“Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, reprisa o SBT, repetindo o refrão da ditadura e expondo a holding eletrônica ufanista-religiosa montada para apoiar Bolsonaro

O ano era 1969. Eu, nascido depois do golpe, tinha três anos. A ditadura militar vivia um de seus movimentos serpentinos, sibilando rumo aos anos de chumbo da ditadura. O Alto Comando das Forças Armadas, que faziam as vezes de urnas na época, escolheu para seguir a linhagem o general ultradireitista Emílio Garrastazu Médici – outro dos ídolos de Jair Bolsonaro, junto com o torturador Brilhante Ustra. O ministro do Exército, Orlando Geisel, ficou encarregado de doutrinar a área militar. Delfim Netto cuidava de maquiar o “milagre econômico” para os mesmos, como o capitão quer fazer agora com os números do desemprego. Na Casa Civil, o professor de direito Leitão de Abreu era o Onyx Lorenzoni da ocasião, só que sem o implante e sem o diploma de veterinário – muito apropriado para pajear o “Cavalão”, um dos apelidos mimosos de Bolsonaro. Os guerrilheiros Carlos Marighella e Carlos Lamarca haviam sido assassinados no regime. Os direitos fundamentais do cidadão foram reduzidos a pó e as prisões facilitadas – tal qual planeja agora o juiz-político Sérgio Moro (aliás, que horário eleitoral gratuito magnífico ganhou no Jornal Nacional de terça, mais de 15 minutos e um bloco inteiro). Nas escolas, nas fábricas, na imprensa, nos teatros, a sociedade brasileira sentia a mão de ferro da ditadura. O governo gastava milhões de “cruzeiros” em propagandas ufanistas para entorpecer sua imagem junto ao povo.

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Da esquerda para a direita: Silvio Santos, já gagá, fazendo o mesmo programa de auditório tosco que servia na ditadura como circo para abafar o som vindo dos porões; a nova vinheta do SBT, “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, resgatando a campanha publicitária repulsiva do regime militar; o “Ame-o ou Deixe-o” dos tempos de Médici, igualzinho, sem tirar nem por; Silvio Santos nos gabinetes presidenciais de Sarney e Figueiredo – para quem criou o programa “A Semana do Presidente” (sim, eles estudam voltar com essa bajulação); e Médici, fumando, entre Figueiredo e Leitão de Abreu, no Maracanã, na onda do “Pra Frente, Brasil”.

Um dos slogans dessa propaganda dizia: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Isso me marcou muito nos meus primeiros anos de vida. Lembro como se fosse hoje de adesivos nos vidros de carros – geralmente fuscas, Aero Willys e Gordinis, com esse convite no melhor estilo “Cai fora, esquerdista/comunista”. Por isso, juro que achei que eram fake news – infelizmente estamos vendo as fake news transformarem-se em bad news – os primeiros cutucões de colegas horrorizados informando que Silvio Santos, o lambe-botas da ditadura, a quem deve sua concessão de TV – assim como a Globo -, tinha resgatado o bordão da ditadura, na forma de novas” vinhetas, para celebrar Bolsonaro. Mais do que bajular o ditador eleito, o que fez a ditadura inteira, SS (estou falando de Silvio Santos, não da Schutzstaffel) exumou um dos slogans mais repulsivos de uma ditadura que queria mesmo era ver toda oposição bem longe – ou no exílio ou torturados nos porões do regime. Era a maneira de distinguir os adversários do regime e a massa da população, desinformada pela censura na imprensa e nas artes – que vivia um dia-a-dia de alguma esperança em anos de uma falsa prosperidade econômica. O “Vai pra Cuba”, na época, era algo como “Vai pro Chile” – mas isso só até Allende ser deposto e Pinochet iniciar seu banho de sangue.

Silvio Santos, mais conhecido da maioria dos espectadores brasileiros como o ex-camelô que virou um grande milionário, morando atualmente em Orlando, na Flórida, o comunicador criador do Baú da Felicidade, do Show de Calouros, do Roletrando, do “Topa Tudo por Dinheiro”, o patrão do Lombardi – sua viúva perdeu ação trabalhista contra Silvio Santos, mesmo com mais de 30 anos de serviços prestados pelo marido -, do Jassa, do Pablo (“Qual é a Música?”), o importador de novelas mexicanas, o sovina que luta contra o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa para tirar o Teatro Oficina do Bixiga -, é, por trás dos dentes postiços, da peruca e do microfone retrô no peito, um manipulador de audiências a serviço de quem está no poder. Só não foi assim com o PT. A concessão da TVS – hoje SBT – foi dada a Silvio Santos durante o governo Figueiredo. Logo depois, o apresentador e empresário criou o programa para divulgar os feitos do governo. A “Semana do Presidente” era uma espécie de boletim paramilitar de divulgação dos atos do governo, custeado pelo Estado. No regime militar, foi usado como mais um recurso para estimular o ufanismo e tentar aumentar a popularidade do presidente carrancudo, que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo. Essa lástima, inclusive, deve ser recriada no governo Bolsonaro. Imagina, então, se colocarem antes dos filmes no cinema, como faziam, junto com o Canal 100 (esse, sim, saudoso).

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O juiz-político Sérgio Moro, já indicado pelo ditador eleito, Jair Bolsonaro, para ser o futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, deu uma “longa entrevista” em Curitiba para dizer que, tecnicamente, não é político, abanar a calda para as decisões polêmicas de Bolsonaro sobre direitos civis e admitir que foi convidado ainda durante o segundo turno da campanha, um escracho total que desmoraliza a prisão de Lula e a campanha.

SS não está sozinho. Como escrevi no artigo passado (sugiro que releia, curta, compatilhe), Bolsonaro não está só focado nas mídias sociais e sua fábrica de fake news, um de seus trunfos eleitorais, mas, reconhecendo o poder ainda exercido pelas TVs, monta uma holding eletrônica – com promessa de forte injeção de publicidade – de apoio ao seu governo fascista. O ex-capitão ultradireitista é a grande esperança da Igreja Universal de seu cabo eleitoral Edir Macedo/Record e de “pregadores” eletrônicos de outras denominações, como Silas Malafaia – da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, atualmente na Band, Josué Valandro Jr., pastor Presidente da Igreja Batista Atitude, e  pastor Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, entre outros, para usar a máquina pública para favorecer grupos religiosos, manter sua santa isenção fiscal e trucidar direitos sociais, especialmente a causa LGBT. Sem falsa modéstia, acertei na mosca.

1984 + Fahrenheit 451: Bolsonaro prega macartismo, incentiva dedo-durismo e elege professores como alvos

A “Escola sem partido” defendida pela capitão eleito, seu séquito de generais robôs, economistas toscos e por aquela parte de eleitores zumbis que acha que escola, professor, livros e pensamento livre são coisas de comunistas, evoluiu para a “Escola Macartista”, onde os “soldados” do fascismo começam a marchar, mostrando que, além de provavelmente montar uma baita rede de informações, como o SNI da ditadura, Bolsonaro estimulará o voluntarismo antidemocrático, o serviço sujo de informantes, nos moldes da ditadura, provavelmente com o apoio do MBL. “A orientação que dou a toda a garotada do Brasil: vamos filmar o que acontece nas salas de aula e divulgar”, pregou Bolsonaro nas redes sociais, incentivando o dedo-durismo típico dos regimes de exceção. Os professores parecem ser o primeiro alvo de Bolsonaro, que pode ter como ministro da Educação um dos generais de pijama de seu time medíocre de futuros ministros, o fardado Aléssio Ribeiro Souto, que defende a revisão bibliográfica e curricular para evitar o “ensino partidarizado” e acredita no revisionismo da ditadura de 1964, para amacia-la em uma revolução contra o comunismo. O incentivo à intimidação foi refletida essa semana pela deputada estadual eleita por Santa Catarina, a ruiva Ana Caroline Campagnolo (PSL), que divulgou nas redes sociais um comunicado pedindo que estudantes catarinenses gravem e denunciem manifestações político-partidárias. 1984 + Fahrenheit 451.

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O ditador eleito grava vídeo – dirigido a um aluno de Serra (ES) – para pedir que alunos filmem os professores em sala de aula e os delatem. “Entre um contato conosco, tenho uma surpresinha para esses professores”, ameaçou. Está fazendo “escola”. A deputada estadual eleita por Santa Catarina Ana Caroline Campagnolo (PSL) – na foto com um bastão escrito “Direitos Humanos”, pediu o monitoramento de professores e incentivou nas redes sociais um comunicado pedindo para que estudantes catarinenses gravem e denunciem manifestações político-partidária.

Nesse caso, houve reação e o Ministério Público de Santa Catarina vai investigar a conduta da aprendiz de reaça que se propôs até a criar um disque-professores comunistas.  Esfregaram na cara da fascista de primeiro mandato – e que mora num apartamento do Minha Casa, Minha Vida (pausa para gargalhar) – um abaixo-assinado de mais de 200 mil assinaturas com uma petição para impugná-la. Em nota, os sindicatos representantes dos trabalhadores em educação das redes pública e privada municipal, estadual e federal do Estado de Santa Catarina classificaram o comunicado da ‘louca do PSL’ como ameaça e ataque à liberdade de ensinar do professor. Segundo os sindicatos, isso “é tipicamente aplicado em regimes de autoritarismo e censura”. Agentes infiltrados nas universidades e o incentivo ao dedo-durismo foram marcas da ditadura, principalmente nas universidades, então focos de resistência. Eram os chamados “elementos de segurança”, muitos expostos em meio aos documentos já desclassificados da ditadura militar, abertos à consulta pública no Arquivo Nacional.

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A foto de um homem identificado apenas como “elemento de segurança” chama a atenção em meio aos documentos já desclassificados da ditadura militar, abertos à consulta pública no Arquivo Nacional. Pode ser uma das raras imagens identificadas pela própria ditadura sobre um tipo muito comum na época, que muitos prejuízos causaram à comunidade universitária do país: os agentes infiltrados nas universidades, responsáveis por dedurar estudantes e professores que militavam contra o regime. O dedo-durismo está voltando.

Segundo o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), em todo o país, professores já têm sofrido ameaças. A orientação do sindicato é que os docentes que passarem por situação de constrangimento e ameaças mantenham a tranquilidade e reúnam o máximo de evidências e provas das situações e copiem os conteúdos caso as ameaças tenham sido feitas por meio de redes sociais. Os professores devem procurar a seção sindical local para que as medidas cabíveis sejam tomadas. Em nota, a Anistia Internacional diz que crescem no Brasil os relatos de professores em escolas e em universidades que têm sofrido pressões indevidas, coerções e intimidações.

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Celso de Mello mostra que o STF, de tantas lambanças, percebeu que agora deve ser um dique de contenção ao fascismo e de garantia à liberdade de pensamento. “O pluralismo político que legitima livre circulação de ideias é um dos fundamentos do estado democrático de direito, diz a Constituição da República.” STF veta ação policial nas universidades.

Ah, a maioria do STF – que, quem diria, está se tornando um dique de contenção dos abusos- confirmou decisão que suspendeu ações policiais em campus. Universidades públicas de ao menos nove estados brasileiros foram alvos de operações autorizadas por juízes eleitorais na semana passada. As ações aconteceram para averiguar denúncias de campanhas político-partidárias que estariam acontecendo dentro das universidades.

Já no Congresso, outra vitória. Deputados da oposição conseguiram impedir que a comissão especial discutisse o projeto de lei Escola Sem Partido. Apenas oito parlamentares registraram presença, impedindo que houvesse quórum. O projeto, cujo objetivo é “não cooptar os alunos para nenhuma corrente política, ideológica ou partidária”, estava esquecido e foi agendado de última hora após a eleição do Coiso. Na atual redação, fica também proibido o ensino sobre questões de gênero ou orientação sexual. Até o fim do mês, o STF deve julgar propostas de Escola Sem Partido. A tendência é de que sejam consideradas inconstitucionais, segundo a bem informada Monica Bergamo, na Folha.

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A mediocridade de nomes cotados para o futuro ministério do ditador eleito: deputado Onyx “Caixa 2” Lorenzoni, Casa Civil; general da reserva Augusto “Fora Direitos Humanos” Heleno, na Defesa; o tenente-coronel da reserva Marcos “Fui Astronauta” Pontes, na Ciência e Tecnologia; general Aléssio “Queimem livros” Ribeiro Souto, que pode ir parar na Educação; o economista Paulo “Posto Ipiranga” Guedes, na Economia; Gustavo “Fake News” Bebianno, presidente do PSL, que pode ir para a Secretaria-Geral da Presidência; Presidente da União Democrática Ruralista, o pecuarista Luiz “fora MST” Antônio Nabhan Garcia, para a Agricultura; o juiz federal Sérgio “Lava Jato e prende Lula” Moro, que pode ser o xerife de um superministério da Justiça e Segurança Pública, mandando na Polícia Federal; e Magno “Sinhozinho Malta Gospel”, que perdeu a vaga no Senado e terá uma boquinha no governo.

Bolsonaro segue montando seu ministério medíocre, formado, pelos nomes anunciados até agora, por generais linha-dura, pecuaristas e religiosos reacionários, economistas medíocres e toda a hora de múmias que, com a vitória do Coiso, saiu de seus sarcófagos. Dois deles já conseguiram bater de frente, o deputado Onyx “Caixa 2” Lorenzoni, cotado para a Casa Civil, e o camelô de estatais Paulo “Posto Ipiranga” Guedes, vaga certa na pasta da Economia. O pomo da discórdia, a polêmica reforma da Previdência. “(Onyx) Está dizendo que não tem pressa na Previdência”, se queixou Guedes. “Aí o mercado cai. É político falando de economia. É a mesma coisa que eu sair falando de política.” Guedes precisa urgentemente ir a um spa e ser massageado com pedras onyx, muito usadas para sessões terapêuticas e de cura energética. Também devem estar na Esplanada o general da reserva Augusto “Fora Direitos Humanos” Heleno, na Defesa; o tenente-coronel da reserva Marcos “Fui Astronauta” Pontes, na Ciência e Tecnologia; Gustavo “Fake News” Bebianno, presidente do PSL, que pode ir para a Secretaria-Geral da Presidência; o “novo Caiado” Luiz “fora MST” Antônio Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista, para a Agricultura; o juiz federal Sérgio “Lava Jato e prende Lula” Moro, que pode ser o xerife de um superministério da Justiça e Segurança Pública, mandando na Polícia Federal. Será que vai abrir o polpudo salário de juiz? O vice Mourão “língua solta” revelou, para constrangimento geral, que Moro já havia sido sondado durante a campanha! E, claro, o guru espiritual de Bolsonaro, o encaracolado Magno “Sinhozinho Malta Gospel”, que perdeu a vaga no Senado e, em retribuição, terá uma boquinha no governo, nem que seja como trovador de aluguel.

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Em cima, Eliseu Padilha, atual ministro da Casa Civil, e Onyx Lorenzoni, futuro chefe da pasta. Abaixo, Jim Carrey e Jeff Daniels em “Debi & Lóide”. Não confundam, os políticos são os de cima. 

Ah, Bolsonaro e Temer se reunirão na próxima semana em Brasília. Onyx e Eliseu Padiha, ex e futuro chefes da mesma pasta, juntos, deve ser uma daquelas cenas dantescas. Onyx apresentou ao governo lista com 22 nomes para integrar equipe de transição. Dizem os maldosos que Padilha sorriu e cochichou ao lado: “E nós éramos ruins…”.

 

Apocalipse: Ibope aponta vantagem dos mortos-vivos. Só resta a Ciro parar de pensar com o fígado e usar a cabeça. E Haddad trocar o coração pelos punhos

Por mim, bastava o título, mas, mesmo cansado, vou escrever um pouco mais. Não vou entrar no armário da pesquisa Ibope desta noite, “a primeira pesquisa de intenção de voto para presidente no 2º turno”, destaque na escalada do Jornal Nacional, manchete de todos os jornais amanhã, festa na bolsa, o mercado tendo orgasmos múltiplos, as multinacionais do petróleo dando banquetes, o comando das Forças Armadas vertendo lágrimas em suas fardas com medalhas sem guerra. Ou vou. Um pouquinho. O resultado  – partindo da premissa de que os números são confiáveis e não estratégia de desmobilização – quase confirma, há duas semanas das eleições, o apocalipse zumbi com a volta dos mortos vivos fardados, junto com os neoliberais disfarçados com sangue e tripas (alguém aqui assiste Walking Dead?), com capitães mandando em generais, economistas medíocres se lambuzando com planilhas, e eleitores mostrando que o antipetismo evoluiu para uma imbecilidade política que beira a demência. De resto, é ditadura igual, e, se não questiono a urna eletrônica, ao contrário do Bolsonaro – não mais, pelo jeito -, questiono a inteligência de quem a usa. Se, e se, os resultados do ibope – e pesquisas similares – estiver correto.

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No Dia dos Professores, o professor Haddad homenageou os mestres, deu entrevistas defendendo a educação em tempo integral – o que a mídia distorceu como condenação ao ensino à distância -, e defendeu investimentos nas universidades públicas – o que a mídia viu como atestado de ociosidade dessas instituições. Jair Bolsonaro visitou o Bope (Batalhão de Operações Especiais) no Rio de Janeiro e antecipou que um general reacionário que defende revisar currículos e bibliografias usadas nas escolas, que pode ser seu ministro da Educação. Ciro? Ah, Ciro viaja…

Nos votos válidos, os resultados foram os seguintes, segundo o Ibope: Jair Bolsonaro (PSL): 59%, Fernando Haddad (PT): 41%. A rejeição a Haddad (“Não votaria nele de jeito nenhum”) chega a 47%, ultrapassando os 35% de Bolsonaro. Como é que é? Isto não é uma pesquisa, é um diagnóstico de tumor. Coordenador da campanha de Fernando Haddad à Presidência, o ex-governador da Bahia e senador eleito Jaques Wagner afirmou que a melhor estratégia para uma vitória na corrida presidencial seria o lançamento de Ciro Gomes (PDT) ao Palácio do Planalto. Peraí, o que eu não entendi? É fogo amigo ou traição – pura e simples? Ou existe mesmo um plano para levar Ciro Gomes triunfante de seu exílio de uma semana na Europa para transforma-lo no candidato da “frente-de-centro-esquerda-capaz-de-derrubar-o-fascista-bolsonaro”? Foi proposta da ex-candidata a vice de Ciro, senadora Katia Abreu, que sugeriu a substituição de Haddad por Ciro Gomes para “garantir a eleição”. Qual o jogo de Wagner? Qual o jogo de Ciro? Os eleitores do PT e de Ciro concordam com isso? Agora? Isso já não é curso de línguas, é aprender chinês em 15 dias.

Era o Dia dos Professores, e o professor Haddad deu entrevistas defendendo a educação em tempo integral – o que a mídia distorceu como condenação ao ensino à distância -, e defendeu investimentos nas universidades públicas – o que a mídia viu como atestado de ociosidade dessas instituições. Jair Bolsonaro visitou o educativo Bope (Batalhão de Operações Especiais) no Rio de Janeiro, uma das polícias mais truculentas do mundo – incensada pelo “Tropa de Elite” de Padilha, de “O Processo” -, e antecipou que um general reacionário pode ser seu ministro da Educação. Trata-se do general Aléssio Ribeiro Souto, já velho conhecido da campanha, que diz que “é muito forte a ideia” de se fazer ampla revisão dos currículos e das bibliografias usadas nas escolas para evitar que crianças sejam expostas a ideologias e conteúdo impróprio. Ele defende que professores exponham a “verdade” sobre o “regime de 1964” – revisionismo histórico, 1984, George Orwell, já falei disso aqui -, narrando, por exemplo, mortes “dos dois lados”. Ex-chefe do Centro Tecnológico do Exército, foi chamado a coordenar debates de ciência e tecnologia, mas acabou acumulando educação “por afinidade”. Contrário à política de cotas, defendeu o Estado de S.Paulo a “prevalência do mérito” e disse que, se a ideia for aceita por Bolsonaro, serão estudadas medidas “não traumáticas” para substituir as regras”.

Em entrevista à Rádio Jornal, de Barretos, Bolsonaro resumiu: o objetivo de seu governo é fazer “o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. É um visionário, com os olhos no retrovisor. Estamos fodidos se esse cara for eleito. Até esse momento, a campanha torpe de Bolsonaro, rei das fake news, fujão de debates, conseguiu amplificar a PTfobia, e os petistas não conseguiram desconstruir a farsa que é Bolsonaro, nem contaram com os aliados de quem esperavam, pelo menos, decência.

Bolsonaro e o “negacionismo histórico”: os planos do capitão e de seus cúmplices fardados de apagar a ditadura de 1964

O revisionismo histórico, ou reinterpretação da História, ou negacionismo, baseado na linha tênue da ambiguidade dos fatos históricos, e na capacidade de quem está no comando de – tentar ao menos – recontar a história é um fenômeno típico de ditaduras ou governos em tempos de guerra, não importa de qual ideologia. Os “revisionistas” partem da assertiva de George Orwell, em sua grande obra 1984, de que “quem controla o passado também controla o futuro, aquele que controla o presente, controla o passado”. Stalin, Hitler, Truman – leia sobre a Doutrina Truman e a Guerra Fria, aqui não teremos tempo -, todos contaram suas histórias – e procuraram apagar – literalmente – os rastros contraditórios. A “desnazificação” da Alemanha pós-Segunda Guerra não foi fácil para a sociedade alemã, mas foi ali que gerou-se o ovo da serpente para as gerações seguintes relativizarem os crimes de Hitler, recriando num segundo momento o neonazismo e o antissemitismo virulento. A negação do Holocausto tem sua versão made in Brazil: os planos do capitão e candidato da direita e da caserna, Jair “Só vale se eu ganhar” Bolsonaro, com a imbecilidade de quem conhece o mundo pelo Wikipédia e pela “Doutrina Militar”, de passar uma borracha na ditadura de 1964 – com “Supremo, com tudo”.

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Os “revisionistas” partem da assertiva de George Orwell, na obra “1984”, de que “quem controla o passado também controla o futuro, e aquele que controla o presente, controla o passado”. Bolsonaro, se eleito, quer recontar 1964 e apagar a ditadura de seus ídolos generais.
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O gabinete do deputado e presidenciável decorado com fotos de generais-presidentes que comandaram o país durante a ditadura militar, sua tara: Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. “Não houve golpe militar em 1964”, repete.

Supremo? Sim. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, falando durante o evento “30 Anos da Constituição Federal de 1988”, organizado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), pegou um atalho para dizer, a seis das eleições mais virulentas de nossa história contemporânea, que devem colocar, lado a lado, no segundo turno uma chapa PT-PCdoB e outra militar, que não se refere “nem a golpe nem a revolução de 64. Me refiro a movimento de 1964” (Leia aqui). A tortuosa declaração  – supostamente lastreada na obra do historiador carioca Daniel Aarão Reis – foi dada, após uma construção histórica escorregadia, em que alegou que, para ele, os militares serviram como uma ferramenta de intervenção que, em vez de funcionar como moderadores, optando por ficar no poder. “Com isso, os militares se desgastaram com ambos os lados, direita e esquerda, que criticaram o governo militar”, teorizou. A pergunta que ninguém fez para Toffoli: se os militares desejassem, então, em 64 como agora, agir como “moderadores”, tudo bem?

Aliás, quem assiste entrevistas do professor Aarão Reis (Veja esta no Canal Futura) não vai concordar com Toffoli. Preso e torturado na ditadura de 64, ex-militante do PT – como Toffoli, que foi advogado do PT -, e escritor de biografias como de Luís Carlos Prestes,  o historiador fala claramente em “golpe”, “ditadura” e das “barbaridades” cometidas em 64. Toffoli, melhor escolher outra fonte para suas cascatas.

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O “revisionista” Toffoli, presidente do STF, fez discurso dizendo que em 64 não houve “nem golpe, nem revolução de 64. Disse que se inspirou no historiador Daniel Aarão Reis que,  ao contrário do que diz o ministro, fala em “golpe de 64”.
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O historiador carioca Daniel Aarão Reis, em entrevista ao Canal Futura: “Falar em ditabranda (como fez a Folha de S.Paulo em editorial de 17 de fevereiro de 2009, depois renegado pelo próprio diretor de redação Otávio Frias Filho) é tripudiar sobre todos aqueles que foram assassinados, torturados, ou sofreram qualquer tipo de humilhação, sem falar do preço que uma Nação paga após uma ditadura. Toda efervescência política e cultura foi tolhida depois do golpe, sobretudo depois do AI-5″. Como é que é, Toffoli?

Bolsonaro tem um grupo técnico que se reúne regularmente para auxiliar a equipe do candidato à Presidência na formulação de propostas que podem vir a ser implementadas caso ele vença as eleições. Um deles, como já citamos aqui, é o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, para quem “os livros de história que não tragam a verdade sobre 64 precisam ser eliminados”. O revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 e a ditadura ganhou força nos anos 1990 com visões relativizadoras, inspiradas numa tese tosca de que a ditadura não existiu por que não éramos democratas. O trabalho que inaugura este revisionismo histórico sobre o golpe de 1964 é o livro da cientista política Argelina Cheibub Figueiredo, “Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política: 1961-1964”. Inaugurava-se assim uma longa e paupérrima tradição nos balanços bibliográficos sobre 1964, calçados na ideia de que a combinação de crise econômica com colapso das estruturas políticas exige a “moderação” militar. Isso é familiar a alguém?

E quem sabe você, meu caro leitor, minha cara leitora, talvez mais jovem, tenha tempo para ouvir um pouco Leandro Karnal (Psiu, aqui).