A defesa da censura prévia no Enem é o prenúncio de um Index Prohibitorum

“Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…”.
Texto na célebre primeira página do Jornal do Brasil, editada por Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, 1968

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.
Fase em Pajubá — dialeto falado pela comunidade LGBT — que constava em questão da prova de linguagens do Enem 2018, para desespero dos homofóbicos.

“Esta prova do Enem, vão falar que eu estou implicando. Agora, pelo amor de Deus! Este tema, da linguagem particular daquelas pessoas…(LGBT). O que temos a ver com isso, meu Deus do céu? Quando a gente vai ver a tradução daquelas palavras… um absurdo, um absurdo! Vai obrigar a molecada a se interessar por isso, agora? (…) Podem ter certeza, fiquem tranquilos: não vai ter questão dessa forma no ano que vem, porque nós vamos tomar conhecimento da prova antes. Não vai ter isso daí. Vão ter perguntas sobre Geografia, dissertações sobre História, questões realmente voltadas ao que interessa ao futuro da nossa geração, do nosso Brasil. E não essas questões menores”.
Jair Bolsonaro, em live na internet, prometendo “vistoriar” a prova do Enem 2019 antes que seu conteúdo seja submetido, elencando as “ideologias de gênero” entre as questões que ele diz considerar desimportantes.

Há cinco dias, escrevi neste blog um artigo “Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio” (Leia aqui) em que, sem nenhum exercício de futurologia, especulei sobre a essência autoritária do governo eleito e sua relação com um dos pilares de uma democracia: uma educação livre. Bolsonaro ficara incomodado com o tema da redação do Enem – o Exame Nacional do Ensino Médio, porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras –, a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Deve ter considerado provocativo. Irritou-o, igualmente, que outras provas, como Ciências Humanas e Linguagens, abordassem tópicos mais do que atuais: feminismo, nazismo, escravidão (pouco depois anunciaria o fim do Ministério do Trabalho, que tem entre suas missões o “Combate ao Trabalho em Condições Análogas às de Escravo”), regime militar, crise de refugiados, LGBTs, entre outros. É pior do que imaginava. Em live, na internet – a ferramenta preferencial do presidente eleito -, Bolsonaro , entre outros temas, avisou que quer “tomar conhecimento da prova do Enem antes da realização do exame”, o que contraria aspectos técnicos e de segurança. O objetivo, reconhece a própria mídia, é evitar questões sobre LGBTs, por exemplo.

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Bolsonaro em live de meia hora disse que vai “vistoriar” a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) antes que seu conteúdo seja submetido aos alunos nos locais de teste. Bolsonaro criticou algumas questões oferecidas na edição deste ano do Enem, especialmente a relativa à espécie de dialeto falado por gays e travestis, o pajubá. Na mesa, em destaque, o livro “Não, Sr. Comuna! Guia Para Desmascarar as Falácias Esquerdista”.  No fundo, uma Menorá (candelabro), um dos utensílios mais importantes da cultura judaica.

Cada um interpreta como quer. Dentro dos meus conceitos, pela minha formação democrática, e com a responsabilidade de quem tem um casal de filhos em idade escolar, estudantes de uma escola construtivista – o oposto da “escola sem partido”, essa ideia amorfa, que junto com o kit gay, impregnou a campanha eleitoral -, isso é o anúncio de censura prévia. E o esboço de um Index Prohibitorum, como os Index Librorum Prohibitorum (Índice de Livros Proibidos, em latim) que listavam as publicações proibidas pela Igreja Católica em seus anos de trevas, ancorada no terrível Concílio de Trento. Bolsonaro reiterou sua estranha obsessão: questões sobre “ideologias de gênero” não podem entrar no Enem.

A questão é, sim, ancestral: o controle sobre informações e ideologia é a chave de qualquer governo autoritário. Qual a diferença entre isso e colocar censores dentro de um jornal para aprovar o que será publicado? – como na ditadura de 64. Ou entre ler letras de músicas, roteiros de peças, ver cenas de filmes, para filtrar o que pode chegar ao público e o que não pode? Sob censura, nos anos de chumbo, os jornais – que apoiaram o golpe -, buscaram, depois do AI-5, maneiras criativas de driblar e, ao mesmo tempo, denunciar o estado de exceção. O Estado de S. Paulo passou a publicar trechos de “Os Lusíadas”, poema épico do português Luís de Camões, nos espaços das matérias vetadas pelos censores. O vespertino da empresa, “Jornal da Tarde”, recorreu a artifício semelhante, publicando receitas culinárias. O JB, na época gloriosa de Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, produziu uma célebre primeira página em que se valeu de recursos como a previsão do tempo – “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…” – e de um anúncio no alto da página: “Ontem foi o dia dos cegos”.

Em sua live, ao lado de uma intérprete de Libras – porção inclusiva de seus vídeos, certamente o conselho de algum marqueteiro esperto -, Bolsonaro aproveitou também para falar sobre o perfil do próximo ministro da Educação, alguém que tenha “autoridade” suficiente e esteja alinhado com o Brasil “conservador”. Bolsonaro disse que o nome será anunciado muito em breve. Um dos cotados é o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, que defende a revisão bibliográfica e curricular para evitar o “ensino partidarizado” e acredita no revisionismo da ditadura de 1964, para amacia-la em uma revolução contra o comunismo. No Congresso, o novo governo vai tentar aprovar o projeto da “Escola sem partido”.

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Livro contendo a lista do Index Librorum Prohibitorum (Veneza, 1564); René Descartes, um dos notáveis a ir para o Index; protesto contra a Censura durante a ditadura; “Tempo negro. Temperatura sufocante”, a atualidade de Alberto Dines, morto recentemente, aos 86 anos; e o tema da redação do Enem 2018, “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

O Enem, é bom lembrar, é realizado desde 1998 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação. Mas foi em 2009 que o Enem passou a ser aplicado como forma de acesso ao ensino superior. A metodologia não é a mesma dos vestibulares tradicionais. As questões apresentadas não são elaboradas integralmente por um mesmo grupo, mas escolhidas entre itens dispostos em um banco de dados com milhares de questões já aplicadas por diversos professores, há anos. Uma rara voz do atual governo a se manifestar, e de forma absolutamente técnica, foi Maria Inês Fini, presidenta do Inep, a autarquia responsável pela realização do Enem. “Não é o Governo que manda na prova”, explicou Fini ao El País. A elaboração das questões é de responsabilidade exclusiva da área técnica. “O Inep tem uma diretoria específica de técnicos consagrados que com a ajuda de uma série de educadores e professores universitários de todas as regiões do país elaboram a prova”, disse ela. Maria Inês Fini não será a próxima ministra da Educação.

1984 + Fahrenheit 451: Bolsonaro prega macartismo, incentiva dedo-durismo e elege professores como alvos

A “Escola sem partido” defendida pela capitão eleito, seu séquito de generais robôs, economistas toscos e por aquela parte de eleitores zumbis que acha que escola, professor, livros e pensamento livre são coisas de comunistas, evoluiu para a “Escola Macartista”, onde os “soldados” do fascismo começam a marchar, mostrando que, além de provavelmente montar uma baita rede de informações, como o SNI da ditadura, Bolsonaro estimulará o voluntarismo antidemocrático, o serviço sujo de informantes, nos moldes da ditadura, provavelmente com o apoio do MBL. “A orientação que dou a toda a garotada do Brasil: vamos filmar o que acontece nas salas de aula e divulgar”, pregou Bolsonaro nas redes sociais, incentivando o dedo-durismo típico dos regimes de exceção. Os professores parecem ser o primeiro alvo de Bolsonaro, que pode ter como ministro da Educação um dos generais de pijama de seu time medíocre de futuros ministros, o fardado Aléssio Ribeiro Souto, que defende a revisão bibliográfica e curricular para evitar o “ensino partidarizado” e acredita no revisionismo da ditadura de 1964, para amacia-la em uma revolução contra o comunismo. O incentivo à intimidação foi refletida essa semana pela deputada estadual eleita por Santa Catarina, a ruiva Ana Caroline Campagnolo (PSL), que divulgou nas redes sociais um comunicado pedindo que estudantes catarinenses gravem e denunciem manifestações político-partidárias. 1984 + Fahrenheit 451.

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O ditador eleito grava vídeo – dirigido a um aluno de Serra (ES) – para pedir que alunos filmem os professores em sala de aula e os delatem. “Entre um contato conosco, tenho uma surpresinha para esses professores”, ameaçou. Está fazendo “escola”. A deputada estadual eleita por Santa Catarina Ana Caroline Campagnolo (PSL) – na foto com um bastão escrito “Direitos Humanos”, pediu o monitoramento de professores e incentivou nas redes sociais um comunicado pedindo para que estudantes catarinenses gravem e denunciem manifestações político-partidária.

Nesse caso, houve reação e o Ministério Público de Santa Catarina vai investigar a conduta da aprendiz de reaça que se propôs até a criar um disque-professores comunistas.  Esfregaram na cara da fascista de primeiro mandato – e que mora num apartamento do Minha Casa, Minha Vida (pausa para gargalhar) – um abaixo-assinado de mais de 200 mil assinaturas com uma petição para impugná-la. Em nota, os sindicatos representantes dos trabalhadores em educação das redes pública e privada municipal, estadual e federal do Estado de Santa Catarina classificaram o comunicado da ‘louca do PSL’ como ameaça e ataque à liberdade de ensinar do professor. Segundo os sindicatos, isso “é tipicamente aplicado em regimes de autoritarismo e censura”. Agentes infiltrados nas universidades e o incentivo ao dedo-durismo foram marcas da ditadura, principalmente nas universidades, então focos de resistência. Eram os chamados “elementos de segurança”, muitos expostos em meio aos documentos já desclassificados da ditadura militar, abertos à consulta pública no Arquivo Nacional.

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A foto de um homem identificado apenas como “elemento de segurança” chama a atenção em meio aos documentos já desclassificados da ditadura militar, abertos à consulta pública no Arquivo Nacional. Pode ser uma das raras imagens identificadas pela própria ditadura sobre um tipo muito comum na época, que muitos prejuízos causaram à comunidade universitária do país: os agentes infiltrados nas universidades, responsáveis por dedurar estudantes e professores que militavam contra o regime. O dedo-durismo está voltando.

Segundo o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), em todo o país, professores já têm sofrido ameaças. A orientação do sindicato é que os docentes que passarem por situação de constrangimento e ameaças mantenham a tranquilidade e reúnam o máximo de evidências e provas das situações e copiem os conteúdos caso as ameaças tenham sido feitas por meio de redes sociais. Os professores devem procurar a seção sindical local para que as medidas cabíveis sejam tomadas. Em nota, a Anistia Internacional diz que crescem no Brasil os relatos de professores em escolas e em universidades que têm sofrido pressões indevidas, coerções e intimidações.

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Celso de Mello mostra que o STF, de tantas lambanças, percebeu que agora deve ser um dique de contenção ao fascismo e de garantia à liberdade de pensamento. “O pluralismo político que legitima livre circulação de ideias é um dos fundamentos do estado democrático de direito, diz a Constituição da República.” STF veta ação policial nas universidades.

Ah, a maioria do STF – que, quem diria, está se tornando um dique de contenção dos abusos- confirmou decisão que suspendeu ações policiais em campus. Universidades públicas de ao menos nove estados brasileiros foram alvos de operações autorizadas por juízes eleitorais na semana passada. As ações aconteceram para averiguar denúncias de campanhas político-partidárias que estariam acontecendo dentro das universidades.

Já no Congresso, outra vitória. Deputados da oposição conseguiram impedir que a comissão especial discutisse o projeto de lei Escola Sem Partido. Apenas oito parlamentares registraram presença, impedindo que houvesse quórum. O projeto, cujo objetivo é “não cooptar os alunos para nenhuma corrente política, ideológica ou partidária”, estava esquecido e foi agendado de última hora após a eleição do Coiso. Na atual redação, fica também proibido o ensino sobre questões de gênero ou orientação sexual. Até o fim do mês, o STF deve julgar propostas de Escola Sem Partido. A tendência é de que sejam consideradas inconstitucionais, segundo a bem informada Monica Bergamo, na Folha.

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A mediocridade de nomes cotados para o futuro ministério do ditador eleito: deputado Onyx “Caixa 2” Lorenzoni, Casa Civil; general da reserva Augusto “Fora Direitos Humanos” Heleno, na Defesa; o tenente-coronel da reserva Marcos “Fui Astronauta” Pontes, na Ciência e Tecnologia; general Aléssio “Queimem livros” Ribeiro Souto, que pode ir parar na Educação; o economista Paulo “Posto Ipiranga” Guedes, na Economia; Gustavo “Fake News” Bebianno, presidente do PSL, que pode ir para a Secretaria-Geral da Presidência; Presidente da União Democrática Ruralista, o pecuarista Luiz “fora MST” Antônio Nabhan Garcia, para a Agricultura; o juiz federal Sérgio “Lava Jato e prende Lula” Moro, que pode ser o xerife de um superministério da Justiça e Segurança Pública, mandando na Polícia Federal; e Magno “Sinhozinho Malta Gospel”, que perdeu a vaga no Senado e terá uma boquinha no governo.

Bolsonaro segue montando seu ministério medíocre, formado, pelos nomes anunciados até agora, por generais linha-dura, pecuaristas e religiosos reacionários, economistas medíocres e toda a hora de múmias que, com a vitória do Coiso, saiu de seus sarcófagos. Dois deles já conseguiram bater de frente, o deputado Onyx “Caixa 2” Lorenzoni, cotado para a Casa Civil, e o camelô de estatais Paulo “Posto Ipiranga” Guedes, vaga certa na pasta da Economia. O pomo da discórdia, a polêmica reforma da Previdência. “(Onyx) Está dizendo que não tem pressa na Previdência”, se queixou Guedes. “Aí o mercado cai. É político falando de economia. É a mesma coisa que eu sair falando de política.” Guedes precisa urgentemente ir a um spa e ser massageado com pedras onyx, muito usadas para sessões terapêuticas e de cura energética. Também devem estar na Esplanada o general da reserva Augusto “Fora Direitos Humanos” Heleno, na Defesa; o tenente-coronel da reserva Marcos “Fui Astronauta” Pontes, na Ciência e Tecnologia; Gustavo “Fake News” Bebianno, presidente do PSL, que pode ir para a Secretaria-Geral da Presidência; o “novo Caiado” Luiz “fora MST” Antônio Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista, para a Agricultura; o juiz federal Sérgio “Lava Jato e prende Lula” Moro, que pode ser o xerife de um superministério da Justiça e Segurança Pública, mandando na Polícia Federal. Será que vai abrir o polpudo salário de juiz? O vice Mourão “língua solta” revelou, para constrangimento geral, que Moro já havia sido sondado durante a campanha! E, claro, o guru espiritual de Bolsonaro, o encaracolado Magno “Sinhozinho Malta Gospel”, que perdeu a vaga no Senado e, em retribuição, terá uma boquinha no governo, nem que seja como trovador de aluguel.

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Em cima, Eliseu Padilha, atual ministro da Casa Civil, e Onyx Lorenzoni, futuro chefe da pasta. Abaixo, Jim Carrey e Jeff Daniels em “Debi & Lóide”. Não confundam, os políticos são os de cima. 

Ah, Bolsonaro e Temer se reunirão na próxima semana em Brasília. Onyx e Eliseu Padiha, ex e futuro chefes da mesma pasta, juntos, deve ser uma daquelas cenas dantescas. Onyx apresentou ao governo lista com 22 nomes para integrar equipe de transição. Dizem os maldosos que Padilha sorriu e cochichou ao lado: “E nós éramos ruins…”.

 

Apocalipse: Ibope aponta vantagem dos mortos-vivos. Só resta a Ciro parar de pensar com o fígado e usar a cabeça. E Haddad trocar o coração pelos punhos

Por mim, bastava o título, mas, mesmo cansado, vou escrever um pouco mais. Não vou entrar no armário da pesquisa Ibope desta noite, “a primeira pesquisa de intenção de voto para presidente no 2º turno”, destaque na escalada do Jornal Nacional, manchete de todos os jornais amanhã, festa na bolsa, o mercado tendo orgasmos múltiplos, as multinacionais do petróleo dando banquetes, o comando das Forças Armadas vertendo lágrimas em suas fardas com medalhas sem guerra. Ou vou. Um pouquinho. O resultado  – partindo da premissa de que os números são confiáveis e não estratégia de desmobilização – quase confirma, há duas semanas das eleições, o apocalipse zumbi com a volta dos mortos vivos fardados, junto com os neoliberais disfarçados com sangue e tripas (alguém aqui assiste Walking Dead?), com capitães mandando em generais, economistas medíocres se lambuzando com planilhas, e eleitores mostrando que o antipetismo evoluiu para uma imbecilidade política que beira a demência. De resto, é ditadura igual, e, se não questiono a urna eletrônica, ao contrário do Bolsonaro – não mais, pelo jeito -, questiono a inteligência de quem a usa. Se, e se, os resultados do ibope – e pesquisas similares – estiver correto.

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No Dia dos Professores, o professor Haddad homenageou os mestres, deu entrevistas defendendo a educação em tempo integral – o que a mídia distorceu como condenação ao ensino à distância -, e defendeu investimentos nas universidades públicas – o que a mídia viu como atestado de ociosidade dessas instituições. Jair Bolsonaro visitou o Bope (Batalhão de Operações Especiais) no Rio de Janeiro e antecipou que um general reacionário que defende revisar currículos e bibliografias usadas nas escolas, que pode ser seu ministro da Educação. Ciro? Ah, Ciro viaja…

Nos votos válidos, os resultados foram os seguintes, segundo o Ibope: Jair Bolsonaro (PSL): 59%, Fernando Haddad (PT): 41%. A rejeição a Haddad (“Não votaria nele de jeito nenhum”) chega a 47%, ultrapassando os 35% de Bolsonaro. Como é que é? Isto não é uma pesquisa, é um diagnóstico de tumor. Coordenador da campanha de Fernando Haddad à Presidência, o ex-governador da Bahia e senador eleito Jaques Wagner afirmou que a melhor estratégia para uma vitória na corrida presidencial seria o lançamento de Ciro Gomes (PDT) ao Palácio do Planalto. Peraí, o que eu não entendi? É fogo amigo ou traição – pura e simples? Ou existe mesmo um plano para levar Ciro Gomes triunfante de seu exílio de uma semana na Europa para transforma-lo no candidato da “frente-de-centro-esquerda-capaz-de-derrubar-o-fascista-bolsonaro”? Foi proposta da ex-candidata a vice de Ciro, senadora Katia Abreu, que sugeriu a substituição de Haddad por Ciro Gomes para “garantir a eleição”. Qual o jogo de Wagner? Qual o jogo de Ciro? Os eleitores do PT e de Ciro concordam com isso? Agora? Isso já não é curso de línguas, é aprender chinês em 15 dias.

Era o Dia dos Professores, e o professor Haddad deu entrevistas defendendo a educação em tempo integral – o que a mídia distorceu como condenação ao ensino à distância -, e defendeu investimentos nas universidades públicas – o que a mídia viu como atestado de ociosidade dessas instituições. Jair Bolsonaro visitou o educativo Bope (Batalhão de Operações Especiais) no Rio de Janeiro, uma das polícias mais truculentas do mundo – incensada pelo “Tropa de Elite” de Padilha, de “O Processo” -, e antecipou que um general reacionário pode ser seu ministro da Educação. Trata-se do general Aléssio Ribeiro Souto, já velho conhecido da campanha, que diz que “é muito forte a ideia” de se fazer ampla revisão dos currículos e das bibliografias usadas nas escolas para evitar que crianças sejam expostas a ideologias e conteúdo impróprio. Ele defende que professores exponham a “verdade” sobre o “regime de 1964” – revisionismo histórico, 1984, George Orwell, já falei disso aqui -, narrando, por exemplo, mortes “dos dois lados”. Ex-chefe do Centro Tecnológico do Exército, foi chamado a coordenar debates de ciência e tecnologia, mas acabou acumulando educação “por afinidade”. Contrário à política de cotas, defendeu o Estado de S.Paulo a “prevalência do mérito” e disse que, se a ideia for aceita por Bolsonaro, serão estudadas medidas “não traumáticas” para substituir as regras”.

Em entrevista à Rádio Jornal, de Barretos, Bolsonaro resumiu: o objetivo de seu governo é fazer “o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. É um visionário, com os olhos no retrovisor. Estamos fodidos se esse cara for eleito. Até esse momento, a campanha torpe de Bolsonaro, rei das fake news, fujão de debates, conseguiu amplificar a PTfobia, e os petistas não conseguiram desconstruir a farsa que é Bolsonaro, nem contaram com os aliados de quem esperavam, pelo menos, decência.

Bolsonaro e o “negacionismo histórico”: os planos do capitão e de seus cúmplices fardados de apagar a ditadura de 1964

O revisionismo histórico, ou reinterpretação da História, ou negacionismo, baseado na linha tênue da ambiguidade dos fatos históricos, e na capacidade de quem está no comando de – tentar ao menos – recontar a história é um fenômeno típico de ditaduras ou governos em tempos de guerra, não importa de qual ideologia. Os “revisionistas” partem da assertiva de George Orwell, em sua grande obra 1984, de que “quem controla o passado também controla o futuro, aquele que controla o presente, controla o passado”. Stalin, Hitler, Truman – leia sobre a Doutrina Truman e a Guerra Fria, aqui não teremos tempo -, todos contaram suas histórias – e procuraram apagar – literalmente – os rastros contraditórios. A “desnazificação” da Alemanha pós-Segunda Guerra não foi fácil para a sociedade alemã, mas foi ali que gerou-se o ovo da serpente para as gerações seguintes relativizarem os crimes de Hitler, recriando num segundo momento o neonazismo e o antissemitismo virulento. A negação do Holocausto tem sua versão made in Brazil: os planos do capitão e candidato da direita e da caserna, Jair “Só vale se eu ganhar” Bolsonaro, com a imbecilidade de quem conhece o mundo pelo Wikipédia e pela “Doutrina Militar”, de passar uma borracha na ditadura de 1964 – com “Supremo, com tudo”.

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Os “revisionistas” partem da assertiva de George Orwell, na obra “1984”, de que “quem controla o passado também controla o futuro, e aquele que controla o presente, controla o passado”. Bolsonaro, se eleito, quer recontar 1964 e apagar a ditadura de seus ídolos generais.
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O gabinete do deputado e presidenciável decorado com fotos de generais-presidentes que comandaram o país durante a ditadura militar, sua tara: Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. “Não houve golpe militar em 1964”, repete.

Supremo? Sim. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, falando durante o evento “30 Anos da Constituição Federal de 1988”, organizado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), pegou um atalho para dizer, a seis das eleições mais virulentas de nossa história contemporânea, que devem colocar, lado a lado, no segundo turno uma chapa PT-PCdoB e outra militar, que não se refere “nem a golpe nem a revolução de 64. Me refiro a movimento de 1964” (Leia aqui). A tortuosa declaração  – supostamente lastreada na obra do historiador carioca Daniel Aarão Reis – foi dada, após uma construção histórica escorregadia, em que alegou que, para ele, os militares serviram como uma ferramenta de intervenção que, em vez de funcionar como moderadores, optando por ficar no poder. “Com isso, os militares se desgastaram com ambos os lados, direita e esquerda, que criticaram o governo militar”, teorizou. A pergunta que ninguém fez para Toffoli: se os militares desejassem, então, em 64 como agora, agir como “moderadores”, tudo bem?

Aliás, quem assiste entrevistas do professor Aarão Reis (Veja esta no Canal Futura) não vai concordar com Toffoli. Preso e torturado na ditadura de 64, ex-militante do PT – como Toffoli, que foi advogado do PT -, e escritor de biografias como de Luís Carlos Prestes,  o historiador fala claramente em “golpe”, “ditadura” e das “barbaridades” cometidas em 64. Toffoli, melhor escolher outra fonte para suas cascatas.

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O “revisionista” Toffoli, presidente do STF, fez discurso dizendo que em 64 não houve “nem golpe, nem revolução de 64. Disse que se inspirou no historiador Daniel Aarão Reis que,  ao contrário do que diz o ministro, fala em “golpe de 64”.
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O historiador carioca Daniel Aarão Reis, em entrevista ao Canal Futura: “Falar em ditabranda (como fez a Folha de S.Paulo em editorial de 17 de fevereiro de 2009, depois renegado pelo próprio diretor de redação Otávio Frias Filho) é tripudiar sobre todos aqueles que foram assassinados, torturados, ou sofreram qualquer tipo de humilhação, sem falar do preço que uma Nação paga após uma ditadura. Toda efervescência política e cultura foi tolhida depois do golpe, sobretudo depois do AI-5″. Como é que é, Toffoli?

Bolsonaro tem um grupo técnico que se reúne regularmente para auxiliar a equipe do candidato à Presidência na formulação de propostas que podem vir a ser implementadas caso ele vença as eleições. Um deles, como já citamos aqui, é o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, para quem “os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. O revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 e a ditadura ganhou força nos anos 1990 com visões relativizadoras, inspiradas numa tese tosca de que a ditadura não existiu por que não éramos democratas. O trabalho que inaugura este revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 é o livro da cientista política Argelina Cheibub Figueiredo, “Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política: 1961-1964”. Inaugurava-se assim uma longa e paupérrima tradição nos balanços bibliográficos sobre 1964, calçados na ideia de que a combinação de crise econômica com colapso das estruturas políticas exige a “moderação” militar. Isso é familiar a alguém?

E quem sabe você, meu caro leitor, minha cara leitora, talvez mais jovem, tenha tempo para ouvir um pouco Leandro Karnal (Psiu, aqui).

 

Stephen Fry desnuda Bolsonaro, Mourão Balão veste faixa presidencial e gays tem mais quorum que ato fascista

“Por onde andará Stephen Fry?
Por onde andará Stephen?
Ninguém sabe
Do seu paradeiro
Ninguém sabe
Pra onde ele foi
Pra onde ele vai…”

Opa, eu sei, Zeca Baleiro (Assista o vídeo). O ator britânico está de olho nas eleições no Brasil e já entendeu a encruzilhada em que estamos melhor do que muito brasileiro. O ator, roteirista, apresentador de televisão, cineasta e comediante viralizou nas redes sociais brasileiras – estou há dias para escrever sobre isso e peço desculpas pela falta de tempo – ao comentar sua posição sobre o fascista Jair Bolsonaro, líder (temporário) das pesquisas de intenção de voto para presidente, que teve o desprazer, e o choque de entrevistar para a televisão britânica (Veja). Fry é um sir na entrevista e ouve barbaridades perplexo, mas sem perder a fleuma. Comentar mais é bobagem, melhor assistir e se chocar junto (Veja aqui  e aqui). Fry fala de cadeira – e lembra isso. Entrevistou Bolsonaro na Assembléia Legislativa do Rio – antro de corruptos -, em programa para a TV britânica, e ouviu dele que “não há homofobia no Brasil”, apenas gays histéricos e aproveitadores políticos. “Foi um dos confrontos mais sinistros que já tive como ser humano”, reconheceu Fry, descrevendo os olhos de Bolsonaro como “bem mortos e apavorantes”.

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O ator, roteirista, apresentador de televisão, cineasta e comediante britânico Stephen Fry, fala de sua experiência de entrevistar Jair “Ou eu ou ninguém” Bolsonaro e do pavor que teve com suas palavras e olhar. Ele suplica aos brasileiros que pensem bem antes de votar. #EleNão #EleNunca
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Imagine um lord inglês entrevistando um ogro… Se falasse inglês, o monoglota e agiota Bolsonaro diria “My precious”, na linha Gollum seduzido pela faixa presidencial.

Enquanto isso, por que o país não para, na Avenida Paulista, uma festa de fascistas, coxinhas e correlatos, um dia depois dos grandes atos #EleNão, em repúdio ao candidato a presidente Jair Bolsonaro (Veja a manifestação histórica liderada por mulheres no Brasil vista por quatro ângulos). Apoiadores de Bolsonaro promoveram uma, vamos admitir, manifestação em prol do candidato. Um boneco inflável com farda do Exército – E FAIXA PRESIDENCIAL, uhhh – que representa o candidato a vice do PSL, general da reserva Hamilton Mourão foi o, digamos, diferencial. Não deixa de ser curioso que isso ocorra na mesma semana em que Bolsonaro o desinflou publicamente. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do “coiso”, bateu na tecla da possibilidade de fraude nas urnas, bla, bla, bla. Em cima do carro de som, disse na Paulista que seu pai vencerá a eleição no primeiro turno, caso o sistema de urna eletrônica não sofra fraude. “Se a urna (eletrônica) não for fraudada, vai ser no primeiro turno”, disse ele.

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Os bolsominions fizeram um ato na Avenida Paulista com um boneco inflável com farda do Exército que representa o candidato a vice, general da reserva Hamilton Mourão, na mesma semana em que Bolsonaro o desinflou publicamente. E o boneco usava faixa presidencial – ops. Não dá pra dizer que os caras não tem humor.
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Eduardo “coisinho”, no ato coxinha na Paulista, e Janaína Paschoal, em momento Bruxa de Blair, na época em que advogou pelo impeachment da primeira mulher presidente, Dilma Rousseff, por “pedaladas fiscais”, levando Temer, Moreira, Padilha, Geddel e quadrilha ao Planalto. Segundo ele, “as mulheres de direita são mais bonitas que as da esquerda” porque “não defecam nas ruas”. Possivelmente os dois nunca foram apresentados.

Mas o supra sumo da estupidez – falando sério, é de corar burro de carga – foi a frase de Eduardo Bolsonaro, possivelmente tentando, do seu jeito tosco e preconceituoso, atingir as mulheres que lotaram as ruas do país no movimento #EleNão, misturando beleza e ideologia femininas. “As mulheres de direita são mais bonita que as da esquerda. Elas não mostram os peitos nas ruas e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita tem mais higiene”, vomitou o “coisinho”. Possivelmente, ele nunca foi apresentado a Janaína Paschoal. Aliás, você sabe porque a Bolsonaro Family – deve dar um reality porreta, nível Kardashians – está tão preocupada? Pesquisas, amigas e amigos, mostram que intenções de voto entre homens e mulheres nestas eleições têm a maior diferença da história. O candidato do PSL é o mais rejeitado pelas mulheres; o voto feminino pode ser decisivo nas eleições. “Se Bolsonaro conseguir 30% dos votos das mulheres, ele vai precisar de 70% dos votos dos homens para vencer. Fica difícil”, exemplificou o cientista político Bruno Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais, em entrevista para a BBC News Brasil. Segundo o Datafolha, 43% das mulheres não votariam ‘de jeito nenhum’ em Bolsonaro.

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Jair Bolsonaro segue atrás de Lula nas intenções de voto entre o eleitorado feminino. E lidera o ranking dos presidenciáveis rejeitados por elas. Na foto, uma das humilhações à deputada Maria do Rosário, a quem empurrou, ameaçou, chamou de “vagabunda” e disse que “não estupraria porque não merece” (Relembre aqui  e aqui).

Depois de ler isso, e botar os bofes pra fora, respire e ouça Haddad tocando “Blackbird”, dos Beatles, em reunião com artistas. Ah, enquanto os preconceituosos rebolavam sua fúria na Paulista, a Parada do Orgulho LGBTI levou uma multidão à orla de Copacabana – pelo menos 1 milhão pessoas, segundo a organização. Com os termômetros marcando 30°, milhares de pessoas participaram na Avenida Atlântica da 23ª Parada do Orgulho LGBTI. Oito trios elétricos animaram o público na altura do Posto 5. Nanda Costa e Lan Lanh se beijaram para a alegria geral. A rainha do rebolado, Gretchen, também estava lá com a filha, Thammy. Esse ano a manifestação teve como tema “Vote em ideias, não em pessoas. Vote em quem tem compromisso com as causas LGBTI”. O intuito foi despertar na comunidade LGBTI mais engajamento e participação nesse momento político, escolhendo candidatos que tenham compromisso com as causas e lutas em prol do respeito e diversidade. O #EleNão estava lá.

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A Atlântica, no Rio lacrou com a 23ª Parada do Orgulho LGBTI. Oito trios elétricos animaram o público na altura do Posto 5. Esse ano a manifestação teve como tema “Vote em ideias, não em pessoas. Vote em quem tem compromisso com as causas LGBTI”. Tá claro?

No fundo é isso. Existe em mim, talvez em você, o senso, em muita gente, felizmente, o que chamamos de senso comum, noções comumente admitidas pelos indivíduos, que faz a voz de Mr. Fry mexer com meus brios e me fazer, ao longo de todo um domingo domingo de sol no Rio, escrever esse texto. E tem os outros. Os espíritos de porco, se quisermos ser bem-humorados, os fascistas canalhas, ignorantes, que no vácuo de Bolsonaro libertaram-se de suas amarras e soltam seus preconceitos como se não houvesse amanhã. O problema pra vocês é que sempre há amanhã. E o que se faz e escreve – não adianta, portanto, general Aléssio Ribeiro Souto, que quer queimar os livros que “não falam a verdade” sobre 1964 (Leia e se espante) – é que a verdade não se apaga mais.

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A prova viva – e embigodada – de que a formação militar é um lixo e uma fábrica de expelir ogros: formado na Aman (Academia das Agulhas Negras) e no IME (Instituto Militar de Engenharia, general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, um dos mimos fardados de Bolsonaro, defende eliminar os livros que chamem 64 de “ditadura”, acabar com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e revisão da grade curricular de alunos e professores brasileiros para eliminar o que classifica como “ideologização” na educação brasileira.