Quem será a nova Soninha Carneiro?

Em 1992, acordávamos e dormíamos consumindo boatos, em um país que, depois de uma eleição com pegada obscurantista, vivia um clima explícito de medo. Na época, não se chamavam fake news e eram disseminados no boca a boca, sem Whatsapp ou redes sociais. Governo Fernando Collor de Mello. Você vai notar algumas semelhanças com os tempos modernos. Jovem, alimentava a fama de machão – “saco roxo”, alguém lembra? -, falava grosso, foi eleito por um pequeno partido, sem base no Congresso, o PSL, digo, PRN, assumiu com a bandeira do combate à corrupção, antes de se enrolar nela – Veja foi a primeira a lançar sua candidatura à Presidência em 1989 com a capa “O caçador de marajás”. O objetivo era evitar a vitória do operário Lula -, tinha discurso conservador nos costumes, prometeu, e fez, uma guinada na economia para “salvar o país” – Zélia Cardoso de Mello, Plano Brasil Novo, ou Plano Collor, ou apenas confisco da poupança e de todas as aplicações financeiras -, buscava ostentar saúde e expor disposição física em corridas nos finais de semana. Eram os plantões na Casa da Dinda, talvez os momentos menos edificantes de minha vida profissional. Preferia o marasmo do Alvorada. Preferia as emas. Com Collor, que morava na Dinda, no Lago Norte, era esperar os portões abrirem, já com alguma claque de “colloridos” do lado de fora – os “bolsominions” da época -, pessoas muito religiosas e com viés fascista – e, vupt, lá saia ele correndo cercado de seguranças, geralmente com alguma mensagem na camisa – que tínhamos que descobrir qual – e íamos nós atrás, repórteres, fotojornalistas e cinegrafistas (estes últimos com seus pesados equipamentos). Terno, gravata, suor, torcer por uma entrevista, manchete garantida no dia seguinte. Collor tirou aliança, recolocou aliança. Quem entra, quem sai. Suquinho pra imprensa – só durou até virarmos os inimigos.

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Collor na campanha, atirando (sem gesto com os dedinhos) – na época os militares ficavam atrás, não do lado -,  correndo com um bando de jornalistas atrás, e em cerimônia religiosa na Casa da Dinda; Zélia Cardoso de Mello, a “musa” do Plano Collor; e Collor e a fã Claudia Raia, ambos vítimas de boatos

Era setorista do Palácio do Planalto. Haviam muitos “padeiros” lá na época, gente competente, gente incompetente, e os puxa-sacos de sempre. O país falava muito em corrupção – pequenas denúncias que depois virariam uma avalanche que levariam ao impeachment de Collor. Pedro Collor, PC Farias – assassinato de PC Farias -, Tereza Collor, Fiat Elba, LBA, Rosane Collor, Eriberto Freire França, Operação Uruguai, CPI, caras-pintadas. Collor durou de março de 1990 a 29 de dezembro de 1992, quando renunciou, ao mesmo tempo em que era impichado. Só haviam dois assuntos rivalizando com política e economia nessa época. Um foi o assassinato da atriz Daniela Perez por Guilherme de Pádua, quase ao mesmo tempo que o impeachment. A dupla contracenava na novela “De Corpo e Alma”, da TV Globo, escrita por Glória Perez, mãe de Daniela. O outro era Aids – chamada pelos religiosos vigilantes da sexualidade alheia de “peste gay” – nada mais equivocado e preconceituoso. Sim, jovens, os gays, hoje LGBTs, ou – atualizando – LGBTQ+, já eram perseguidos. Muito. No dia 7 de julho de 1990, Cazuza morreu aos 32 anos por um choque séptico causado por complicações do vírus da Aids. No dia 24 de novembro de 1991, o vocalista da banda britânica Queen, Freddie Mercury, morreu aos 45 anos de idade – não deixe de ver o filme sobre sua vida. No dia 12 de setembro de 1992, morreu, aos 60 anos, o ator Anthony Perkins, conhecido por dar vida ao papel do vilão Norman Bates, do filme “Psicose”, de Hitchcock. O país falava muito disso em 1992 – haveria um surto mundial após a morte do astro de Hollywood, Rock Hudson, anos depois. Surgiam boatos/fake news sobre pessoas com Aids. A maioria falsos. Claudia Raia, apoiadora de Collor, foi vítima disso. O boato foi tão devastador que ela fez um teste e mostrou o resultado numa entrevista coletiva. Não tinha Aids, tida naqueles anos como sentença de morte irreversível.

Ela tinha mais visibilidade do que Regina “Eu tenho medo” Duarte porque haviam boatos sobre ela e Collor. E Collor caiu na rede das fofocas. Alimentada – e testemunhei isso, era real – por um emagrecimento repentino do chefe de Estado, que perdera 12 quilos em poucos meses e estava com o rosto cadavérico. Estaria ele doente? Para a mídia, havia duas maneiras de lidar com isso: ignorar solenemente, ou seja, se omitir – o que todos nós fizemos, entre coniventes ou encagaçados de perguntar isso para o homem do “saco roxo”; ou perguntar na lata, sem rodeios, enfrentar a fera, recolocar os fatos como fatos e os boatos como boatos. Eu vejo hoje os jornalistas que “cobrem” Bolsonaro, já imaginando quais serão escalados pra o futuro Comitê de Imprensa, e farejo o mesmo medo. Medo de perguntar. Medo de fazer as perguntas que tem que ser feitas. Expor contradições. Fazer seu trabalho. Eu tive medo, sei o que é ter medo. É mais fácil fazer as perguntas fáceis, não se expor – inclusive com o seu veículo -, manter a credencial, garantir o emprego, não queimar as fontes palacianas, não virar persona non grata. É difícil ser um Jim Acosta, o repórter que enfrentou Trump – no bom sentido jornalístico disso -, ao insistir em uma pergunta sobre a caravana de imigrantes da América Central que estava a caminho dos EUA. “A CNN deveria ter vergonha de ter você trabalhando para eles. É uma pessoa terrível e mal-educada”, esbravejou Trump. Claro que é preciso ter retaguarda pra isso, e não vejo essas escoras firmes hoje em nossa mídia. A CNN, ao contrário, decidiu processar o presidente norte-americano e vários assessores da Casa Branca na sequência da retirada das credenciais ao jornalista Jim Acosta.

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Jim Acosta pergunta, Trump ofende. Jornalista foi descredenciado e CNN decidiu processar o presidente. Você imagina isso aqui?

Naquela época de Collor, só uma pessoa tinha coragem para perguntar, sem ofender, sem ser agressivo, sem se borrar, apenas fazendo a pergunta que tinha que ser feita. Sônia Carneiro, repórter da Rádio JB. Soninha é uma lembrança doce dos tempos de cobertura no Planalto, em Brasília. Ela fazia as perguntas mais desconfortáveis como se fossem triviais. Sem querer aparecer. Apenas porque sabia que era para isso que estava lá, e não curtindo os filhos em casa. Era final de 1991, ou começo de 1992, e Sônia Carneiro perguntou. Sem floreios. Se Collor tinha Aids. Soninha não foi descredenciada. Não teve dedo apontado na cara. Não ouviu desaforos. Agradeceu a pergunta – acho que rolou um “Só você, Soninha…” – e respondeu que estava mais magro por causa das “inúmeras atividades”. Não sei se acreditei na resposta, mas eu e todos ali respiramos aliviados. E passamos a admirar ainda mais Soninha. Os temas mudam, as pautas mudam, mas continuamos precisando de repórteres corajosos, por mais próximos que estejam do poder. Quando penso em Soninha, quando penso em Jim Acosta, não consigo deixar de pensar que, um quarto de século depois, precisamos de gente com bravura para perguntar. Um exército de Soninhas. Mas sinceramente, não vejo.

Menos Médicos, Escolas sem Partido, Drones Exterminadores

“E disseram que eu voltei americanizada
Com o “burro” do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque de um pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca”

“Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada”

Trecho de música que serviu de resposta sarcástica da grande Carmen Miranda a quem a criticava por fazer carreira em Hollywood, como se com isso fosse esquecer o Brasil. Seria uma carmelita descalça – sem trocadilhos – diante dos entreguistas de hoje

“O Ministério da Saúde Pública de Cuba tomou a decisão de não continuar participando do Programa Mais Médicos (no Brasil) e assim comunicou à diretora da Organização Pan-Americana de Saúde [Opas] e aos líderes políticos brasileiros que fundaram e defenderam a iniciativa”.
Nota do Governo Cubano. O comunicado não diz a data em que os médicos cubanos deixarão de trabalhar no programa. A Opas disse apenas que foi comunicada da decisão.

Até Dr. Hollywood, o parafinado, botocado e  candidato dele mesmo a ministro da Saúde de Jair Bolsonaro já entendeu. A meta na sua área é o fim do Sistema Único de Saúde (SUS), que, com todos os seus (muitos) defeitos – gerenciais mais do que de verbas -, é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, que, aos trancos e barrancos – muitos barrancos -, busca garantir acesso universal ao sistema público de saúde, sem discriminação. A atenção integral à saúde, para as pessoas cujo orçamento não cobre planos privados de saúde, não é opção preferencial do futuro governo. Seu projeto de educação, ao mesmo tempo, mistura “Escola sem partido”, doutrinação militar e cristã nas escolas, privatização do ensino técnico e controle das universidades públicas, com reitores biônicos. A escola onde há anos estuda meu casal de filhos me surpreendeu positivamente com um comunicado corajoso – o que só me confirmou o acerto no ensino construtivista. O título do texto basta: “Por que escolas democráticas e comprometidas com a formação de pessoas com pensamento crítico e autonomia moral e intelectual não podem aceitar as propostas do Escola Sem Partido?.” Fiquei orgulhoso. Na segurança pública, a política é a da Taurus e da CBC, manda a “bancada da bala”, o Estatuto do Desarmamento está com os dias contados. Armas para todos. Reagir à violência não com políticas sociais, mas com uma rajada diária de balas – pistolas nos porta-luvas dos carros e drones disparando para matar “bandidos” nas favelas. E na política exterior, ai meu Senhor, o novo chanceler, Ernesto Araújo, é o reflexo do alinhamento total com os Estados Unidos. O desejo oculto de voltar a ser colônia – dessa vez não de Portugal, mas da América de Trump. É, para dizer pouco, constrangedor.

É curioso observar que Bolsonaro, que passou a campanha afirmado que, se eleito, manteria uma política externa “sem viés ideológico” e criticando a ideologização do Itamaraty nos anos petistas, nomeie um sujeito que, como escreveu o jornalista Pedro Doria nas redes sociais, é “ideológico até o talo”. Para lastrear essa opinião. Os próprios jornais neste 15/11 chamam o futuro chanceler de “trumpista” – alguns como elogio. Durante a disputa eleitoral, Araújo criou blog no qual criticou o PT, que classificou de “Partido Terrorista”. Em artigos, criticou a “ideologia globalista” e defendeu o “nacionalismo ocidental” de Trump. O alinhamento proposto pelo novo governo é tão estreito quanto o buraco da agulha por onde deveria passar o camelo.

Rebobinando a campanha eleitoral.  Em agosto, ainda em campanha, Bolsonaro declarou que “expulsaria” os médicos cubanos do Brasil com base no exame de revalidação de diploma de médicos formados no exterior, o Revalida. A promessa também estava em seu plano de governo. Fora do Mais Médicos, os formados no exterior não podem atuar na medicina brasileira sem a aprovação no Revalida. Mas no caso do programa federal, todos os estrangeiros participantes têm autorização de atuar no Brasil mesmo sem ter se submetido ao exame. Bolsonaro disse ainda que “além de explorar seus cidadãos ao não pagar integralmente os salários dos profissionais, a ditadura cubana demonstra grande irresponsabilidade ao desconsiderar os impactos negativos na vida e na saúde dos brasileiros e na integridade dos cubanos”. O presidente eleito acrescentou que “Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos – uns 70%, calcula – e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares”.”Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”, escreveu no Twitter.

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‘Mais Médicos’ chegaram ao Ceará em 2013 com contrato de trabalho de três anos.  O programa virou um sucesso nacional: médicos estrangeiros onde os brasileiros não faziam questão de atender. Um tapa na cara do corporativismo. Afrontado seguidamente por Bolsonaro, que ameaçou até romper relações com Cuba, o governo cubano informou que decidiu sair do Mais Médicos, citando “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” feitas pelo presidente eleito. Dilma Rousseff criou o programa para atender regiões carentes sem cobertura médica. Posts de Bolsonaro nas redes sociais – sua praia – tentam repassar a culpa para quem queria servir.

No que interessa aos rincões do país, vamos à matemática. Deixarão o país 8.332 profissionais cubanos. Mais de 24 milhões de pessoas podem ficar sem atendimento. São 1.600 municípios hoje com cubanos em seus hospitais. Pequenas cidades do Nordeste temem um “apagão médico”, já adiantou a Folha de S.Paulo. A reação de Bolsonaro? Todo cubano que quiser pedir asilo ao governo brasileiro vai obter. Desce o pano.

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Presidente eleito Jair Bolsonaro anuncia Ernesto Araújo (ao lado dele) como novo ministro das Relações Exteriores. Segundo Bolsonaro, o novo chanceler é diplomata de carreira há 29 anos e um “brilhante intelectual”. De acordo com o site do Itamaraty, Araújo é o atual diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Ler seus textos recentes é um exercício de “sofrência”. USA! USA!
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Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Desejos ocultos de ainda ser colônia.

Pausa para reminiscências. Carmen Miranda, já famosa nos Estados Unidos, retornou ao Brasil em 1940 e foi recebida com frieza, no Cassino da Urca, acusada de ter se afastado de suas origens. Um dos sambas que gravou nessa época foi uma espécie de desabafo – “Disseram que eu voltei americanizada” (Assista), de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Não havia nada de americanizado em Carmen Miranda. Mas os tempos modernos são de ode aos padrões e dogmas americanos. Carmen se surpreenderia.

Sobre o “Mais Armas”, lembrei agora de um colega jornalista, nervosinho por natureza, pavio curtíssimo, que, numa carona ocasional, me surpreendeu um dia entrando numa briga de trânsito. Conhecido por seu temperamento explosivo, não deveria levar nem canivete no bolso de trás da calça. Nem para “Selvagem da Motocicleta” servia – desculpe, Coppola. Mas, me mostrou depois que os ânimos se acalmaram, tinha no porta luvas uma pistola, que, confessou, teve muita vontade de sacar. Havia crianças a bordo do lado de lá. Eu, do lado de cá, me encolhi no banco do passageiro. Por sorte, ninguém se feriu. Imagine esse potencial bangue-bangue como rotina, num país já violento até a medula. Mas entendo bem onde vamos parar com o programa “Armas para todos”. E “Drones para pobres”. Para que Bolsa Família, Bolsa Atleta, Água para Todos, Luz para Todos, Fome Zero, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Brasil Alfabetizado, ProUni, Minha Casa, Minha Vida, Programa Universidade para Todos? E Mais Médicos? Vai para Cuba! Foram.

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E viva a internet, viva os memes!

 

A patética – e justa – aspiração de Dr. Rey

Dr. Rey queria ser ministro da Saúde de Jair Bolsonaro. Queria não, quer. Mesmo depois de vir ao Brasil para postular a vaga e levar com a porta na cara – o ex-capitão foi aconselhado a não recebê-lo -, Dr. Rey escreveu em sua conta no Instagram: “Trago ideias de saúde do primeiro mundo! Pode rir, vou lutar pelo Brasil até meu último suspiro”. Sua bandeira: acabar com o SUS e implantar o sistema republicano americano chamado “Purple Plan”. Ele acha que todo brasileiro pode ter plano de saúde privado. Sabe tudo o Dr Rey. Fato, porém, é que o “Doutor Hollywood”, como se autodenomina (e nome de seu programa na RedeTV!) tem todo o direito de concorrer à vaga em um ministério que tem ícones, por assim dizer, como o astronauta Marcos Pontes e o juiz Sérgio Moro, candidatos a ministro como o “príncipe” Luiz Philippe e Alexandre Frota, e uma bancada exótica de apoiadores como Kim Kataguiri, Joice Hasselman, Tio Trusti, Nelson Barbudo e Caroline de Toni. O cirurgião plástico Roberto Miguel Rey tem todo o direito de ter esperanças.

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Cenas de uma subcelebridade no Rio: Dr Rey na praia de Ipanema, posando com admirador num evento, na porta do condomínio de Bolsonaro e dando uma coletiva com uma bandeirinha do Brasil. Projeto do cirurgião: acabar com o SUS.

A aparição do médico/socialite/apresentador de TV pegou de surpresa até profissionais da imprensa que dão plantão em frente à casa do presidente eleito, em seu condomínio na Barra da Tijuca. Quando Dr. Rey apareceu, os repórteres tinham outro assunto na cabeça – a reunião entre o embaixador da Argentina e Bolsonaro. O aspirante a ministro sequer avisou Bolsonaro que iria ao seu encontro. “Nós estávamos no mesmo partido, lembra? A gente estava no PSC. Éramos amigos, somos amigos. Eu só espero que, talvez, ele me cogite a ministro da saúde”, declarou o cirurgião, em bom portuglês (Veja o vídeo). O fato de Bolsonaro ter barrado o cirurgião pode não ter sido mera incompatibilidade de agenda. Em um vídeo veiculado no YouTube em novembro de 2017, quando Bolsonaro ainda era pré-candidato à presidência da República, Dr. Rey disse que o então deputado do PSC sugou os cofres públicos “por duas gerações” (Assista).

Vamos lá, Bolsonaro, dê uma chance a Dr Rey. Não dá pra ser mais ridículo do que já está.

A defesa da censura prévia no Enem é o prenúncio de um Index Prohibitorum

“Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…”.
Texto na célebre primeira página do Jornal do Brasil, editada por Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, 1968

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.
Fase em Pajubá — dialeto falado pela comunidade LGBT — que constava em questão da prova de linguagens do Enem 2018, para desespero dos homofóbicos.

“Esta prova do Enem, vão falar que eu estou implicando. Agora, pelo amor de Deus! Este tema, da linguagem particular daquelas pessoas…(LGBT). O que temos a ver com isso, meu Deus do céu? Quando a gente vai ver a tradução daquelas palavras… um absurdo, um absurdo! Vai obrigar a molecada a se interessar por isso, agora? (…) Podem ter certeza, fiquem tranquilos: não vai ter questão dessa forma no ano que vem, porque nós vamos tomar conhecimento da prova antes. Não vai ter isso daí. Vão ter perguntas sobre Geografia, dissertações sobre História, questões realmente voltadas ao que interessa ao futuro da nossa geração, do nosso Brasil. E não essas questões menores”.
Jair Bolsonaro, em live na internet, prometendo “vistoriar” a prova do Enem 2019 antes que seu conteúdo seja submetido, elencando as “ideologias de gênero” entre as questões que ele diz considerar desimportantes.

Há cinco dias, escrevi neste blog um artigo “Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio” (Leia aqui) em que, sem nenhum exercício de futurologia, especulei sobre a essência autoritária do governo eleito e sua relação com um dos pilares de uma democracia: uma educação livre. Bolsonaro ficara incomodado com o tema da redação do Enem – o Exame Nacional do Ensino Médio, porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras –, a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Deve ter considerado provocativo. Irritou-o, igualmente, que outras provas, como Ciências Humanas e Linguagens, abordassem tópicos mais do que atuais: feminismo, nazismo, escravidão (pouco depois anunciaria o fim do Ministério do Trabalho, que tem entre suas missões o “Combate ao Trabalho em Condições Análogas às de Escravo”), regime militar, crise de refugiados, LGBTs, entre outros. É pior do que imaginava. Em live, na internet – a ferramenta preferencial do presidente eleito -, Bolsonaro , entre outros temas, avisou que quer “tomar conhecimento da prova do Enem antes da realização do exame”, o que contraria aspectos técnicos e de segurança. O objetivo, reconhece a própria mídia, é evitar questões sobre LGBTs, por exemplo.

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Bolsonaro em live de meia hora disse que vai “vistoriar” a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) antes que seu conteúdo seja submetido aos alunos nos locais de teste. Bolsonaro criticou algumas questões oferecidas na edição deste ano do Enem, especialmente a relativa à espécie de dialeto falado por gays e travestis, o pajubá. Na mesa, em destaque, o livro “Não, Sr. Comuna! Guia Para Desmascarar as Falácias Esquerdista”.  No fundo, uma Menorá (candelabro), um dos utensílios mais importantes da cultura judaica.

Cada um interpreta como quer. Dentro dos meus conceitos, pela minha formação democrática, e com a responsabilidade de quem tem um casal de filhos em idade escolar, estudantes de uma escola construtivista – o oposto da “escola sem partido”, essa ideia amorfa, que junto com o kit gay, impregnou a campanha eleitoral -, isso é o anúncio de censura prévia. E o esboço de um Index Prohibitorum, como os Index Librorum Prohibitorum (Índice de Livros Proibidos, em latim) que listavam as publicações proibidas pela Igreja Católica em seus anos de trevas, ancorada no terrível Concílio de Trento. Bolsonaro reiterou sua estranha obsessão: questões sobre “ideologias de gênero” não podem entrar no Enem.

A questão é, sim, ancestral: o controle sobre informações e ideologia é a chave de qualquer governo autoritário. Qual a diferença entre isso e colocar censores dentro de um jornal para aprovar o que será publicado? – como na ditadura de 64. Ou entre ler letras de músicas, roteiros de peças, ver cenas de filmes, para filtrar o que pode chegar ao público e o que não pode? Sob censura, nos anos de chumbo, os jornais – que apoiaram o golpe -, buscaram, depois do AI-5, maneiras criativas de driblar e, ao mesmo tempo, denunciar o estado de exceção. O Estado de S. Paulo passou a publicar trechos de “Os Lusíadas”, poema épico do português Luís de Camões, nos espaços das matérias vetadas pelos censores. O vespertino da empresa, “Jornal da Tarde”, recorreu a artifício semelhante, publicando receitas culinárias. O JB, na época gloriosa de Alberto Dines, quando da promulgação do AI-5, produziu uma célebre primeira página em que se valeu de recursos como a previsão do tempo – “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…” – e de um anúncio no alto da página: “Ontem foi o dia dos cegos”.

Em sua live, ao lado de uma intérprete de Libras – porção inclusiva de seus vídeos, certamente o conselho de algum marqueteiro esperto -, Bolsonaro aproveitou também para falar sobre o perfil do próximo ministro da Educação, alguém que tenha “autoridade” suficiente e esteja alinhado com o Brasil “conservador”. Bolsonaro disse que o nome será anunciado muito em breve. Um dos cotados é o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, que defende a revisão bibliográfica e curricular para evitar o “ensino partidarizado” e acredita no revisionismo da ditadura de 1964, para amacia-la em uma revolução contra o comunismo. No Congresso, o novo governo vai tentar aprovar o projeto da “Escola sem partido”.

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Livro contendo a lista do Index Librorum Prohibitorum (Veneza, 1564); René Descartes, um dos notáveis a ir para o Index; protesto contra a Censura durante a ditadura; “Tempo negro. Temperatura sufocante”, a atualidade de Alberto Dines, morto recentemente, aos 86 anos; e o tema da redação do Enem 2018, “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

O Enem, é bom lembrar, é realizado desde 1998 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação. Mas foi em 2009 que o Enem passou a ser aplicado como forma de acesso ao ensino superior. A metodologia não é a mesma dos vestibulares tradicionais. As questões apresentadas não são elaboradas integralmente por um mesmo grupo, mas escolhidas entre itens dispostos em um banco de dados com milhares de questões já aplicadas por diversos professores, há anos. Uma rara voz do atual governo a se manifestar, e de forma absolutamente técnica, foi Maria Inês Fini, presidenta do Inep, a autarquia responsável pela realização do Enem. “Não é o Governo que manda na prova”, explicou Fini ao El País. A elaboração das questões é de responsabilidade exclusiva da área técnica. “O Inep tem uma diretoria específica de técnicos consagrados que com a ajuda de uma série de educadores e professores universitários de todas as regiões do país elaboram a prova”, disse ela. Maria Inês Fini não será a próxima ministra da Educação.

De Willy Wonka a Alice: sem Ministério do Trabalho e maquiando dados de emprego e renda do IBGE, Bolsonaro, eleito por uma fábrica de fake news, quer inventar o País das Maravilhas

“Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil, porque isso daí é uma farsa. (…) Nós temos que ter realmente uma taxa, não de desempregados, uma taxa de empregados no Brasil”.
Jair Bolsonaro, ditador eleito, em 05/11/18, prontinho pra um extreme makeover das taxas de emprego e renda medidos pelo IBGE. Sem Ministério do Trabalho, melhor reclamar pro bispo. Macedo.

“Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”.
Rubens Ricupero, então ministro da Fazenda, em 01/09/1994, em conversa nos bastidores da TV com o jornalista Carlos Monforte, captada por antenas parabólicas de telespectadores antes de entrar ao vivo no Jornal da Globo. Ele se referia ao IPC-r, o índice que reajustava os salários.

Há 88 anos, mais precisamente em 26 de novembro de 1930, uma das primeiras iniciativas do “governo revolucionário” implantado por Getúlio Vargas foi criar o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, chamado por Lindolfo Collor, o primeiro titular da pasta, de “Ministério da Revolução”. A pasta – possivelmente junto com Educação, Saúde, Justiça, Fazenda e Itamaraty, as mais emblemáticas da Esplanada – surgiu para concretizar o projeto do novo regime de interferir sistematicamente no conflito entre capital e trabalho. Até então, no Brasil, as questões relativas ao mundo do trabalho eram tratadas pelo Ministério da Agricultura – sendo na realidade praticamente ignoradas pelo governo. De volta ao passado. O ditador eleito Jair Bolsonaro, que já disse – sim, ele disse na campanha – que quer que o Brasil “volte a ser como há 40 ou 50 anos”, vai superar sua meta. Vai voltar quase 90 anos. Ele confirmou nesta quarta, 07, que vai acabar com o Ministério do Trabalho, que será engolido por alguma pasta nanica. Mais do que isso, Bolsonaro prepara-se para mexer em um dos índices mais confiáveis do país, a metodologia que mede taxas de emprego e renda, divulgada pelo IBGE.  Bolsonaro, que na campanha se aproveitava desse índice para falar mal do “legado petista”, agora chama-o de “farsa”. Nada como um dia depois do outro com uma eleição no meio.

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Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, Ricupero e Getúlio Vargas. O ditador eleito vai extinguir o Ministério do Trabalho, criado há 88 anos, e quer mexer na taxa de emprego e renda medida pelo IBGE, centro de excelência e que usa metodologias internacionais, para “mostrar o que é bom e esconder o que é ruim”, como ensinava Rubens Ricupero. Também vai empurrar o Ministério do Trabalho para dentro de alguma pasta nanica. Se não tem emprego e estamos em liquidação, pra que medir o desemprego, certo?

O tema é um dos mais sensíveis na economia, com uma taxa de 11,9% de desemprego, o que significa que 12,4 milhões de pessoas estão em busca de uma oportunidade. A intenção é evidente: maquiar os números. Tão óbvio que economistas que acompanham os dados de mercado de trabalho e funcionários do IBGE estrilaram. Só para que se tenha uma ideia, o IBGE foi criado em 1936, passou pelo Estado Novo e pelo Regime Militar sem nunca ter sofrido qualquer tipo de interferência de um presidente. Bolsonaro diz se inspirar num pais quebrado, a Argentina, que fez uma intervenção no órgão de pesquisa que causou descrença na taxa de inflação. Depois disso, a revista britânica The Economist deixou de publicar os dados oficiais da Argentina.

Sem Ministério do Trabalho, maquiando os dados de emprego e renda, Bolsonaro, eleito com uma Fantástica Fábrica de Fake News, pode criar o País das Maravilhas. De Willy Wonka, passará a Alice – junto com Ony Lorenzoni, o Gato de Cheshire, e Paulo Guedes, ou Absolem, a lagarta lisérgica que não tira o narguilé da boca -, transmitindo ao país seu “milagre econômico” turbinado por fumaça enquanto negocia com o Congresso, em meio o fog democrático, as leis e mudanças constitucionais que quer. Nesse ponto o marketing será essencial, numa estratégia parecida com a usada pela agência AM4, responsável pela campanha digital do presidente eleito. Se não tem um Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil e mago político do general-presidente Ernesto Geisel, Bolsonaro montou um bem azeitado esquema nas redes sociais. Só terá que desligar a torneira do esgoto das fake news contra seu ex-adversário Fernando Haddad e abrir as comportas das good news de seu governo. No fundo, a mesma coisa.

Bolsonaro, por sinal, está montando o governo mais reacionário do período pós-ditadura. Além dos Onyx e Guedes já anunciados, ele confirmou que o general Augusto Heleno, que já havia sido anunciado como ministro da Defesa, assumirá agora o posto de ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). A Defesa voltará a ser um feudo quatro estrelas: o capitão nomeará um oficial-general, o topo das carreiras no Exército, Marinha ou Aeronáutica. Na Agricultura, adivinhem, a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS) será a dona do latifúndio. Reforma agrária é coisa do passado. MST, chupa! Atual presidente da Frente Parlamentar Agropecuária do Congresso Nacional, conhecida como a bancada ruralista, Tereza Cristina foi indicada pela FPA para o cargo. No Congresso, Tereza Cristina foi uma das principais defensoras do projeto que muda as regras no registro de agrotóxicos.

Em tempo: o TSE, numa atitude insólita e inédita em tempos democráticos – bom, não são mais democráticos – considera antecipar a diplomação de Bolsonaro para antes de sua próxima cirurgia. A Corte sugeriu que a solenidade ocorra no dia 11 de dezembro, um dia antes de presidente eleito ser submetido a procedimento de reversão de colostomia.

Esgoto é a palavra que me ocorre.

Sai Honestino, entra Costa e Silva. E a ditadura vai ganhando sua forma – em pontes e vinhetas de TV

Honestino Guimarães, como se sabe, foi um líder estudantil e militante contra a ditadura – estudava geologia na Universidade de Brasília – que desapareceu em 10 de outubro de 1973, após ser preso no Rio de Janeiro. Em março de 1996, sua família recebeu um atestado de óbito, sem explicar a causa da morte. Somente em 2014, recebeu anistia política “post mortem” e teve o atestado de óbito corrigido, tendo como causa de sua morte “atos de violência praticados pelo Estado”. O general Costa e Silva, como igualmente se sabe, comandou o Brasil entre março de 1967 e agosto de 1969, período de fortalecimento da repressão e de práticas de tortura. O Ato Institucional 5 (AI-5), que institucionalizou a perda de direitos, foi sancionado por ele em 1968. O primeiro é, para o ditador eleito Jair Bolsonaro, um desses “vermelhos” que deveriam deixar o Brasil – Ame-o ou Deixe-o, certo Silvio Santos? O segundo é um dos ídolos do ex-capitão, que tem em seu gabinete no Congresso fotos emolduradas de todos os generais-presidentes dos anos de chumbo – aliás, Bolsonaro levará sua galeria de ditadores zumbis para o Gabinete Presidencial?

Pois o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF, louco para se render à ditadura eleita, decidiu encher de orgulho o novo presidente e construiu uma perigosa ponte em um país que flerta com o fascismo, a intolerância e o ódio. Por ordem arbitrária da Corte, a “segunda ponte” do Lago Sul deixará de se chamar Honestino Guimarães para retomar o nome de origem, Costa e Silva. Uma lei de 2015, que renomeou a estrutura, foi declarada inconstitucional. O pedido foi feito, entre outros, por uma procuradora e deputada federal eleita Bia Kicis (PRP), que considerou o rebatismo “inconstitucional e autoritário” por não ter havido consulta popular. Nas redes sociais, Bia, que se declara fã do filósofo de direita Olavo de Carvalho e se concede a presidência do Instituto Resgata Brasil, comemora a súbita notoriedade. Cabe recurso, mas o gesto, em si, já é mais um sinal dos tempos negros que temos pela frente. A placa que antecede a ponte já foi pichada com o nome do ditador Costa e Silva.

Quem quiser consultar o processo pode ver aqui a lista dos saudosistas da ditadura responsáveis pelo pedido de troca de nomes.

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Da esquerda para a direita: Vinheta do SBT resgatando o slogan da ditadura de 64; o ditador Costa e Silva, em foto oficial sem farda; Post no Facebook da deputada federal eleita Bia Kicis, uma das responsáveis pela ação que mudou o nome da “segunda ponte” do Lago de Honestino Guimarães para Costa e Silva; Honestino Guimarães; “santinho” de outro ditador, Emílio Médici, na onda do Ame-o ou Deixe-o; o estudante torturado e assassinado, em carteirinha da época; Silvio Santos, o lambe-botas de ditadores; e uma foto clássica dos anos de chumbo.

Aguarda-se para breve novas mudanças de nomes em locais conhecidos na capital federal:
– Praça dos Três Poderes para Praça General Emílio Garrastazu Médici;
– Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida para Catedral Edir Macedo;
– Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek para Parque da Cidade Humberto de Alencar Castelo Branco;
– Torre de TV para Torre Brilhante Ustra;
– Centro de Convenções Ulysses Guimarães para Centro de Convenções Antonio Carlos Magalhães;
– Memorial JK para Memorial Ernesto Geisel;
– Memorial dos Povos Indígenas para Espaço Equestre João Figueiredo;
– Biblioteca Nacional de Brasília – Essa pode ser incendiada e virar um monumento aos soldados mortos por guerrilheiros de esquerda.

Sobre o “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, slogan da ditadura recriado pelo SBT do lambe-botas Silvio Santos para impressionar o ex-capitão, a emissora jura que deu meia volta, volver. “A emissora não se atentou para o fato de que a frase remetia ao período do regime militar”, explicou numa nota em que anunciava sua retirada. Foi um “equívoco”. Equívoco uma ova.

“Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, reprisa o SBT, repetindo o refrão da ditadura e expondo a holding eletrônica ufanista-religiosa montada para apoiar Bolsonaro

O ano era 1969. Eu, nascido depois do golpe, tinha três anos. A ditadura militar vivia um de seus movimentos serpentinos, sibilando rumo aos anos de chumbo da ditadura. O Alto Comando das Forças Armadas, que faziam as vezes de urnas na época, escolheu para seguir a linhagem o general ultradireitista Emílio Garrastazu Médici – outro dos ídolos de Jair Bolsonaro, junto com o torturador Brilhante Ustra. O ministro do Exército, Orlando Geisel, ficou encarregado de doutrinar a área militar. Delfim Netto cuidava de maquiar o “milagre econômico” para os mesmos, como o capitão quer fazer agora com os números do desemprego. Na Casa Civil, o professor de direito Leitão de Abreu era o Onyx Lorenzoni da ocasião, só que sem o implante e sem o diploma de veterinário – muito apropriado para pajear o “Cavalão”, um dos apelidos mimosos de Bolsonaro. Os guerrilheiros Carlos Marighella e Carlos Lamarca haviam sido assassinados no regime. Os direitos fundamentais do cidadão foram reduzidos a pó e as prisões facilitadas – tal qual planeja agora o juiz-político Sérgio Moro (aliás, que horário eleitoral gratuito magnífico ganhou no Jornal Nacional de terça, mais de 15 minutos e um bloco inteiro). Nas escolas, nas fábricas, na imprensa, nos teatros, a sociedade brasileira sentia a mão de ferro da ditadura. O governo gastava milhões de “cruzeiros” em propagandas ufanistas para entorpecer sua imagem junto ao povo.

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Da esquerda para a direita: Silvio Santos, já gagá, fazendo o mesmo programa de auditório tosco que servia na ditadura como circo para abafar o som vindo dos porões; a nova vinheta do SBT, “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, resgatando a campanha publicitária repulsiva do regime militar; o “Ame-o ou Deixe-o” dos tempos de Médici, igualzinho, sem tirar nem por; Silvio Santos nos gabinetes presidenciais de Sarney e Figueiredo – para quem criou o programa “A Semana do Presidente” (sim, eles estudam voltar com essa bajulação); e Médici, fumando, entre Figueiredo e Leitão de Abreu, no Maracanã, na onda do “Pra Frente, Brasil”.

Um dos slogans dessa propaganda dizia: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Isso me marcou muito nos meus primeiros anos de vida. Lembro como se fosse hoje de adesivos nos vidros de carros – geralmente fuscas, Aero Willys e Gordinis, com esse convite no melhor estilo “Cai fora, esquerdista/comunista”. Por isso, juro que achei que eram fake news – infelizmente estamos vendo as fake news transformarem-se em bad news – os primeiros cutucões de colegas horrorizados informando que Silvio Santos, o lambe-botas da ditadura, a quem deve sua concessão de TV – assim como a Globo -, tinha resgatado o bordão da ditadura, na forma de novas” vinhetas, para celebrar Bolsonaro. Mais do que bajular o ditador eleito, o que fez a ditadura inteira, SS (estou falando de Silvio Santos, não da Schutzstaffel) exumou um dos slogans mais repulsivos de uma ditadura que queria mesmo era ver toda oposição bem longe – ou no exílio ou torturados nos porões do regime. Era a maneira de distinguir os adversários do regime e a massa da população, desinformada pela censura na imprensa e nas artes – que vivia um dia-a-dia de alguma esperança em anos de uma falsa prosperidade econômica. O “Vai pra Cuba”, na época, era algo como “Vai pro Chile” – mas isso só até Allende ser deposto e Pinochet iniciar seu banho de sangue.

Silvio Santos, mais conhecido da maioria dos espectadores brasileiros como o ex-camelô que virou um grande milionário, morando atualmente em Orlando, na Flórida, o comunicador criador do Baú da Felicidade, do Show de Calouros, do Roletrando, do “Topa Tudo por Dinheiro”, o patrão do Lombardi – sua viúva perdeu ação trabalhista contra Silvio Santos, mesmo com mais de 30 anos de serviços prestados pelo marido -, do Jassa, do Pablo (“Qual é a Música?”), o importador de novelas mexicanas, o sovina que luta contra o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa para tirar o Teatro Oficina do Bixiga -, é, por trás dos dentes postiços, da peruca e do microfone retrô no peito, um manipulador de audiências a serviço de quem está no poder. Só não foi assim com o PT. A concessão da TVS – hoje SBT – foi dada a Silvio Santos durante o governo Figueiredo. Logo depois, o apresentador e empresário criou o programa para divulgar os feitos do governo. A “Semana do Presidente” era uma espécie de boletim paramilitar de divulgação dos atos do governo, custeado pelo Estado. No regime militar, foi usado como mais um recurso para estimular o ufanismo e tentar aumentar a popularidade do presidente carrancudo, que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo. Essa lástima, inclusive, deve ser recriada no governo Bolsonaro. Imagina, então, se colocarem antes dos filmes no cinema, como faziam, junto com o Canal 100 (esse, sim, saudoso).

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O juiz-político Sérgio Moro, já indicado pelo ditador eleito, Jair Bolsonaro, para ser o futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, deu uma “longa entrevista” em Curitiba para dizer que, tecnicamente, não é político, abanar a calda para as decisões polêmicas de Bolsonaro sobre direitos civis e admitir que foi convidado ainda durante o segundo turno da campanha, um escracho total que desmoraliza a prisão de Lula e a campanha.

SS não está sozinho. Como escrevi no artigo passado (sugiro que releia, curta, compatilhe), Bolsonaro não está só focado nas mídias sociais e sua fábrica de fake news, um de seus trunfos eleitorais, mas, reconhecendo o poder ainda exercido pelas TVs, monta uma holding eletrônica – com promessa de forte injeção de publicidade – de apoio ao seu governo fascista. O ex-capitão ultradireitista é a grande esperança da Igreja Universal de seu cabo eleitoral Edir Macedo/Record e de “pregadores” eletrônicos de outras denominações, como Silas Malafaia – da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, atualmente na Band, Josué Valandro Jr., pastor Presidente da Igreja Batista Atitude, e  pastor Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, entre outros, para usar a máquina pública para favorecer grupos religiosos, manter sua santa isenção fiscal e trucidar direitos sociais, especialmente a causa LGBT. Sem falsa modéstia, acertei na mosca.

Com fracasso de Crivella no Rio, Igreja Universal do Reino de Bolsonaro, junto com outras “igrejas”, aposta em holding eletrônica de suporte ao governo fascista

O apoio de Edir Macedo a Jair Bolsonaro nas eleições não foi trivial, mas uma negociação em bases sólidas, que inclui um acerto do novo governo para solapar o poder das Organizações Globo – talvez o único projeto em comum com o PT -, com uma forte injeção de publicidade no Conglomerado Universal de Comunicações, ampliação de concessões de rádios e TVs – nos moldes ACM no Governo Sarney, versão Edir Macedo – e a criação de um bloco eletrônico de apoio ao governo fascista, similar ao que está sendo costurado no Congresso com as bancadas evangélica, ruralista e da bala. Tudo isso junto à manutenção da máquina montada nas redes sociais, que trocará as fake news contra o PT por good news pró-Bolsonaro. O ex-capitão ultradireitista é a grande esperança da Universal e de “pregadores” de outras denominações, como Silas Malafaia – mais um pastor eletrônico, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que está há 35 anos ininterruptos na TV, atualmente na Band -, Josué Valandro Jr. – pastor Presidente da Igreja Batista Atitude central da Barra, conhecido como “pastor da família Bolsonaro”, por ser “padrinho” da futura primeira-dama -, pastor Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, e Marco Feliciano, o pastor metrossexual, ex-namorado de Alexandre Frota – segundo Frota! – que chegou a presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara – para usar a máquina pública para favorecer grupos religiosos, manter sua santa isenção fiscal e trucidar direitos sociais, especialmente a causa LGBT.

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A holding dos crentes seguidores de Bolsonaro em ação: Edir Macedo, dono da Record e da IURD, que virou livro e filme; Marco Feliciano, o metro-pastor, no Pânico; de novo Edir Macedo, reencontrando Silvio Santos, do SBT, outro velho puxa-saco de ditadores; Silas Malafaia, o Jesse Valadão da Chanchada Crente, ora com a família no palco da Assembleia de Deus, ao vivo; e Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, acarinhando o poder, no caso, Temer.

Com o retumbante fracasso administrativo do bispo da IURD Marcelo Crivella no Rio, que, mesmo admitindo concorrer à reeleição em 2020, tem menos chances de ser eleito que um demônio pedir dízimo durante exorcismo em Igreja, Bolsonaro tornou-se o “presidente dos sonhos” de quem quer mais do que levar fiéis para o céu. Este site tem informações seguras, baseado em contatos com fontes nas redações de diversos veículos afetados, que está sendo montado um rasteiro, mas eventualmente eficiente, projeto de poder, para tornar o Brasil uma República Fundamentalista, dessas que você se arrepia de ver assistindo episódios de “O Conto da Aia”. Com controle de redes sociais, diante da inoperância de seus “cuidadores”, e da mídia eletrônica, e conscientes que estão, como já disse Bolsonaro, referindo-se mais à Folha de S.Paulo, que a mídia impressa não apita mais nada,  pretendem ter o controle do noticiário. É muito claro que trata-se do espraiamento de um projeto de poder, formado por redações doceis, que nesta segunda, 05, foi marcado por uma limpa na TV Gazeta, que demitiu cerca de 80 profissionais, após um restabelecimento de “negociações com a Igreja Universal”. Além do diretor Dácio Nitrini e o editor-chefe Sérgio Galvão, foram dispensados todos os demais componentes da cúpula do jornalismo, comentaristas dos telejornais, inclusive Bob Fernandes – uma das poucas vozes ponderadas a questionar o significado da eleição de Bolsonaro – e o apresentador Rodolpho Gamberine, que recebeu a notícia em Paris, em férias. Só restou no Departamento de Jornalismo o suficiente para cumprir a cota de jornalismo exigida das concessões de rádio e TV.

Ali perto, no SBT, outro camelô de espaços editoriais, Silvio Santos, dono do SBT – e criador da nefasta “Semana do Presidente”, no governo do ditador João Figueiredo, e que seguiu até FHC -, vejam só, reencontrou-se após 17 anos, com o dono da Record, ele mesmo, Edir Macedo. Tiveram, no Templo de Salomão, em São Paulo – a nababesca sede da Igreja Universal em São Paulo -, uma “conversa produtiva”. O Domingo Espetacular, capitaneado por Paulo Henrique Amorim, vejam só, o isentão, exibiu “com exclusividade esse momento inédito na televisão brasileira”. Histórico para quem, PHM? Que Conversa Fiada, hem? E assim vai se formando, Record, Gazeta, SBT, quem sabe Band, a Rede Bolsonaro de Televisão. Agora se entende porque Bolsonaro quer extinguir a emissora pública do governo federal controlada pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Pra que? Ou talvez ele mantenha – atenção, coleguinhas que votaram no Bozo, vamos acochambrar: Bolsonaro considera manter algumas emissoras controladas pela EBC – TV Brasil, TV NBR, rede da Rádio Nacional e Rádio MEC, além da Voz do Brasil. Para serem, claro, usadas como principal meio de comunicação com os eleitores. Mas mantenham-se reaças, inclusive nas mídias sociais. A parte evangélica e reacionária do pedaço está bem administrada.

E para não dizer que não falei dos católicos, Bolsonaro, que, por sinal concedeu entrevista à rádio católica TV Aparecida, foi linda a omissão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que, como Pilatos, lavou as mãos no segundo turno entre Deus e o Diabo, enquanto a tal Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil e suas igrejas afiliadas engajou-se com sermões e dízimos na campanha do Cramunhão. A CNBB vai comer o pão que o diabo amassou. A Universal, que já é dona da TV Record – fora o portal R7 e rádios em todo o país -, vai comandar o resto do pedaço. E bem-vindos ao conto da Aia.

Bolsonaro levaria zero na prova do Enem. Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio

“Agora acordei para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando exterminaram o Congresso. Quando culparam os terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário. Nada muda instantaneamente. (… )”.
Trecho de fala da atriz Elizabeth Moss, protagonista e co-produtora da série ‘O Conto da Aia’, série distópica baseada em livro homônimo de Margareth Atwood. Temporada 1.

A redação do Enem 2018 – o Exame Nacional do Ensino Médio, o maior vestibular do Brasil, utilizado para avaliar a qualidade do ensino médio no país e porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras – teve como tema a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. O tema não surpreendeu professores, que apostavam em uma redação girando em torno de fake news, um dos temas mais polêmicos da campanha. Acabou sendo ainda mais amplo. O Enem deu a estudantes – muitos certamente eleitores de Jair Bolsonaro – a chance de discorrer sobre algoritmos, mídias sociais, manipulação, catarse cibernética. Nada mais apropriado. O ditador eleito montou uma ‘Fantástica Fábrica de Fake News‘, denunciada pela Folha de S.Paulo, nas mídias sociais e especialmente no Whatsapp, uma rede que gera muita confiança porque são pessoas próximas a elas que mandam as notícias. O objetivo de Bolsonaro foi alcançado: fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT nas últimas semanas da campanha e financiadas por empresários amigos do “mito”. O TSE ficou petrificado. A Procuradoria-Geral da República, idem. Quanto ao Enem, às vésperas de um governo de ultradireita, que defende a “escola sem partido” e estimula o macarthismo por alunos, denunciando professores “comunistas”, não se surpreenda se acabar ou abolir a Redação das provas obrigatórias.

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Empreendedores ricos, Luciano Hang (esq) e  Mário Gazin (dir), típicos ricaços sovinas, gravaram vídeo de apoio a Bolsonaro, em que Gazin admitiu Caixa 2 e disse que não aguentava mais gastar na campanha de Bolsonaro. Deve ter valido a pena.

No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhotes do Coiso, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”.

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No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhotes do ditador eleito, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”. Bom, o tema acabou sendo “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Tomou, Papudo!

Se, redigindo, Bolsonaro já teria dificuldade de explicar, em palavras, o serviço sujo que delegou, por caixa 2, a empresas, responsáveis por fabricar e impulsionar fake news – vamos combinar que o forte do ex-capitão não são as palavras -, certamente o ultradireitista tiraria zero na prova de Redação, já que quem escreve textos que firam os direitos humanos pode perder até 200 dos 1 mil pontos possíveis. Imagine Bolsonaro, um homofóbico, misógino, preconceituoso, anti-direitos sociais e trabalhistas, defensor da ditadura de 64, que tem como ídolo o torturador Brilhante Ustra, escrevendo sem ferir a gramática, nem os direitos humanos. Não passaria do primeiro parágrafo.

Encagaçado, o ministro da Educação de Temer (quem?), um certo Rossieli Soares (quem??) teve, imagine só, que vir a público para dizer que o tema da edição de 2018 foi escolhido há quatro meses pelos técnicos do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A campanha eleitoral teve início em 16 de agosto. No primeiro dia do Enem, os candidatos fizeram também provas de Ciências Humanas e Linguagens, onde apareceram tópicos como feminismo, nazismo, escravidão, regime militar, crise de refugiados, entre outros. Na prova de Linguagens, uma pergunta abordava um dicionário criado somente para o vocabulário usado por travestis — a questão pedia que os candidatos decodificasse o que era dito. Bolsonaro, não pense que estou brincando, pode acabar querendo impugnar o Enem por ser parte do inventado kit gay uma de suas fake news da campanha.

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Cenas gays do filme “Bohemian Rhapsody”, que conta a história do mito Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, estão sendo vaiadas (!) nos cinemas brasileiras. O descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie?

E para não dizer que não falei de ódio, depois das vaias à lenda do rock Roger Waters, o ex-Pink Floyd, que exibiu em sua turnê no Brasil o #Elenão e o #Resist em um protesto contra a inescapável eleição de Bolsonaro, dessa vez quem teve a memória desrespeitada foi o cantor Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, que morreu de Aids em 1991, aos 45 anos de idade. Um dos filmes mais aguardados do ano, ‘Bohemian Rhapsody‘ chegou aos cinemas brasileiros na última semana, contando sua biografia. Se por um lado os fãs do grupo saíram extasiados da sala, outra parte dos espectadores brasileiros vaiaram (!) cenas homoafetivas exibidas no longa. E o descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie? É de dar muita vergonha – e medo. Eu vejo “O Conto da Aia” e cada vez mais enxergo o Brasil.

Moro ministro de Bolsonaro é prova da trama política que levou ao impeachment de Dilma, à prisão de Lula, à eclosão do antipetismo e à entrega do pré-sal

Dilma Rousseff é reeleita. Aécio Neves jura a presidente de impeachment e pede recontagem dos votos. PMDB e PSDB inviabilizam o governo petista no Congresso e o asfixiam com “pautas bomba”. Eduardo Cunha condena Dilma Rousseff por pedaladas fiscais. Michel Temer assume e realiza o oposto do programa da chapa eleita e segue a cartilha neoliberal, rifando o pré-sal. Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, apresenta seu power point colocando Lula como chefe do esquema. O juiz Sérgio Moro condena e manda prender Lula, tirando-o da disputa presidencial. Chegam as eleições e o candidato do PSL monta uma fantástica fábrica de fake news pelo whatsapp contra Haddad, denunciada pela Folha, mas a Justiça Eleitoral- como antes o TCU, o STJ e o Supremo – fingem de mortos. Bolsonaro fecha um pacto de sangue com Edir Macedo, o sangue-suga-mor da Igreja Universal do Cofre de Deus. A mídia bota carga no antipetismo, tenta emplacar alguns candidatos fake, como Luciano Huck, até que, no funil do segundo turno, cai nos braços do ultradireitista Bolsonaro. Às favas o país. Bolsonaro é eleito menos pelos seus zumbis e robôs, e mais pelos mais de 30% dos brasileiros que optaram pelo “não voto” – 42,1 milhões de Pilatos. Bolsonaro monta um ministério patético e – como se tirasse um ás da manga – convida para comandar o Ministério da Justiça – e a Polícia Federal – o responsável pela Lava Jato, Sérgio Moro, que aceita. Está mais claro agora ou é preciso um power point?

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Em nome do pai, do filho e do fascismo. Moro, o cara que perseguiu o PT, arrancou delações a fórceps – tirando o sigilo da de Palocci durante as eleições – e mandou prender Lula para que não fosse candidato, aceitou convite de Bolsonaro e diz que será ministro da Justiça para “afastar riscos de retrocessos”. Como o próprio vice Mourão confessou, o convite se deu durante a campanha.. Em nota, o Judge Dredd da terra dos pinhais prometeu “forte agenda anticorrupção”. Contra quem será?

Moro não será apenas um ministro de Bolsonaro. Terá poderes tão grandes que já está aberta a temporada de apostas de que já é um candidato natural à sucessão do Coiso. Moro, que jurou em entrevista ao Estadão em novembro de 2016, que jamais entraria para a política, não só entrou de cabeça, ao aceitar ser ministro do candidato vitorioso que derrotou nas urnas o PT que ele desconstruiu em sua Corte, como já está sendo inflado a ser o candidato do governo à sucessão de Jair Bolsonaro — que tem repetido que não concorrerá a um segundo mandato. A ideia já circula entre integrantes do “núcleo duro” da equipe do capitão reformado – “núcleo duro” nessa turma é redundância -, segundo jornalistas bem informadas, como Mônica Bergamo. Moro não poderá mais interrogar o ex-presidente Lula, como faria em 14 de novembro, mas nem precisa.

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Gabriela Hardt, a juíza que vai substituir Moro na Lava Jato, é farinha da mesma Lava Jato. É antipetista, anti-Lula e acha que o PT roubou o futuro do país – como seus posts nas redes sociais escancaram. Seu pai, o engenheiro químico Jorge Hardt Filho, trabalhou na Petrobras por mais de duas décadas. Receptiva aos pleitos dos policiais federais e dos procuradores, estará pronta a servir o chefe, agora como ministro.

Não só porque sua sucessora Gabriela Hardt, a juíza que vai substituir Moro na Lava Jato, é farinha da mesma Lava Jato. É antipetista, anti-Lula e estará pronta a servir o chefe, agora como ministro. Mas porque Moro agora é o dono do pedaço. Terá não só a fusão das pastas do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, como a própria Polícia Federal, o Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União, órgão de controle interno do Governo Federal responsável por realizar atividades relacionadas à defesa do patrimônio público, o Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica que combate cartéis, e o Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, este último hoje ligado ao ministério da Fazenda. Após o encontro protocolar com Bolsonaro – até porque a decisão já estava tomada -, Moro divulgou nota dizendo que aceitou “honrado” o convite. Moro disse, ainda, que aceitava o cargo com “certo pesar” pois terá que abandonar a carreira de juiz após 22 anos de magistratura – na pior das hipóteses, sabe que tem vaga certa no STF de Bozo. Moro é o quinto ministro anunciado pelo governo Bolsonaro. Outros quatro já foram anunciados: Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Paulo Guedes (Economia), general Augusto Heleno (Defesa) e Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia).

Deltan Dallagnol, procurador do Ministério Público Federal durante apresentação das denúncias
O procurador fundamentalista Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa da Lava Jato e membro da Igreja Batista de Bacacheri, em Curitiba, também aguarda seu convite para o ministério Bolsonaro pelos bons serviços prestados. Na foto, em sua famosa apresentação de power point que virou meme, colocando Lula ao centro de esquema chamado de petrolão. Cumpriu fielmente sua missão de inflamar preconceitos e paixões e aniquilar a possibilidade de Lula ter um julgamento justo e imparcial

O PT está perplexo. Foi pego de calças nas mãos. Mal absorveu a derrota de Fernando Haddad, terá que lidar agora com esse relevante fato político. As reações, de bate pronto, foram as esperadas. Os advogados de defesa de Lula ingressaram na 13ª Vara Criminal de Curitiba (PR) com um pedido de nulidade do processo relativo ao Instituto Lula, movido pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo juiz Sérgio Moro. A argumentação da defesa do ex-presidente é pela prática de lawfare (uso das leis e dos procedimentos jurídicos para fins de perseguição política). De acordo com os advogados, a “conexão política” do juiz de primeira instância com o presidente eleito fica evidente diante do convite aceito por Moro na manhã desta quinta, 01/11. “Moro é um juiz ativista e agora assumiu esse lado”, fez coro o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, que defende atualmente 17 pessoas em processos ligados à Operação Lava Jato. Kakay criticou a rapidez do juiz Moro ao aceitar o cargo, tão poucos dias após a confirmação da vitória de Bolsonaro nas urnas, em 28 de outubro. “É quase assustador ele assumir com essa gana um cargo de ministro da Justiça tão logo saia o resultado das eleições, antes mesmo da posse. Porque nós estamos vendo um juiz que instrumentalizou o poder Judiciário, e isso é gravíssimo. De certa forma, a partir de agora, ele terá que responder por isso.”

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Do advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defende réus na Lava Jato: “Ele (Moro) é um juiz ativista político. Agora ele assumiu o lado ativista político. Ele envergonha o poder Judiciário. (…) A aceitação desse cargo comprova aquilo que nós advogados, eu inclusive, estamos dizendo há bastante tempo: a parcialidade do juiz Moro. (…) O ato que ele fez é lamentável para o poder Judiciário, compromete o poder Judiciário. A isenção do juiz é uma das principais garantias que o cidadão tem.”

Enquanto isso no Rio, como bem descreveu o valoroso jornalista Jan Theophilo, no Informe JB – que, como eu, não é petista, comunista, maoista, stalinista, mas tem olhos e enxerga -, na coluna “Os snipers do Seu Wilson”, vivemos o microcosmo da ditadura eleita. Juiz medíocre, reacionário e rico, como a maioria de seus pares, conhecido pelo vídeo onde aplaude dois mequetrefes bombados, em um comício em Petrópolis, quebrando a placa de homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco, solta de dentro de sua bolha soluções fáceis – e, pior, já experimentadas e que deram em nada. Exceto em mais mortes de civis – geralmente favelados, negros, jovens e pobres. Pois o novo governador Wilson Witzel, apoiador de Bolsonaro, defendeu “abater” (palavras dele) – derrubar por terra, matar a tiros, exterminar – quem estiver de posse de um fuzil. Ele quer também, coerentemente com sua ética, prorrogar por mais 10 meses a intervenção militar no Rio, com resultados pífios. Ao Estúdio I, da GloboNews, governador eleitor disse que pediu levantamento de policiais da Core e do Bope qualificados para matar bandidos de longa distância e que liberará disparos de helicópteros. “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro”, disse ao Estadão. Vai ser uma chacina. De pobres.

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Eleitos, acabaram os escrúpulos e os cuidados com as palavras dos fascistas eleitos. Juiz medíocre, reacionário e rico, como a maioria de seus pares, Heil Witzel, governador eleito do Rio, pediu levantamento de policiais da Core e do Bope qualificados para matar bandidos de longa distância e que liberará disparos de helicópteros. Pro estado que já teve zepelim vigiando os céus, acabou a inocência. É a política de segurança pública nos snipers. “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro”, disse o fascista.