Haddad coloca um pé no Planalto, Bolsonaro emborca e terceira via implode

Pesquisa Ibope divulgada na noite desta segunda, 24, a 15 dias do pleito, com a indefinição do eleitorado desabando – brancos e nulos caíram de 29 pontos, em 20/08, para 12 pontos agora -, mostrou que Fernando Haddad, o candidato do PT e de Lula à Presidência, está com um pé no Palácio do Planalto. Todos os indicadores são favoráveis a ele. Para botar o segundo pé, terá que enfrentar o segundo turno com o capitão Jair Bolsonaro, que parece ter batido no teto, reduzindo a curva de crescimento e agora se estabilizando. Haddad, por outro lado, segue crescendo. A diferença entre Bolsonaro e Haddad caiu de 9% para 6%, aproximando-se da margem de erro. Há um mês, o “coiso”, nome carinhoso dado ao concorrente do PSL por quem evita até dizer seu nome, vencia o petista por 20% a 4%. Sim, o candidato do PT pode ultrapassar o candidato da direita já no primeiro turno. Haddad tem mais motivos para comemorar, e Bolsonaro para se agitar na cama – não vá abrir os pontos, capitão!. Bolsonaro caiu em todos os cenários do segundo turno e passa a perder de Haddad (43% x 37%), Ciro (46% x 35%) e até do picolé de chuchu (41% x 36%) -, empatando somente com a insossa Marina (39%). Ou seja, Ciro abriu 11 pontos em relação a Bolsonaro, Alckmin, 5%, e Haddad pela primeira vez passou Bolsonaro, abrindo avantajados 6 pontos.

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O índice de rejeição de Bolsonaro bateu o recorde de 46%, ou seja quase metade dos eleitores não votaria nele nem que ele deixasse a barba crescer e tivesse ceceio na fala. Com a polarização da disputa, e o antipetismo achando sua trincheira fardada, Haddad estabilizou nos 30% de rejeição, número histórico dos que dizem “detestar o PT” ou “não gostar do PT”. Outro um terço vota no PT, historicamente. O outro terço decide a eleição – daí a importância das alianças, que serão antecipadas e não esperarão o segundo turno. Isso porque a terceira via implodiu. Em 20/08, Marina Silva tinha 12%, Ciro Gomes 9% e Geraldo Alckmin, 7%. Ciro, Alckmin e Marina têm agora, respectivamente, 11%, 8% e 5%, como peixes se debatendo na areia.

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Fernando Haddad, perto de liderar as pesquisas de intenção de voto, visitou o ex-presidente Lula na superintendência da Polícia Federal, em Curitiba: conselhos e orientações no momento em que o PT vê chegar mais perto sua volta ao Planalto. Ele disse, em entrevista na saída, observar movimentos “exóticos” no Brasil, como “suposições” sobre urnas eletrônicas e resultados de eleições, já rebatidos por STF e TSE.

Até o fim da semana, quando sai o Datafolha, alguns movimentos políticos devem acontecer: o Centrão – DEM, PP, PR, PRB e SD – deve desembarcar de Alckmin, em parte rumo a Bolsonaro, e eleitores de Ciro e Marina começarão a migrar para Haddad, o chamado “voto útil” ou, no caso, antibolsonarista. Os rastejantes João Amoêdo (3%), Álvaro Dias (2%) e Henrique Meirelles (2%), mortos-vivos na campanha, junto com Guilherme Boulos (1%) podem surpreender se retirando e apoiando um dos candidatos, a um preço módico. No caso dos três primeiros, uma bala – doce! – para quem adivinhar o rumo dos candidatos dos banqueiros e da Lava Jato.

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Jair Bolsonaro, estacionado nas pesquisas e vendo Haddad pelo retrovisor preparar ultrapassagem, escreveu nas redes sociais que está acima dos partidos e postou foto, no hospital, recebendo visita de seu candidato ao Senado em São Paulo, Major Olímpio, que está levando uma sova do petista Eduardo Suplicy, e vídeo ao lado do patético Carlos Vereza. Ah, e deu “exclusiva” a Augusto Nunes garantindo que seu “atentado” foi político.

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A antecipação do Ibope, que só confirma o movimento das últimas pesquisas, já havia levado o paciente do Hospital Albert Einstein a balbuciar, pelas redes sociais, que sua equipe está “comprometida com interesses da nação e não com indicações de lideranças de partidos políticos”. Ou seja, vendo sua candidatura ir para o CTI, faz o tradicional discurso anti-democrático dizendo-se “acima dos partidos”. No fim da noite de domingo, coerente com sua estatura, o presidenciável que, se eleito, pode ter o ator pornô Alexandre Frota como ministro da Cultura, postou nas redes que os incentivos à cultura permanecerão, “mas para artistas talentosos, que estão iniciando suas carreiras e não possuem estrutura”. “O que acabará são os milhões do dinheiro público financiando ‘famosos’ sob falso argumento de incentivo cultural, mas que só compram apoio! Isso terá fim!”, afirmou no Twitter. Não, candidato, o fim é todo seu.

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Em entrevista a rádios, Geraldo Alckmin defendeu o aumento da pena para crimes hediondos. Crime hediondo é o que o Centrão prepara para o tucano até o final da semana. Vendo o candidato empacado, vai vazar pela porta dos fundos.

Mas o desespero de Bolsonaro pode ser medido pela “exclusiva” que deu para o jornalista (sic) Augusto Nunes (Aqui) no quarto em que está internado. Ao falar do ataque do maluco que o esfaqueou no último dia 6 de setembro, em Juiz de Fora, disse acreditar – sem nenhuma prova, mas para que prova, né? – que o ataque foi planejado. “Entendo que foi algo planejado. Foi político, não há a menor dúvida. Me tirando de combate… você pega os três ou quatro próximos na relação, eles são muito parecidos”, disse, fazendo referência às pesquisas de intenção de votos.

Kataguiri segue estratégia tucana e tenta salvar MBL batendo em Bolsonaro

“Não interessa quem seja seu candidato a presidente da República, ele (Bolsonaro) não dá, ele não dá, ele nunca pode ser presidente da República”
Kim Kataguiri, do direitista MBL, em post nas redes sociais, no último dia 20/09, pregando o voto contra Bolsonaro, aderindo ao #Elenão e defendendo a democracia, a imprensa e as minorias. Um espanto.

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Penteado novo, a mesma barba rala, Kataguiri, valete do MBL e candidato a deputado federal pelo DEM, no vídeo em que elegeu o ex-parça Bolsonaro a reencarnação do mal

 

Aliados desde antes do impeachment, MBL, o Movimento Brasil Livre de Kim Kataguiri, e o capitão Jair Bolsonaro, não trocam mais elogios mútuos, nem sentam no mesmo boteco há alguns meses, o que culminou com um vídeo (Assista aqui e se esforce para não rir) do agora candidato a deputado federal pelo DEM, numa cara-de-pau sem limites, aderindo ao #Elenão – o movimento criado pelas “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, hackeado recentemente nas redes sociais. Ideólogo do grupo de extrema-direita que serviu a Eduardo Cunha e Paulo Skaf para criar um movimento fabricado de rua, arregimentando coxinhas e reacionários pró-impeachment de Dilma Rousseff, Kataguiri é tudo, menos um antibolsonarista. Ou um democrata. Em maio de 2015, estava na foto clássica – um dos porta-retratos do golpe parlamentar -, ao lado de Eduardo Cunha, Bolsonaro e manada, embaixo da faixa “Um Brasil livre da corrupção”. Kataguiri é assim: em setembro de 2016, postaria nas redes um “Tchau, querido” quando Cunha foi cassado por 450 votos.

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Álbum de família, maio de 2015, o início da lambança: Eduardo Cunha, Bolsonaro e Kataguiri, movidos pelo patriotismo, se unem contra a corrupção do PT.  Em setembro de 2016, o líder do MBL comemoraria a cassação de Cunha com um ingrato “Tchau, querido”.

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Em 2015 também, Kataguiri postou uma foto usando uma arma de airsoft para levantar, pelo Facebook, uma das bandeiras bolsonaristas: o fim do Estatuto do Desarmamento. Pouco antes disso, o MBL saia em defesa de Bolsonaro, que havia se tornado réu em duas ações penais no Supremo Tribunal Federal por injúria e apologia ao crime de estupro. A página do grupo no Facebook publicou um post dizendo que Bolsonaro era “vítima de fascismo censório em ação no STF”. Em fevereiro de 2017, Kataguiri, cabelos ainda compridos e algo próximo de um buço desenhando os lábios, reunia-se tranquilamente com Eduardo Bolsonaro, filho do capitão, e Marco Feliciano, próceres da fatia mais abjeta do Congresso, para discutir estratégias pós-impeachment.

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Recordar é viver. Início de 2017, Eduardo Bolsonaro, Kataguiri e Marco Feliciano posam após discutir estratégias pós-impeachment. Antes disso, em 2015, o neófito Kataguiri postou uma foto empunhando uma arma de airsoft , que atira projéteis plásticos não letais, para condenar o Estatuto do Desarmamento. Bolsonaro ficou em estado de graça.

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“Um dos nomes que pode ser visto como (alguém) de fora (da velha política), apesar de ter mandato há 20 anos, é o Bolsonaro. Ele foi um cara que ficou de fora de tudo o que estava acontecendo dentro do Congresso, e no governo federal. Ele é um nome que representa o anti-establishment”, analisou Kataguiri, entrevistado por um certo Marcelo Bonfá – por favor, não confunda com o ex-baterista do Legião -, em 12 de dezembro de 2017 (Assista aqui). Mesmo recentemente, em 31 de julho passado (Assista aqui), Kataguiri não resistiu e criticou a bancada de entrevistadores que cercou Bolsonaro no Roda Viva. “Os entrevistadores só ficaram de socialistas do Leblon, do Baixo Augusta. Mentindo pra tentar desqualificar o Bolsonaro. Não entrevistaram o presidente da República”, reclamou o candidato do DEM pelo Youtube.

Não se pretende aqui, evidentemente, cobrar coerência de quem vive do disfarce e da patranha, como não se vai cobrar senso democrático e inteligência política de gente como Alexandre Frota, Rodrigo Constantino e Felipe Melo. Só ajudar a explicar que Kataguiri – que colocou Bolsonaro para discursar em caminhões do MBL e fazia selfies com adoradores do Revoltados OnLine, que por sua vez abraçavam amigos do Vem Pra Rua –, apenas segue, há algum tempo, a estratégia tucana de tentar colocar Geraldo Alckmin na vaga de Bolsonaro no segundo turno.

O MBL, que virou uma colcha de retalhos – lançou 16 candidatos por nove partidos, a maior parte da base de apoio a Alckmin para a Presidência -, depende disso para sobreviver (Leia a Folha). Sem o impeachment de Dilma para catalizar multidões, responsáveis diretos por colocar o megaimpopular Michel Temer no poder, o MBL corre o risco real de acabar se, sem carro de som e palanque, não fizer uma bancada. E isso só acontecerá se Alckmin não sair da atual indigência de votos. No Twitter, o filho do capitão, Flávio, deixou até registrado: “O MBL está dando chilique. Achava que, com a ruína do PT, o PSDB ocuparia o espaço que ficou aberto. Não contava que a direita ia surgir com um nome de tanto peso como o do Jair Bolsonaro.” Quem assiste “análises” feitas apenas um ano atrás por Kataguiri mostra que o dublê de cientista político nem de longe também sonhou com a arrancada de um Fernando Haddad.

Sem alguém para mexer os fios, Kataguiri é um marionete sem palco e sem platéia.

Estreia de Haddad em debate sonolento valeu por ironia de Marina: o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro pegou fogo

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Debate presidencial na TV Aparecida: morno, engessado, quase sem emoção, exceto pelos pitis de Álvaro Dias e pelo trocadilho de Marina com Paulo Guedes, o “guru” de Bolsonaro:  “Está tendo um incêndio no ‘Posto Ipiranga’, porque eles já não estão se entendendo”.

Que me desculpem o trocadilho, mas foi uma penitência assistir ao debate presidencial na TV Aparecida – que trazia a novidade de ser o primeiro com Fernando Haddad, e que também reuniu Alckmin, Alvaro Dias, Boulos, Ciro, Marina e Meirelles. Injusto, talvez, culpar a TV católica pelo ritmo sonolento do debate, que não conseguiu empolgar sequer nas perguntas diretas entre os postulantes ao Planalto e terminou de forma enfadonha com o quadro final – quem teve essa ideia, meu Deus? – em que bispos perguntaram para os candidatos. O paradoxal é que talvez tenha sido o primeiro debate onde não se estimulou discórdias, mas tentou-se aprofundar ideias e propostas. Difícil dizer se isso ocorreu pelo respeito dos candidatos à platéia de batina, se pelo esgotamento da fórmula ou se por falta mesmo de um enfrentamento de verdade. Talvez tenha sido a falta do Cabo Daciolo e da Ursal. Talvez porque no fundo debate mesmo seria entre Haddad e o acamado Bolsonaro. Estavam todos tão carolas, citando Deus, com um excesso de reverência recíproca só perturbada, evidentemente, pelo botocado Álvaro Dias, com sua ira nada santa contra o PT e que aproveitava qualquer pergunta, ainda que fosse sobre família, como propôs Haddad, para lembrar a “herança maldita” do petismo, sua versão política do capeta.

A candidato da Lava Jato, como costuma ser rotulado o ex-tucano Álvaro Dias – o favorito de Moro, Dallagnol e da República de Curitiba -, hoje abrigado num certo Podemos, não se fez de carola e, possuído, partiu para cima de Haddad – metaforicamente, porque ele não é bobo -, com adjetivos como “porta-voz da tragédia” e “arauto da intolerância”, uma coisa meio Velho Testamento. E antes que Dias comparasse os governos Lula e Dilma a Sodoma e Gomorra, seu tempo acabou. Talvez lhe falte espiar os próprios pecados, como a acusação de que pediu R$ 5 milhões para aliviar para Adir Assad na CPMI do Cachoeira. Samir e e o irmão Adir operavam esquema bilionário de lavagem de dinheiro para as empreiteiras. Seu codinome na lista das empreiteiras era alicate – e fica a curiosidade do porquê. O doleiro Alberto Youssef foi outro que, numa sessão da CPI da Petrobras, confirmou ter financiado a campanha do senador Alvaro Dias. Não sei porquê, Dias me lembra muito outro arauto da moral, o ex-senador Demóstenes Lázaro Torres, cassado pelo Senado Federal por quebra de decoro parlamentar.

Haddad manteve a fleuma diante do candidato quase traço nas pesquisas. “Você fica sentado no seu gabinete no Senado, Álvaro, e desconhece a realidade”, retrucou Haddad, sem perder a ternura. Àquela altura, o programa registrava uma média de 80 mil pessoas no Twitter e quase 30 mil no Youtube, nada mal para a hora. Mas não foi só Álvaro que alfinetou o PT – Ciro Gomes e Marina Silva também deram suas estocadas, embora bem menos incisivas. Quando Ciro tentou demonstrar que o PT nada fizera para melhorar a qualidade das receitas no orçamento, Haddad saiu-se com o que chamou de “uma das maiores reformas tributárias às avessas no país”, que foi colocar os pobres no orçamento. “Foi pelo lado das despesas que fizemos todos os programas sociais feitos durante o nosso governo. O dinheiro chegou na mão do pobre”, retrucou.

Mas se faltava emoção – com Meirelles insistindo que criou 10 milhões de empregos, Boulos propondo a desmilitarização da polícia e a descriminalização das drogas, e Alckmin vendendo uma gestão impecável em São Paulo -, veio de Marina Silva a tirada da noite. Meirelles e Marina debatiam economia, quando vieram à tona as declarações do “guru” da economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, defendendo a volta da CPMF – o que foi desmentido pelo capitão (Leia “‘Posto Ipiranga’ nada, Paulo Guedes é o dono da refinaria”). “Ele (Bolsonaro) diz que (Guedes) é o seu ‘Posto Ipiranga’. Então está tendo um incêndio no ‘Posto Ipiranga’, porque eles já não estão se entendendo”, ateou fogo Marina.

Lacrou.

Rei morto, rei posto. Depois de Alckmin, Temer reclama do abandono de outro tucano ex-aliado, João Doria

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Temer foi ao Twitter gravar um vídeo e, entre caras e bocas, reclamar do candidato João Doria, que o elogiava e agora, nas eleições, o critica. “Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade”, pediu. Rei morto, rei posto.

Michel Temer perdeu completamente o senso de ridículo, mas vem cometendo um sincericídio que acaba sendo, involuntariamente, engraçado. Não se sabe se o que o move a essa altura, a poucos meses de deixar o governo, ficar sem mandato e sem foro privilegiado, é um senso incompreensível de defesa de um legado que não existe – existe sim um enorme passivo social e político- ou se está seguindo a sugestão de algum marqueteiro em fim de contrato. O fato é que depois de dar uma bronca no candidato tucano Geraldo Alckmin por estar criticando o seu governo, após ter participado e usufruído dele, Temer agora decidiu fazer beicinho para outro tucano de plumagem mais curta, o candidato ao governo do estado de São Paulo do PSDB, João Doria. Assim como fez com Alckmin, Temer reclama de Doria por ter virado saco de pancada de quem, até há pouco, era um aliado amestrado.

No vídeo postado no Twitter (Assista aqui), intitulado “Desacelera @jdoriajr” – um trocadilho com o slogan de Doria, “Acelera SP” – com a expressividade de quem abusou do botox e trazendo na voz a indignação de um mímico -, Temer jogou na cara de Doria que, quando prefeito de São Paulo, “por brevíssimo tempo”, pediu muito auxílio ao governo federal, e foi prontamente atendido. E que, agora nas eleições, decidiu cuspir no prato que comeu. “Você tem usado a propaganda eleitoral para fazer críticas diretas e indiretas – ou seja, você está se desmentindo, porque ao longo do tempo você inúmeras vezes elogiou o meu governo. (…) Você que tanto me elogiou, que tantas vezes enalteceu o meu governo, não é por causa das eleições que você vai mudar suas características. Seja você mesmo, e não o que o marqueteiro te aconselha. Não falte a verdade. Desacelera”, encerrou Temer.

Até o momento em que este artigo foi escrito havia 133 mil visualizações – o que mostra que para um presidente com rejeição de quase 100% e agenda parecida com a de funcionário às véspera das férias -, basta usar o humor, ainda que involuntário, para voltar a ser lembrado. Os comentários ao vídeo são uma piada à parte. “O cara inventou o Marketing de DR”, ironizou um internauta. “HAHAHAHAHAHAHA Presidente esse é o seu maior legado de governo, por favor continue!”, postou outro.

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Em outro vídeo (Assista aqui) , de 05/09, Temer reclamou de Alckmin em tom bem mais duro. No pronunciamento, Temer disse para Alckmin “falar a verdade” e criticou suas “falsidades”, uma vez que as críticas ao governo do MDB são relativas a pastas lideradas por partidos que fazem parte da base de apoio do tucano. “Se você vier a ganhar a eleição, essa base (do meu governo) será a sua base governamental. Eu lembro, Geraldo Alckmin, quando você, candidato a governador, candidato a presidente, nas vezes em que eu te apoiei, precisamente para esses cargos, eu acho que você era diferente. Não atenda ao que dizem seus marqueteiros, atenda a verdade. E a verdade é que nós fizemos muito por essas áreas, conduzidas por aqueles que apoiam a sua candidatura”, disse Temer.

É, Temer, até o fim da eleição você ainda vai ter que pedir a retratação de muitos ex-aliados. Rei morto – ou quase morto -, rei posto.

A conveniente amnésia de Alckmin: quem é mesmo Temer?

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O PSDB foi chave para a queda de Dilma, a ascensão de Temer e para a manutenção do governo recordista em rejeição. Agora candidato, Alckmin repete o apóstolo Pedro e nega uma, duas, três vezes ter feito parte do governo Temer

Geraldo Alckmin não é doido – Cabo Daciolo, o homem que revelou a Ursal e virou o candidato-meme, corre nessa raia. Nenhum surto de memória também explica sua súbita revelação: o candidato do PSDB à Presidência disse nesta quinta 13 que seu partido não tem “nada a ver” com o governo Michel Temer. Foi isso mesmo que você leu. Os tucanos não tiveram nenhuma responsabilidade, segundo o simpatizante da Opus Dei, na administração que arrombou o país. Ele ainda classificou a gestão do presidente cujo nome nem se recorda de “muito ruim”. Alckmin não bateu a cabeça, exceto nas pesquisas eleitorais, onde cada fica mais evidente que, além de não conseguir tirar votos do capitão Bolsonaro, magnetiza parte da feroz rejeição ao governo que apoia desde o golpe parlamentar de 2016 – o que alguns ainda chamam de impeachment, da mesma forma que muitos militares ainda chamam candidamente a ditadura de regime militar.

Aliás, minto. O PSDB de Alckmin e Aécio Neves, candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais, em 2014, estiveram juntos com o PMDB de Temer e Eduardo Cunha desde a engenharia da pauta bomba que inviabilizou o governo Dilma Rousseff no Congresso. Desde o primeiro momento. Integrando a equipe ministerial de Temer, do qual ainda faz parte, com o porteiro do Itamaraty, Aloysio Nunes Ferreira, que substituiu o deprimido José Serra. Além de Bruno Araújo, que foi ministro das Cidades, e Antônio Imbassahy, chefe da Secretaria de Governo, com gabinete dentro do Palácio do Planalto. Outro “executivo tucano” que prestou relevantes serviços foi Pedro Parente, que presidiu a Petrobras na liquidação do Pré-Sal. É possível ir mais longe. O PSDB não fez e faz parte do governo Temer, ele é a própria definição do governo Temer. Alckmin pode sapatear que não mudará esse fato: ele é tão Temer quanto o candidato oficial do PMDB, Henrique Meirelles.

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Ao tomar posse, e nomear seus ministros, no sinistro ano de 2016, Temer e Aécio fazia questão de demonstrar intimidade e a importância de sua aliança. Com Temer em desgraça, e Aécio reduzido a candidato a deputado federal, o presidenciável Alckmin diz que foi contra a participação do PSDB no governo surgido após o golpe parlamentar.

O episódio amnésico de Alckmin, em sabatina no Globo, é recentíssimo. Em julho passado, em entrevista ao programa É da Coisa, de Reinaldo Azevedo, na rádio Band News, Alckmin disse o contrário. Azevedo perguntou a Alckmin se os tucanos tinham “se comportado bem” com o Planalto. Também indagou se o tucano não enfrentaria a fama de ser um “candidato do B” do governo Temer, mas sem contar com o horário de TV e com a base do MDB. Era um fato. E restou a Alckmin admitir, justificando a aliança como necessária para assegurar a governabilidade. “(O PSDB) votou na crise grave que o país estava. Entendeu —e foi perfeitamente constitucional— o impeachment. Tendo votado o impeachment, teve responsabilidade com o novo governo. Não precisa participar, ter ministro A, B, C ou D”, disse o presidenciável, que também preside a legenda. Em campanha, Alckmin diz agora que, inclusive, foi contra a participação do partido na gestão Temer.

Espera-se para breve uma declaração de Alckmin informando que nunca viu Aécio mais gordo e renegando o “legado” FHC.

Leia também “Nem Poste, nem Mito”