns”?

Aí você vai dizer que, atualmente, há 35 partidos políticos no Brasil – concordamos que muitos não representam nada, mas como ignorar MDB, PT, PSDB, DEM, PDT, PCdoB, Rede, Psol? Ok, surgiram SD, PPL, PATRI, PROS, SD, Novo, PSL…. mas vamos agora brincar que não existe pluripartidarismo? Foram eleitos 54 senadores de 20 partidos diferentes. A Câmara dos Deputados será composta por 513 deputados federais de 30 partidos diferentes. Vamos fingir que não? Está óbvio que Bolsonaro vai afundar nessa estratégia como Titanic, com sua bandinha marcial toando “Nearer, My God, To Thee”. Não, não sou Mãe Dinah, só vivi muito e enxergo longe.

Imperium mediocre, mediocre oraculi

O “ideólogo da direita” Olavo de Carvalho – como costuma ser definido, e ele ama, afinal chamar de ideológico ou filósofo um ultradireitista desqualificado como ele é um tremendo elogio -, cujas concepções, pensamentos e construções filosóficas, que desabam, como um castelo de cartas, ao primeiro sopro ideológico honesto, e que tornou-se a eminência parda do governo Bolsonaro, para ciumeira geral de seus generais estrelados, de seu “Posto Ipiranga” e de seu juiz de estimação, rompeu o silêncio e falou por alguns minutos, por telefone, com a repórter Natália Portinari, do Globo (Leia), onde mostrou-se o que é: um fake news total, um personagem fake, um filósofo fake, um consultor fake, indicando ministros fake. Em um governo que já virou um pesadelo surrealista de Dalí, dois ministros estratégicos vieram do ‘caderninho’ de Olavo. Se Paulo Guedes é o Posto Ipiranga e Sérgio Moro o Posto BR de Bolsonaro, Olavo é o posto ExxonMobil,  que sonha ver o Brasil como um Panamá sem canal, mas com pré-sal suficiente para dar e vender. Olavo é o “Pequeno Príncipe” de Bolsonaro, seu blog de cabeceira. Se merecem.

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Apresentação do Blog de Olavo de Carvalho, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria. Pose de imitador de John Wayne, idolatria aos Estados Unidos e anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba.

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e o futuro chanceler Ernesto Araújo, são, como de resto, ilustres desconhecidos em um ministério sem rostos, de não notáveis, e onde os poucos entes com ligações partidárias são considerados cota pessoal – o que significa que Bolsonaro ignorará os partidos e tentará governar com bancadas movediças, evangélicos, ruralistas, lobistas de planos de saúde e da indústria das armas – e seus dois “superministros” Paulo Guedes e Sérgio Moro. É tosco imaginar que em um mundo onde se pode ler Kant, Rousseau, Hegel, Gramsci, Schopenhauer, Nietzsche, Maquiavel, Marx, Paulo Freire, Heidegger, Comte, Sartre, Adorno, Hume, Tomás de Aquino, Descartes, Platão, Aristóteles, Sócrates – ou, vamos lá, Chomsky, Cortella, Karnal –, alguém ouça o drugstore cowboy Olavo de Carvalho, que se dá tanta importância que lembra – apenas lembra – o afetado e pedante Paulo Francis, mas sem sua genialidade e com muito menos humor. E com um deslumbramento do país em que vive que o faz desprezar o país em que nasceu, um esnobe que pensa que transita mentalmente entre as fronteiras de dois mundo, como se fosse um profundo conhecedor de tudo. Acha que nasceu há dez mil anos atrás, mas mal consegue ficar de pé, engatinha, levanta, dá alguns passos e desaba. Só Bolsonaro e a trôpega direita brasileira para seguir seus conselhos.

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O filósofo e dublê de caçador Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro, tarado por armas, e o filhote de urso que abateu pessoalmente.

Na entrevista ao Globo, ele debocha da repórter – chega a dizer que se apaixonaria por ele, o velhaco -, como se fosse um Deus falando com um mortal nas escadarias do Olimpo. Seu Blog – não dá para opinar sobre alguém hoje sem entrar em suas redes sociais, por mais insalubre que seja o trabalho -, que traz como nome uma frase em latim, “sapientiam autem non vincit malitia” – em português, “Nenhum mal, afinal, pode superar a sabedoria” – o mostra em uma pose de imitador de John Wayne, que de tão caricatural parece remake de ‘Bonzanza’. A idolatria aos Estados Unidos e o anticomunismo ferrenho, que o faz ver o “perigo vermelho” até na sopa de beterraba, está lá, puro, direto, sem curvas, conexão total com os babacas que o seguem.

Pretensioso, arrogante, narcisista, mitômano, faz de seu blog um passeio por lambidas na própria virilha e cagação de regras. Está nas principais redes sociais e disponibiliza um “Boletim Olavo de Carvalho”, um emaranhado de baboseiras que parecem coisa do livro “Cartas do Inferno”, do famoso teólogo C. S. Lewis – na década de 1940, C.S. Lewis escreveu uma série que foi publicada no The Guardian, contando a história de um demônio que enviava instruções a um subordinado através de cartas, com o propósito de destruir a fé de um cristão recém-convertido. Em um de seus últimos posts, “Isto explica praticamente TUDO (a caixa alta á dele), mostra, num gráfico simplório, sem fonte, que – respire fundo – a “qualidade do sêmen” masculino, comparada com 1940, caiu vertiginosamente. E abre para debates, com comentários que mostram bem quem é sua claque. “Ou seja estamos cada vez mais femininos…ou ficando ralos. Homens sem testosterona”, comenta um deles. “Meu Deus… junto com isso a testosterona, a virilidade, inteligência, coragem, amorosidade, TUDO vai pro beleléu”, espanta-se uma (!) internauta. Esse é o nível do debate.

Em outro post, ele observa: “A chegada da direita ao poder pelo voto popular foi o acontecimento mais traumático na vida da classe jornalística brasileira. Ela nunca imaginou que tamanha calamidade pudesse lhe acontecer, coitadinha”. O ódio à mídia tradicional, praticamente ignorada por Bolsonaro na campanha e depois de eleito, casa com esses ideais, de quem pretende governar pelas redes sociais. Em vídeo recente (Assista sem esperanças), intitulado “Democracia, o caralho” (isso mesmo), Olavo de Carvalho – estante fake de livros ao fundo e um curioso anel no dedo mínimo -, defende a tese de que a eleição de Bolsonaro é o reencontro do país com sua maioria conservadora. Dizer que o Brasil é uma democracia é uma coisa ridícula. (…) O Brasil não é uma democracia. Isso é uma farsa grotesca, ofensiva, insultuosa, agora vamos ter a democracia com Jair Bolsonaro” diz ele, para quem o PSL será o “grande partido conservador que sempre nos faltou”. Será que ele já ouviu falar em Arena?

Ah, no Facebook, Olavo oferece “Cursos avulsos com 50% de desconto”. Black Friday? Não sei, mas é uma oportunidade que não posso deixar de perder.

Acabaram os rebeldes sem causa. Chegou a causa. É a geração mobile versus as Tias Lydias de Olavo de Carvalho

O novelo segue sendo desenrolado, revelando o que se esperava – e, desatando nó aqui, nó ali, o Ministério Bolsonaro vai tomando sua forma teratológica. Um governo paramilitar, de ultradireita, nível ‘O Conto da Aia‘ nos direitos humanos, sociais e das minorias, nível ‘Laranja Mecânica‘ em seu projeto fascista de ensino – área que a própria base evangélica considera “estratégica” -, com o tal Escola sem Partido e a proibição de que se discuta em sala de aula assuntos envolvendo gênero e sexualidade. No Itamaraty, simbiose total com os interesses americanos, com um chanceler adorador de Donald. E com as bancadas evangélicas, ruralistas, da bala, dos planos de saúde, mandando a ponto de entregarem a área de assuntos fundiários para a UDR (União Democrática Ruralista) e vetarem um educador moderado do Instituto Ayrton Senna para o Ministério da Educação porque não comungava com o tal Escola sem Cérebro. O resto da cretinocracia une o pior do argentarismo bancário e neopentecostal com um projeto de autocracia mezzo fardada, mezzo terninho de “apóstolo”. São os gângsters com doutorado da Escola de Chicago, cujos sobrenomes bem poderiam ser Nitti, Esposito, Drucci, Colosimo e Dillinger.

Se o moderado Mozart Neves é avançado demais para comandar o MEC, basta chamar o pai dos burros, Olavo de Carvalho, o “pensador”, o “ideólogo” de ultradireita, radicado na terra de “Papa” Trump, que já indicou o chanceler Ernesto Araújo, e agora emplacou seu segundo nome para a Esplanada,  o “professor e filósofo” colombiano, Ricardo Velez Rodriguez, professor de milico, saído batendo os coturnos dos quadros da Escola de Comando do Estado Maior do Exército para o MEC. Ele também acha que o ensino no país tornou-se refém de uma “doutrinação de índole na ideologia marxista”. Outra Tia Lydia a tentar criar a distopia verde e amarela. Antes do discípulo de Olavo, outra casta estatal  -, a dos procuradores da República -, mostrou-se pronta para a missão de iniciar o Tratamento Ludovico: esvaziar as cabeças dos nossos filhos, impedi-los de pensar, de contestar, “caminhando e cantando e seguindo a canção”. E colocar no lugar a “educação moral e cívica” da ditadura e o ensino das academias militares, um internato de almas e espíritos livres.

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Da esquerda para a direita: cena do Método Ludovico, a terapia fictícia de aversão assistida mediante o uso de drogas utilizada no romance e filme Laranja Mecânica – longa de Stanley Kubrick sobre o romance de Anthony Burgess; o “bombeiro” do filme “Fahrenheit 451”, de ‎François Truffaut‎, baseado na obra de Ray Bradbury, que conta a história do homem que incendeia livros ao invés de conter incêndios; o novo ministro da Educação, o colombiano Ricardo Velez Rodriguez, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, apoiado pela bancada evangélica; o procurador Guilherme Schelb, que defende “tirar o socialismo da mente das pessoas”, como Edir Macedo, que fez sua fortuna pessoal tirando o diabo do corpo de seus fiéis, em farsas teatrais; e o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, para quem os “livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. Fogo!

Daí surgiu o nome Guilherme Schelb, o último dos cotados para a vaga, mas, depois de uma sabatina, desprezado por Bolsonaro. Nas redes sociais, Schelb defende o projeto Escola Sem Partido e diz que há doutrinação e manipulação comunista nas escolas – onde era essa escola, que eu perdi? Schelb defende “tirar o socialismo da mente das pessoas” e diz que Bolsonaro vai “expulsar socialistas do governo” – senti um cheirinho de Edir Macedo e enxofre na frase. Assim como Ernesto “Tio Sam” Araújo acha que havia um viés de esquerda em nossa política externa. Quem sabe não instalam uns cavalinhos inspirados na obra do escultor Josef Thorak em frente ao Itamaraty. E transformam José “O Mecanismo” Padilha em nossa Leni Riefenstahl.

No CCBB, a Führerbunker de Jair Bolsonaro em Brasília, formando seu ministério DEM/Arena-PSL-militares de pijama, sentiu o peso de uma bota gigantesca sobre a cabeça com a escolha para o MEC. Cedeu aos seus mais baixos instintos ao nomear um Montag, partidário do Tratamento Ludovico de extermínio de socialismo nas escolas. Como já defendia outro cotado para a vaga,  Aléssio Ribeiro Souto, general da reserva, para quem os “livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”.

No Congresso, a comissão especial da Câmara que discute a volta a 1964, ou, mais especificamente, o tal Escola Sem Partido, realizou novamente nesta quinta, 22, reunião sob clima tenso e com bate-boca entre deputados e manifestantes. Desde julho, é a nona reunião convocada para discutir e votar o parecer do relator, o travesso deputado federal Flavinho (PSC-SP). Com posse prevista somente para fevereiro de 2019, o deputado federal eleito Alexandre Frota (PSL-SP) entrou na comissão e sentou entre os deputados usando bóton de parlamentar na lapela sem ter tomado posse ainda. A votação, mais uma vez, vem sendo adiada após sucessivos tumultos nas sessões. Imagine o delicioso inferno que será esse Congresso em 2019, o ano da besta. “Ano que vem será um ano de guerra aqui na Casa”, disse o pastor e ex de Frota – segundo o astro de Brasileirinhas -, Pastor Marco Feliciano (Pode-SP). Será, Pastor. Será.

E, de repente, conversando com amigos, atentei para algo. O que estão propondo fazer com esses jovens – nem falo dos pais, como eu – da geração smartphone, dos youtubers, do pensamento livre – é um barril de pólvora. Ou, atualizando a metáfora, uma caixa de TNT do Minecraft. Vai dar ruim. Escola sem partido? Educação Moral e Cívica? OSPB (Organização Social e Política Brasileira)? Alguém acha que esse lixo do nosso tempo – eu que nasci em 1966 e entrei na Universidade de Brasília em 1987, ainda com um reitor biônico, o capitão Azevedo (capitão-de-Mar-e-Guerra José Carlos de Almeida Azevedo) – vai ser engolido por nosso filhos? Pois é, os caras criaram as Fake News pelo Whatsapp para se eleger, ganharam e agora acham que vão devolver o país a 1964, começando pela educação. Vão ganhar uma banana na velocidade da luz. E não adianta o MBL querer invadir a UNE com seus cara-borradas. Podemos ter o nosso maio de 1968 – sem que tenhamos que ser franceses e nem comer escargot – eca!

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O Ministério Bolsonaro, so far: uma união de DEM/Arena-PSL-militares de pijama, com uma base parlamentar que une as bancadas evangélica, ruralista e da bala. Vamos lá, de 0 a 10, que nota você daria para esse nightmare team?

É engraçado como as cores do mundo real só parecem realmente reais quando as vemos numa tela. Ou após uma eleição.

Ministério das Relações Exteriores do Reino de Trump

Ernesto Araújo foi uma nomeação engraçada. Não, sério, deixem de ser mau humorados. Primeiro, Ernesto me lembra logo o Che. Ernesto “Che” Guevara de la Serna (que aliás, era médico, Mais Médicos, ai meu Deus, piada pronta). A gente tripudiando do Onyx Lorenzoni, do Marcos Pontes, da Tereza Cristina, do Paulo Guedes, do Sérgio Moro – outra piada pronta, concordamos -, e o Bolsonaro, brilhantemente, me tira do coturno o Araújo, a primeira indicação de Olavo de Carvalho para a Esplanada dos Bolsominions. Pois Ernesto “Che” “Olavo” Araújo é a melhor piada de Bolsonaro até agora. Que favor para a oposição! Num dia, Bolsonaro implode o Mais Médicos. No dia seguinte, escolhe como chanceler um diplomata recém saído da segunda classe -ei, ei, não é preconceito, ele foi promovido a ministro de primeira classe – o nome técnico do topo da carreira, o chamado embaixador- apenas no primeiro semestre deste ano, o que foi visto como uma quebra de hierarquia grave e sem precedentes no Itamaraty. Mais ou menos como um capitão comandar generais – mas deixa isso pra lá. O sujeito não é só um “trumpista”, baba ovo de Donald Trump, como a mídia reconhece, é um sujeito medíocre. Assim como a gente olha o Mourão e pensa, peraí, mas como ele pode ser tão sem noção se formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio – também frequentada por Bolsonaro -, a gente olha pro Ernesto Araújo e se questiona: gente, como o Itamaraty, com a excelência de seus quadros, aprovou a entrada desse cidadão?

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Indicado por Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo, futuro chanceler idolatra Donald Trump e  chamou o PT de Partido Terrorista. É certo como dois e dois são quatro que vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. A nomeação foi criticada dentro do Itamaraty por ter acabado de ascender à carreira de embaixador. Elogios, só de Bolsonaro e do atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, para quem seu sucessor é um diplomata “bem conceituado”.

Em artigo intitulado “Trump e o Ocidente”, escrito em 2017, Araújo afirma que o nazismo é uma ideologia de esquerda. Acompanhem o trecho: “E, na crise espiritual dos anos 20, tomou forma um movimento que pioraria ainda mais a situação para o lado nacionalismo: o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, sequestrou o nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, gerando o fascismo e o nazismo (nazismo = nacional‑socialismo, ou seja, o socialismo nacionalista)”. Gente, o cara acredita que Hitler era de esquerda. O cidadão criou um blog na campanha eleitoral no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. Isso mesmo, ele é anti-globalização. Será que ele combinou isso com o “Posto Ipiranga?”.

Nessa colcha de retalhos que vem se costurando o Ministério Bolsonaro, é certo como dois e dois são quatro que o “menino” de Olavo de Carvalho, se tiver alguma voz de comando, vai expor o país ao ridículo e queimar nossos acordos comerciais com seu alinhamento sem restrições com os EUA. Colunistas de todas as vertentes políticas estão apavorados. “O presidente Jair Bolsonaro pode fazer uma política externa ideológica de direita. Foi eleito para governar e escolher os caminhos do país. Só não pode acusar os governos petistas de terem partidarizado a política externa, porque é exatamente isso que ele está fazendo em grau muito mais elevado. O embaixador Ernesto Araújo como ministro das Relações Exteriores, por tudo o que disse até agora em seu blog de ativista, indica que o governo escolheu um alinhamento entusiástico a Donald Trump e isso tem um custo econômico”, escreveu Miriam Leitão, no Globo. “Ao escolher Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty, Jair Bolsonaro inclina-se para o lado de Trump. O futuro chanceler é fã do presidente americano e, como ele, crítico da globalização, “que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”, como escreveu em seu blog. É uma teoria estapafúrdia, mas coerente com a caça aos vermelhos desatada pelo bolsonarismo”, fez coro Clóvis Rossi, na Folha. “O novo presidente terá um chanceler à sua imagem e semelhança. O futuro ministro Ernesto Araújo não é apenas um bolsonarista de carteirinha. Ele também emula o chefe no discurso contra o “globalismo”, a “ideologia de gênero” e o “marxismo cultural””, reforçou Bernardo Mello Franco, no Globo. O que escreveu o Merval, tá curioso? “É uma surpresa desagradável, que indica, pela primeira vez na montagem do Ministério, uma decisão de fazer na política externa exatamente o que criticava nos governos petistas, com sinal trocado.”

Satisfeito?

Quem será a nova Soninha Carneiro?

Em 1992, acordávamos e dormíamos consumindo boatos, em um país que, depois de uma eleição com pegada obscurantista, vivia um clima explícito de medo. Na época, não se chamavam fake news e eram disseminados no boca a boca, sem Whatsapp ou redes sociais. Governo Fernando Collor de Mello. Você vai notar algumas semelhanças com os tempos modernos. Jovem, alimentava a fama de machão – “saco roxo”, alguém lembra? -, falava grosso, foi eleito por um pequeno partido, sem base no Congresso, o PSL, digo, PRN, assumiu com a bandeira do combate à corrupção, antes de se enrolar nela – Veja foi a primeira a lançar sua candidatura à Presidência em 1989 com a capa “O caçador de marajás”. O objetivo era evitar a vitória do operário Lula -, tinha discurso conservador nos costumes, prometeu, e fez, uma guinada na economia para “salvar o país” – Zélia Cardoso de Mello, Plano Brasil Novo, ou Plano Collor, ou apenas confisco da poupança e de todas as aplicações financeiras -, buscava ostentar saúde e expor disposição física em corridas nos finais de semana. Eram os plantões na Casa da Dinda, talvez os momentos menos edificantes de minha vida profissional. Preferia o marasmo do Alvorada. Preferia as emas. Com Collor, que morava na Dinda, no Lago Norte, era esperar os portões abrirem, já com alguma claque de “colloridos” do lado de fora – os “bolsominions” da época -, pessoas muito religiosas e com viés fascista – e, vupt, lá saia ele correndo cercado de seguranças, geralmente com alguma mensagem na camisa – que tínhamos que descobrir qual – e íamos nós atrás, repórteres, fotojornalistas e cinegrafistas (estes últimos com seus pesados equipamentos). Terno, gravata, suor, torcer por uma entrevista, manchete garantida no dia seguinte. Collor tirou aliança, recolocou aliança. Quem entra, quem sai. Suquinho pra imprensa – só durou até virarmos os inimigos.

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Collor na campanha, atirando (sem gesto com os dedinhos) – na época os militares ficavam atrás, não do lado -,  correndo com um bando de jornalistas atrás, e em cerimônia religiosa na Casa da Dinda; Zélia Cardoso de Mello, a “musa” do Plano Collor; e Collor e a fã Claudia Raia, ambos vítimas de boatos

Era setorista do Palácio do Planalto. Haviam muitos “padeiros” lá na época, gente competente, gente incompetente, e os puxa-sacos de sempre. O país falava muito em corrupção – pequenas denúncias que depois virariam uma avalanche que levariam ao impeachment de Collor. Pedro Collor, PC Farias – assassinato de PC Farias -, Tereza Collor, Fiat Elba, LBA, Rosane Collor, Eriberto Freire França, Operação Uruguai, CPI, caras-pintadas. Collor durou de março de 1990 a 29 de dezembro de 1992, quando renunciou, ao mesmo tempo em que era impichado. Só haviam dois assuntos rivalizando com política e economia nessa época. Um foi o assassinato da atriz Daniela Perez por Guilherme de Pádua, quase ao mesmo tempo que o impeachment. A dupla contracenava na novela “De Corpo e Alma”, da TV Globo, escrita por Glória Perez, mãe de Daniela. O outro era Aids – chamada pelos religiosos vigilantes da sexualidade alheia de “peste gay” – nada mais equivocado e preconceituoso. Sim, jovens, os gays, hoje LGBTs, ou – atualizando – LGBTQ+, já eram perseguidos. Muito. No dia 7 de julho de 1990, Cazuza morreu aos 32 anos por um choque séptico causado por complicações do vírus da Aids. No dia 24 de novembro de 1991, o vocalista da banda britânica Queen, Freddie Mercury, morreu aos 45 anos de idade – não deixe de ver o filme sobre sua vida. No dia 12 de setembro de 1992, morreu, aos 60 anos, o ator Anthony Perkins, conhecido por dar vida ao papel do vilão Norman Bates, do filme “Psicose”, de Hitchcock. O país falava muito disso em 1992 – haveria um surto mundial após a morte do astro de Hollywood, Rock Hudson, anos depois. Surgiam boatos/fake news sobre pessoas com Aids. A maioria falsos. Claudia Raia, apoiadora de Collor, foi vítima disso. O boato foi tão devastador que ela fez um teste e mostrou o resultado numa entrevista coletiva. Não tinha Aids, tida naqueles anos como sentença de morte irreversível.

Ela tinha mais visibilidade do que Regina “Eu tenho medo” Duarte porque haviam boatos sobre ela e Collor. E Collor caiu na rede das fofocas. Alimentada – e testemunhei isso, era real – por um emagrecimento repentino do chefe de Estado, que perdera 12 quilos em poucos meses e estava com o rosto cadavérico. Estaria ele doente? Para a mídia, havia duas maneiras de lidar com isso: ignorar solenemente, ou seja, se omitir – o que todos nós fizemos, entre coniventes ou encagaçados de perguntar isso para o homem do “saco roxo”; ou perguntar na lata, sem rodeios, enfrentar a fera, recolocar os fatos como fatos e os boatos como boatos. Eu vejo hoje os jornalistas que “cobrem” Bolsonaro, já imaginando quais serão escalados pra o futuro Comitê de Imprensa, e farejo o mesmo medo. Medo de perguntar. Medo de fazer as perguntas que tem que ser feitas. Expor contradições. Fazer seu trabalho. Eu tive medo, sei o que é ter medo. É mais fácil fazer as perguntas fáceis, não se expor – inclusive com o seu veículo -, manter a credencial, garantir o emprego, não queimar as fontes palacianas, não virar persona non grata. É difícil ser um Jim Acosta, o repórter que enfrentou Trump – no bom sentido jornalístico disso -, ao insistir em uma pergunta sobre a caravana de imigrantes da América Central que estava a caminho dos EUA. “A CNN deveria ter vergonha de ter você trabalhando para eles. É uma pessoa terrível e mal-educada”, esbravejou Trump. Claro que é preciso ter retaguarda pra isso, e não vejo essas escoras firmes hoje em nossa mídia. A CNN, ao contrário, decidiu processar o presidente norte-americano e vários assessores da Casa Branca na sequência da retirada das credenciais ao jornalista Jim Acosta.

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Jim Acosta pergunta, Trump ofende. Jornalista foi descredenciado e CNN decidiu processar o presidente. Você imagina isso aqui?

Naquela época de Collor, só uma pessoa tinha coragem para perguntar, sem ofender, sem ser agressivo, sem se borrar, apenas fazendo a pergunta que tinha que ser feita. Sônia Carneiro, repórter da Rádio JB. Soninha é uma lembrança doce dos tempos de cobertura no Planalto, em Brasília. Ela fazia as perguntas mais desconfortáveis como se fossem triviais. Sem querer aparecer. Apenas porque sabia que era para isso que estava lá, e não curtindo os filhos em casa. Era final de 1991, ou começo de 1992, e Sônia Carneiro perguntou. Sem floreios. Se Collor tinha Aids. Soninha não foi descredenciada. Não teve dedo apontado na cara. Não ouviu desaforos. Agradeceu a pergunta – acho que rolou um “Só você, Soninha…” – e respondeu que estava mais magro por causa das “inúmeras atividades”. Não sei se acreditei na resposta, mas eu e todos ali respiramos aliviados. E passamos a admirar ainda mais Soninha. Os temas mudam, as pautas mudam, mas continuamos precisando de repórteres corajosos, por mais próximos que estejam do poder. Quando penso em Soninha, quando penso em Jim Acosta, não consigo deixar de pensar que, um quarto de século depois, precisamos de gente com bravura para perguntar. Um exército de Soninhas. Mas sinceramente, não vejo.

Menos Médicos, Escolas sem Partido, Drones Exterminadores

“E disseram que eu voltei americanizada
Com o “burro” do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque de um pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca”

“Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada”

Trecho de música que serviu de resposta sarcástica da grande Carmen Miranda a quem a criticava por fazer carreira em Hollywood, como se com isso fosse esquecer o Brasil. Seria uma carmelita descalça – sem trocadilhos – diante dos entreguistas de hoje

“O Ministério da Saúde Pública de Cuba tomou a decisão de não continuar participando do Programa Mais Médicos (no Brasil) e assim comunicou à diretora da Organização Pan-Americana de Saúde [Opas] e aos líderes políticos brasileiros que fundaram e defenderam a iniciativa”.
Nota do Governo Cubano. O comunicado não diz a data em que os médicos cubanos deixarão de trabalhar no programa. A Opas disse apenas que foi comunicada da decisão.

Até Dr. Hollywood, o parafinado, botocado e  candidato dele mesmo a ministro da Saúde de Jair Bolsonaro já entendeu. A meta na sua área é o fim do Sistema Único de Saúde (SUS), que, com todos os seus (muitos) defeitos – gerenciais mais do que de verbas -, é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, que, aos trancos e barrancos – muitos barrancos -, busca garantir acesso universal ao sistema público de saúde, sem discriminação. A atenção integral à saúde, para as pessoas cujo orçamento não cobre planos privados de saúde, não é opção preferencial do futuro governo. Seu projeto de educação, ao mesmo tempo, mistura “Escola sem partido”, doutrinação militar e cristã nas escolas, privatização do ensino técnico e controle das universidades públicas, com reitores biônicos. A escola onde há anos estuda meu casal de filhos me surpreendeu positivamente com um comunicado corajoso – o que só me confirmou o acerto no ensino construtivista. O título do texto basta: “Por que escolas democráticas e comprometidas com a formação de pessoas com pensamento crítico e autonomia moral e intelectual não podem aceitar as propostas do Escola Sem Partido?.” Fiquei orgulhoso. Na segurança pública, a política é a da Taurus e da CBC, manda a “bancada da bala”, o Estatuto do Desarmamento está com os dias contados. Armas para todos. Reagir à violência não com políticas sociais, mas com uma rajada diária de balas – pistolas nos porta-luvas dos carros e drones disparando para matar “bandidos” nas favelas. E na política exterior, ai meu Senhor, o novo chanceler, Ernesto Araújo, é o reflexo do alinhamento total com os Estados Unidos. O desejo oculto de voltar a ser colônia – dessa vez não de Portugal, mas da América de Trump. É, para dizer pouco, constrangedor.

É curioso observar que Bolsonaro, que passou a campanha afirmado que, se eleito, manteria uma política externa “sem viés ideológico” e criticando a ideologização do Itamaraty nos anos petistas, nomeie um sujeito que, como escreveu o jornalista Pedro Doria nas redes sociais, é “ideológico até o talo”. Para lastrear essa opinião. Os próprios jornais neste 15/11 chamam o futuro chanceler de “trumpista” – alguns como elogio. Durante a disputa eleitoral, Araújo criou blog no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. O alinhamento proposto pelo novo governo é tão estreito quanto o buraco da agulha por onde deveria passar o camelo.

Rebobinando a campanha eleitoral.  Em agosto, ainda em campanha, Bolsonaro declarou que “expulsaria” os médicos cubanos do Brasil com base no exame de revalidação de diploma de médicos formados no exterior, o Revalida. A promessa também estava em seu plano de governo. Fora do Mais Médicos, os formados no exterior não podem atuar na medicina brasileira sem a aprovação no Revalida. Mas no caso do programa federal, todos os estrangeiros participantes têm autorização de atuar no Brasil mesmo sem ter se submetido ao exame. Bolsonaro disse ainda que “além de explorar seus cidadãos ao não pagar integralmente os salários dos profissionais, a ditadura cubana demonstra grande irresponsabilidade ao desconsiderar os impactos negativos na vida e na saúde dos brasileiros e na integridade dos cubanos”. O presidente eleito acrescentou que “Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos – uns 70%, calcula – e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares”.”Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”, escreveu no Twitter.

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‘Mais Médicos’ chegaram ao Ceará em 2013 com contrato de trabalho de três anos.  O programa virou um sucesso nacional: médicos estrangeiros onde os brasileiros não faziam questão de atender. Um tapa na cara do corporativismo. Afrontado seguidamente por Bolsonaro, que ameaçou até romper relações com Cuba, o governo cubano informou que decidiu sair do Mais Médicos, citando “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” feitas pelo presidente eleito. Dilma Rousseff criou o programa para atender regiões carentes sem cobertura médica. Posts de Bolsonaro nas redes sociais – sua praia – tentam repassar a culpa para quem queria servir.

No que interessa aos rincões do país, vamos à matemática. Deixarão o país 8.332 profissionais cubanos. Mais de 24 milhões de pessoas podem ficar sem atendimento. São 1.600 municípios hoje com cubanos em seus hospitais. Pequenas cidades do Nordeste temem um “apagão médico”, já adiantou a Folha de S.Paulo. A reação de Bolsonaro? Todo cubano que quiser pedir asilo ao governo brasileiro vai obter. Desce o pano.

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Presidente eleito Jair Bolsonaro anuncia Ernesto Araújo (ao lado dele) como novo ministro das Relações Exteriores. Segundo Bolsonaro, o novo chanceler é diplomata de carreira há 29 anos e um “brilhante intelectual”. De acordo com o site do Itamaraty, Araújo é o atual diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Ler seus textos recentes é um exercício de “sofrência”. USA! USA!
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Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Desejos ocultos de ainda ser colônia.

Pausa para reminiscências. Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Carmen se surpreenderia.

Sobre o “Mais Armas”, lembrei agora de um colega jornalista, nervosinho por natureza, pavio curtíssimo, que, numa carona ocasional, me surpreendeu um dia entrando numa briga de trânsito. Conhecido por seu temperamento explosivo, não deveria levar nem canivete no bolso de trás da calça. Nem para “Selvagem da Motocicleta” servia – desculpe, Coppola. Mas, me mostrou depois que os ânimos se acalmaram, tinha no porta luvas uma pistola, que, confessou, teve muita vontade de sacar. Havia crianças a bordo do lado de lá. Eu, do lado de cá, me encolhi no banco do passageiro. Por sorte, ninguém se feriu. Imagine esse potencial bangue-bangue como rotina, num país já violento até a medula. Mas entendo bem onde vamos parar com o programa “Armas para todos”. E “Drones para pobres”. Para que Bolsa Família, Bolsa Atleta, Água para Todos, Luz para Todos, Fome Zero, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Brasil Alfabetizado, ProUni, Minha Casa, Minha Vida, Programa Universidade para Todos? E Mais Médicos? Vai para Cuba! Foram.

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E viva a internet, viva os memes!

 

Maitê Proença no Meio Ambiente faz todo o sentido. Que o digam as cachoeiras…

Eu não falei que o Dr Rey – que levou a porta na cara no condomínio de Bolsonaro, na Barra da Tijuca – estava certo em sonhar? Quem não chora, não mama. Quem não pede, não leva. Quem não faz lobby é inocente. Dr Rey só queria acabar com o SUS e nos dar a chance de ter um ministro da Saúde que fala portuglês. Não desista, Dr Rey. Se o ex-astronauta garoto propaganda de travesseiros, Marcos Pontes, pode ser ministro da Ciência e Tecnologia, se a deputada Tereza Cristina, a “musa” dos agrotóxicos – ela propõe flexibilizar as regras para fiscalização e aplicação desse veneno nas plantações – pode ser a chefe da Agricultura, se o fundador do Ibmec, hoje Insper, e do banco BTG, pode ser o guardião da Fazenda, se o juiz Sérgio Moro, que botou Lula na cadeia, abrindo caminho para a eleição de Bolsonaro, pode ser o xerife da Justiça/Polícia Federal, se Onyx Lorenzoni, parte da “Bancada da Bala”, financiado a vida toda pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a Forjas Taurus, pode ser o chefe da Casa Civil, qual é o problema do cirurgião plástico vendedor de pulseiras bioquânticas querer uma vaguinha na Esplanada?

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O superministério Bolsonaro, reunindo o melhor que o marketing tem: Maitê “Dona Beija” Proença, que entende tudo de biodiversidade, pode ir para o Meio Ambiente; o ex-astronauta Marcos Pontes, que vende “travesseiros da Nasa”, vai para Ciência e Tecnologia e pode controlar universidades públicas; Na Agricultura, Tereza Cristina, darling da Bayer – dona da Monsanto -, dona do RoundUp, agrotóxico mais popular do mundo; Paulo Guedes, Ibmec, BTG, “Posto Ipiranga” da Economia; e Dr Rey, o injustiçado, que só queria chefiar a Saúde pra jogar o SUS, do qual entende tanto quanto de senso de ridículo.

Deixem de ser preconceituosos com as subcelebridades! Prova disso é que a atriz, poeta, ex-Saia Justa Maitê Proença – menos conhecida pelas novelas globais, mas por ter arrebentado a banca na capa de fevereiro de 1987, há mais de 30 anos, da Playboy – , que pode ser nossa nova ministra do Meio Ambiente. Eu disse Meio Ambiente, galera, não Cultura. O ex-ator pornô Alexandre Frota, um dos sucessos da produtora Brasileirinhas, e eleito deputado apoiando Bolsonaro, pode manter as esperanças de uma vaga na Cultura. Maitê tem uma relação intrínseca com a mãe natureza. Fotografada por JR Duran, fotógrafo favorito de muitas estrelas, foi catapultada ao estrelato justamente pelos banhos de cachoeira – cachoeira, meio ambiente, tudo a ver! – no papel da sensual Dona Beija, protagonista da novela da hoje extinta TV Manchete. Foi recorde de vendagem por quase dez anos, até que, em 1995, Adriane Galisteu se despiu para a publicação. Maitê posou novamente, mas o primeiro ficou sendo seu ensaio mais lembrado.

Foi divulgado que o nome de Maitê foi proposto ao presidente eleito Jair Bolsonaro para a pasta do meio ambiente “por um grupo de ambientalistas, economistas e pesquisadores”, como adiantou a coluna de Ancelmo Gois nesta segunda, 12. Ela teria um “bom trânsito na área ambiental e fora dela”. Provavelmente, tanto quanto a ex-seringueira, ambientalista e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem de acesso ao mundo cinematográfico de Alexandre Frota. O empresário Paulo Marinho, ex-marido de Maitê Proença e ligado à campanha de Bolsonaro, considerou o nome da atriz para o Meio Ambiente “uma loucura”. Ah, o preconceito. Assim fica difícil formar um ministério de alto nível.

Bolsonaro começa transição ofuscado por dois superministros, Guedes e Moro, que podem ser solução ou problema daqui a quatro anos – ou menos

“A pasta da Justiça, ainda mais turbinada, deve render a Moro protagonismo inédito para um ministro. Caberá a Bolsonaro, que já terceirizou a política econômica para Paulo Guedes, ter habilidade para não se tornar um coadjuvante do próprio mandato”.
Jornalista Carlos Marcelo, dos Diários Associados

Se você achou, a princípio, estranho um ex-capitão presidente tendo como vice um general quatro estrelas reformado – algo como ter o gerente de estoque promovido repentinamente a presidente da empresa e o ex-CEO rebaixado a seu carregador de malas -, olhe de novo para a extravagante Esplanada dos Ministérios que está se formando às vésperas da posse de Jair Bolsonaro. Mourão e os demais generais que habitarão o primeiro escalão, batendo continência para o ex-capitão, estão deixando os holofotes, e colocando em segundo plano a tese de uma crise militar, looping de hierarquia, etc, depois que Bolsonaro anunciou o tamanho dos poderes de Paulo Guedes e Sérgio Moro. A mídia cita, sem exagero, que são “superministros”, tamanhas as áreas acopladas a suas pastas. São, automaticamente, pré-candidatos presidenciais para 2022, o que pode gerar, com o tempo, um curto circuito com Bolsonaro – que, por enquanto, jura de pés juntos que não vai querer um segundo mandato. Ah, tá. Até lá – ou até antes, se Bolsonaro não repetir a sina de Fernando Collor -, eles terão que conviver, os três, inclusive Moro, que já anda dando recados sobre verbas, pedindo dinheiro de loterias, etc. Lula/Fernando Haddad, Ciro Gomes e até Luciano Huck e Joaquim Barbosa são outros possíveis pré-candidatos, mas suas chances dependem da turma pré-citada. Só para reflexão: Bolsonaro é seis anos mais novo que Paulo Guedes e Moro, 46 anos, dezessete a menos que o patrão.

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Silvio Santos fala com Bolsonaro durante o Teleton. “Sei que o Brasil precisa de um presidente que tenha vontade de acertar e o senhor, nas primeiras medidas que tomou, já começou acertando”, disse SS; General Mourão, a la Figueiredo, na capa de Época, a revista-encarte do Globo; Sérgio Moro na capa do Estadão; e Paulo Guedes, em matéria do mesmo Estadão.

Parte da mídia, a econômica em particular, já elegeu o “Posto Ipiranga” como grande fonte. Neste domingo ficamos sabendo que será ele a herdar o Ministério do Trabalho, a ser extinto, o que coloca a Secretaria de Políticas Públicas de Emprego nas suas mãos, podendo criar a tal carteira de trabalho verde e amarela (a minha segue sendo a azulzinha), que – “expressão da moda” – “flexibilizará os direitos trabalhistas“. Restarão aos contratados, em extinção, os direitos constitucionais, como férias remuneradas, 13º salário e FGTS. Além da carteira, a secretaria concentra programas como seguro-desemprego e abono salarial, e o Codefat (conselho do Fundo de Amparo ao Trabalhador), o que amplia a força de Guedes. Em 2018, o FAT teve previsão orçamentária de R$ 76,8 bilhões. Ah, Paulo Guedes deve ter Joaquim Levy -que está no Banco Mundial – no BNDES e Ivan Monteiro na Petrobras. Mansueto Almeida, atual secretário do Tesouro de Michel Temer, também deve estar no governo Bolsonaro.

Já Moro, ministro da Justiça e da Segurança Pública, terá poder de investigação do governo – será o chefe da Política Federal – e informação sobre crimes financeiros – dono do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Continua fortíssimo, embora tenha perdido, na última hora, o Ministério da Transparência e a Controladoria-Geral da União, que tendem a virar tapumes para paisagens vazias. As Organizações Globo – O Globo e Jornal Nacional como carros-chefe – já elegeram Moro como seu darling e oferecem a ele um espaço tão desproporcional que constrange. É notícia todo santo dia, independente da taxa de umidade em Brasília.

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O Extra foi escalado para humanizar Bolsonaro e o faz da forma mais evidente e tosca possível. Capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro”; “A lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc.

Enquanto os jornalões do grupo fazem sua parte, o mais popular dos veículos impressos do grupo Globo, o Extra, foi escalado para um papelão diário. Um dos jornais mais lidos do país, tenta humanizar o chefe Bolsonaro. Só que de forma tão evidente, que beira o ridículo. Bom, leia você mesmo (e veja as imagens) com capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro – Conheça a vida do presidente eleito em fotos e histórias pessoais”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro” (diz o Extra que o pão com leite condensado, preferido do presidente eleito, “está caindo na boca do povo”); “a lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc. Onde será que o Extra consegue material para tantos “furos” diários. Acho que Silvio Santos, o dono do SBT, terá que repensar as pautas de seu novo “Semana do Presidente”. O Extra está roubando todas as pautas.